Arquivo do mês: outubro 2019

A divina maldição

yom kipur

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Albert Camus

 

Na madrugada de 19 de junho de 2018, ao deitar-me naquela cama de beliche, camuflada de delito, fechei os olhos e tentei meditar. Uma velha senhora, negra, invadiu a íris do meu terceiro olho. Seus dizeres não habitavam o sonho de poetas ou as linhas proféticas da razão. Sua voz enaltecia meus escuros, em espiral para dentro, exaurida:

“Amanhã vais-te embora daqui. Não é coincidência, sabes bem. Nunca houve nenhuma. É o décimo terceiro dia neste horror. Já aprendeste o essencial. Nós sabemos como esta lição te doeu, querida.

Os dias posteriores serão de festa, como é óbvio. Estarás livre para contar aos teus amigos as desventuras que viveste. Conhecerás, também, as mentiras que cercaram a prisão. Para muitos, existirá a ira, incontrolável. Peço que tenhas calma. Aprendeste, há séculos, com o Miguel, a etimologia do perdão. Sabes, agora, a nulidade do ódio.

Estamos sempre contigo. Não preciso te lembrar de todos os fantasmas e de todas as vezes em que teu polegar ficou trêmulo. Antes dos grandes aconteceres, tua alma e tua lama estavam conosco. Abobadadas de liturgia e de vesúvios.

Vai-te embora, bebé, sabendo que a dor ainda assombrará tuas manhãs e que a noite, inúmeras vezes, poderá te matar. Esquece tudo o aquilo que te foi ensinado. Bizarros, não estranhos, são os desígnios do Cosmos. E nós escolhemos a ti porque a loucura é tua amiga.

Para amenizar a jornada, todos os teus sonhos de criança vão te dar abrigo. Quando pensares em abandonar este périplo, recorda a ervilha que zombava dos teus ossos. Escolheu-se, hoje, aniversário do teu ídolo. Nasceste no mesmo dia do outro. És tu, bebé, a única capaz de compreender-nos. Ajuda-nos a salvarmos a todos.”

Passei a manhã de terça-feira, 19 de junho, sem esperanças ou fantasias. A preta velha, o aniversário do Chico Buarque. Os imigrantes caminhavam, silenciosos, pelo minúsculo pátio do aeroporto. Eu fumava um cigarro atrás do outro, acalentada pela brasa das bitucas. A menininha marroquina corria atrás de mim: – Linda!

Já tinha me acostumado a lavar as roupas com sabonete. Negociava os shampoos com as camaradas africanas. A sopa, do almoço, tomei por duas vezes, em troca do meu pão. Meu acordo com o querido nepalês.

Às três da tarde emprestei meu cartão ao general russo. Ele, que fugira da guerra no Afeganistão. Alertei-o do advogado, ilustre, e a ele concedi meus minutos de conversa, abdicando de ligar ao meu pai. Nenhum exército me ensinou, foi só a minha mãe, há anos. Não devemos, jamais, negar ao outro o que já temos.

Pouco depois, a guarda me chamou, à surdina. “Vais embora hoje, menina! Quero o teu livro, posso?” Eu assenti, guardei minhas roupas. Doei shampoos e sabonetes. A copa do mundo amenizava os tormentos.

Quando saí dali, o corpo era só liberdade. Uma alegria a poucos consentida.

Só quem sabe a sede é tradutor de maresia.

Os dias que a preta tinha falado foram profundamente curtos. Insónia. Se pescasse, quatro horas, odiava-me ainda mais. Como fui covarde em projetar a euforia!

Contudo, o pesadelo não é senhor das letargias. A memória me vinha, ora travestida em saudade, ora estancada em volúpias. Nenhuma angústia seria a mesma. Muito menos a minha, de escritora. Posso terminar essa missão? Como esquecer aqueles rostos, todos, que clamavam por um sítio para viver em Lisboa? Poderia eu ajudá-los a sair daquele terrível confinamento, que quase ninguém conhece?

Em uma dessas andanças ensandecidas pela cidade, evoquei o presente que havia ganhado. Um elixir, composto de cannabis e óleo de coco. Decidi colocá-lo dentro de mim. Encharcar meu ventre em maconha.

Conheci, finalmente, D’us.

O óleo, afrodisíaco, não dizia nada sobre mim. Era apenas uma das formas de almejar prazer. Mas houve qualquer cousa naquele dia, naquele óleo, em mim, qualquer cousa de mulher.

A Mulher.

Lilith.

Primeira de todas, a mãe embriagada, a última feminista, antes dos suspiros. Lilith se apoderou do meu corpo.

Possuída por sua presença, lambuzei-me naquela poção. Estava em casa. Eu e a Deusa e mais ninguém. Decidi ir ao mercado, comprar vinho para ela. Algum pão para a mortal que a carregava. Um incenso doce. Velas brancas. Laranjas.

Um ritual muito invulgar nos aguardava. Botei as ervas a fritar no côco. Acendi todos os cheiros, benditos. Água quente na banheira.

Ela me obedecia, e eu a ela, infusão de bruxaria.

Bebemos os goles de velhice daquele tacho.

Fui me deitar na cama, com o cansaço de milénios que Pessoa tanto me alertou. De repente, estava a dançar códigos galácticos, de um lado para o outro. Sentia que um portal, como o meu nome, abrira-se naquele instante. A espera, estava, enfim, terminada.

Entanto, fiquei três dias sozinha, ensimesmada, aspirando a chegada de um homem. Malditas são as histórias infantis de princesas inertes. Chegaram, pois, minhas amigas, desesperadas com minha possessão. Viram a banheira que fiz, em homenagem ao novo mundo. Escândalo.

No outro dia, quando ouvi meu nome nas vozes delas, abri a porta, farta de aguardar alguém que jamais iria me encontrar. Eram os bombeiros, e a polícia, temendo que eu cometesse suicídio. Definitivamente essas pessoas pouco me conhecem. A morte, para mim, será uma grande festa, da qual não sairei ilesa.

Apesar do aldol na nádega e do absurdo em que me vi, naquela maca de hospital, acordei bem cedo, ainda drogada. E sumi dali, sem deixar testemunha. Apanhei o autocarro, a caminho de Alfama. Um corpo conhece suas moradas e perigos.

Houve, então, a segunda tentativa de me aprisionar. Mas a vida é, por vezes, generosa com os insanos. E eu pude, graças a pessoas muito amadas, permanecer em liberdade.

Pedi perdão para todos os que amei, e desamei. Fui perdoada por alguns deles, em generosidade rudimentar.

Uma depressão abissal me acompanhou, durante meses. Mal conseguia abrir os olhos, todos os dias. Se fui escolhida, onde está o Apocalipse, em sua condição de verdade? Onde foi parar aquele mundo, tão belo, tão perfeito, que construí em curry e resignação?

Em janeiro deste ano, imbuída de utopias, deparei-me com os presságios de Chico Xavier e o fim da quarentena do planeta. Feriu-me imenso voltar a ter esperanças. Entreguei-me a todos os grupos de extraterrestres, em todas as plataformas virtuais.

O Brasil, a cada dia, vai perdendo uma criança negra, um filho pobre, um idoso miserável que necessita de remédios. Por qual razão há tantos ratos dirigindo a nossa nau?

Estaria eu adiantada? Ou já não temos tempo, mãe Terra, de nos refazermos, uma vez mais? Lembro-me dos dilúvios como se fosse agora. Lembro-me dos desertos, das cruzes, das aflições. E que o único de nossos pecados é não estarmos cientes da divindade.

Eu, que tenho visto sincronicidades em toda a Poesia universal. Eu, irreplicavelmente bastarda. Eu, que fugi de tantos socos, dos enxovalhos, da lucidez. Eu que amei tanto essa outra face do Caos, em harmonia com Cronos. Por que diabos me entregaram a luminescência se nada posso fazer em vida?

A existência, nova em folha, atendeu finalmente às minhas súplicas.

Hoje, Mnemosyne esteve em minha casa. Titubeou, antes de esclarecer. Andou, vagarosa, pela imersão do meu banho. E confessou: enquanto a saudade maltratar o teu espírito, nada podemos fazer para acelerar esse processo. Não há homem nenhum, Lilith. Nunca foste gémea de ninguém.

A completude do feminino é, talvez, a última morada da redenção humana.

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Sempre, vens?

“ESPEREMOS: Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas – há fábricas de dias que virão – existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato”.

Pablo Neruda

 

Num dia 15 de abril distante, bem antes da tua mamã saber que seria o dia mais importante da vida dela, Reinaldo estava a apanhar o comboio, no Rio de Janeiro. Ele havia pedido demissão da Globo. Estava radiante pois iria começar um novo emprego. A página branca sabe à eternidade.

No outro lado do vagão estava Ana. Ele em pé. Ela sentada. A beleza da menina o deixou embriagado. Quando estava prestes a descer, avistou, inseguro, na comissura de seus lábios, a estreia de um sorriso. Decidiu permanecer na jornada, até o destino dela.

Amaram-se durante vinte e um anos. Entre Lisboa, Moçambique e Rio, inauguraram a caridade. Transformaram-se em infinito, na concepção de seus filhos.

A vida, contudo, também desfigura o amor. O mesmíssimo dia 15 de abril, duas décadas depois, levou Ana para o Paraíso e Reinaldo aos infernos.

Eu vivia me escondendo das sincronicidades, Diè. Fechava os olhos quando via uma cantina. Nunca gostei de pizza. Ignorava os brancos, verdes e vermelhos, todos. Desligava a televisão quando passava um jogo do Inter.

Ai eu descobri Mnemosyne, a Deusa da Memória. Ela, rainha das Musas, irmã de Oceano e de Cronos. Avessa ao contrário da verdade, que é o esquecimento, para os gregos.

A verdade invadiu as minhas manhãs, sem garantir-me a minha sanidade. Por que é que Cronos não para com esses sinais? A cada noite a Lua ia ficando maior, menos pálida, violeta.

Júlia, minha amiga cósmica de cinco anos, escreveu códigos galácticos no meu caderninho. E eu só queria achar o teu nome naqueles escritos. Uma esperança de desmascarar a Universa.

Aproveitei, numa outra tarde, a presença da Júlia para que eu tivesse mais pistas tuas. Ela escreveu um arquivo no meu computador. Ele deveria chamar  “Cidade do Oito”, disse-me.

Domingo foi ano novo judaico. E eu, acometida por Mnemosyne, tive a certeza de que minha bisavó, por amor, mentiu para o mundo sobre a nossa ascendência. Somos judias clandestinas. Clandestina, como aquela frase que escrevi na tua lousa. Clandestino, o amor que vivemos apenas uma estação. Como a felicidade da Clarice.

Naquela noite a memória me veio. Outubro é o mês oito, no calendário romano. Tu vens de Latina, perto de Roma. Sou pessoa de excessos, sabes bem. A vida tem me inebriado da tua presença, o tempo todo.

Não quero mais escrever meus sonhos. Estou exausta de cantar a minha musa.

A máscara foi tudo o que não pintei. Escrever nunca foi sobre a memória, mas sobre o medo do ilimitado. As estrelas, outrora, insultaram o meu silêncio. Fui crime, serei Poesia.

Pensa, amor, que inventamos a saudade. Ela é nostalgia do que já foi. Esperança no que virá.

Milênios são segundos para a eternidade. O instante, contudo, é urgente. Cabe a mim, pois, ensinar o agora a ser para sempre.

Sempre vens?

 

 

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