Arquivo do mês: fevereiro 2016

O despertar do óbvio

Eu estava em uma balada na Vila Madalena, há treze anos, pedindo uma cerveja no balcão. Veio um menino, baixinho, desengonçado e aflito para mostrar aos amigos o quão capaz ele era de “pegar” alguém. Ele me puxou pelo braço. Tentou me beijar. Fiquei com pena. Na verdade, estava com medo do meu namorado da época perceber a situação e encher aquele cara de porrada. Não sei de onde me veio a epifania, mas gentilmente tirei as mãos dele de mim e expliquei: desse jeito você não conseguirá nenhum amor. Ninguém quer ser tratada como um braço ou um pedaço de carne. Dei um baita sermão no sujeito. Ele, atônito, olhava-me com gosto de remorso e gratidão.

Naquela noite fiquei feliz de ter educado alguém sobre o valor de uma pessoa. Pareceu-me, verdadeiramente, que eu era capaz de explicar um pouco sobre empatia. No entanto, inúmeras vezes, senti-me refém de “causar” esse tipo de reação em um desconhecido.

Olhava para mim no espelho. Nessa época eu enfrentava meus próprios fantasmas de bulimia e rejeição ao meu corpo. Não existia uma manhã na qual não tenha me culpado pelas investidas pesadas. “Você, com um pedaço da barriga de fora, esperava o quê?” “Põe esse decote e não aguenta ser molestada?” O normal era ser a culpada. Era evidente que os homens não se questionavam acerca de quem eu era. Vadia!

Quando fui morar em Lisboa, tive a maior de todas as decepções. Eu, idiota, apaixonada por Fernando Pessoa, estudante de Letras, era todos os dias chamada de PUTA. Pelos meus professores do mestrado. Pelo meu chefe. Pelos meus amigos que queriam me comer. A culpa era minha. “Quem manda botar rímel, se seus cílios são tão grandes? De que me importa se você já tem um amor? Onde ele está? Se fosse mulher direita, ficaria em casa, quieta. Safada!

Por muitos, muitos anos, senti-me responsável de ser somente um objeto de desejo. Ah, quantos banhos tomei, esfregando o nojo que carregava de incitar, violenta, os mais sórdidos pensamentos.

Todavia, o despertar acontece. Aprende-se que o tamanho dos shorts não fala sobre o tamanho da nossa alma. O peito à mostra não significa o desejo de dormir com ninguém. A quantidade de quilos que carrego não corresponde à minha dor.

Essa culpa de ser mulher. De ter cabelos compridos (como alegou minha professora – comparando as brasileiras às sereias)! Culpa de ter seios. Culpa de amamentar. Culpa de fazer escândalo quando violentada apenas na minha íris, sem testemunhas.

Sinto que dias longos ainda residem no horizonte. Que doem, mais que menstruar. Devemos, pois, gritar pelos toques indevidos. Espernear pelos estupros silenciados. Pelos orgasmos manipulados. Pela incapacidade de chorar.

Alegre, estou, por esta geração acima de mim, preparada para boicotar as nossas próprias farsas. Aniquilar os lugares que nos tratem como bichos. Deixar um mundo para crianças que busquem sanar as ilusões entre gêneros. Aliás, quais são os gêneros, frente às almas?

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