Arquivo do mês: maio 2012

A casa da Poesia

Mais um gole de vinho, só mais um, e irei. Um único retoque na palavra difícil de pronunciar. Mais um cigarro, são apenas cinco minutos, no máximo, se eu estivesse calma. Por que me dilaceras assim, poesia maldita, no átomo iminente que divide o papel à minha própria voz?

Este silêncio, inoportuno, que transita em meus lábios, glaciais. Ah, como o olhar dos outros parece destoar de nossa cândida comunhão! Serei capaz de dizer algo depois de presenciar este estrondoso espetáculo de erros?

Palavras fazem, pois, cócegas dentro de mim. Invadem a corrente sanguínea até as maçãs da face. Irrompem os medos, taciturnos, exaustos da batalha. A língua percorre os versos, inauditos até então, como se eu fosse uma mera escrava, um instrumento juvenil pelo qual o lirismo pudesse habitar, sem fazer cerimônias.

As mãos deduram o enervamento dos poros. Trêmulas. Infantes. Não se dão conta de que por detrás dos palcos existem palmas silenciosas, cobertas de coragem ontológica.

São apenas dois, três, cinco minutos. É tempo bastante para se alcançar a nueza absoluta, não o mero subterfúgio da carne.

Toda fragilidade é um modo de tocar o mundo, evitando dissolver-se pelos ares – isso eu aprendi tarde demais. A entrega ao Cosmos nos faz saber quais são nossos verdadeiros contornos. Estamos todos vivenciando nossa intimidade em risco.

Ainda bem.

Seria a poética a nudez primeira das linguagens humanas?

E o planeta um grande manicômio, à espera de médicos que transladem maneiras de apaziguar os incômodos existenciais, intraduzíveis?

Saraus foram preparados para salvar-nos da lucidez.

Ah, se eu fosse capaz de remontá-los todos, em varais suspensos da memória. Quanta alegria me remetem essas centelhas galácticas de plenitude.

Reencontrar o devaneio morto.

Reacender as estranhezas.

Doar-se ao inusitado.

Compartilhar o amadorismo, tão mais próximo ao viver.

Sem ensaios.

Tudo alimenta e nada faz muito sentido. Uma reunião de pessoas absurdas, obtusas, vaidosas ou plácidas.

Margens de encostas, avenidas possíveis, andares dispersos. Atalhos inviáveis. E tudo brilhando, vívido, sem realeza alguma. Todos reis, em plena subserviência àquilo que é nítido.

E a noite se aquieta para ouvir, estupefata, os versos hibernados de um sonhador incompreendido. E a noite se aquieta para projetar os lamentos da menina que sorri, ao confessar o amor que perdeu. E a  noite se aquieta para dominar a timidez hesitante do arrogante de plateias.

As madrugadas apagam os clichês que temes em te pautar, amada poesia.

Nestes serões, concebidos para ti, nada resta senão a doçura dos gestos, o desanuviar das âncoras.

Plana por estas tardes, germinando o cerne das paixões.

Enclausura os pavores que sombreiam a reciprocidade.

Deixa o teu seio farto de canções inéditas.

Abençoa minha íris para atender ao insólito.

Dê a todos os expatriados de quimeras céus excessivamente azuis, como em Lisboa.

A arte é uma casa que resiste às tempestades da vida ordinária.

E, por isso, imploro a ti: põe raízes nos meus sonhos, para que eu possa vê-los florescer.

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À poesia visitante

Quando quer
ela me visita.
Não respeita horários
nem bate à porta
simplesmente entra
cheia de si.
Lacra meus lábios
toma meus braços
e me conduz
por veredas
labirintos
precipícios.
Eu a sigo
muda e frágil.
Enche meus ouvidos
com sussurros
cega meus olhos
de imagens.
Ela me atravessa,
me transpassa
e me deixa
exausta
com gosto de beijos não dados
nos dedos toques,
corpos intocados.
Alheia aos meus apelos
parte
indiferente ao meu desejo.
Extenuada
eu a sigo
fiel
quando me quer
ela me visita
e eu submissa
a espero.

Miriam Portela, a mãe de toda a minha poesia…

 

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O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia…

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

   Alberto Caeiro, Fernando Pessoa e Tom Jobim.

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