Arquivo do mês: dezembro 2008

Vicente Amigo

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Patas de Aranha

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É. Seria improvável a mim iniciar qualquer devaneio com uma afirmação tão brutal como essa. Contudo, o “é” materializa-se como a única estrutura plausível. Porque se há permanência nesta vida, ela reside na música. Só a música é. A instantaneidade, a imediatez, o sossego. A melodia sussura ao ouvido e a pele se enche toda pelo ar que se inspira.  

As coisas, quando são, geralmente perdem o sentido. O destino tem a cristalização como morada. Para endereçar alguma carta a ele, basta buscar um lugar permeado por imensos blocos de gelo. A sincronicidade é bicicleta. Sua imagem só existe em movimento. E a música é inquilina do espaço inimaginável que há entre os dois. Esquina do devir e do agora.

Hão de me perguntar: onde então habita a plenitude? Guardada no paradoxo do instante. Na linha invisível que difere o erro fatal da perfeição. Será que todo erro sonhou contos de fada? Nada sabemos sobre a sua concepção. Muitas vezes julgamos que não houvesse amor. Estupidamente a aberração que se produziu supera o investimento celestial do orgasmo. O erro só existe quando há testemunhas.

No entanto, quando pensamos em música, o inexato, o incorreto, a falha, tudo o que se refere ao imperfeito pode atingir estado de graça, na harmonia do todo. A fragmentação em si carrega a razão de ser. A totalidade é delírio aos olhos do espectador mais atento. O bom ouvinte sabe vislumbrar as nuvens de matéria interestelar que há em cada nota.

Ontem fui apresentada às mãos poderosas de Vicente Amigo. Maestria é pouco para definir os sons e as conjecturas que são preciosamente encarnados em sua música. A palavra se encolhe toda, as composições inundam a sala. Por isso digo que, das artes, só a música transcende. Só a música pode ser e estar. E o tempo se cala. Chronos sente a iminência. Não há mais meios de tergiversar. Ausculta em quietude. E finalmente reverencia o homem que rompeu a fronteira entre o hoje e o sempre.   

Eu estou pasma e silenciosa também. Fugidias letras vão rapidamente sendo filmadas por meus olhares. Atônitos olhos. Vejo duas aranhas frente ao meu corpo perplexo. São os dedos de Vicente. Tecem com exatidão os sentimentos mais difíceis. Atingem em seda aquilo que o escritor é incapaz de traduzir. E de repente o sofá, o piano, as janelas, Lisboa… o mundo todo está coberto pelo tear. As aranhas sucubem à própria criação. A alma do artista agarra-se ao instrumento. Apaixonada, digo adeus à dicotomia sujeito-objeto. O violão e o violeiro são apenas um, mais uma vez desrespeitando as regras da natureza.

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Retrato de Magritte

o_terapeuta_19361Eu era a varanda. Grande, larga, chão de mármore. O outono invadia a cidade e chovia. Coberta de lama e de folhas mortas. Havia discutido tantas vezes com Deus, naquele tempo. O amor me era um soldado desaparecido na guerra: cego, amputado ou entregue à terra.

Não precisei, Miguel, de mais do que cinco minutos para me pôr em lágrimas, diante de si. Um verdadeiro desabar monstruoso. Você ficou inerte, não se compadeceu, nem ignorou. Assistiu à tempestade que saia de mim e que me alagava por completo. O terraço órfão. Eu, a varanda.

Sua doçura na escolha das orações era de uma brutalidade desleal. Comparável somente ao sol do meio dia em pleno verão carioca. Secava, com a ousadia de um cavalo – porque eles são sempre indomáveis – quaisquer procelas.

E caminhamos juntos, ora deitados sob a crepuscular imagem do terapeuta. O meio. Indecifrável. Sempre no limbo entre o artista e o vagabundo. Entre Criador e criatura.

Outras vezes vimo-nos imersos em poesias de luz e calma. Você me colocou em seu colo e me afagou os cabelos. Acolheu como um pai a clareira que se manifestou em meio a minha cabeça. Aquela careca – de estresse, dizem – que me fazia sentir o que é ser rebento.

Juntos enfrentamos os dizeres do perdão. Aquele fatídico dia. Jurei nunca ser hábil para acreditar em um homem novamente. Mas você, homem, em alguns segundos mudou tudo. Virou minhas convicções de cabeça para o ar. Eram tão claras e tão fortes, meu Deus! Só que ser vítima, por mais que a existência nos jogue em meio a tantas fatalidades, não é apropriar-se. O títere é conforto com cordas presas à carne.

O ódio não é meu inquilino, Miguel. O perdão não tem raízes no catolicismo. A suculência de perdoar está em não dividir a culpa com aquele que nos maltratou. Perdoamos para não sermos cúmplices. Devolvemos o papel de protagonista àquele que o merece. Quantas vezes fingimos ser nossas as histórias encenadas por outrem!

Aprendi, deitada no divã, uma boa parte de meus defeitos e mecanismos de sobrevivência. Contudo, o ser consciente tem mais impotência que o ser ausente de si. O saber não nos modifica, nem traz as necessárias rupturas.

O óbvio se instala dentro de nós, mas não conseguimos abandonar as manias. Pincelamos as mesmas cores, mesmo quando possuímos mais tintas. A liberdade não preside na tela.

Andamos durante inesgotáveis horas a falar sobre minha necessidade de sedução. Precisei ser criança que envolvia. Fiz coreografias do Chico para encantar os adultos. Falava difícil e corretamente. Estudava e brincava sozinha, guardando tudo o que estivesse fora do lugar. Assim, sem me dar por ele, o embaimento assumiu propriedade adesiva. Grudou-se em minha alma.

E em terapia isso me foi iluminado. Discernir não é suficiente para alterar comportamento, tantas vezes sujo. Como a nuca é para os olhares atentos de um vampiro, a blandícia me foi deliciosa também. 

Como todo vício, compulsório, meu corpo jazia em abstinência. Retive homens e mulheres. Esperava descobrir qual canal de conexão era o melhor. Personalizava as conversas. Sorria para os estranhos na rua. Utilizava a voz mansa, quando me apetecia.

Sentia tanto nojo de mim mesma! Repulsa, raiva, ojeriza. Não havia controle. Bajulava as flores, para que elas me amassem. Mimava as crianças. Os velhos, ó, como afaguei sem limites suas carcaças com o intuito de obter aceitação…

E essa semana, Miguel, senti tudo isso ir embora. Eu disse adeus, meu querido mestre. Dei as costas para o navio vaidoso. Caiu sobre mim, inesperadamente, uma agonia gorda. De que vou viver agora?

Renunciei por amor. Mas o repúdio se infiltra. Por quê? Como é que a gente enjeita algo tão nosso e pode acordar no dia seguinte? Quando a fertilidade atinge o rompimento? Não há uma reencarnação para mim?

Agora, quando devaneio sobre um ser embalado em minhas malícias, sinto meus seios a secar. Não vou amamentar nada que não possa deixar crescer. Repulsa. Medo. Covardia. E junto com tudo isso, sinto-me só, sinto-me feia, sinto-me aterrozirante. Comecei um regime essa semana, para ver se o espectro reage melhor. Talvez o que me cobre possa ser mais fácil. Mutável. O olhar é mais antigo. Claro, não cortei de meu cardápio vinhos e queijos porque o masoquismo não me habita. Desejo jejuar noites em claro. Faquir de meu cerne. Sei que a beleza não mora no coração do outro. Ela existe?

 

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É preciso estar nu

buber1Na literatura infantil, encontramos histórias que contam o isolamento do ser humano como um factor de impossibilidade da vivência de sua própria humanidade. O ‘menino-lobo’ não é um menino, mas um lobo em corpo de menino. Sendo assim, podemos facilmente chegar à conclusão de que se experimenta a humanidade quando entramos em contacto com outros seres humanos. O ‘eu’ só existe na relação, nunca retirado da presença. Nós nos consideramos pessoas ao incorporarmos verdadeiramente a noção do diálogo.

Essas palavras são validadas pela obra e pensamento do filósofo austríaco Martin Buber (1878-1965). Parece-nos simples e óbvio, a princípio. É claro que só vivemos na relação com os outros! No entanto, muitas vezes, experimentamos outro conceito de Buber: a relação ‘eu-isso’.

Por ‘eu-isso’, Buber caracteriza: “O EU da palavra-princípio EU-ISSO, o EU, portanto, com o qual nenhum Tu está face-a-face presente em pessoa, mas que é cercado por uma multiplicidade de “conteúdos” tem só passado, e de forma alguma presente. Em outras palavras, na medida em que o homem se satisfaz com as coisas que experiencia e utiliza, ele vive no passado e seu instante é privado de presença. Ele só tem diante de si objectos, e estes são fatos do passado”. (BUBER, 2001, p.14).

O autor nos mostra como acedemos ao mundo com base na experiência e utilização. Dessa forma, deixamos que os outros se constituam como meros objectos, capazes de serem utilizados por nós. A utilidade nas relações impede que exista o encontro. Quando eu penso naquilo que posso usufruir ao me relacionar, acabo por não enxergar com clareza o que está do outro lado. Não se vive, na relação eu-isso, a alteridade. O objecto, pois, contrapõe-se à presença. É descrito, lembrado, representado, reproduzido, nomeado, classificado, isolado, analisado, decomposto. O autor ainda vai além:

“Eis uma verdade fundamental do mundo humano: somente o ISSO pode ser ordenado. As coisas não são classificáveis senão na medida em que, deixando de ser nosso TU, se transformam em nosso ISSO. O TU não conhece nenhum sistema de coordenadas.” (BUBER, 2001, p.34).

Quando pensamos nas actuais propostas de multiculturalismo e Globalização, imediatamente devemos repensar Buber. Embora tenhamos dado passos largos em busca da compreensão das demais culturas que habitam o planeta Terra, através dos media electrónicos, por exemplo, em inúmeras ocasiões estamos a usar a palavra princípio ‘eu-isso’.

O suíço Jacques Hainard, antigo director do Museu de Etnografia de Neuchâtel, esteve em Lisboa para um colóquio sobre património imaterial. Corrobora, mesmo que sem nenhuma ligação directa com Buber, a utilização mascarada da diversidade cultural em tempos globalizados. Polémico e muito contundente em suas afirmações, o especialista em etnologia falou ao jornal Público (04/12/2008) sobre a problemática dos museus:

“Continuamos a ser nós quem decide o que é bonito e o que é que tem valor”. Para ele, o Ocidente também decide, através da farsa, que não quer lembrar-se do colonialismo: “Não se fala nisso, esquece-se, e a ideia passa a ser a de fazermos multiculturalismo, o diálogo entre as culturas. (…) Parece-me muito político e muito superficial. Não é fazendo música de outros países e comendo cozinhas específicas que nos compreendemos melhor. Talvez passemos por um bom momento, mas ficamo-nos por aí. Não acredito que esse tipo de manifestações seja muito profundo. Servem para termos uma boa consciência, mais nada. Para mim, a qualidade de uma boa etnologia é construir uma distância crítica e dizer precisamente que é muito difícil compreender o outro”.

O que vemos em várias exposições, actualmente, é um empilhar de objectos inanimados. Não há uma narrativa por detrás das paredes. Embora a iluminação seja perfeita, o objecto não entra em nosso imaginário. Não sentimos aquela civilização com nossas almas. Para Hainard, os museus são contadores de história: “O museu é um dicionário das culturas humanas. Os objectos são palavras e com eles é preciso construir um texto. Pôr objectos uns do lado dos outros não me interessa. Como aquelas exposições em que mostram uma estátua com uma placa que diz ‘Homem em pé com uma lança na mão direita’. O que é que isto me diz?”.

E não é apenas nas exposições desenhadas ao bel-prazer dos etnólogos que a palavra princípio ‘eu-isso’ se instaura em nosso quotidiano. Temos um vasto conhecimento utilitário. Podemos pesquisar todas as informações referentes a quaisquer culturas que povoam o planeta. No turismo, somos viajantes privilegiados. Podemos nos organizar e traçar os roteiros completos. Não obstante, as viagens que acabamos por fazer dizem respeito à confirmação. As fotos que vemos em nossas árduas buscas pela Internet se materializam diante dos olhos. Os monumentos ganham as cores. Os parques, as esquinas, os cafés onde se reuniam famosos poetas e intelectuais dos séculos passados estão ao alcance. Mas não nos permitimos caminhar pelas ruas, à procura do inesperado. Não mergulhamos nos esconderijos que se apresentam para nós, quando nos perdemos numa cidade.

A Globalização é uma possibilidade real de compreensão do outro. Contudo, a sociedade actual é líquida e ávida por novidades. Cada vez somos mais voláteis e imediatistas. Superficiais. Nossa ânsia de conhecer o maior número de pessoas, países, museus, comidas típicas, músicas regionais, literaturas locais é imensa. A profundidade é alheia à rapidez. É estrangeira ao tempo que dispomos para submergir em profundezas das infinitas culturas.

Devemos voltar a Buber para perceber o que poderia ser chamado de comunicação intercultural. O cerne da palavra princípio ‘eu-tu’. O ensinamento de Buber a nós dá-se na impossibilidade de classificarmos o outro. Os preconceitos devem ser postos entre parênteses:

“Entre eu e tu não se interpõe nenhum jogo de conceitos (Keine Begrifflichkeit), nenhum pré-saber, nenhuma representação; a própria memória se transforma no momento em que passa dos detalhes à totalidade (passa na unidade da presença). Entre o Eu e o Tu não há fim algum, nenhuma avidez ou antecipação (Keine Vorwegnahme). Todo meio é obstáculo. Somente na medida em que todos os meios são abolidos, acontece o encontro”. (BUBER, 2001, p. 13).  

Talvez seja demasiado utópico. O encontro suspenso no ar, desprovido das nossas ideias pré-concebidas. Encontrar-se sem pressupostos ou idealizações. Caminharemos milhares de desertos até essa sensibilidade ser alcançada. A Globalização pode até nos levar até este tipo de relacionamento. Há infinitos percalços nesse processo, não há dúvidas. O outro, por vezes, ameaça nossas convicções, valores, crenças. O estrangeiro é aquele que nos põe em xeque. Mostra-nos que os axiomas estão mortos. Escancara nossas feridas. Guerreamos quando discordam de nós.

A verdade, perto do outro, fica ténue. Todavia, se desejarmos tocar alguma forma de sabedoria, deixemos que outras culturas, outras línguas, outras histórias se apropriem de nós. Não como objectos de apreciação. Nunca como ISSO. O espírito precisa estar nu. E toda nudez remete à nossa fragilidade ontológica.

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