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Às avessas

 

“Para além das ideias de certo e errado existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”  Rumi

 

Esta noite sonhei com alguém que fez parte do meu convívio íntimo por anos. Eu e ele,  apesar de vivermos próximos, nunca nos aturamos. No sonho havia uma estrada repleta de buracos e desfiladeiros. Eu conduzia a partir do banco de trás, com dificuldade, desviando do perigo. Um caminhão, desgovernado, ultrapassava-me e capotava, logo a seguir. Parei, aturdida. Meu desafeto saia da mata, inconformado com a cena grotesca. Reconhecíamo-nos, pois, a assistir os destroços do veículo. Ele me abraçava, chorando. Juntos, buscamos socorrer os passageiros. Não havia ninguém.

Olhei-o nos olhos e o questionei, mentalmente: “por qual razão sempre foste tão duro comigo?” Ele, desamparado, respondeu, também em silêncio: “porque jamais tolerei a tua capacidade de ser frágil.”

Acordei aliviada, a sentir uma reparação, vinda do Universo.

Acolheria-o, se pudesse, imediatamente no meu colo, afagaria seus cabelos, conectar-me-ia com a sua dor. Eu não sou uma pessoa rancorosa.

Ao descobrir o livro de Marshall Rosenberg, Comunicação Não Violenta, tive o ímpeto de pedir perdão a todos os seres humanos com os quais convivi. Pai, mãe, irmãos, amigos de infância, ex-namorados, colegas de trabalho. Para alguns pude enviar pequenos textos. Para outros enviei mensagens através das meditações. Contudo, jamais tive a coragem de escrever para a personagem do sonho. Foi uma profunda libertação cármica.

Sei que posso parecer arrogante, superior, ao declarar isso. Mas é o inverso. Sou imensamente falha com os meus. Inúmeras vezes fui ingrata com aqueles que mais amo. Sinto que, com eles, posso errar.

Talvez a linguagem seja o maior paradoxo humano.

A palavra é o amor mais doloroso da minha vida. Nasci, sem a menor possibilidade de escolher, em uma família literária. Em nenhum momento tive chance com os lápis de cor, telas, instrumentos musicais.

A escrita foi-me, desde menina, a maior de todas as libertações. Não sei falar, posso escrever. Não sei pedir perdão, posso escrever. Não sei amar, posso escrever.

Escrever em uma tempestade, encostada no caixote do lixo. Escrever, com a caneta violeta e cheirosa, no papel de carta. Escrever um bilhete no caderno rasurado. Escrever antes de viver, escrever acima do vivido, escrever para seduzir o interlocutor. Escrever.

No nascimento da minha irmã: escrevi. Ao perder meu namorado, na oitava série, escrevi. Para dominar o pavor que sentia, escrevi. Sinto que não existo, desprovida dessas armas sutis, escritas.

Por que as confissões, não escritas, parecem tão laboriosas?

Dizem que há um outro planeta, muito semelhante à Terra, onde são todos telepatas.

E se fôssemos todos telepatas? O que aconteceria com nossas relações, caso os outros soubessem verdadeiramente o que se passa dentro de nossas mentes vis? O que aconteceria com a literatura?

A comunicação, quando afastada da vulnerabilidade, leva-nos à violência. Somos treinados, desde crianças, a esconder nossos desejos, a travestir nossas carências, a ocultar as fraquezas. Entanto, há mais magia em sermos incompletos. E a poesia nos devolve esse sentimento. A poesia livra-nos da sordidez.

Hoje, ao acordar, mentalizei esse ser humano que fez parte da minha existência. Essa pessoa que eu julguei ter-me feito mal. E a ele pedi perdão. E a mim também. Libertei-me dessas memórias não afetivas. Espero que um dia possamos nos encontrar, em absoluta fragilidade, no mundo invertido.

Quem sabe, em uma manhã de outono, acordarei desarmada, telepática.

Enquanto isso vou enfrentar a realidade com poesia, escrever delírios, revisitar meus fantasmas no porvir.

 

Dedico este texto ao meu querido amigo Adriano Toloza, aquele me ensinou a olhar para os paradoxos com afeto.

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Neon

Neon

Ele devia ter uns oito anos. Eu, uns três. A gente assistia, de forma ininterrupta,  História sem Fim. Eu era completamente apaixonada por aquele menino. Ficava a imaginar que era meu Atreyu.

Não sei quando percebi que ele era anão. Minha excêntrica memória não me permite acessar essa descoberta. Desde então, tenho uma profunda admiração por anões. Virou quase um fetiche, quando me deparei com a volúpia que contorna Peter Dinklage, o Tyrion Lannister.

Eu contava essa história a dois amigos de infância de uma amiga querida, aqui no mundo invertido. Estávamos em um restaurante, ao pé da Sé, conhecido pelas amêijoas à Bulhão Pato e seus garçons piadistas. Nenhum tio do pavê se sentiria tão humilhado, nesse dia, se ouvisse a comédia de erros a qual assistimos. Piada ruim vira a maior piada do mundo, se a companhia é certeira.

Já saímos um pouco embriagados e, acima de tudo, atordoados pela infinitude que cercava o cérebro daqueles garçons, incansáveis em encontrar o cúmulo dos absurdos. Era a final da Libertadores e todos os nossos corações já sabiam da alegria que nos viria encontrar, em algumas horas.

Fomos descendo, agradecendo o existir ao cruzar o miradouro das Portas do Sol. As cores mudavam, a cada tocar dos sinos, entre amarelos, azuis improváveis e encarnados divinais. O céu dessa cidade está além de todas as psicodelias.

Na encruzilhada da Mouraria, ao fim da rua dos Cavaleiros, avistamos uma personagem absolutamente surreal, frente às conversas de antes: uma anã com um colete fosforescente.

Ali é um sítio conhecido por circulação de entorpecentes e prostituição. Um contraste com a Lisboa betinha, cafona, rica. Esta é uma junta de freguesia de imigrantes, miscigenações, conflitos.

A anã, bravíssima, orgulhosa e nem um pouco discreta, pulava por cima dos carros para verificar possíveis ações policiais ou eventuais clientes. Eu fiquei extasiada em ver a cena. Parecia que os deuses – que me conhecem muito bem – presentearam-me com uns takes de Fellini.

O Flamengo foi campeão. Pensei no meu tio, que foi médico deles e recebeu uma homenagem quando deixou esse plano. Chorei litros, com algumas esperanças renovadas em ser humana. Tivemos uma noite inenarrável.

Entanto, eu jamais me esqueci da anã, dona da boca. Era uma das materializações mais incríveis do mundo invertido. Assim, sempre que podia, passava pelo seu ponto, à espera de encontrá-la novamente.

Eu não sou jornalista, mas filha deles. Há qualquer cousa que clama pela investigação, dentro da minh’alma.

Foi então que, em uma despedida de visitas, a última ceia lisboeta deles, descemos as ruas da Graça, para almoçar no chinês clandestino que toda a gente conhece. Poderia ser mais uma anedota invertida. Eu contei a história da mulher que era a rainha daquela zona, soberana.

Disfarçada com o colete neon, lá estava ela. A orquestrar aquela gente toda. A entrar nas lojas e confiscar guarda-chuvas, meias ou qualquer utensílio que lhe apetecesse. Ela é a rainha e, como é óbvio, não paga por isso. Percebi seu olhar, cuidadoso.

Do outro lado da rua, melancólica e indecisa, pousada na parede triste da esquina, havia uma travesti de moletom.

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“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

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Erros de continuidade

estela

“A noite era cheia daquelas pequenas nuvens muito brancas, que se destacam umas das outras. Vista através de uma ou outra delas, a Lua tinha em seu torno um halo azul, castanho e amarelo, com uns tons supostos de verde-vivo. Entre as árvores o céu era dum azul-negro profundíssimo, longínquo, irrevogável. As estrelas viam-se ora através das nuvens, ora, muito longe, mas entre elas. Uma saudade de coisas idas, de grandes passados da alma, talvez porque em reencarnações antigas, olhos nossos, no corpo físico, houvesse visto, este luar sobre florestas longínquas, quando selvática ainda, a alma infanta talvez pressentia, por uma memória em Deus ao contrário, no futuro das suas reencarnações, esta lua retrospectiva. E assim essas duas luas davam mãos de sombra por sobre a minha cabeça abatida.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa.

Não faz muito tempo que minha melhor amiga veio me confidenciar o sonho fenomenológico que teve, dias após ser mãe. Ela conversava na varanda de uma fazenda com meu pai – aquele ser digno de desdenhar os bestiários de Cortázar – em noite de lua cheia.

Talvez ele seja a pessoa mais capaz de transformar o realismo fantástico em verdade, no piscar de uma galáxia. Até consigo ouvir sua voz, naquela noite em que não sonhei, naquela pele onde nunca vivi.

Meu pai, em seu enredo, alertava-a sobre o famoso erro de continuidade, de um filme irretocável. Sua epifania, ao despertar, habitava os domínios extraordinários do óbvio: a maternidade não poderia abrigar tais descuidos.

Pensei, embasbacada, apaziguando meus silêncios em sortilégios: e se o maior erro de continuidade fosse minha própria existência? Estaria eu blasfemando a memória de todas as mulheres que caminharam até minha íris? Seria o momento de interromper essa escravidão cardíaca das estrelas, agora?

E se formos, todos nós, erros de continuidade, insistentes numa redenção impossível, delirantes com a vergonhosa liberdade? Suplicamos, a vida toda, por magos que sobrevoem as biografias, espalhando os famosos goles de velhice?

Aquela conversa, indecifrável, fez-me indagar acerca da minha ancestralidade. Por que, meu Deus, havia tanta fertilidade nos nossos dilúvios?

Herdamos os planos enclausurados, as cartas de amor seculares, uma linhagem de poetas. Contudo, ainda assobiamos as canções milenares, em madrugadas de festa? O café sempre cheira a saudade? Estaremos luminosas, quando a solidão cair do céu?

Pergunto a essas mulheres que me traçam o espírito: qual o peso que se dá entre o escuro e o entardecer? Quais revoluções intrínsecas devo lutar? No dinheiro que sobrar para a viagem: quais parentes visitar? Quantas são as fragilidades que me encontro autorizada a convidar, quando vir uma alma em frangalhos?

Ah, fardo irremediável da delicadeza!

Só peço, em vertigem anciã, às amadas que navegam pelo meu sangue: preservem-me alguma sanidade. Há mais dor no instante que precede o despertar do machucado. Acho que nenhuma dor dói, desde que não seja incomodada.

E reitero, enfim: nunca se esqueçam da minha devoção às palavras. Pois aprendi que não se morre de amor; morre-se de cachaça. Quando ideias se tornam interiores, esqueço-as como moedas. Um dia reencontro-me com elas, em lugares inusitados. A mim, sobram-me os caminhos, que perco tanto quanto canetas. Só que as canetas me fazem mais falta do que as estradas. As canetas são avós do futuro.

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Em lugar algum, o amor

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Eu andava, atordoada, desde o momento em que foi me proposto: pense nos dois lugares que você mais ama em São Paulo. A pergunta ainda me parecia indissolúvel, dias depois de ter sido enfrentada. Não amo lugar algum em São Paulo.

Contudo, havia o desafio de conectar dois pontos da cidade, amados por outrem. Decidi começar pelo Theatro Municipal para finalizar meu trajeto na Praça do Pôr-do-Sol, ao lado de casa.

É curioso que havia estado no Municipal, na sexta anterior, para assistir La Bohème, de Puccini. Em menos de uma semana eu reencontrava o lugar inevitável da infância, onde disse à minha mãe: ‘isso aqui é mais bonito que o Natal’. Sendo obviamente lindo, eu não amo o Municipal. Não amo lugar algum em São Paulo.

O sol e a tarde nublam a beleza do teatro. À noite, os smokings e os xales escravizam o olhar. Perdemos, assim, os craqueiros e os mendigos. Esquecemos o cheiro incompreensível de existir.

Saí, rapidamente, com medo e desesperança. A mim, agora, o palco verdadeiramente se assemelha ao Natal. Peguei o República, rumo à Faria Lima.

O metrô, limpíssimo, incomoda-me a escrita. A imundície já estava entranhada nos dedos. Saí, fone nos ouvidos, ignorando a presença dos salvadores de culpas, que vendem, por trinta reais, o futuro de uma criança africana. Não, nem a África, nem os médicos sem fronteiras, fazem-me amar lugar algum em São Paulo.

Apanho o 875C com Cortázar na mão. A “Autoestrada do Sul” é um conto de fadas perto do caos que pincela a avenida em vermelho, buzina e monóxido de carbono.

Lotado, o ônibus não me permitia captar os personagens, históricos. Segura a bolsa, a bunda, a dignidade. Quando, finalmente, consegui sentar-me, uma voz interrompeu minha linearidade. A velhinha distinta reclamava das passeatas que aconteciam por ali. E eu, quase deprimida, só tinha vontade de lhe dizer: não amo lugar algum em São Paulo.

Por que não amo lugar algum em São Paulo? Penso na Paulista do Gudin: “se a avenida exilou seus casarões, quem reconstruiria nossas ilusões? ” Quase faz frio por aqui. A Praça do Pôr-do-Sol, ainda bem, está repleta de nuvens. Jamais suportaria que minha investigação fosse interditada pelos abraçadores de árvores.

Cerveja na mão e baseado no maço, vejo a discrepância entre os lugares amados por meus colegas de literatura. No alto de Pinheiros um casal se amassa entre os troncos. Ah, nostalgia do amor obrigatoriamente público! Uma menina sozinha bebe Gatorade. É careta, certeza. Vai-se embora. Outra ocupa seu lugar. Pede uma seda. Essa é espertinha, né? Não amo, mesmo, lugar algum em São Paulo.

A Praça do Pôr-do-Sol é ridícula. Há resquícios de fogueira. Um homem faz, em pseudo-silêncio, aulas de Tai-Chi. O violeiro, estereótipo do hippie, toca Coldplay ao invés de Raul. Não há como amar lugar algum em São Paulo.

Fico com medo. Sou mulher, estou de vestido, meia calça, anoiteceu. Só desejo acabar essa crônica em casa. A salvo. Espero, uma vez mais, pelo transporte público. Todavia, quando o destino chega, o cigarro ainda está aceso. Vou dar mais cinco minutos, sentada aqui, exercendo meu jornalismo literário.

E eis que surge um novo 875C. Entro, ainda chateada por não ter cumprido a tarefa de amar São Paulo. Olho para a cadeira vazia. Cadê o cobrador? Serei paciente? Causarei? Desconto nele meu desamor? Onde esse filho da puta se enfiou?

Olho, novamente, para a frente do ônibus. Um cara, alto, gato, brinca com duas menininhas que estão no vão. A mãe, quase anã, tira o elástico do cabelo. Escolhe o sorriso mais bonito como se escolhesse uma roupa, em noite de premiação. Só me restam duas estações. Ele mostra, orgulhoso, o crachá de cobrador. As crianças dão risada. A mãe faz topete com as mechas alisadas.

O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum. “O homem e a hora são um só”, já dizia o sábio Pessoa, em pele de Bernardo Soares.

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Ensaios sobre o porvir

I.

Agora, sentada nesse quarto que não me pertence, com a chuva redundante de verão, teimando em atrapalhar a música, pergunto-me, desesperançosa: como teria sido a minha vida ao teu lado. Será que ainda seríamos felizes, hoje? Ficaste no patamar onírico do impossível, na memória doce do porvir, nos sonhos infantes do amor inesgotável.

Agora, quando o cheiro de finitude das velas invade as reminiscências de nós dois, coloco-me à disposição do Universo para receber as respostas que estão enclausuradas há tantos anos na minha carne. Existe algum pedaço de vida que nos é amputado, pelas escolhas que fazemos?

Com os olhos inchados de tamanha realidade, sinto-me pequena, frente àquilo que não vivemos nós. De todas as dores, esta, mais clichê, é a que mais dilacera uma alma bipolar: o lado que sonha.

Permaneço, nestas horas insones, a flutuar sobre o que não fomos. Ah, se tivesse perdido aquele voo! Ah, se minha alma não fosse tão cruel! Ah, como pude suportar as tuas lágrimas, no táxi que separaria nosso destino para sempre?

Tu sofreste a minha partida tão antes…. Eu sofro a minha chegada, neste instante. Separados, em séculos de espera. Será que existe, nesse mundo, amor em compasso? Ou o amor só resiste aos relógios desconexos, ausentes de plenitude?

Sinto saudade da tua incompletude. De te ensinar o óbvio e ver teus olhos azuis a agigantar epifanias. Sinto falta de falarmos línguas estranhas. Queria reconhecer cada fio de cabelo branco, e ralo, que envaidece a tua cabeça. Desejava colocar-te, uma vez mais, em minhas pernas, e te contar que o teu passado aumenta meu futuro. Almejava ter te visto envelhecer em cada ruga.

De tantos anos e tantas tempestades, é só agora, amado, que minha miopia se foi embora. Dói-me viver sem ter-te tido. Desola-me pensar-te distante desse cais. Que a vida possa-me trazer-te, em ondas, nem que seja por outros mares.

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2015

Cabodaroca.jpg

Seria uma enorme injustiça comigo mesma se colocasse o ano de 2015 como o pior de toda a minha existência. Agora, ao olhá-lo com distanciamento e sem vaidade, sei que esse ínfimo pedaço de tempo me serviu. Alertou-me em todos os ossos. E mostrou a mim as faces do improvável.

Um ano que começou com promessas à Literatura. Fui selecionada para integrar a equipe de pessoas que mudam o mundo, pelo amor às palavras. Em meados de abril minha alma vibrava pelos holofotes que vinham em formato corporativo.

Já em junho pude viver o sonho mais bonito que se transformou em realidade: voltar à Portugal, travestida de trabalho e fé. Sem inferioridades de ser brasileira. Em Lisboa pensei num belo texto. Escrevi-me em pedaços, ao retornar à Babilônia.

Em 2015 tomei o Ayahuasca pela primeira vez. Visitei mistérios dos quais não me senti benvinda. Fui à Bahia e por lá chorei. Senti-me plena e desamparada. Pousei, desiludida, no Rio de Janeiro, onde pude vivenciar um grande amor por ensinar pessoas com talento para perguntas. Perdi minha capacidade de responder, contundentemente, tantas questões que me foram feitas. Estudei para sanar meu desconhecimento.

Conheci o menino que me parecia fútil, mas que me amou pelo meu amor por Fernando Pessoa. Segurei um surto de uma amiga querida, mesmo sem ter forças para sustentar minha própria loucura. Chorei ao desbravar o Príncipe Real, com a ausência de surpresas. Irónico destino, levou-me à sincronicidade. Tive nojo de ser mulher. Tive nojo de ser brasileira. Tive nojo de sentir essas duas coisas juntas. Rompi com um amigo muito amado.

Tentei fugir da dor que despertava, todas as vezes em que encontrava minha infância no hospital. Busquei ser mais espiritualizada, para ajudar a alma a tolerar os desígnios terrestres. A insônia deteve minha mediunidade.

Busquei reinventar-me, sem sucesso, na triste ingenuidade de que o amor precisa viver para sempre. Elaborei melancolias racionalizadas. Fui motivo de chacota.

Pude mostrar à minha mãe quais eram os meus lugares preferidos. Fui borboleta em Lisboa. O desmascaramento de mim trouxe-me questionamentos indeléveis.

Reconheci outra face em Berlim, onde fui feliz. Dormi inúmeras noites no sofá, à procura daquilo que não existia mais. Sofri madrugadas em silêncio, sem ter uma escrivaninha para me debruçar.

Bebi por multidões que se calaram. Machuquei pessoas que me amavam. Fumei cigarros que não se fariam precisos.

Degustei conversas perfeitas. Estraguei jantares e vernissages. Ensinei alguns a lidar com as diferenças. Ganhei presentes por ser profunda demais e muitos feedbacks negativos por ser assim. Espalhei uma música do Arnaldo Antunes. Fui feliz nesse dia.

Convidaram-me para ser madrinha da menina que já me era sonhada. Perdi meu cachorro e minha casa. Estou à espera da próxima. Percebi que São Paulo não me faz mais sentido. Fui borboleta em Lisboa. E lá sou feliz.

Ainda não busquei meus cacos, espalhados numa mangueira que tem nome de gente grande. Tenho medo de ter perdido anos e anos da minha existência pequena. Mas, acima de tudo, seja em 2015, em 2006, e desde que me conheço por gente, há a convicção de que fui poeta, em cada segundo, em cada atalho, em cada porre. Poesia, amada, és a minha única certeza desse ano que tanto me doeu.

 

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O delírio das assinaturas

 

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O que a noite me ensinou, sobre todas as coisas, pode ser traduzido na meditação desesperada dos silêncios. Estes instantes de exílio poético, em que as clausuras do amanhã não se sobrepõem às eternidades imaginadas.

Sempre precisei das madrugadas para dar início a uma carta, uma leitura profunda, uma mudez escancarada em quimeras. Manhãs nunca me foram testemunhas dos sonhares.

Por que será que as vísceras só se abrem nessas horas? Quais reinos são libertos, na escuridão dos antigos murmúrios? “Meu coração é um albergue aberto toda a noite”, sussurra Pessoa.

Contudo, uma vez proferidas, as palavras se despedem para habitar outras íris, outras mãos, outros pensamentos. E eu poucas vezes me percebi, anoitecendo minha alma na memória de narrativas alheias.

Nas últimas semanas, fui revisitar-me em duas ocasiões, em sincronia cósmica. Uma velha amiga me agradeceu pelo livro que a presenteei, em seu aniversário de vinte anos. Foram algumas poucas frases para que pudesse trazer à mente todos os desejos pueris que envolviam aquela data. E o coração pode celebrar, sem fantasias, a grandeza de ser repertório da existência dela, ainda que o hoje já não abrigasse nossos caminhos. Ontem fui imprescindível para aquela pessoa.

“Escrevemos cada vez mais para um mundo cada vez menos”, ensinou-me, tardiamente, Alberto da Cunha Melo. Essa melancolia arque(típica), quase inoportuna, quase clichê que apavora o destino de todos os escribas.

O mais importante, todavia, veio de um saudoso amigo da adolescência, por quem nutri muito carinho e admiração – na primeira metade de mim. Ele me confessou, com ternura juvenil, que eu havia escrito uma das cartas mais bonitas de toda a sua vida.

Meu coração, o albergue, sofreu um dilúvio imediato. Recordei todos os sentimentos que me avassalavam naquela época: dores infinitas, a solitude do não pertencimento, a recusa à obediência. Depois, fui encharcada por um orgulho sem nome, uma alegria além dos versos. Era a minha carne de menina, em papel e tinta, morando na alteridade.

Um pedaço meu guardado pelo tempo, expatriado da minha lembrança. De quem seriam aquelas declarações? Por quais estradas com ele estive, nesses anos todos? Quais seriam as inúteis revelações? De onde nasceram essas sagradas cicatrizes que eu havia cometido?

O fundamental daquele fenômeno, pois, não residia nos lugares comuns que eu provavelmente utilizei, tampouco o conteúdo de uma carta, ridícula. Os fatos eram apenas o preâmbulo de algo essencial: só me comunico através da escrita, verdadeiramente. Se amei, amo ou amarei alguém, nesta encarnação, necessito das palavras para elaborar as sensações. Só peço desculpas quando incorporada em literatura.

Não há memória que atinja, em igual beleza, uma superfície perfumada, com firma reconhecida. E isto constitui o maior fardo e o maior dom que alguém pode carregar. Todas as verdades só existem antigamente, quando a coragem legitimou o delírio de uma assinatura.

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Instruções para matar um fantasma

Instruções para dar corda no relógio

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Julio Cortázar

“Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.”

Instruções para matar um fantasma

dohohsuh

O primeiro e imprescindível questionamento, quando se quer assassinar um fantasma, é certificar-se de que se deseja a nulidade verdadeira. A perda de alguns espectros pode deixá-lo vulnerável à eterna melancolia.

Imagine, se possível, as noites insones destituídas de sua presença. Reveja a si mesmo em solidão absoluta, mais inaudível que profundezas oceânicas, em escuridão de lua cheia. Fantasmas são, via de regra, ótimas companhias oníricas, devoradores de madrugadas.

Como os silêncios são penitências da maturidade, escolha-se adulto ao tomar uma decisão tão rigorosa como essa. Fuja dos charlatães que prometam o exorcismo. Nenhum corpo humano é capaz de apagar uma estrada.

Siga, passo a passo, os rituais de luto, que flutuam entre a negação e o sublime. Hospede-se em suntuosas criações, asilos para a cicatrização e desespero. Tolere a abstinência ontológica, compreendendo que, às vezes, ele psicografará por seus dedos – umas belas palavras – como gostos escondidos de infância.

Embora os relatos até hoje tenham sido promissores, pessoas ainda me confessam, à surdina: “passada a febre e a ira, é provável que você perceba: o fantasma sempre esteve ali, gestando no seu passado, acontecendo no seu agora e hibernando no infinito”.

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De repente

poetasCarlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos.

(Foto roubada do blog da Companhia das Letras, no texto do Leandro Samartz)

Minha homenagem a Paulo Mendes Campos vai até seu aniversário, no dia 28/02, quando ele completaria 92 anos. O texto de hoje eu mesma digitei. Não estava, em minhas pesquisas, disponível na internet.

“E de repente, caminhando nesse dia de novembro, atribulado de deveres, no trigésimo quinto ano de minha história confusa e malbaratada, quando todas as amarguras já bebi, nem de todo sábio, nem de todo bobo, não tendo outro propósito no espírito senão o de abrir bem os olhos, pegar os objetos, ouvir, provar os vinhos turvos, respirar este aroma vegetal de tardes antigas, receber a dádiva dos sentidos e cumpri-la, aquecendo-me ao sol, molhando-me na chuva, banhando-me no mar, de repente, em meu caminho, cruzando por um cego embriagado e crianças de uniforme, imaginando com remorso que a gente esperdiça tempo demais a trabalhar sem amor, de repente, sem qualquer disposição para o jornalismo, sereno às quatro horas da tarde, empenhado em não deixar o dia partir inutilmente, dedicando-me com toda a honestidade a enamorar-me do mundo, pelo menos deste momento irresistível, de repente ocorreu-me de novo o milagre, e doeu-me – coisa espantosa – uma saudade magnífica de Paris na primavera, os plátanos agitando as ramas, os bancos à beira do rio, onde li e reli que sob a ponte Mirabeau corre o Sena, e a alegria sempre vinha após a pena, e era saudade mais de mim a vadiar pelas ruas e os bosques, indo e vindo pelo cais da margem esquerda, remexendo livros empoeirados, admirando a cor e o imponderável, brincando com as pontes o eterno jogo da poesia, afeiçoando-me até morrer pela ilha de São Luís, as torres góticas encastoadas em luz de ouro, e outras cores, outras ramagens, ruas que faziam por si mesmas o meu destino, os vinhos tintos do crepúsculo, as brisas eufóricas, uma saudade, disse eu, sem jeito feérica, Rue Gît-Le-Couer, Rue de Hautefeuille, Rue de la Harpe, uma saudade que me dispersava, fatalizando-me suavemente, inclinando-me às águas quiméricas do tempo, como me perco no olhar de quem amo.”

Paulo Mendes Campos

 

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Onde os escuros são mais sábios

Paulo Mendes Campos

“Não perguntar o que um homem possui, mas o que lhe falta. Isso é sombra. Não indagar de seus sentimentos, mas saber o que ele não teve a ocasião de sentir. Sombra. Não importar com o que ele viveu, mas prestar atenção à vida que não chegou até ele, que se interrompeu de encontro a circunstâncias invisíveis, imprevisíveis. A vida é um ofício de luz e de trevas. Enquadrá-lo em sua constelação particular, saber se nasceu muito cedo para receber a luz da sua estrela ou se chegou ao mundo quando de há muito se extinguiu o astro que deveria iluminá-lo. ‘No light, butratherdarknessvisible’.” Paulo Mendes Campos in Sombra. Primeiras Leituras, p. 104-105.

Compartilhamos essa angústia frutuosa pela ternura. Uma vontade de tocar a todos com a ancestral tristeza, infante. Sensação embriagada, esses silêncios corrompidos por palavras. A vontade de estar frente à morte, e ignorá-la, em austeridade.

Deitamos as noites, enganando-as, porque as inspirações chegam atrasadas, em ocasiões especiais. E também esta ridícula fascinação pelos trôpegos e miseráveis protagonistas da realidade. Medo de estarmos errados, sendo céticos.

E, de repente, nesse alvorecer de fevereiro, ainda envolta por cartesianas lembranças, despertar os vulcões hibernados da melancolia, para sentir com precisão, para doer em completude, para cravar assinatura no firmamento que me é testemunha.

Eu, aprendiz de solidão.

Acreditar nos domingos, curadores de ressaca. Libertar a mudez insuspeita dos crepúsculos em goles de eternidade. Suplicar para que a dor volte, entusiasmada de mistérios.

Lírica.

Um amor mútuo por Clarice, daqueles que ferem as entrelinhas e perdem a doçura. Amor que sangra as gengivas, encharcadas de poesia e sofrimento. Vampiros que somos, pelas tardes vermelhas que não voltam nunca mais.

À procura de pólvoras incandescentes, esvaziamo-nos, exangues. A vírgula meticulosamente empregada. O verso mais bonito no final. O título que ainda está gestando. E, claro, o esmorecimento da criação.

Queria que viesses, desprovido de raízes. Copo na mão, cigarro na outra. Amaria ouvir onde vive o amor de amanhã, salvo em teus versos.

Aclamado em vida ou perpetuado pela história?

Como te pensavas, meu querido?

Seria a vida uma insuportável contrarregra, se soubesses agora?

É sempre poesia o que dizes de ti mesmo? Se sim, apenas para amenizar a tortuosa sina?

Ah, estrela desencontrada em sincronia! Talvez por isso tenhas as coincidências como tema.

Não me importa.

Hoje pude revisitar-me em infâncias, sabendo que são estas as viagens impossíveis de planejar. Encerrando-me no instante de nós dois, Paulo Mendes Campos. A pedra me doou o seu suplício.

E as rimas, que insistem em escrever.

Para quê?

Nunca deixei que a melodia atravessasse os meus segredos.

Tu me deste a sombra – inerente aos braços dos moinhos – para sonhar. E quem sou eu para sonhar a imensidão, tão doída, tão doida?

Bêbado de tanto ofuscar-te, respondes a mim:

– Lá, intrínseco à posteridade.

Quando o amor não acaba e os escuros são mais sábios.

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Viciada em inícios

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Enquanto a noite cai, piedosa, eu me sento e agradeço. Existe mais um universo prestes a ser desvendado, aqui. Os seres, exaustos de futebol ou de cachaça, já hibernam em felicidade ou tristeza: e pouco é importante o resultado do jogo. O que basta é o prazer de ser testemunha.

A janela já não traz o balbuciar inerente à uma cidade literária. E os deuses não abençoam o vinho, vindo de tão longe para apaziguar a sede dos silêncios. Tudo conspira pela folha em branco, pelo raiar soturno, útero sem fonte. No entanto, continuo a acreditar que a madrugada carrega em si a fantástica capacidade de rejuvenescer-me. Que todo vazio comporta as inspirações mais inacreditáveis. E que os espíritos de luz tornam-se aliados nesta encruzilhada.

Não é porque a vida apresenta-se mais calma, nesta hora de zelo, que os princípios sejam fetais, sorumbáticos. Ao revés dos contos de fada, a narrativa divina está mais alerta, nos segundos que antecedem às auroras.  Ouço um poema, recitado por outrem: reclamo! Prefiro a voz de meus próprios olhos, a entonar as sílabas em plenitude.

Coloco-me à disposição das páginas inauguradas: ao relinchar infantil dos prazeres sem dono, à insustentável incompreensão que precede o toque das línguas. E respiro uma galáxia, insone, ao iniciar uma leitura.

Corruptível aos começos, assim me defino. Com profundo horror às conclusões. Estou adicta, desde o meu nascimento, a esperar amanheceres como companhia. Roubo, com pitadas de psicopatia, quaisquer infâncias que me rodeiem, desde que sejam puras, imaculadas, pequenas. Aposso-me, também,  de tuas memórias remotas, até o pertencimento sanguíneo, podendo beber de teus inícios sem pudor.

Enalteço os versos prematuros, dignos de rasuras e incompletudes. Acaricio as rubras faces, embevecidas de quimeras. Perdoo os desperdícios, designados às renovações. Doou-me às manhãs tristes de abril, quando o sol não pode estancar a gélida ternura dos outonos. Porque o agora me invade e me determina a existir, num cálido pacto de nunca vivenciar o eterno retorno.

Ao tilintar de uma rolha, em harmonia com o oxigênio, estou eu. Na ruptura submersa que insiste a tinta, frente à folha. Em suntuosos devaneios de mar, em dia de ressaca. Na saliva em comunhão. No perdão de amar um ser humano o qual jamais ouvirei a voz. Nas surpresas inexoráveis do destino, ainda que cravadas na palma da mão. Lá podes me encontrar.

É por isso que sinto saudades. Presa aos instantes de estreia. Reconheço-me em ti, sábio poeta, cujo nome corrobora a beleza de ferir. Entrego-me, contigo, à mansidão límpida das estrelas ofuscadas. Ao amor que se foi. Ao amor que não tive. Ao amor que inventei.

Economizo gestos e palavras, em tua presença. Ignóbil sonhadora de rabos de cometas. Já não preciso dos teus dizeres ao pé do ouvido. Indecifrável e querido mestre, sou tua. Grávida de esperanças. Viciada em inícios, amado Vinícius.

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Em nanquim

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A mala pronta, com antecedência milenar, queria ser aberta, precipitando-se ao destino. Meus olhos, encarnados, tentavam expulsar a frustração de uma semana perdida. E a ida ao aeroporto foi tortuosa. Parecia-me que me seria impossível recolher-me novamente à minha alma, depois de acontecimentos tão doloridos, tão ínfimos e miseráveis. O coração não estava à espera de surpreender-se, naquele fim de semana em Itapuã.

E quem foi que viveu um amor em cronograma? Quem escolheu, em verso, data e hora, o instante de contemplação? Qual ser humano desvelou a própria morada, a priori de algum pertencimento?

“A tinta de escrever, por suas forças de alquímica tintura, por sua vida colorante, pode fazer um universo, se apenas encontrar seu sonhador.” – disse, sabiamente Bachelard, em devaneios de matéria. Alguns lugares são feitos para nos dar abrigo. Ficam calmos, suspensos no vazio, até a chegada do intruso que lhes ocupará.

Para mim, o pouso de três meros dias na casa do Vinícius, na Bahia, foi dessa maneira. Como se aquele casulo já tivesse habitado meus poros há milênios do saber. Todo poema é ideia que viaja pelo sangue à frente das sinapses.

Mais tarde, percebi que a casa em Itapuã refletia os mesmos sentimentos amorosos que nutri por Lisboa e pelo Recife. Não era a primeira vez que me apaixonava daquela forma, pelas pessoas, pelos olhares demorados, pelos pensamentos entrelaçados ao nascer do sol.

Talvez seja assim que a vida se apresente em sua forma mais pura. O delírio encharca a realidade, e podemos beber alguns goles de nossa essência. Inteiramente desprovidos de máscaras, vestes ou distinções burocráticas. Na esquina bonita onde as flores outonais da prosa e da poesia se misturam, derramadas em sinfonia.

Apenas no átomo interestelar está a vida. Seja na vigília do acaso, em Kundera, na meditação das pedras, em Caeiro, no balão que Cony não soltou. Ou simplesmente na sapiência de Vinícius, que pediu perdão ao que amou de repente, embora fosse uma velha canção, ressonando em seus ouvidos.

Nas imagens depuradas dos poetas percebi a necessidade de estar atenta, pois não se pode abandonar o segundo à revelia de uma era perdida.  Lá se encontram a casa natal, a cabana mais pueril, a misteriosa clareira em meio à floresta. A caverna mais íntima crava suas inscrições rupestres em nós, antes.

Certas vezes, quando a sobriedade impera há muito, nascem utopias felizes, para aniquilar a melancólica lucidez. E os lugares que passamos a amar nos levam à infância roubada, esquecida nos mapas indecifráveis de nós mesmos.

Na madrugada triste, insone, cálida, venho a me perder nessas lembranças. De Lisboa, do Recife, da Bahia. Reinventar a minha ausência, imaginada. Sentir saudade de ter sido feliz. E de ter ficado absolutamente perplexa, nas cores que o dia enalteceu, enquanto a ficção escrevia – em nanquim – as minhas águas.

Itapuã

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O ultimato onírico

“A noite não é um espaço. É uma ameaça de eternidade.” Bachelard in O Direito de Sonhar

Estou inerte em minha casa, à espera da morte onírica. A chuva, voraz, apaziguou minha abstemia – esta sede de orvalhos – obrigatória em noites primaveris. Falta pouco para transformar-me mais uma vez, deixar a concha aérea e ignorar seu alento precioso. Mais um sonho irá se concretizar.

Para o desavisado sonhador, toda concretude se dilacera em sorrisos. Todo crescimento aponta para a vulgaridade úmida. Toda crosta tem destino de partida. E inutilidade.

Contudo, já dizia Bachelard que a poesia “se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares”. E é nesta esquina que o pensamento ressona, quieto, prestes a dar o salto mortal.

Encontro a mim mesma no impasse abissal das iminências, onde os verbos só se conjugam no intransitivo. Entre o medo de pular e o prazer de doar ao meu cérebro mais uma dose de lembranças ininteligíveis.

Os céus, neste momento, tornam-se imensos, tal como a íris de olhos embevecidos por tolices. Quando não há espaço para pupilas. E, então, percebo a solidão desértica habitando-me os poros, grão a grão – areia ancestral. Invólucro do meu ser fragmentado pela derradeira alvorada.

Eu degusto o vazio uterino que caracteriza toda realização com pavor, mesmo que não concebesse a morada desocupada.

E, neste cenário, tu tocas a campainha, apesar de não existir avisos prévios da tua vinda. Nenhum coração esteve preparado para o refulgir de teus passos, para o arroubo indelével da tua chegada.

Vieste para escrever estas páginas amarelecidas da minha história, transfigurando os tilintares infantes que eu havia dado às letras imprecisas, aos acasos. Sendo assim, imploro-te: inaugura minhas janelas com tuas risadas inconfundíveis, preenche minhas frestas com a tua música, extingue as lágrimas incompreendidas. Rasga a minha ira e aniquila estas tristezas que, há tanto, fazem-me companhia.

Amor, almejo que venhas com as malas repletas de rasuras para que eu possa modificar os teus esboços. Esquece os teus mesquinhos anseios de plenitude e encarece aqueles milésimos de segundo, verticalizando nossas comunhões.

Os armários, as gavetas, os cantos e promessas ficaram dias ao sol, espantando reminiscências de outrora. Estou pronta para assassinar meus devaneios, em prol da tua presença. Em legítima defesa.

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Além da própria dor

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Na última fresta de luz que encoraja os crepúsculos a repousarem densos existe rigorosamente o horizonte. Num gole úmido de noite insone habita uma centelha de véspera. Na imensidão irreprimível de primeira página há um vazio iminente. E em todos os fenômenos mundanos parece que se pode encontrar um confim. Somente a humanidade consegue perceber-se relutante de fronteiras.

É óbvio que alguma tristeza se faz necessária para emergir as criações. O salpicar de lágrimas hesitantes certamente alimenta as transformações imprevisíveis da jornada. Contudo, há de haver qualquer incômodo ancestral, qualquer choro ontológico, uma espécie de velhice cósmica, caso queiras que as tuas obras superem as inverdades.

Homem feito aquém de tua própria dor! Quanta solidão é lançada de teus olhos, pálidos. Quantas nuances povoariam o teu sonhar, se deixasses uma amargura destrancada.

Mas tu estás só. Tu estás só porque queres ser mesquinho e, assim, não distribuis tuas incógnitas. Tua ira insiste em clausuras, enquanto mares cintilam há séculos as cores de tempestade.

O dilúvio nunca te foi morada, genuinamente.

Não enxergas além de tua própria dor. Dilaceras-te em cobardias nos discursos vitimados. Ao compadecer-te de ti mesmo, cais no esquecimento.

Ah, se ao menos pudesses ouvir a tua voz a recitar ladainhas!

À medida que teu lamento enrijece os músculos exauridos de comiseração, nada teu conduz à ressonância universal. Todo sofrimento confrangido extingue a si mesmo, aquietando precipícios.

Para viver aquilo que tu não viveste. E para não contar o que foi vivido. Ou para não relembrar o que se viveu; é, e ainda dói. É para isso que a arte nos foi sentenciada. Além da própria dor.

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O fardo do poeta

Graça e Desgraça*

Otto Lara Resende

RIO DE JANEIRO, 20/04/1992 – Tendo mais de uma vez escrito sobre a sina do poeta, nem sempre fui entendido como queria e esperava. Não sou poeta, porque não tive o dom, que é dado de nascença. Nem por isto deixo de reconhecer a importância da poesia para a cultura de um povo. E até para o destino da humanidade. Sou do tempo em que se dizia que o mundo precisava mais de poesia do que de carvão. E também que, se o mundo tivesse de ser salvo, por certo o seria pelos poetas.

Nem por isto deixo de reconhecer que a sina do poeta, a sua sorte, não está entre as mais desejáveis, sobretudo num século que cultiva acima de tudo o conforto dos bens materiais. Para confirmar o que digo, posso me valer do testemunho de muitos poetas. Escolho um, pela eloqüência com que se pronunciou a respeito. Trata-se de Paul Claudel. Poucas pessoas são capazes de suportar a vocação artística, diz ele. A arte é perigosa para a imaginação e a sensibilidade.

Basta ver a maior parte dos poetas. Dão às vezes um espetáculo de completo desequilíbrio. São vidas freqüentemente frustradas. Até Chateaubriand e Victor Hugo foram vítimas de um profundo desequilíbrio. Os poetas não têm a paz dos homens de ciência. Ou dos homens de ação. Um Pasteur e um Lesseps se realizaram num êxito saudável. Foram vidas felizes. Já poetas, e escritores também, conhecem experiências dolorosas. Quem gostaria de ser um Baudelaire ou um Verlaine?

O martirológio dos artistas é mais que exuberante. E não falo dos poetas malditos, que a meu ver constituem um enigma. Ninguém em sã consciência pode desejar para si ou para um filho a vocação artística. Marginal, nada tem de atraente. Penso na minha irmã Camille. Graça terrível, o poeta aparece neste mundo sem graça por um decreto dos poderes supremos. É o que está em Baudelaire. Será que o mundo sentiria falta de Verlaine, se não tivesse existido?

Nenhum pai de família é bastante louco para desejar ao filho a vocação de um Rimbaud. Quem poderá dizer que a vida de Gide foi desejável? Ser poeta é mais ou menos como ser médium. Vivem de si mesmos, do seu equilíbrio. O artista vive à procura de sua essência, quase sempre voltado para os lados negativos e não para o lado bom. Veja o caso de Proust. Haverá vida pior do que a dele? Até aqui, é Claudel quem fala. Um poeta, pouco importa o que dele se pense.

*A foto é de Fernando Ricci, no Sarau Mundano de junho/12.

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NÃO AMEIS À DISTÂNCIA!

Rubem Braga

EM UMA cidade há um milhão e meio de pessoas, em outra há outros milhões; e as cidades são tão longe uma da outra que nesta é verão quando naquela é inverno. Em cada uma dessas cidades há’ uma pessoa; e essas pessoas tão distantes acaso pensareis que podem cultivar em segredo, como plantinha de estufa, um amor à distância?

Andam em ruas tão diferentes e passam o dia falando línguas diversas; cada uma tem em torno de si uma presença constante e inumerável de olhos, vozes, notícias. Não se telefonam mais; é tão caro e demorado e tão ruim e além disso, que se diriam? Escrevem-se. Mas uma carta leva dias para chegar; ainda que venha vibrando, cálida, cheia de sentimento, quem sabe se no momento em que é lida já não poderia ter sido escrita? A carta não diz o que a outra pessoa está sentindo, diz o que sentiu na semana passada… e as semanas passam de maneira assustadora, os domingos se precipitam mal começam as noites de sábado, as segundas retornam com veemência gritando — “outra semana!”, e as quartas já têm um gosto de sexta, e o abril de dejá-hoje é mudado em agosto…

Sim, há uma frase na carta cheia de calor, cheia de luz; mas a vida presente é traiçoeira e os astrônomos não dizem que muita vez ficamos como patetas a ver uma linda estrela jurando pela sua existência — e no entanto há séculos ela se apagou na escuridão do caos, sua luz é que custou a fazer a viagem? Direi que não importa a estrela em si mesma, e sim a luz que ela nos manda; e eu vos direi: amai para entendê-las!

Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria,pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pêlo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui — e isso não há.

Então a outra pessoa vira retratinho no bolso, borboleta perdida no ar, brisa que a testa recebe na esquina, tudo o que for eco, sombra, imagem, um pequeno fantasma, e nada mais. E a vida de todo dia vai gastando insensivelmente a outra pessoa, hoje lhe tira um modesto fio de cabelo, amanhã apenas passa a unha de leve fazendo um traço branco na sua coxa queimada pelo sol, de súbito a outra pessoa entra em fading um sábado inteiro, está-se gastando, perdendo seu poder
emissor à distância.

Cuidai amar uma pessoa, e ao fim vosso amor é um maço de cartas e fotografias no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos… Não ameis à distância, não ameis, não ameis!

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Alhures

 

“Olhando para o céu fiquei tonta de mim mesma.” Clarice Lispector in A descoberta do mundo.

“No fundo de cada palavra, assisto ao meu nascimento.” Alain Bosquet in Premier Poème

Sinto-me apavorada, no presente momento, acometida pelo distante segundo que precede o desmaio. Um rodopiar sonolento se apossa inteiramente do corpo, destemido das inúmeras armas cerebrais que possuo para controlar a mim. Aquele sentimento de ter, enfim, sido delatada à alguma esquina silenciosa da alma. A sensação dolorosa dos poros serem invadidos por um não habitar poderoso.

Essas mínimas e inusitadas crises fazem-me escutar a solidão harmônica, invólucro do Cosmos. Imediatamente recupero os sentidos, ainda vertiginosos desse contato perigoso com o grande mistério. Ah, a extraordinária sabedoria de se aninhar junto às estrelas e se descobrir em pequenez!

Passado o horror dos instantes eternos, contemplo, extasiada, a paz. Foi apenas um feroz religamento com o inédito? Atingi, com a ponta dos dedos, a contiguidade proibida de um sítio impronunciável para as línguas humanas?

Sim. Estive lá, lugar em que os astros inauguram devaneios. No germe de todos os amores cáusticos, vísceras da criação. Toquei os núcleos labirínticos nos quais repousam o porvir, porque os olhos não alcançaram as imaginadas verdades pagãs. Alhures, onde residem as recordações antecipadas.

A palavra, robusta tradutora dos realismos, uma vez mais, salva-me das ineficazes reduções farmacológicas.  Por que chamar de pânico aquilo que pode ser a primeira reunião entre um corpo e seu criador? Se posso inventar-me como um gigante receptáculo do Universo, vou diminuir a mim mesma com as medíocres impressões contemporâneas?

Paulatinamente, a candura encharca os sentimentos viúvos, suspendendo o sonhar eremita. O retirar-se de si, apesar da mudez, não delineia afastamento. Apenas os seres que se vestem de outras luas são passíveis de embriagar as  alvoradas.

 

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Antes dos suspiros

“Imprudente ofício é este, de viver em voz alta. (..) Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo, iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.” Rubem Braga in A Palavra

Nem sempre as obviedades me são claras. Todavia, libertadoras de pensamentos rupestres que se instalam em mim. Enunciar não é emergir uma totalidade mas calá-la no reino do possível. Não seria este o papel último do artista?

Deparo-me com o óbvio delicadamente. Como se esperasse um sussuro, um lampejo, um alumbramento. Mas ele já é a nau aprisionada pelas âncoras. Ah, quantos momentos estou atracada no cais das instantâneas realidades!

E, por isso acontecer o tempo todo, é obrigatório ter os ouvidos sensíveis às ondas silenciosas e inescrutáveis que ampliam o olhar para além dos nossos mínimos acontecimentos. Randômicos. Estar atenta às luzes de abajur enquanto o mundo se perpetua em letreiros de neon.

Foi assim, numa inocente boemia de sexta feira, que me inesculpi para a arquetípica vulgaridade humana: o encontro é vértice da cura. O mais inusitado foi vislumbrar a conversa desprovida daquele tagarelar romântico. Nenhum amor foi mencionado durante as horas que se desenrolavam dentro da minha trovoada, exceto a pululante irmandade que nos rodeia.

Ao auscultar o coração entregue, nunca o óbvio havia ganhado tais formas. Talhado em nanquim. Negro e vivo. Lá estava alguém a me dizer tudo o que eu soubera. Séculos e séculos de estudo. E resplandecia como se a luz jamais tivesse evidenciado tal devaneio. Excertos de pele que não nos são lembram a nós que a renúncia é iminente. São os vizinhos que nos aproximam de nossas insanidades.

Dizia, simples, o quanto havia sido epifânico poder assistir ao espetáculo da existência às traduções dadas pelo outro. O quanto não nos somos, aos prismas solitários! E, através de impressas consciências, podemos nos tornar garranchos ou exemplos de caligrafia.

Eu, quieta, remontava meus viveres, loucos, com o acolhimento de não me saber só. Coberta pela certeza de minha percepção, única e crua. Abrigava apenas uma interpretação ridícula daquilo que chamamos vida. Invadida, pois, pela tranquilidade de ser, antes dos suspiros. Ah, todo entorpecimento que carregam os seres cúmplices…

Os registros de espírito não retrocedem a um tempo longínquo, nostálgico. Está tão próxima essa ferida, tão latente ainda. Na estranheza inequívoca, sorri Lisboa. Reboante das madrugadas inefáveis. Da alerta memória que me expatria os horizontes. Além dos inomináveis Tejos da saudade. Eu, que pude me ser tão longe de casa. E me retorno, diariamente. Encimesmada.

Nas observações triviais, em cantarolares brasileiros, mãos dadas, sonhos expostos, medos similares, eu pude me ver pelo outro. Eu fui capaz de me enxergar, filme de Almodóvar, naqueles que nunca me foram. E uma felicidade avassaladora tocava, finalmente, minhas bizarras entranhas. Às vezes nas quais tive o aliviar das unturas transportadas por irmãos não familiares.

A obviedade me fascina. Em amanheceres incertos, à procura de sociedade. Mesmo sabendo que muitas das nossas manhãs se fazem sozinhas. No escuro, versos sentem-se necessários. Eu os convido a passear pelas calçadas, mesmo tendo a certeza de que todo sapato é inerte às distâncias. A alma, certas vezes, precisa se acostumar que a festa não tem convidados. E o deleite de existir é pleno.

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Às vésperas de mim

“Estamos tão ligados aos lugares que nos parece mais fácil deixar a nós mesmos do que a eles.” Marguerite Yourcenar

Sentada na janela dos meus anos, percorro as penumbras emudecidas dos meus eus transeuntes. Todos os seres que me habitam pensaram em uma história completamente diferente para trilhar. No entanto, a reflexão final carrega a obviedade que tinge o brilhantismo do cinema francês: nada é da forma que imaginei. Talvez seja essa a melhor sensação da vida: saber que os nossos rios correm apesar de nós. O que nos resta é cuidar para as águas permanecerem límpidas. E imprescindível é absorver a celeridade nas correntezas. E meditar em todas as calmarias.

Desde pequena, os lugares que escolhi para as comemorações entranhadas das mudanças quase nunca foram planejados. À reminiscência primeira, deixo o devaneio tomar o mínimo pedaço de chão, abençoado por lençóis brancos e sonhos pueris. O carpete castanho do quarto vivia seus momentos de glória. Quantos reis e dragões estavam à minha espera, nas proibidas madrugadas da infância!

Como se sucumbisse à eternidade das marcas sanguíneas no tecido, já não o revejo como vereda inquieta. Absorvo até mesmo os interlúdios como parte da orquestra que vem me construindo ao longo dessa existência.

Na jornada inesperada dos meus aposentos, permito-me acelerar a adolescência, com suas lágrimas descabidas e os tolos desalentos. Não por negligência ou vergonha. Mas porque gosto das ampulhetas preenchidas: ora no lembrar menino, ora na quimérica velhice em completude.

Quantas vezes pensei: serei eu o incômodo fantasma que abraça os baús empoeirados, numa casa cujos donos morreram há trezentos anos? Passaram-me as chaves, enclausuraram-me dentro dos meus próprios dilúvios? Não. Eu os fui, legitimamente, um a um. Sonho a sonho. Com o pavor míope de quem vê o tempo a furtar os detalhes.

Todavia, somente às margens do Tejo, entendi. Descobrir a concha ontológica em cada vã moradia. Os mares obrigam a alma a experimentar o desassossego. Só quem enxerga o infinito é capaz de nomear saudade. Quem nunca parte não se estilhaça na cósmica aventura do desconhecer.

Acenos à beira do cais me visitam com seus lenços e prantos. Tentam seduzir-me com promessas de estabilidade. Marinheira que sou, embalo-me com vozes de sereia, tendo só a infinitude oceânica nos olhos.

E vou. Atônita, sempre. Febril e trovejante por medo desses escuros abissais. Contudo, foram eles que me prepararam para o resignar das novidades impensadas. Eu vou, inebriada pelas naus que me embarcam sem que seja tomada pela racionalidade assassina.

Afinal, toda terra é digna de colheita. Com canções arquetípicas e coragens guardadas, neutralizo as águas tempestivas. Às vésperas de mim, vejo a sincrônica encruzilhada dos amanhãs. Cheia de saudade das minhas casas primeiras, das sensações recônditas, dos sonhos imaculados. Mas a saudade é o fardo de navegar.

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Eu, aquela que guardava os tesouros em mapas indecifráveis

Eu, aquela que guardava os tesouros em mapas indecifráveis… Como resolução de ano novo, decidi doar meus amores literários. Posso dizer adeus às coisas que amo porque os olhos me são e nenhum indivíduo sequer é capaz de ofertar às minhas musas maior afeto dedicado, tamanha devoção canina. E o meu amor pelos meus se torna um desafio para quem o compartilho.

Perfil a lápis – Paulo Mendes Campos

Morei em Ipanema, passei para o Lebon, virei serrano. Vou e venho.

Amo e desamo. As palavras me pegam. No fim resta o silêncio: sou vidrado na minha dor.

A ecologia era esta: vovô me dava doces. Vovô me deu um menino Jesus de barro. Mamãe comprava palmito para a minha salada de alface. Papai fazia cadernos para que eu estudasse. Tia Zizinha cortava-me as unhas com muito carinho. Tia Nininha costurava meus calções de futebol. Tio Valdemar me levava para ver o Atlético, tio Tatá me dava prata de cinco mil-réis. Tio João esgrimava comigo no fundo do quintal. Tio Antonio fez uma horta Meu primo Hélio me deu meu primeiro cigarro. Dolores, minha mãe regra-três, me defendia dos capetas maiores. E Isabel, também regra-três, olhava para mim com doçura e suspirava: “Coitadinho dele!”

No sentido publicitário do verbo, vou me vendendo depressa a idéias, pessoas, paisagens, climas, livros, objetos – o que existe no mercado. Quando morei em Ipanema fui Ipanemense convicto; passei a ser lebloniano; fiz uma casa na serra, virei serrano.

Nunca tive centro de gravidade mental ou psíquico. Vou com todo mundo, todas as têmperas, todas as cores, todos os pratos do cardápio. Copiei um grifo de Stendhal: “Nunca tive consciência nem sentimento moral.” Fiz meu o verso de Murilo: “Sou firme que nem areia em noite de tempestade.”

Dou a alma pelo azul e traio o azul com o castanho.

Nasci para ser mundano, apesar de toda a minha desconfiança. Se soubesse dançar bem, não sairia do dancing. Amo acima de todas as coisas a sobriedade dos sentidos. Mas dou um boi pra ficar ubriaco.

Não posso contemplar cartaz de propaganda turística sem me derramar pelas ravinas glaciais da Suíça, ou passar o verão no Marrocos, ou flanar pelo chiaroucuro de Praga, ou estender-me como roupa branca de Portugal. Mas sou capaz de trocar tudo por entre um sono entre o jantar e a velhice.

Não é preciso qualquer eloquência para persuadir-me. Nasci convencido. Amarro minhas mãos para não bater palmas aos discursos idiotas. Prendo meus tornozelos a pesadas grilhetas para não frequentar locais absolutamente intoleráveis.

Fecho meus olhos para não sorrir a quem não vai comigo ou me detesta; mas às vezes já é tarde.

Também às vezes me agrido porque também amo a agressão. Às vezes choro porque chorar é um prazer irreprimível e o mundo gosta de lágrimas. Li os clássicos com saudade dos românticos.

Perdôo a mim mesmo porque é doce perdoar. E também me destruo porque é duro destruir. Sou vidrado na minha dor.

Estraçalho uma bacalhoada com um vigor lusitano, mas sei dedilhar uma travessa de caracóis com um racionalismo gaulês. E talvez gostasse de passar a pão e água.

A chuva me pega com facilidade. E quando chega o sol, faço-me uma ode de carne e vou tomar sol.
Se me dedico dois minutos a imaginar o tamanho da terra, quero ir às honestas canseiras da lavoura, sou lavrador, bicho do chão, raiz. Mas já dei comigo consultando livros de mineralogia. E saio sempre voando quando passa o avião.

Pobre ser mercurial, escorro em tudo, rolo, desato-me e depois me recomponho, para escorrer de novo, rolar, desatar-me.

Às vezes dou comigo comprando uma casa no subúrbio, mas a poluição me desanima: compro um rancho nas lonjuras de Góias. Ou abro uma salsicharia na Avenida Ipiranga.

Vou e venho – é um direito, é uma obrigação que me impele, que me abusa, que me pertuba. Amo e desamo. Faço e desfaço.

Vi em Shakespeare um tonto quando li a antipatia de Tolstoi. No dia seguinte achei o russo um cego.

Passo para o lado de quem me ataca. Desculpo o bem e o mal que me fazem.

Redigindo publicidade, acabei me apaixonando pela técnica de fabricação de certos produtos.

As palavras me pegam. As imagens me pegam. As inflexões me pegam. Viro amigo de infãncia de qualquer desconhecido.

O mal e o ruim frequentemente ganham de mim. Chego a morrer com simpatia.

No fim de tudo resta o silêncio, que é a minha liberdade. O meu vazio.
Serei o bobo do universo?
Nem isso: só um bobo. Mas gosto de ser bobo.

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Sincronicidade é maior do que destino…

 

Para Maria da Graça – Paulo Mendes Campos

Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

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Pequenas ternuras*

Paulo Mendes Campos

Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não aguentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porte fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: “Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira”; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente a pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o “pensamento” do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre.

* Essa pequena ternura é a Bella, filha dos meus amados primos, o Dani e a Nicole. Quantas vezes eu não fui salva pela sua voz…

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Despedida

RUBEM BRAGA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Foto de Marcela Lalim: Lisboa ao amanhecer

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Epifanias Cadentes

“Por epifania entendia uma súbita manifestação espiritual, tanto na vulgaridade da fala ou do gesto, quanto numa frase memorável da própria mente. Acreditava ser função do homem de letras registrar essas epifanias com extremo cuidado, visto serem elas os momentos mais delicados e evanescentes”. James Joyce in “Stephen Hero”, primeiro ensaio que ele escreveu para o “Retrato do artista quando Jovem”.

Perdia-me, sempre, em gordas horas de reflexão. Buscava, arrogante, pelo ainda inominável. O que não foi desvelado à espécie? Quais inovações posso trazer para a literatura? Que florestas do pensar ainda estão virgens para as minhas palavras? Como poderei desembravecer as feras poéticas que me habitam e que sufocam a minha inteligência?

Assim, quem sabe, havia de me tornar grande. Única.

Enquanto eu procurava pelas originalidades inviáveis, ia negligenciando grande parte das minúsculas luminescências que carregam os instantes. Esquecia dos segundos de claridade que contêm uma alegria efêmera. Redonda. E nunca menos densa.

Esses rasteiros e silenciosos lampejos, agora, impedem-me de cair em obtusidades mesquinhas. Alerta ao instantâneo, posso colher as imagens mais ricas. Uma conversa despretensiosa transforma-se em sopro criador. Afinal, são as choupanas que trazem a sabedoria da escrita ao espírito. Todo palácio é prolixo.

Se a mente perpetua-se em vigília, há inesgotáveis manifestações dessas harmonias anãs. Ah, que prazer superior foi sentir o cheiro da casa natal, vindo incandescente na distração de um sonhar vagabundo! Pertencimento infante que toma o corpo mais uma vez. Jorra a bela lembrança do brincar. Época em que os esconderijos, uterinos, guardavam amigos imaginários e devaneios de boneca.

Às vezes, aconteceu de abrir o livro amarelecido, envolto em poeira e herança familiar. A página, aberta aleatoriamente, tem cravada em si a letra incorrigível da avó, falecida há anos. Neste momento há uma capacidade de se confrontar com frases em carne viva. Algum cerne do viver. A jornada anciã pertence, finalmente, ao seu destino. A comunhão supera a instranponível passagem da morte.

Quando turista também pude me deparar com esse ínfimo alumbramento. Perdida, enfurecida, desnorteada. Todavia, ao enxergar uma viela, uma praça fora do mapa, uma árvore ou, quiçá, uma esquina, fui coberta pelo improvável sorriso. Se estivesse atenta, soberana, jamais avistaria esses segredos. Boas viagens não se documentam por cartões postais.

Hoje, por exemplo, vivenciei o inescrutável sentimento de compaixão frente à dor de uma personagem. Quando as lágrimas resplandecem um sofrimento  coletivo e invariavelmente humano. E como isso já me foi trivial! Quão inútil pode-se compreender a cumplicidade.

Nos últimos dias estou mais desperta para o vagalumiar da existência. Abandonei as grandiosas fontes de inspiração. Aprecio o entristecer crepuscular dos olhos. Porque a noite é grande e escura e límpida demais para a pequeneza da minha alma. Quero amanhecer em sobriedade aos detalhes inoportunos. Irrelevantes. Qualquer vão acontecimento desabrocha a poesia, antes de a fenecer.

Tenho pautado meus cadernos naquilo que é momentâneo. E observo que a plenitude tem sido a melhor hóspede. Depois de tragar a humildade para dentro dos pulmões, o coração está livre. Quando digo adeus às inúteis tentativas de imensidão, uma tempestade de centelhas incontornáveis vem me visitar. O verso já pode compor sua força nos limites. Só por causa delas, as epifanias cadentes.


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Despertares

“Todo o caso de loucura é porque alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta” Clarice Lispector

A loucura invade a galáxia, irrompe a atmosfera, atravessa estradas, violenta a casa e o atinge. Não. A loucura estava dentro, hibernava profunda dentro dele. Acorda ainda sonolenta, os olhos bem devagar alcançam as luzes e dão formas às coisas. O rosto ainda inchado daquele sonho de séculos. Depois do seu despertar, todavia, não há volta. A loucura tem os ouvidos atentos para a ruidez do piscar de olhos do seu hospedeiro. Ah, todos os silêncios preparam o estourar das ondas!

Parasita, a loucura se deleita nessa terra de ninguém que é o homem. E a pobre vítima se desespera, esperneia, vocifera, quer matar, quer cometer suicídio. A estranheza se apossou do espectro e não há nada – só o tempo? – que o permita sublimá-la.

Hipocrisia tamanha em assombrar-se com o âmago! Porque o louco não é avesso ao mundo. O louco não é manicomial. A vida só está pulsando em ritmo acelerado e se enxerga demais. O louco toca seu vazio fértil, engole todas as possibilidades de uma vez e não as digere.

Não há íris que suporte essa nitidez horrível que há em cada pedra.

Uma vez insano e acabou. É um gole para contaminar toda a existência. Não há cura. Mas há a arte que fagocita. E há também a intersecção das realidades. É no outro, cúmplice, hospedeiro insone. A noite pode avizinhar-se em calmaria. Desde que exista um e apenas um ser humano que confesse em mudez. As palavras não libertam a loucura. Também já estive adormecido.

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Uma Experiência

CLARICE LISPECTOR in A DESCOBERTA DO MUNDO

Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado.

Senti-me então como se eu fosse um tigre perigoso com uma flecha cravada na carne, e que estivesse rondando devagar as pessoas medrosas para descobrir quem lhe tiraria a dor. E então uma pessoa tivesse sentido que um tigre ferido é apenas tão perigoso como uma criança. E aproximando-se da fera, sem medo de tocá-la, tivesse arrancado com cuidado a flecha fincada.

E o tigre? Não, certas coisas nem pessoas nem animais podem agradecer. Então eu, o tigre, dei umas voltas vagarosas em frente à pessoa, hesitei, lambi uma das patas e depois, como não é a palavra o que tem importância, afastei-me silenciosamente. 

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O colecionador de saudades*

colecionador de saudade1

colecionador de saudades2

Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa. No entanto, tentei e foi um bocado frustrante. Acho que ainda trago a própria vida embutida no coração do pensamento. E isso passará, com o rebentar dos anos.

Chamava-me Manuel Leite de Barros. Tenho vinte e dois anos e decidi dar um fim a mim mesmo. E não, não cometerei suicídio. A morte não tocará meu corpo, embora eu vá matar a mim durante essas páginas. Porque estou farto de ser eu.

Desde miúdo sinto-me um estranho em casa. É tradição em minha família colecionar. Meu pai possui uma coleção de bulas de remédios. Obviamente, trata-se de um inveterado hipocondríaco. Ele cataloga todas as descrições medicamentosas em ordem alfabética, dividindo-as em doenças. E orgulha-se imenso de ter mais de dois mil papéis ordenados em uma pasta castanha.

Minha mãe desde sempre foi apaixonada por corujas. Para ela, mais que símbolo do saber, as corujas são as grandes amantes da noite. “Com certeza a sabedoria acontece na escuridão”, diz-me repetidas vezes. Hoje, sua coleção já transborda doze estantes e ultrapassa quinhentas réplicas de todos os formatos, regiões e cores.

Até mesmo uma prima que mora no Brasil é viciada em coleções. Ela armazena todas as palavras bonitas que lê nos jornais. Por dia são escritas em seu caderno cerca de cento e doze novas aquisições.

Duvidei de meus laços sanguíneos até amar pela única vez. Uma profética festa de Santo Antônio, no dia 12 de junho de 2003. Antes disso, não havia colecionado absolutamente nada.

Eu me encontrava ao pé do Beco do Vigário, em Alfama. A lua estava cheia e a embriaguez já começava a me cobrir de sorrisos tolos. Foi ali que avistei Carminho.

Maria do Carmo Pereira tinha acabado de completar seus dezenove anos. Era irmã de um conhecido meu. Eu havia sido apresentado a ela quando éramos crianças. Passamos dez anos sem nos cruzar – mesmo sendo Lisboa uma cidade minúscula.

O velho clichê do amor instantâneo fez de mim sua vítima. Passamos a madrugada toda a conversar. Acolhidos pelo miradouro secreto, atrás da igreja de Santo Estevão. Só nos permitimos partir quando a manhã nasceu quente e o Tejo inundava-se em raios de ilusória pureza.

Foi assim que comecei a colecionar. A colecionar Carminho. Seus gestos, sua timidez. Cada partícula de sua alma. Apreendi sessenta e três olhares, cento e quarenta e sete sorrisos, vinte e seis jeitos dela prender os cabelos e duzentos e oito beijos. Superando toda e qualquer dicotomia sujeito-objeto, eu era capaz de colar minha visão ao seu rosto. Um ser indissolúvel, apartado em dois corpos.

Nada necessitava de catálogo. Ficava tudo cravado em minha memória. Nas horas em que não a via, brincava de contar minha suntuosa coleção. Ao final, sentia-me verdadeiramente um Leite de Barros.

Contudo, nossa relação teve um prematuro fim. No dia 14 de julho de 2004, ao sair apressada da Estação Cais do Sodré para me encontrar, Carminho foi atropelada por um elétrico. Seus ossos frágeis não resistiram às feridas e, algum tempo depois, ela faleceu no hospital.

Eu não me conformei com a perda. E, para não deixá-la morrer em mim, passei a colecionar saudades. Todos os dias, religiosamente, dava corda nos seus beijos, nos seus olhares, nos seus cabelos.

Algumas semanas após o seu enterro, decidi deixar Lisboa e a minha família. “Porque me sabia bem sentir saudades deles todos”. O afastamento seria imprescindível para aumentar minha coleção.

Pedi transferência do meu estágio para Viseu, onde meus pais tinham uma propriedade vazia. Por longos seis meses, pude beber da minha nostalgia. Enxertava a pele em fotográficos ensaios. Alimentava a melancolia com curtas metragens daqueles que eu amava. E todos os sofrimentos eram apaziguados.    

Cometi, todavia, um erro fatal. Posicionei Chronos em cumplicidade. E ele é um assassino silencioso. Porque a saudade – ao contrário do que dizem os fadistas – é inimiga das horas. É brutalmente borrada no tempo.

Na manhã de hoje, fui incapaz de reviver um dos beijos de Carminho. Espremi os olhos e não o achei. Rebobinei-me todo e havia desaparecido. A sofreguidão em resgatá-lo deixou-me ainda mais confuso. Eu me traí, sepultando minha doce reminiscência. Agora, estou à deriva. Só enxergo nebulosas. Destroços. Lábios partidos ao meio.

Hoje fui deitado fora. Como me dói, meu Deus! Como me dói essa saudade que sinto das minhas saudades colecionadas! Antagônico, o esquecimento enjaula-me à lembrança. Ninguém ensinou a mim que as coleções devem ficar cobertas de pó. Encostadas em prateleiras. Presas em vidros de éter.

O amor não é encarcerado nem posto em conserva. Mesmo o maior dos amores pode nublar. Paulatinamente, por inércia, cautela em demasia ou escolha, todo amor é passível de fenecer. E a saudade, pela sutil vingança do tempo, não é colecionável.

Digo adeus a mim neste momento porque vou me mudar. Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi heterônimo. Sem passado algum. Colecionarei saudades de mim mesmo, enquanto me for permitido. Avisto virgens futuros para o meu efêmero ser. Se, por ironia, apagar também essa saudade, não há problema. Eu já não me serei.

* Ps: tive a honra de ter sido publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais, com este conto.

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Promessa de Ano Novo

O Natal de Maria Clara, naquele ano, havia sido mais triste. Desde que conhecera o Teatro Municipal, não encontrara muita beleza nas luzes estapafúrdias que engoliam a cidade e as pessoas.

O Réveillon também era uma estranha recordação. Seus tios, depois de uma certa altura, pareciam mais crianças que ela mesma – e isto fora muito divertido. Só que, no dia seguinte, passaram a se queixar de dores de cabeça. Cobriam seus olhos com óculos escuros. Fugiam impunes do sol, em plena praia. Como uma noite de infância dói tanto?

Clarinha refletiu muito tempo sobre esse assunto. E, como necessitava de uma resolução para todos os problemas, perdoou os parentes. Realmente ser criança é ter muitos planetas à disposição. Isso deve machucar as cabeças que trabalham todos os dias.

O verdadeiro significado do verão, para ela, no fundo, no fundo, era o mar. Levantar bem cedinho – o frio da noite ainda não fora dormir – e observar os raios amarelos que pintavam as ondas com precisa timidez.

Com o mar, Maria Clara passava horas de sereia. Coordenava aventuras infinitas, que só seriam resolvidas no misterioso amanhã. Aumentar o tamanho das histórias prolonga os verões, pensava com orgulho de si mesma. E era o almoço o invencível vilão. Porque depois dele o mar seria saudade de imaginar. Ah, a obrigação horrorosa de digerir as manhãs. 

A menina descobrira uma forma genial de acelerar as duas horas que a separavam do mar. E como sentia-se esperta de ter elaborado aquela saída! Eram horas de leitura, de concentrar-se totalmente nos livros. Até sentir a vertigem gostosa. Até grudar-se nas páginas e quase não ler mais: a palavra já estava presa aos olhos.

Nos fins de tarde, quando o mar era muito gelado e o coração estava nublado de lembrança, vinham as peripécias contadas pelos tios. Narrativas de piratas e navegadores de verdade. Mas tudo, tudo sempre encharcado de oceanos protagonistas.

E foi numa tarde de janeiro que a tia, com ironia ferina, contou para ela sobre a descoberta do Brasil. Com desdém, riu-se dos índios. Primitivos. Incapazes de enxergar as caravelas. Sentiram apenas uma estranheza no horizonte!

Para a menina, nada era mais óbvio. Como poderiam ter avistado? A imaginação ainda não tinha sonhado com navios. Exatamente igual ao que ocorria com seus personagens de mar. O hoje é fundamental para o nascimento das coisas. Ontem, por exemplo, não havia criado uma baleia que a salvasse dos dentes terríveis do tubarão. Se a baleia fosse antecipada, não existiria a taquicardia da batalha.

Enquanto os tios amarfanhavam os heroicos índios, Clarinha ia deixando aquelas falas inúteis serem anonimizadas. Fez para si uma promessa de Ano Novo: passaria o resto daquele verão – ou se fosse preciso, o ano inteiro – à procura de índios. Índios que, como ela, não traduziriam em caravelas o indizível sentido das marés.

 

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Clarice Lispector, minha

São três horas da manhã. Há cerca de meia hora tive um impulso: precisava fazer café. Foi inescrutável. Meu corpo e meu cérebro clamavam por café. Senti-lo entrar nas células e tornar o planeta mais inteligente. Café faz isso comigo. Sinto-me muito mais atenta às nuances cotidianas do viver.

Não demorou para compreender quem realmente pedia café. Era você. Era você que me obrigava a sentar agora e vociferar o que eu ainda não sei exatamente. É seu aniversário e seu direito. Já bebi tanto das suas palavras!

Começo pelo que mais me perturba, antes de elogiar. Pois prefiro as más notícias, primeiro. Será que consigo também é assim?

Irrita-me profundamente o fato de você não saber ser escritora. Juro, muitas vezes pensei que apenas um fingimento muito bem ensaiado era capaz de aveludar tamanha modéstia.  Depois, lendo, relendo, decifrando, enervo-me mais. Você está sendo sincera e tímida ao assumir que escrever é maldição.

Tenho inveja da sua máquina de escrever. Queria tanto esfolar meus dedos entre as teclas, sangrá-los em versos. Rasgar o papel. Passar a limpo. Rabiscar com a grafia menor margens, esquinas de frase. Ver nascer epifanias translúcidas em um fim de tarde nublado. A escrita virtual não é meramente mais sóbria. É mais comedida, mais burocrática. Deslustre.

Contudo, posso ofertar-lhe alguns ensinamentos que absorvi. Você é a minha grande vereda literária. E eu tenho imensos ciúmes da sua popularidade entre as pessoas. Detesto ver seu lirismo aprisionado à saliva de outros leitores. Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu “A Descoberta do Mundo” – embora tenha absoluta convicção de que não há outro tão surrado, tão vivido e tão amado como o meu. Em frangalhos de tanto uso.

Eu fui salva e submersa por sua loucura. O mundo pode me agasalhar, só porque existiu a sua poesia nas minhas mãos. Certa vez, indignada com a genialidade do “apurar a pureza”, peguei um giz branco – porque a pureza é inexorável giz e inevitavelmente branca – e escrevi na lousa: apurar a pureza clandestina. Isso virou título de texto meu. Mas você, naquele minúsculo parágrafo, na página perdida no meio do livro, você evitou a minha morte. E não conto o porquê, ficará eternamente guardado nas entrelinhas.

Fico feliz que você tenha morrido. As pessoas escrevem muito mal, amada Clarice. Hoje, todos se sentem dignos de autoria. Quando a leio – enganando a mim: somente eu a possuo – penso sempre nisso. Ainda bem que o universo a impediu de presenciar os horrores pseudoliterários que nos cercam.

Muito obrigada por compartilhar seus pecados comigo. E por ter escrito a maior história de suspense de todos os tempos: “A princesa – Noveleta”.

Agradeço-lhe também por desengradar os pudores e as muralhas do pensamento. Pelo exaspero em devorar detalhes. A maestria em repetir as mesmas palavras, dando-lhes infindáveis possibilidades. Pela vida às mesquinhezes austeras. Você transfez meu estrabismo em envernizada visão periférica.

Minha alma também teve problemas com enxertos. E a sua poderosa literatura foi alicerce para encerrar as rejeições. Ao mesmo tempo, quantas peles me foram arrancadas dos lábios, graças a você?

No entanto, houve um grande incômodo no nosso encontro. Quando a vi na televisão fiquei mortalmente compadecida da sua fragilidade. Desliguei a lembrança. A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade.

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O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Por que a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

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Das Purezas Clandestinas

Perdoem-me os inquilinos do Sol, ávidos de manhãs. O relinchar dos pássaros me é alergia. Porque não há nada nas auroras que seja límpido: a claridade espanta cruelmente as purezas da terra. O olhar, quando puro, é sempre acompanhado de escuridão. Os crepúsculos, cavaleiros impiedosos, anunciam que a Majestade se aconchega. Incapaz de ser contaminada pelo brilhantismo mesquinho dos diamantes.

A poesia dificilmente nasce resplandecente. Porque a terra é sempre castanha. Os porões não são senão iluminados por velas. Epifanias são cegas. Essa singela atmosfera primaveril – lugar comum dos sonhos! – é insuportável para as meditações. 

Eu confesso. Prefiro as feridas abertas à espera das crostas. Quando o sangue ainda está vivo percebe-se melhor a dor. Quando a vermelhidão jaz não se pode alcançar a nova pele. Posterga-se o futuro. Encolhe-se a liquidez frente à incerteza do porvir. Contudo, a escolha dos corpos pelas côdeas não é aleatória. Serve de abrigo para a epidérmica purificação clandestina. Revigora as chances de renascer outras carnes.

E é sobre a ilegitimidade da vida que se deve falar. Ah, penosas imigrações solitárias! Quando a boca aprecia, estupefata, o vinho que foi servido em chávena. A morte das uvas só é evidenciada nas faces transparentes dos cálices. Quando ocultado pela porcelana, é irrevogável. Alcoólicas farpas pulsam dentro de nós. A alegria indizível, infantil, daquilo que não nos é permitido.

Ao pular os muros regulamentados, o mundo liberta as matizes da humanidade. Os pecados, a culpa católica! Tudo sendo dissolvido num depurar bastardo. As mais belas vozes são trêmulas, embriagadas. Violadas dos preceitos religiosos. Das convenções, manuais dos errantes, leva-se a certeza das infrações. Os ritos suntuosos só espelham solenes lavagens cerebrais.

Nos segredos tortuosos, nas intimidades sujas, nas coléricas madrugadas fazem-se palavras. A imundície é o verdadeiro palco dos versos. Só esconjurando Deus é possível emancipar-se. A viuvez primeira de se saber fraco. Diligência em saber-se erro. Estar alerta, consentâneo. Descortinado. Insanável, como tudo aquilo que comunga os silêncios.

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Quase

 

Quando eu era pequena tinha um cachorro de plástico com rodinhas e chapéu quadriculado – daqueles que a gente pode fantasiar passeios – chamado Quase. Do Quase eu me lembro nitidamente, como se ele tivesse acompanhado todos os amadureceres ao meu lado. Talvez seja o brinquedo que mais tenha alma de fotografia, dentro da minha memória.

Nos últimos tempos, tenho recordado inúmeras vezes meu Quase. Porque eu, hoje, habito a morada dos quases. E, não sei se por egoísmo ou ontologia, acredito que esse lugar seja o grande limbo da humanidade. O Quase é a casa da deslembrança.

Primo do Quase é o mediano. No entanto, contrário do que se pode pensar – em uma primeira análise – eles são desirmanados. A planície da mediocridade, embora vizinha, não germina os mesmos frutos. Porque o dono da propriedade deita sementes de outras naturezas.

Nas cordilheiras do Quase reside um senhor de relógios. Suas vestes foram carcomidas por amores adiados. Seus dedos têm rugas de mar. E mesmo devastado por tudo aquilo que não foi, o senhor permanece insuspeito, tranquilo, imune.

O senhor de relógios só cultiva coisas demoradas. Há uma vinicultura gigantesca em seu território. Como essas uvas anseiam pela metamorfose! Quantas vezes sonham com a liquidez em garrafas. Mas as brumas gestantes suspendem todos os seus desejos de celeridade.

Os homens e mulheres que convivem nos domínios do Quase são muitos. Alguns demonstram fadiga e envelhecimento. Porque não há camas nos cômodos. O senhor dos relógios não permite que o sono abrande o esgotamento da jornada. Tampouco é permitido sentar-se à beira do lago. O Quase é reino de movimento.

Assim, as janelas ficam escancaradas. Não há distração que não possa entrar. Mágoas maquiam púrpuras olheiras. Desesperos assombram os inquilinos com sopros de eternidade. E amiúdes fracassos deblateram os perigos de almejar.

As semoventes aparições levam as pessoas à loucura com enorme facilidade. E todos os dias eu vejo esquálidas criaturas dizerem adeus ao domicílio do Quase. Com as almas em carne viva, desistem. Emigram, cabisbaixas, para os vales da mediocridade.

Outros encontram-se totalmente anestesiados. Já não andam nem falam. Em pé, permanecem imóveis. São pessoas que aceitaram a tardança. Não têm a mínima intenção de caminhar direção ao cume.

Eu estou aguentando a paralisia do agora. Sei que hoje não avistarei o mundo do ápice. Insone, permaneço. Sem precipitar os devaneios de topo. Não carrego nenhuma pressa. Porque sei que a realização não é casa de ninguém, mas a  efêmera luz que ela deixa apaga todas as demoras.    

 

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Sobre os dentes de leite

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“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda”. Clarice Lispector

 

Eram quase três horas da manhã. Tragávamos o cigarro que religiosamente precede nosso adeus. A conversa, galáctica, já irrompia nebulosas. A fumaça alcançava – braços longos que tem – satélites e órbitas inabitadas. Íamos juntas, enlevadas. Pejadas estávamos, gordas de madruguez:

– Sabe, amiga, eu nunca gostei da multiplicação. Quando estamos multiplicando, na realidade há uma repartição. Tornamos as coisas pequenas. A essência esquece de si, fragmentada em minúsculas parcelas.  

Quanta sabedoria despontava em sua confissão! Fiquei cerca de dois segundos estacionada naquela frase. E respondi, cúmplice que sou:

– É por isso que os únicos providos de alma são os números primos. A eternidade é divisível.  

Imediatamente, ficamos nítidas. As miopias cediam, uma por uma, lugar para os epífanos sentidos. A aterrisagem do olhar primeiro nos permitia navegar águas mais foscas… Dissertamos matematicamente acerca das relações e das suas raízes quadradas. Inserimos cada ser humano na indubitável condição. Só somos repartidos em nossa própria unidade.

Por qual razão, números primos que somos, tão facilmente nos multiplicamos nas relações com os outros? Não há deveras verticalidade nos humanos? Os trilhos não são supostamente  preenchidos em horizontalidade? A harmonia cósmica não reside nos espíritos pensantes?

Seria preciso acender mais um cigarro. O diálogo era, naquele instante, ectoplasma. O simulacro dos relacionamentos mais uma vez tecia os pensamentos. Felino, ronronava entre as ideias, aconchegando-se nas memórias mais longínquas. Cigano, roubava-nos a racionalidade. Por que, meu Deus, por que vivemos constantemente em estressantes movimentos de gangorra?

Quanto mais recordávamos nossos relacionamentos – fossem eles de amor, de amigo ou de escárnio – mais óbvias íamos nos percebendo. Ao revisitar a nós mesmas, nenhuma comunhão oblíqua havia sobrevivido com ternura. Todas estavam trancafiadas em pesadelos, empoeirados conveses da lembrança.

Todavia, nem tudo era carregado de maledicência. Havia também aprazíveis resgates. Às margens dos envolvimentos medíocres, nasciam delicadas reminiscências. Eram devaneios das relações aprendizes. Encharcadas de lepidez, indissolutas, primas. Indivisíveis.

Desvelado o grande mistério, era fácil compreender. Um manancial de descobertas sobrepujava-nos. A clarividência enfim tomava as fumaças e concretizava-se, sincrônica. Como era lindo estar em posse de tão precioso pecúlio!

A felicidade residiu em nós apenas quando estivemos na condição de alunas. Ah, a doçura do desconhecimento! Os náufragos personagens que mereciam morar nos sonhos eram aqueles que acordavam as nossas verdadeiras paixões. O resto, o resto cobria-se inteiramente em sofismas.

Infelizmente, poucos são os homens que revelam-se cândidos. Equivocadamente precisamos nos afirmar em maestria. A ignorância aparece como desvio, estupidez, fraqueza. O que há de errado em reconhecer-se na incompletude? Por que a nossa falta de luz denota tamanha humilhação?

Naquela madrugada, algo fora despertado dentro de mim. Selei, calada, um pacto para toda a minha jornada. Tenaz e silencioso. Quero tudo o que seja decidual. Nada além do que uma vida entre dentes de leite.           

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Porque eu o aceito, Vinícius

 

O amor por entre o verde

                                                                                                                          

Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns 13 anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, 16, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.

 

Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.

 

Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos?

 

E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?

 

É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram.

 

E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas. 

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As Pazes

O ser, quando faz as pazes com a matéria, invade galáxias, conflita com as divindades estupefatas. Não há nenhum entorpecimento mais carnal do que fazer as pazes. E longe da ideia do perdoar. São outras lágrimas de luz que o alagam. O perdão – infelizmente – hoje carrega as cruzes católicas. Tem sangue batido em suas pétalas.

Congraçar-se, por sua vez, nada possui dos confessionários. A penitência é anterior. E já encontra-se paga. Também ultrapassa verbos como desculpar-se. Que humanidade estabeleceu a anulação da culpa? Passado é sempre tatuagem. Apenas o olhar tem direito a óculos.

Ligar-se novamente a algo tem o cordão umbilical em cumplicidade. É a comunhão de dois seres errantes. Sejam eles corpo e alma, pai e filho, namorados, irmãos ou traumas. O enredo da história é o menos importante. É vergonha em parceria, sem dividir a dor pela metade.

Se me perguntassem qual é uma característica puramente humana, eu diria: fazer as pazes. Os bichos e o mundo são mais evoluídos neste aspecto. Uma pedra é passiva frente às ressacas marítimas. Não se angustia, submersa em fúria oceânica. Uma estrela cadente sabe que sua morte é consagração.

Nós, intermitentes dos deuses, perdemos a sabedoria milenar dos astros. Sentimos rancor. Arrancamos cascas de feridas quase cicatrizadas para o cruel derrame sanguíneo. Regurgitamos defeitos alheios. Muito provavelmente aqueles que mais nos assombram.  E temos tanto receio dos heróis! É com intencionalidade que inventamos mentiras, corrosivos que somos. Destruimos uns aos outros, frágeis imitadores das tormentas.

Contudo, é para dar as mãos que a vida vale a pena, novamente. Multiplicar em mil as ofensas e as dividir apenas em duas partes homogêneas. Saber que apenas um cúmplice invade as equipolências. Alcançar a paz é eternamente plural, mesmo que o outro esteja somente nas divinas criações do papel.

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Avessos

Há exatas três semanas ganhei um presente musical. Convidada por uma querida amiga do mestrado, fui prestigiar o talento e a leveza de Ceumar. Infelizmente não foi ontem. Não encontro-me imediatamente posterior àquela noite deliciosa. O olhar tilintou há mais tempo, aveludada ternura. Mas a nitidez da lembrança é hoje. Guardo debaixo de frágeis cadeados de brinquedo. E reservo o deleite com lentes do agora. Porque o momento é vívido hoje.

Sentamo-nos tímidas, minha amiga e eu, na multidão de fantasmas silenciosos. Confesso, apesar da inelutável melancolia do vazio, embriaguei-me com goles de orgulho, por fazer parte daquela pequenina plateia.

Foram algumas horas, apenas. Um enxerto na alma, diria. Mais os olhos meio verde-amarelo, a aura azul. Um transbordamento de estrelas formigantes. O corpo todo cheio de gratidão.

A voz dela enlevada pelo timbre dos risos. Íntima, seu enredo cobria-nos de pijamas perfumados em tangerina. “Conta suas histórias!” – dizia o público, abobadado em doçura. “Canta a nós sobre os rabos de cometa”.  Éramos sábios hedonistas a saboreá-la.

E veio a canção inesperada: “Por isso deixo aqui meu endereço, se você me procurar eu apareço. Se você me encontrar, te reconheço”. A letra, da poeta Alice Ruiz, é fruto de um mapa astral. Ela reconheceu a cantora em seu avesso cósmico. Ceumar explica, pois, em pureza de vagalume: muitos já se apropriaram da música, acreditando tratar-se de amor. E depois, sem intervalo, acha graça.

Desvanesci naqueles segundos. Porque minha obviedade já tinha tomado aquelas notas também. Era a banda sonora mais perfeita para definir a cumplicidade que carrego aqui dentro. Envergonhei-me, enfim, pelo sutil desdém que foi soprado. No entanto, como a perseverança é senhora em mim, não pude deixar para trás os devaneios.

O amor não dá certo em seu complementar. Em quase todos os casos, torna-se patológico. É uma grande heresia acreditar que os opostos vivem felizes para sempre. As extremidades são grandes estátuas, quando a Sincronicidade brinca com seus caminhos. O avesso, pelo contrário, é feito da mesma estampa.

Amar alguém é avesso de mim. Um dos dois precisa carregar uma felicidade insuportável dentro de si, que transborda e nos afoga com ela. Eu, todavia, sou das lágrimas. Tenho apreço por águas mais salgadas. Sou náufraga de um périplo menos colorido. Prefiro quando não dá pé.

O meu amor não poderia estar nos rios ou cachoeiras. Preciso dele perto, a tecer enormes castelos de areia. Sempre na praia, agasalhado por sonhos primaveris. Um amor que invente personagens com plumas e que odeie a morbidez fria. Eu sou toda voragem. Acredito piamente na lucidez das sombras.

Prefiro as madrugadas. Meu avesso necessita ser súdito do Dia. Só que, entre o céu e o mar, somos cúmplices. Desertamos as grandes fortunas. Abdicamos os feudos. Imensos desfiladeiros abrem-se para mim, a cada noite em que ele me deixa seu endereço.

Queremos muito espaço para divagar sobre cavalos alados. Por isso convidamos alguns peixes. Eles embarcam nossas sintonias pelos mares. Uma elite de entidades foi convocada para levar nossos recados. É engraçado isso – só o avesso tem telepatia.

Poderia passar horas infindas justificando meu ponto de vista. Mas aprendi com meu amor a guardar. Não sublimar ou neglicenciar. É simplesmente arcano.

Silencio nossos segredos. Contudo, maravilhada com a ideia de avesso. Esse amor, outro lado, trouxe a urgência dos versos de volta para mim. Como é linda a simplicidade do tecido! Porque eu era sonâmbula antes dele. Reverberava sonos que não recolhiam.

A voz de Ceumar estava, por fim, errada. As minhas fantasias estavam com as costuras expostas. (em algum momento de 2008)

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Paciente fui eu

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Socorro tem cinquenta e poucos anos. É preta. Pobre. Chega quase a ostentar o sofrimento através de suas rugas. Nascida em um manicômio judiciário, pouco sabe de sua mãe. Pouco mais que nada. Foi adotada aos seis meses de vida por um casal que trabalhava no depósito de loucos.

Lembra-se muito pouco de sua infância. Seu pai morreu quando ela era bem menina. Sua mãe na pré-adolescência. De sua família sobraram os irmãos. Eles a acolheram por não terem outra alternativa. Um de seus cunhados a tratava carinhosamente por ‘negão’. Criaram-na como se criam os velhos – assim sem paciência, contando os minutos para que a vida se encarregue da última possibilidade de todos os mortais.

Aos vinte e seis, Socorro tentou contra sua existência. Errou na dose. Fracassou. Por volta dos quarenta viu a si mesma como portadora de hepatite C. Qual não seria a ironia se ela nunca pudesse saber onde a teria pegado? Será que a doença veio como alimento, através de seu cordão umbilical? De que importa a memória? Ela já estava acostumada com o esquecimento.

Aos cinquenta sua alma pediu as contas. Socorro destruiu impiedosamente sua morada. Arrancou o carpete e as cortinas. Rasgou suas roupas e as defenestrou. Destruiu seus colares de miçanga com ódio. Cortou os fios de telefone. Qual contato poderia ela ter com esse mundo exterior?

Ah, tanta bipolaridade pôde ser vista em sua possessão!!!

Socorro contou sua história para muitos. Era impossível não se comover com tamanha tragédia. No entanto, a tragédia jamais a ajudou ou lhe deu abrigo. Talvez não fosse esse o caminho a ser percorrido.

Socorro tem cinquenta e poucos anos. Está sempre maquiada. Cortou os cabelos sarará. Outro dia estava investigando qual problema Deus teria com tatuagens. Não o encontrou e decidiu gravar em sua pele a marca do seu segundo nascimento.

Afugentou, a duras penas, os fantasmas que rodeavam sua casa. Socorro, aliás, mudou-se. Não de endereço propriamente dito, mas de olhar. Agora ela se encontra numa bela mansão, grávida de sonhos. Cinquenta e poucos.

Há um mês sentiu saudade pela primeira vez. Foi lindo, segundo ela. Uma escova de cabelo, uma laje na Lapa, bela vista da cidade. Os olhos encontraram a salgada lembrança. Não pela primeira, mas um dos poucos instantes marejados. Sorriu.

Hoje Socorro descobriu que foi o orgulho que lhe possibilitou a sobrevivência. Que milagre essa vida, diz ela. Percebeu que as lágrimas guardadas, a nunca-saudade, os cacos apenas pelo lado de dentro a tornaram capaz de continuar. Ficou maravilhada! O passado deixou de ser imutável. As dívidas consigo mesma vão, pouco a pouco, sendo quitadas. Quantas lembranças ainda não preparam seus lábios?

Lei tem cerca de mil anos. Branco, olhos verdes. Família gigante. Feliz. Sua vida nada teve, tem ou terá a ver com a de Socorro. Provavelmente ele nunca encontrará no sorriso dela, familiaridade. Uma pena.

Estranhamente, a luminosidade de sua boca foi reconhecida hoje. A mesma luz de mil anos foi acesa novamente. Outro corpo. Outra história. Essa vontade de ser feliz, essa simplicidade apenas destinada aos sábios. É inebriante.

Hoje, ao ouvir Socorro contar meninices dos cinquenta, lembrei. A sala foi invadida por milhares de átomos com gosto de mexerica. Fiquei inerte.

E a poesia, como acontece sempre, obrigou meus dedos a agradecê-los. Era uma questão de vida e morte manifestar minha gratidão. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Eu, com meus vinte anos. Provavelmente na primeira existência – as linhas são fracas na minha palma da mão.

E eu, hoje, envelheci. Toquei meus dedos na doçura dos mil e dos cinquenta. Estou suspensa na divindade dos sorrisos. Perplexa, decidi. Quero muito ser feliz.

PS: Socorro é um nome fictício. Lei não.

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Cortinas Encarnadas

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Nunca fiquei espantada com a transformação das pessoas. Parece-me até um movimento óbvio. O amor modifica, a convivência nos torna realmente parecidos. Não é à toa que mulheres cúmplices derramam o sangue da vida na mesma semana.

John Lennon, pós Yoko, virou japonês. A minha vizinha é exatamente igual ao seu basset: gorducha, ruiva, pelo curto. Manoel de Barros carrega o misticismo das abelhas. Minha mãe herdou a obsessão por refeições que outrora foi vício da minha avó.

Eu sinto-me mais verde, desde que o amor nasceu nas minhas palavras. É quase instantâneo o movimento de fidelidade canina que me envolve. Estou mais doce, mais tenra. Meu espírito é celeuma de marinheiro, canto decorado com tatuagem. Óbvia me é esta ideia – as pessoas podem consagrar gélidas montanhas.

Entretanto nunca ouvi falar em fagocitose de lugar. Nem nas leituras poéticas mais atentas, nem na nobreza acadêmica. E julgo ser uma descoberta só minha – e agora do planeta! Nós nos tornamos essencialmente parceiros dos sítios nos quais despendemos nossas horas. Como as paredes podem dizer de nós mesmos!

Essa epifania tola veio através dos devaneios solitários que vivo no trabalho. Como estão escancaradas as grandes descobertas, em pequenas algibeiras do sonhar! Como o espelho demonstra a irmandade silenciosa. Quanta burrice a minha, de jamais ter dado conta desse fenômeno manifesto.

Para desanuviar as incógnitas, trabalho em um lindo cinema. Está situado no coração da Avenida Liberdade, aorta de Lisboa. Chego por volta das dez, quando nem os fantasmas estão de pé. Faço toda a burocracia, como se pelas mãos eu fosse a regente da renascente orquestra. Durante seis dias da semana sou capaz de ressuscitar uma sala digna de realeza.

Passo mais ou menos três horas sem ter ninguém para conversar. Encontro-me desprovida de clientes, de tarefas, de limites. Às vezes invento mesmo: limpar a varanda, contar os cálices intactos, investigar qual máquina faz o melhor café…

O Cinema São Jorge é realmente digno de Cinema. Sala imensa, quase mil lugares. Iluminação com cheiro de saudade. O banheiro abriga um camarim. Tudo, absolutamente tudo me olha grande. Toda uma decadência gloriosa me habita, nesses instantes. Aquilo que foi, aquele glorioso passado! Eu me absorvo – porque o cinema já sou eu. Fico inerte pelas cortinas labirínticas da década de 50. Será que há o poder de transfigurar o enredo? É possível ser eu o maestro das sinfonias imaginadas?

Sei que é muito mais difícil descrever do que sentir. Mais o compartilhar me é objetivo maior, nessa vida. E eu lhes digo: como parecemos com os lugares onde desenrolamos nossas horas!

Isto é aviso e é literatura. Não tenho intenção – apologia grotesca. Eu apenas estou a dissertar sobre obviedades do meu coração. Eu sei que me comporto, por  osmose ou preguiça, exatamente igual ao lugar onde permaneço oito horas do meu dia. Eu sou quem abriga faxineiras que fingem trabalhar, embora não haja muito o que ser limpo. Eu incorporo a tristeza, esse vazio fantasmagórico, essa solidão desmesurada. Eu, habitante do meu lugar, sinto as marcas, as nódoas. Estou manchada pela potencialidade que carrego.

Como nos é perigoso reter os emudecidos líquidos! Se não existir uma consciência plena do que se é incorporado, a confluência vira realidade. Um pensamento estúpido é convidado a acampar em nossas divagações.

Desde que descobri esse gesto da minha alma, tomo muito cuidado. Enfeito o salão com vestidos de gala. Pinto as mesas com luvas de seda. Jogo paletós, chapéus e gravatas pela varanda. Uso com muita dificuldade toda a minha capacidade infantil de imaginar.

Em apenas um instante, todas as luzes estão acesas. Loto o balcão de doces castiçais. Os lustres só precisam de um sentimento vivo para acordarem. Fico imensamente feliz: só os fenomenólogos são capazes de cavalgar impunemente pelos passados, alterando a sua antiga nitidez.

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