Arquivo do mês: março 2012

Fragmentos sem passado*

Navio que partes para longe,
 Por que é que, ao contrário dos outros,
 Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
 Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
 E se se tem saudades do que não existe,
 Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
 Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.” Fernando Pessoa

Sou artista. Mais pelo fardo do que por glamour. Tenho dezessete prioridades ao mesmo tempo. Não tenho mergulhado muito, mas conheço o fundo do mar com as minhas inextricáveis entranhas. Já deixei um amor ir embora.

Suporto o trabalho, embora seja enfadonho aguentar o medíocre. Aprendi que o dinheiro adora a felicidade. Sou geminiana, meus cabelos estão brancos há anos. Sinto saudade dos sítios que não me tornam protagonista.

“Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender, um coração exageradamente espontâneo” – isso é o Pessoa, que me cabe, por hoje. Se eu fosse uma canção do Chico – Anos Dourados. Dos Beatles, A Day in the Life. O senso comum me dilacera, assim como a Garota de Ipanema.

Tenho profundo amor ao óbvio, invisível. Namoro há seis anos e tenho tanto medo de amarelar minhas relações.

Sou filha da literatura e isso foi doce. E isso doeu.

Fico apavorada com a ideia de morrer sem ter escrito nada que salve um espírito da loucura, pois fui salva e, assim, torno-me dividendo.

Eu amei mais do que pude e isso é o meu Chico, lado B, que preservo e de quem tenho ciúmes.

Perdi parte de mim em Lisboa. Odiei e amei a cidade de meu mestre. Recitei poesias por lá e fui profundamente feliz de ter o meu sotaque e não entender nada acerca das linearidades.

Passei seis meses sem escrever, quando fui eu, na mais verdadeira das hipóteses. E sou infeliz sem escrever, mesquinha de ideias, assustada pelos supostos plágios de mim mesma.

Menti. Menti, mas acima de tudo, inventei. E fui ainda mais plena, quando não estava lá.

Acho o corpo um ser estranho, estrangeiro e plácido, equidistante.

Amarei a companhia da noite, como se os úteros estivessem abertos às minhas visitas.

Tenho mínima tolerância à burrice.

Sinto falta de uma amiga que nunca mais estará ao meu alcance, embora a morte não a tenha prestigiado com a juventude.

Meu pai é a maior confissão de mim mesma.

Minha mãe é minha fúria. E eu a amo, sensível e frágil, e forte. Tenho medo que o mundo, infame, a dilarece em volúpias. E tenho medo que ela parta sem me contar onde reside esse sótão de epifanias.

Sinto saudades antes de Paris, quando o amor era nítido e puro, e o planeta não atrapalhava a telepatia.

Gosto de sentir medo dos animais e da sua incondicionalidade.

Pareço dispersa, arbórea, louca. Mas cada um de meus amigos sabe exatamente o meu apreço.

Viver sem paixão é tortura.

Meu irmão é um dos grandes motivos de existir, apesar de estar só, ensimesmado, negligenciado dos meus dizeres fraternos. No cerne de mim, ele está. Em tudo.

Meu cérebro transborda, cintilante, como uma casa com todas as luzes acesas, Clarice. Hoje você esteve comigo e a vida basta nestes momentos incinerados, luminosos.

Guardo só uma pessoa em um segredo, da qual me sinto lisonjeada. E, se pudesse escolher uma só pessoa, serei ele.

Tenho vontade de morrer nos dias excessivamente claros, ou quentes. Os dias não me são íntimos.

Aprendo música, nada entendo. E a idolatro, por todos os labirintos.

Fiz versos bonitos, aos quinze, quando nada me absorvia.

Não escrevo mais versos. Letra, nunca fui capaz.

A Fenomenologia me deu sentido.

Minha irmã alimenta as esquinas.

O português é a pátria que venero.

Acredito que os olhos, fartos de realidade, esticam os sonhos como pastilhas elásticas, ainda açucaradas.

Mato a mim, todos os dias.

Não sofro com isso.

É um prazer reinventar-me, ensinar-me novas canções, e amanhecer em melodias.

*A foto é do Alexandre Veiga

 

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Janela sobre os seres e os fazeres…

“A pele da passadeira de roupas é lisa.
Longo e pontiagudo é o consertador de guarda-chuvas.
A vendedora de frangos parece um frango depenado.
Brilham demônios nos olhos do inquisidor.
Há duas moedas entre as pálpebras do avarento.
Os bigodes do relojoeiro marcam as horas.
Têm teclas as mãos da secretária.
O carcereiro tem cara de preso e o psiquiatra, cara de louco.
O caçador se transforma no animal que persegue.
O tempo transforma os amantes em gêmeos.
O cão passeia o homem que o passeia.
O torturado tortura os sonhos do torturador.
Foge, o poeta, da metáfora que encontra no espelho.”
Eduardo Galeano

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Os livros são pássaros do sonhar

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