Arquivo do mês: outubro 2011

Planos falham…

“Aprendi, ainda, sobre a tolice de todos os nossos planos. A psicanálise interpretou o mito de Édipo como uma tragédia cujo tema é psicológico: o ódio entre pais e filhos e o incesto. Mas a essência do mito não é psicológica. É metafísica. O mito é um relato dos atos que os homens fazem conscientemente a fim de evitar a tragédia, sem saber que são esses mesmos atos que os levam para ela. A tragédia aconteceu porque os homens tentaram evitá-la.

Tolos! Pensamos que nossos planos são capazes de garantir o futuro. Ignoramos que há forças mais profundas. Não estou dizendo teoria. Eu vivi isso. Só estou onde estou porque tudo o que planejei deu errado. Se meus planos tivessem dado certo eu não estaria escrevendo esta crônica, não teria me tornado um escritor… Amaldiçoei o fracasso dos meus planos. Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse.

Muito tarde aprendi os limites da palavra. Alguns pensam que os seus argumentos, por sua clareza e lógica, são capazes de convencer. Levou tempo para que eu compreendesse que o que convence não é a “letra” do que falamos; é a “música” que se ouve nos interstícios de nossa fala. A razão só entende a letra. Mas a alma só ouve a música. O segredo da comunicação é a poesia. Porque poesia é precisamente isso: o uso das palavras para produzir música. Pianista usa piano, violeiro usa viola, flautista usa flauta – o poeta usa a palavra.”

Rubem Alves in As Cores do Crepúsculo

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Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

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Alhures

 

“Olhando para o céu fiquei tonta de mim mesma.” Clarice Lispector in A descoberta do mundo.

“No fundo de cada palavra, assisto ao meu nascimento.” Alain Bosquet in Premier Poème

Sinto-me apavorada, no presente momento, acometida pelo distante segundo que precede o desmaio. Um rodopiar sonolento se apossa inteiramente do corpo, destemido das inúmeras armas cerebrais que possuo para controlar a mim. Aquele sentimento de ter, enfim, sido delatada à alguma esquina silenciosa da alma. A sensação dolorosa dos poros serem invadidos por um não habitar poderoso.

Essas mínimas e inusitadas crises fazem-me escutar a solidão harmônica, invólucro do Cosmos. Imediatamente recupero os sentidos, ainda vertiginosos desse contato perigoso com o grande mistério. Ah, a extraordinária sabedoria de se aninhar junto às estrelas e se descobrir em pequenez!

Passado o horror dos instantes eternos, contemplo, extasiada, a paz. Foi apenas um feroz religamento com o inédito? Atingi, com a ponta dos dedos, a contiguidade proibida de um sítio impronunciável para as línguas humanas?

Sim. Estive lá, lugar em que os astros inauguram devaneios. No germe de todos os amores cáusticos, vísceras da criação. Toquei os núcleos labirínticos nos quais repousam o porvir, porque os olhos não alcançaram as imaginadas verdades pagãs. Alhures, onde residem as recordações antecipadas.

A palavra, robusta tradutora dos realismos, uma vez mais, salva-me das ineficazes reduções farmacológicas.  Por que chamar de pânico aquilo que pode ser a primeira reunião entre um corpo e seu criador? Se posso inventar-me como um gigante receptáculo do Universo, vou diminuir a mim mesma com as medíocres impressões contemporâneas?

Paulatinamente, a candura encharca os sentimentos viúvos, suspendendo o sonhar eremita. O retirar-se de si, apesar da mudez, não delineia afastamento. Apenas os seres que se vestem de outras luas são passíveis de embriagar as  alvoradas.

 

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