Arquivo do mês: novembro 2016

Capítulo IV – A Livraria

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Sábados sempre me foram caros à felicidade. Seu avô me acordava antes das oito. Às vezes, já estava pronta. Dentes escovados, tiara com fivela, vestido encarnado. Houve uma vez que vi um espírito, saindo do quarto de seus avós, num destes dias luminosos. Eu, que nunca temi os mortos, corri atrás até o banheiro, onde o espectro se dissipou em centelhas prateadas de luz. Éramos, pois, abençoados por aquelas manhãs.

Morávamos em um apartamento pequenino, só nós três. Dois quartos, sala, cozinha. E a minúscula varanda, que acolhia todas as estrelas. Havia, também, um playground, repleto de crianças da minha idade. Contudo, como você, meu filho, eu amava estar com os adultos. Íamos, a pé, aos sábados, na livraria mais famosa da Vila Mariana, rever os dinossauros do jornalismo.

Essas memórias ainda estilhaçam dentro do meu corpo, efemeridades trovejantes. Aquele tremor antes de chegar às prateleiras. Os rostos, cúmplices, dos vendedores, encantados com a minha paixão. A adoração dos velhos repórteres, pela menina prodigiosa que já amava os livros. Minha soberba em saber-me sedutora!

Acreditei, a partir dali, que os escritores são seres atentos às personagens que passam pelas ruas como qualquer pessoa. Encontram, em vitrines, formas de personificar os manequins. Utilizam suas tormentas, exorcismo literário. Vingam-se dos abandonos em antagonistas. Traem seus cônjuges nas linhas pornográficas que jamais habitaram seus lençóis.

Eu só tinha, na época, direito a comprar um livro por semana. Isso me era uma tortura, Pedro! Ah, como me desesperava com essas escolhas, tão cruéis! Acho que todas as minhas escolhas, depois, foram menos dolorosas.

Só há, como você bem sabe, uma dor maior que a de decidir, entre as esquinas da existência. Aquela mansidão de parto, filho expulso dos escuros. Os pontos finais de uma novela, recém editada. O desapego da página que vai para a gráfica. A livraria é a dialética do cais, na alma do escritor.

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Capítulo II – Ballet

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O cabelo bem puxado, com o coque na altura das orelhas. Uma faixa rosa que impedia os fios rebeldes de atrapalharem os olhos, inebriados pela delicadeza cintilante da sala de espelhos. Sapatilhas confortáveis, um collant, meia calça. Uma saia borboleta me fazia ir rodopiando pelas ruas, na ponta dos pés.

Foi a primeira vez que ouvi Tchaikovsky. A doçura invadiu os poros, antes de chegar à pele, arrepiada. Um dilúvio se instaurou nas vísceras, pequeninas, ignorantes, desprotegidas.

Voltei para casa, aos prantos. Sua avó, aflita, veio com um copo de água com açúcar:

– O que houve, querida?

– A professora pôs uma música muito linda, mamãe.

– E por que isso te fez ficar assim?

– Porque eu não sabia que a beleza doía tanto…

Acho que esta foi a primeira vez, Pedro, que eu soube dessa nossa condição. Não havia aprendido as palavras, escritas. Nada imaginava do amor, romântico. A música foi o despertar da incompletude, em minha alma.

É bom, contudo, quando as dolorosas fragilidades têm gosto de brigadeiro, ou de gemada. Eu fui feliz ao aprender os sentimentos, a escrevê-los, ao compreendê-los, ao desdenhá-los.

Eu te mostrei, mais tarde, aquele poeminha da Cecília Meireles, sobre a bailarina:

A bailarina

“Esta menina

 tão pequenina

 quer ser bailarina.

 Não conhece nem dó nem ré

 mas sabe ficar na ponta do pé.

 Não conhece nem mi nem fá

 Mas inclina o corpo para cá e para lá.

 Não conhece nem lá nem si,

 mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

 e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.”

Você me perguntou, na altura, por qual razão eu não queria dormir como as outras crianças. Por que a madrugada sempre me foi uma companheira, apesar das galáxias que habitavam o céu do meu quarto. Por que eu alimentava a luz azul na sua cabeceira, se era hora de sonhar. Eu respondi que, às vezes, os maiores dos nossos sonhos são concebidos em vigília, à revelia dos anjos que protegem o ninar.

 

 

 

 

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Capítulo I – Pedro

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Tu olhas para este cinzeiro, giro, branco, cristal vindo do Norte. Azeitas tuas ironias, requintes de crueldade. Escolhes as bitucas impedidas de alcançar o fim: fumas as mais altas primeiro; desespero de quem ainda ama. Humilhas a ti mesma, fogo nos dedos, com as mais pequeninas. Tenho pena de ti.

“A padaria ainda não abriu”, dizes-me, ou, a ti mesma. Tens vergonha que meus olhos possam, finalmente, ter encontrado a humilhação. “Nessa época de crise não se pode desperdiçar um tabaco”. Eu reluto, porque amo-te, em agredir meu pensamento com a verdade. Acredito nas tuas palavras, desde sempre.

Já são cinco da manhã e a noite teima em ficar. Eu detesto quando a madrugada dura mais que a tua dor. Tu emparelhas as garrafas, ainda vivas, para saber de qual roubar, em silêncio. A tua inteligência me faz mais triste, mais forte. Menos miúdo. Queria ter um abraço que soubesse ao cheiro de vinho. Uma doçura boreal nos protege do amanhã. Amo-te, mamã.

Eu gostava que a dor sumisse de ti. Li todos os livros de todos os bruxos para desvendar esse mistério terrível que traz a ti a cólera. Não aprendi poesia para libertação. Chovo, nas líquidas estrelas que lumiam meu teto de menino. Adoro o nome que insististe em me dar. Pedro.

A etimologia foi, a ti, uma cúmplice inesgotável. Consegues enaltecê-la em surdez absoluta. Jamais ouvirias uma palavra, em plenitude, que atravessasse o cordão do teu silêncio. E, assim, doida e doída, amo-te, Mamã.

Sei que o Tejo nunca foi o rio da tua aldeia. Mas que o amas – talvez mais a ele que a mim – e que o rio percebe mais teus olhos do que eu: indigente, nefasto, trovador.

Queria ter nascido água. Ressuscitar os teus naufrágios.

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