Arquivo do mês: fevereiro 2009

Eu, personagem

sp_a0027É talvez unanimidade entre os seres da espécie humana pensar em suas vidas como um filme. Às vezes quando estamos inebriados pela vermelhidão do pôr do sol. Nessas horas, encontramos conchas cujos corpos não foram atingidos pela cólera ensurdecedora do mar. Sentimo-nos abençoados por seu embalsamento inusitado. E a existência aparece no grande ecrã. Porque o milagre não é dos moluscos nem de suas corajosas moradias. O milagre é meu, pois eu fui o grande pesquisador das areias.

Quando um amor nasce nas nossas manhãs, é de lei dedilhar a trilha sonora perfeita. A morte do velho cachorro lembra-nos da relação mais especial que uma pessoa e um animal puderam ter. O sábio avô que partiu, a cumplicidade com o melhor amigo, o relicário empoeirado da infância. Tudo é matéria para o filme que é a nossa vida.

No entanto, agora eu dialogo de uma forma diferente com a minha própria jornada. Não apenas por ter descoberto que a sensação é ontológica. Quaisquer biografias carregam em si o potencial de roteiro. Para isso é necessário omitir acontecimentos, exacerbar feitos, esgotar virtudes. Transformar esquálidos anos em robustas essências da odisséia. Até mesmo os sofrimentos vãos usam máscaras de idoneidade. O Olimpo não é dos errantes.

Hoje não vislumbro a minha viagem como concatenação. Eu somente trago em mim características de opúsculo. Não sou jamais um best seller. Poucos são aqueles que me lêem verdadeiramente. Minhas páginas não trazem a promessa do herói. Não há ninfas que aveludem minhas deformidades. Eu sou, pois, o interlúdio mínimo que há entre as jabuticabas e o chão.

As minhas noites são, assim, menos acabrunhadas. Desde que dissuadi minha alma da tola vertigem. Criei uma psicologia literária. Devo ser, ao longo dos anos, uma personagem consistente. Desirmanada das grandes bilheterias. Calcada em incoerências, tombos e fraquejos.

Assim é possível revisitar a aurora de menina. Varrer os traumas inúteis. Cobrir-me de sonhos casa-na-árvore. Polir as bonecas e os fantasmas. A seguir, fazer revisão na adolescência. Limpar os gritos pequenos. Apagar tudo o que era oscilante, nocivo. Só o inextinguível interessa, apenas o solo onde a velhice pedirá abrigo. As lúgubres lembranças vão para o lixo.

Para ser personagem redondo, deve existir o ímpeto de mitigar. Ter os olhos amansados pelo sol que no inverno agasalha. Perceber que é a cândida lua a grande protagonista do Cosmos. Ter a humildade de ser mais um figurante do grande espetáculo estelar.

Pensar no charme dos próprios defeitos. Alguns merecem a excomunhão, não há dúvidas. Fazem da leitura um suplício. Um bom leitor nos abandonará, por birras ou mesquinharias. Mas existe toda uma argúcia embutida em algumas de nossas imperfeições. Quando podemos tocar o imaginário de qualquer semelhante. É muito mais saboroso rever as cicatrizes nos outros do que invejar perfeições.

A vida deixa de passar no cinema. Porém, farei de tudo para que o caminhar seja digno da prosa. Eu prometo me tornar cada dia mais próxima das palavras. E ninguém há de me largar sem ter me lido até a contra capa.

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Relato de uma prisão domiciliar

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A minha escrita se tornou pobre, nesses últimos dias. Fui obrigada a repousar. Por que mereço esse confinamento ininteligível? Onde foram parar meus refinados adjetivos? As ideias suntuosas, deixei-as na gaveta? Tudo foi-se embora. Porque o meu corpo disse chega. A minha alma, andarilha, hoje está trancafiada. Aceita com timidez os limites impostos pelos músculos inchados. Traga, então, tudo de uma só vez. E consente as paupérrimas imagens que se seguem.

São noites tão inúteis! Eu consigo ainda entrever nos andrajos um abrigo à simplicidade. Disso eu não sabia. Não entendia que deve-se fazer limpeza no intelecto. Muita atividade mental atrofia os ligamentos.

Ser intelectual aparenta riqueza e vistosidade. Anéis e colares. Ouro opressor, ópio dos vassalos. Seduz os dedos, apanha-nos o pensamento pueril, põe-lhe raros adornos. Ele, pois, vira príncipe infante. E a majestade se perde nas maquiagens mentirosas, nas perucas brancas.

Hoje, meu couro cabeludo pede descanso. Precisa retirar o mofo lírico que o envolve. Só o coração sujo, mendigo. Apenas minha imundície. Porque os poetas não deflagam imortalidades. Nada há de sublime. Tantas máscaras, tanta sujeira. Como são presunçosos aqueles que evitam a vã existência!

Ah, quantas noites desejei os palácios. Em quantas festas estive, cercada de lordes e duques do pensar! Agora sou impossibilitada de ir aos banquetes nos castelos. Tenho uma necessidade de parar. Sou uma perna semi morta. Porque alguma coisa em mim paralisou. E, assim, vivi essa semana em solidão castigada. Presa aos aposentos e aos fantasmas. Sem carne de gente por perto. Eu e mais ninguém. Parasita.

Quanto ódio! Uma ira cerebral. Farta dos livros e dos seus difíceis raciocínios. Enojada de minhas prolixas divagações. O internamento trouxe somente o ignóbil. E é exatamente esse reles acontecimento que me trouxe de volta. Os sete dias que me puseram em clausura são absoluta reconciliação.

Há, neste instante, uma mente exaurida. Os versos são simples. Está acabada a preponderância enfadonha da erudição. Tornei-me, enfim, aura banhada em cachoeira. Glacial, é claro. Mas molhada em uma frieza rejuvenescedora para o meu olhar.

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