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Quiçá

A gente devia parar todo dia e ver o pôr-do-sol
A gente saia correndo de alegria
Só de ter dez minutos mais com quem a gente ama
Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro
Mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
Cada bicho encontrasse um lar
E toda mãe fosse, sim, muito mãe

Dizer mais sim do que não
E que não faltasse pão
E fosse lindo de ver o rio tietê
Tivesse um medo pequeno
E fosse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso
Abre um riso que de dor já chega a do mundo, amor

Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro e mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
E cada bicho encontrasse
Um lar e toda mãe fosse, sim, muito mãe
Dizer mais sim do que não

E que não faltasse pão
Fosse de lindo de ver o rio tietê
E fosse um medo pequeno
Tivesse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso abre
Um riso que de dor, já chega a do mundo
Que de dor já chega a do mundo, amor

Larissa Baq, essa artista incrível que tive o privilégio de escutar no meu último sarau

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Mulheres que transformam São Paulo no MIS

 

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A poesia ofende a realidade. A poesia sangra, inútil! A poesia, bulímica, suja as memórias insustentáveis da candura. A poesia, pornográfica, inexorável ultraje ao mundo.

A poesia violada por sua beleza, maldita. A poesia ferida nos desejos mais obscuros. A poesia sufocada em suas próprias lágrimas, sentimentais. A poesia com pavor à nulidade.

A poesia aborta juras de amor, a poesia silencia o agressor, a poesia dilacera a carne para ocultar seus contornos. A poesia se retrai, a poesia se dissolve, a poesia suicida.

A poesia é, contudo, alheia ao desajuste. Ela triunfa. Sempre. Desencontrada. Ah, ínfimo rascunho de cosmos onde vivemos: a Poesia é Mulher.

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Isso muda o mundo

Issomudaomundo

Saí na página do Itaú, por causa do sarau que organizo. Fiquei muito orgulhosa de estar vinculada à Literatura, como forma de modificar o mundo!

Segue a matéria: http://feitopra.vc/1Ch8AgA

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Balada do homem de fora

PAULO-MENDES

Na alma dos outros há
searas de poesia;
em mim poeiras de prosa,
humilhação, vilania.

O pensamento dos outros
ala-se em frases castiças;
o meu é boi atolado
em palavras movediças.

No gesto dos outros vai
a elegância do traço;
no gesto torto que faço
surge a ponta do palhaço.

O trato dos outros tem
desprendimento, altruísmo;
venho do ressentimento
para os brejos do egoísmo.

O amor de muitos floresce
em sentimento complexo;
mas o meu é desconexo
anacoluto: do sexo.

Na face dos outros vi
a sintaxe do cristal;
na amálgama dos espelhos
embrulhei o bem no mal.

A virtude contra o crime
é um cartaz luminoso
dos outros todos; mas eu
posso ser o criminoso.

Os outros brincam de roda
(carneirinho, carneirão);
são puros como a verdade;
mas eu minto como um cão.

Há quem leia Luluzinha,
há quem leia pergaminhos;
leio notícias reversas
nos jornais de meus vizinhos.

Os outros ficaram bravos
ao pôr de lado o brinquedo,
bravos, leais, sans reproche;
mas eu guardei o meu medo.

Encaminha a mente deles
uma repulsa moral;
na minha pulsa o High Life
do mais turvo Carnaval.

Todos foram tão bacanas
na quadra colegial;
só eu não fui (mea culpa)
nem bacana, nem legal.

O trem dos outros tem
um ar etéreo e eterno;
às vezes ando vestido
como um profeta do inferno.

Muitos voam pelas pautas
que se desfazem nos astros;
amei Vivaldi, Beethoven,
Bach, Debussy, mas de rastros.

Certos olhos são vitrais
onde dá a luz de Deus;
Deus me deu os meus e os teus
para a dor dar-te adeus.

Há tanto moço perfeito
like a nice boy (inglês);
eu falo mais palavrões
que meu avô português.

Os outros são teoremas
lindos de geometria;
eu me apronto para a noite
nos pentes da ventania.

Para quem foi feito o mundo?
Para aquele que o goze.
Como gozá-lo quem gira
no perigeu da neuroses?

Copiei com canivete
este grifo de Stendhal:
“Nunca tive consciência
nem sentimento moral”.

Faço meu Murilo Mendes
quanto à força de vontade:
“Sou firme que nem areia
em noite de tempestade”.

Há gente que não duvida
quando quer ir ao cinema;
duvido de minha dúvida
no meu bar em Ipanema.

Outros, felizes, não bebem,
não fumam; eu bebo, fumo,
faço, finjo, forço, fungo,
fuço na noite sem rumo.

Outros amam Paris, praias,
cataventos, livros, flores,
apartamentos – a vida;
eu nem amo meus amores.

Os outros podem jurar
que me conhecem demais;
quando acaso penso o mesmo,
o demônio diz: há mais…

A infância dos outros era
o céu no tanque da praça;
a minha não teve tanque,
nem céu, nem praça, nem graça.

Até na morte encontrei
a divergência da sorte:
a deles, flecha de luz,
a minha, faca sem corte.

O espaço deles é onde
circunda a casa o jardim;
mas o meu espaço é quando
um parafuso sem fim.

Paulo Mendes Campos, o mestre que homenagearei no sarau da próxima semana.

 

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O invólucro dos segredos*

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“Cada poema é uma garrafa de náufrago jogada às águas… Quem a encontra, salva-se a si mesmo.” Mario Quintana

A velha manhã anuncia que já não é mais hora para ti. O dia é um grande castrador da embriaguez. Nenhuma nau está atracada no porto do meu silêncio, embora eu deseje quebrar-te para desejar os bons ventos e as calmarias às viagens aos horizontes.

O vinho envelhece, agonizando em maestria, em teus contornos. Suicidas se aproveitam da tua vulnerabilidade para dar cabo às suas vidas, em gestos de desrespeito com a tua integridade.

Selas as amizades, ao seres desvirginada pelos companheiros fartos de realidade. Inauguras os amores, nas noites primeiras. E também és cúmplice dos olhares últimos, já extintos de paixão.

Fazes a solitude tornar-se diáfana. Não há isolamento que não sonhe em presenças. Armazenas a ti mesma, mesquinha que és, como troféu incógnito das madrugadas.

Tatuas as memórias mais cruéis, os amores perdidos, em devaneios de oceano. És requinte das bruxas, em rituais de primavera. Fornecida de graça, vestida de água, nas mesas dos restaurantes europeus.

Enclausuras a poesia que não pode ser degustada. Povoas as minhas reminiscências de infância, nos almoços desprovidos de maldade. Oferecem-te flores, e já não existes em essência.

Abrigas as conchas, desavisadas da tua missão. Encontram-te quando estão perdidos. Invocam-te quando as esperanças foram esgotadas. Almejam a única gota que ainda carregas no ventre, exausta de gravidez.

Guardam-te, anos e mais anos, para celebrar os casamentos. Confidente dos ébrios, estás envolta pelos dedos crestados de imundície. Ah, tua história fenícia e milenar! Quão bela não te sentes agora?

Mas tu, meio de transporte, uniforme de lágrimas, símbolo dos romantismos absurdos, berço dos poemas, figurante das alegrias, amante escura das ondas violentas. Talvez tu sejas apenas eu, este invólucro de segredos que anseia pela deriva em alto mar.

*Minha eterna gratidão ao meu amigo Felippe Angeli, companheiro de garrafas que me encobriu de epifanias sobre a minha escrita.

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Tejo Bar: Santuário das Incompletudes

MIACOUTO

Nunca poderia deixar de imaginar que Lisboa fosse uma cidade de sítios mágicos. Contudo, o clichê literário, exaustivamente desdenhado, não me era capaz de seduzir, em primeira pessoa. Os cafés, ninho dos antigos fantasmas, as esquinas, mínimas e estonteantes, o monumental cinema abandonado.

Apenas quem guarda o horizonte em águas é capaz de viver saudade. Quantas eternidades são amanhecidas, quando o olhar estica os oceanos? Talvez esta seja a grande obviedade inexorável da cidade. Uma vontade de partir, afogada pela dor de ir embora.

Há, pois, um lugar que transcendeu sua existência para atravessar as distâncias insuportáveis da poesia.

Das ruas estreitas, penduradas pelas luzes envelhecidas, pouco se pode perceber. Os dilúvios taciturnos despistam o sonhador mais distraído. A obscuridade de informações. Quem conhece sabe chegar, quase em transe mediúnico. Quem o tem no imaginário se perde nos relatos incompreensíveis das testemunhas.  Só resta uma certeza: o coração é devorado, ao entrar, como oferenda ao santuário da incompletude.

Tejo Bar, ventre de Alfama, tantas letras ainda insistem em te traduzir! Ah, teus poetas vadios, tuas noites infindas, tua harmonia com a sincronicidade! Fico, inebriada, a inventar todos os amores que te fizeram enredo.

Onde existirá outra porta que nos devolva à condição de instrumentos da arte?

Basta bater.

É perfeitamente admissível que muitos o tenham rejeitado, ao se depararem com a solidão imperdoável. Criadora.

No entanto, aqueles que suportaram a entrega ao invólucro jamais o deixariam, novamente.

Miscigenar-se com outras peles, línguas ancestrais, impensadas melodias. Sentar à mesa de estranhos cúmplices. Declamar os silêncios. E depois, fartos de epifanias, é permitido estilhaçar-se em excessos.

É por isso, Tejo, que és também rio das despedidas. Teu lugar é uma nau, desprovida de bússolas. Teu pertencimento está em aceitar o rumo das marés. O mundo, agora, reverencia: envaideces as estrelas com a tua presença.

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Informações:

O Tejo Bar, agora também itinerante, já esteve em São Paulo e Bolonha. Olinda foi eleita a próxima casa natal, em plena Fliporto. A mística experiência poética será realizada no sábado, dia 16 de novembro de 2013, no Tribuna Bar e Restaurante Sabores Ibéricos, rua de São Bento, 210 | Varadouro, às 23h, com a condução do seu criador, Mané do Café, e outros frequentadores inverossímeis. Todos estão convidados para serem os novos membros da divina seita.

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Vídeos:

João Pires, Marcelo Pretto e Chico Saraiva no Tejo Bar em Lisboa:

Tejo Bar em São Paulo:

Tejo Bar em Bolonha:

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