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Às avessas

 

“Para além das ideias de certo e errado existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”  Rumi

 

Esta noite sonhei com alguém que fez parte do meu convívio íntimo por anos. Eu e ele,  apesar de vivermos próximos, nunca nos aturamos. No sonho havia uma estrada repleta de buracos e desfiladeiros. Eu conduzia a partir do banco de trás, com dificuldade, desviando do perigo. Um caminhão, desgovernado, ultrapassava-me e capotava, logo a seguir. Parei, aturdida. Meu desafeto saia da mata, inconformado com a cena grotesca. Reconhecíamo-nos, pois, a assistir os destroços do veículo. Ele me abraçava, chorando. Juntos, buscamos socorrer os passageiros. Não havia ninguém.

Olhei-o nos olhos e o questionei, mentalmente: “por qual razão sempre foste tão duro comigo?” Ele, desamparado, respondeu, também em silêncio: “porque jamais tolerei a tua capacidade de ser frágil.”

Acordei aliviada, a sentir uma reparação, vinda do Universo.

Acolheria-o, se pudesse, imediatamente no meu colo, afagaria seus cabelos, conectar-me-ia com a sua dor. Eu não sou uma pessoa rancorosa.

Ao descobrir o livro de Marshall Rosenberg, Comunicação Não Violenta, tive o ímpeto de pedir perdão a todos os seres humanos com os quais convivi. Pai, mãe, irmãos, amigos de infância, ex-namorados, colegas de trabalho. Para alguns pude enviar pequenos textos. Para outros enviei mensagens através das meditações. Contudo, jamais tive a coragem de escrever para a personagem do sonho. Foi uma profunda libertação cármica.

Sei que posso parecer arrogante, superior, ao declarar isso. Mas é o inverso. Sou imensamente falha com os meus. Inúmeras vezes fui ingrata com aqueles que mais amo. Sinto que, com eles, posso errar.

Talvez a linguagem seja o maior paradoxo humano.

A palavra é o amor mais doloroso da minha vida. Nasci, sem a menor possibilidade de escolher, em uma família literária. Em nenhum momento tive chance com os lápis de cor, telas, instrumentos musicais.

A escrita foi-me, desde menina, a maior de todas as libertações. Não sei falar, posso escrever. Não sei pedir perdão, posso escrever. Não sei amar, posso escrever.

Escrever em uma tempestade, encostada no caixote do lixo. Escrever, com a caneta violeta e cheirosa, no papel de carta. Escrever um bilhete no caderno rasurado. Escrever antes de viver, escrever acima do vivido, escrever para seduzir o interlocutor. Escrever.

No nascimento da minha irmã: escrevi. Ao perder meu namorado, na oitava série, escrevi. Para dominar o pavor que sentia, escrevi. Sinto que não existo, desprovida dessas armas sutis, escritas.

Por que as confissões, não escritas, parecem tão laboriosas?

Dizem que há um outro planeta, muito semelhante à Terra, onde são todos telepatas.

E se fôssemos todos telepatas? O que aconteceria com nossas relações, caso os outros soubessem verdadeiramente o que se passa dentro de nossas mentes vis? O que aconteceria com a literatura?

A comunicação, quando afastada da vulnerabilidade, leva-nos à violência. Somos treinados, desde crianças, a esconder nossos desejos, a travestir nossas carências, a ocultar as fraquezas. Entanto, há mais magia em sermos incompletos. E a poesia nos devolve esse sentimento. A poesia livra-nos da sordidez.

Hoje, ao acordar, mentalizei esse ser humano que fez parte da minha existência. Essa pessoa que eu julguei ter-me feito mal. E a ele pedi perdão. E a mim também. Libertei-me dessas memórias não afetivas. Espero que um dia possamos nos encontrar, em absoluta fragilidade, no mundo invertido.

Quem sabe, em uma manhã de outono, acordarei desarmada, telepática.

Enquanto isso vou enfrentar a realidade com poesia, escrever delírios, revisitar meus fantasmas no porvir.

 

Dedico este texto ao meu querido amigo Adriano Toloza, aquele me ensinou a olhar para os paradoxos com afeto.

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Neon

Neon

Ele devia ter uns oito anos. Eu, uns três. A gente assistia, de forma ininterrupta,  História sem Fim. Eu era completamente apaixonada por aquele menino. Ficava a imaginar que era meu Atreyu.

Não sei quando percebi que ele era anão. Minha excêntrica memória não me permite acessar essa descoberta. Desde então, tenho uma profunda admiração por anões. Virou quase um fetiche, quando me deparei com a volúpia que contorna Peter Dinklage, o Tyrion Lannister.

Eu contava essa história a dois amigos de infância de uma amiga querida, aqui no mundo invertido. Estávamos em um restaurante, ao pé da Sé, conhecido pelas amêijoas à Bulhão Pato e seus garçons piadistas. Nenhum tio do pavê se sentiria tão humilhado, nesse dia, se ouvisse a comédia de erros a qual assistimos. Piada ruim vira a maior piada do mundo, se a companhia é certeira.

Já saímos um pouco embriagados e, acima de tudo, atordoados pela infinitude que cercava o cérebro daqueles garçons, incansáveis em encontrar o cúmulo dos absurdos. Era a final da Libertadores e todos os nossos corações já sabiam da alegria que nos viria encontrar, em algumas horas.

Fomos descendo, agradecendo o existir ao cruzar o miradouro das Portas do Sol. As cores mudavam, a cada tocar dos sinos, entre amarelos, azuis improváveis e encarnados divinais. O céu dessa cidade está além de todas as psicodelias.

Na encruzilhada da Mouraria, ao fim da rua dos Cavaleiros, avistamos uma personagem absolutamente surreal, frente às conversas de antes: uma anã com um colete fosforescente.

Ali é um sítio conhecido por circulação de entorpecentes e prostituição. Um contraste com a Lisboa betinha, cafona, rica. Esta é uma junta de freguesia de imigrantes, miscigenações, conflitos.

A anã, bravíssima, orgulhosa e nem um pouco discreta, pulava por cima dos carros para verificar possíveis ações policiais ou eventuais clientes. Eu fiquei extasiada em ver a cena. Parecia que os deuses – que me conhecem muito bem – presentearam-me com uns takes de Fellini.

O Flamengo foi campeão. Pensei no meu tio, que foi médico deles e recebeu uma homenagem quando deixou esse plano. Chorei litros, com algumas esperanças renovadas em ser humana. Tivemos uma noite inenarrável.

Entanto, eu jamais me esqueci da anã, dona da boca. Era uma das materializações mais incríveis do mundo invertido. Assim, sempre que podia, passava pelo seu ponto, à espera de encontrá-la novamente.

Eu não sou jornalista, mas filha deles. Há qualquer cousa que clama pela investigação, dentro da minh’alma.

Foi então que, em uma despedida de visitas, a última ceia lisboeta deles, descemos as ruas da Graça, para almoçar no chinês clandestino que toda a gente conhece. Poderia ser mais uma anedota invertida. Eu contei a história da mulher que era a rainha daquela zona, soberana.

Disfarçada com o colete neon, lá estava ela. A orquestrar aquela gente toda. A entrar nas lojas e confiscar guarda-chuvas, meias ou qualquer utensílio que lhe apetecesse. Ela é a rainha e, como é óbvio, não paga por isso. Percebi seu olhar, cuidadoso.

Do outro lado da rua, melancólica e indecisa, pousada na parede triste da esquina, havia uma travesti de moletom.

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“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

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Erros de continuidade

estela

“A noite era cheia daquelas pequenas nuvens muito brancas, que se destacam umas das outras. Vista através de uma ou outra delas, a Lua tinha em seu torno um halo azul, castanho e amarelo, com uns tons supostos de verde-vivo. Entre as árvores o céu era dum azul-negro profundíssimo, longínquo, irrevogável. As estrelas viam-se ora através das nuvens, ora, muito longe, mas entre elas. Uma saudade de coisas idas, de grandes passados da alma, talvez porque em reencarnações antigas, olhos nossos, no corpo físico, houvesse visto, este luar sobre florestas longínquas, quando selvática ainda, a alma infanta talvez pressentia, por uma memória em Deus ao contrário, no futuro das suas reencarnações, esta lua retrospectiva. E assim essas duas luas davam mãos de sombra por sobre a minha cabeça abatida.”

Bernardo Soares / Fernando Pessoa.

Não faz muito tempo que minha melhor amiga veio me confidenciar o sonho fenomenológico que teve, dias após ser mãe. Ela conversava na varanda de uma fazenda com meu pai – aquele ser digno de desdenhar os bestiários de Cortázar – em noite de lua cheia.

Talvez ele seja a pessoa mais capaz de transformar o realismo fantástico em verdade, no piscar de uma galáxia. Até consigo ouvir sua voz, naquela noite em que não sonhei, naquela pele onde nunca vivi.

Meu pai, em seu enredo, alertava-a sobre o famoso erro de continuidade, de um filme irretocável. Sua epifania, ao despertar, habitava os domínios extraordinários do óbvio: a maternidade não poderia abrigar tais descuidos.

Pensei, embasbacada, apaziguando meus silêncios em sortilégios: e se o maior erro de continuidade fosse minha própria existência? Estaria eu blasfemando a memória de todas as mulheres que caminharam até minha íris? Seria o momento de interromper essa escravidão cardíaca das estrelas, agora?

E se formos, todos nós, erros de continuidade, insistentes numa redenção impossível, delirantes com a vergonhosa liberdade? Suplicamos, a vida toda, por magos que sobrevoem as biografias, espalhando os famosos goles de velhice?

Aquela conversa, indecifrável, fez-me indagar acerca da minha ancestralidade. Por que, meu Deus, havia tanta fertilidade nos nossos dilúvios?

Herdamos os planos enclausurados, as cartas de amor seculares, uma linhagem de poetas. Contudo, ainda assobiamos as canções milenares, em madrugadas de festa? O café sempre cheira a saudade? Estaremos luminosas, quando a solidão cair do céu?

Pergunto a essas mulheres que me traçam o espírito: qual o peso que se dá entre o escuro e o entardecer? Quais revoluções intrínsecas devo lutar? No dinheiro que sobrar para a viagem: quais parentes visitar? Quantas são as fragilidades que me encontro autorizada a convidar, quando vir uma alma em frangalhos?

Ah, fardo irremediável da delicadeza!

Só peço, em vertigem anciã, às amadas que navegam pelo meu sangue: preservem-me alguma sanidade. Há mais dor no instante que precede o despertar do machucado. Acho que nenhuma dor dói, desde que não seja incomodada.

E reitero, enfim: nunca se esqueçam da minha devoção às palavras. Pois aprendi que não se morre de amor; morre-se de cachaça. Quando ideias se tornam interiores, esqueço-as como moedas. Um dia reencontro-me com elas, em lugares inusitados. A mim, sobram-me os caminhos, que perco tanto quanto canetas. Só que as canetas me fazem mais falta do que as estradas. As canetas são avós do futuro.

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Em lugar algum, o amor

praca-por-do-sol

Eu andava, atordoada, desde o momento em que foi me proposto: pense nos dois lugares que você mais ama em São Paulo. A pergunta ainda me parecia indissolúvel, dias depois de ter sido enfrentada. Não amo lugar algum em São Paulo.

Contudo, havia o desafio de conectar dois pontos da cidade, amados por outrem. Decidi começar pelo Theatro Municipal para finalizar meu trajeto na Praça do Pôr-do-Sol, ao lado de casa.

É curioso que havia estado no Municipal, na sexta anterior, para assistir La Bohème, de Puccini. Em menos de uma semana eu reencontrava o lugar inevitável da infância, onde disse à minha mãe: ‘isso aqui é mais bonito que o Natal’. Sendo obviamente lindo, eu não amo o Municipal. Não amo lugar algum em São Paulo.

O sol e a tarde nublam a beleza do teatro. À noite, os smokings e os xales escravizam o olhar. Perdemos, assim, os craqueiros e os mendigos. Esquecemos o cheiro incompreensível de existir.

Saí, rapidamente, com medo e desesperança. A mim, agora, o palco verdadeiramente se assemelha ao Natal. Peguei o República, rumo à Faria Lima.

O metrô, limpíssimo, incomoda-me a escrita. A imundície já estava entranhada nos dedos. Saí, fone nos ouvidos, ignorando a presença dos salvadores de culpas, que vendem, por trinta reais, o futuro de uma criança africana. Não, nem a África, nem os médicos sem fronteiras, fazem-me amar lugar algum em São Paulo.

Apanho o 875C com Cortázar na mão. A “Autoestrada do Sul” é um conto de fadas perto do caos que pincela a avenida em vermelho, buzina e monóxido de carbono.

Lotado, o ônibus não me permitia captar os personagens, históricos. Segura a bolsa, a bunda, a dignidade. Quando, finalmente, consegui sentar-me, uma voz interrompeu minha linearidade. A velhinha distinta reclamava das passeatas que aconteciam por ali. E eu, quase deprimida, só tinha vontade de lhe dizer: não amo lugar algum em São Paulo.

Por que não amo lugar algum em São Paulo? Penso na Paulista do Gudin: “se a avenida exilou seus casarões, quem reconstruiria nossas ilusões? ” Quase faz frio por aqui. A Praça do Pôr-do-Sol, ainda bem, está repleta de nuvens. Jamais suportaria que minha investigação fosse interditada pelos abraçadores de árvores.

Cerveja na mão e baseado no maço, vejo a discrepância entre os lugares amados por meus colegas de literatura. No alto de Pinheiros um casal se amassa entre os troncos. Ah, nostalgia do amor obrigatoriamente público! Uma menina sozinha bebe Gatorade. É careta, certeza. Vai-se embora. Outra ocupa seu lugar. Pede uma seda. Essa é espertinha, né? Não amo, mesmo, lugar algum em São Paulo.

A Praça do Pôr-do-Sol é ridícula. Há resquícios de fogueira. Um homem faz, em pseudo-silêncio, aulas de Tai-Chi. O violeiro, estereótipo do hippie, toca Coldplay ao invés de Raul. Não há como amar lugar algum em São Paulo.

Fico com medo. Sou mulher, estou de vestido, meia calça, anoiteceu. Só desejo acabar essa crônica em casa. A salvo. Espero, uma vez mais, pelo transporte público. Todavia, quando o destino chega, o cigarro ainda está aceso. Vou dar mais cinco minutos, sentada aqui, exercendo meu jornalismo literário.

E eis que surge um novo 875C. Entro, ainda chateada por não ter cumprido a tarefa de amar São Paulo. Olho para a cadeira vazia. Cadê o cobrador? Serei paciente? Causarei? Desconto nele meu desamor? Onde esse filho da puta se enfiou?

Olho, novamente, para a frente do ônibus. Um cara, alto, gato, brinca com duas menininhas que estão no vão. A mãe, quase anã, tira o elástico do cabelo. Escolhe o sorriso mais bonito como se escolhesse uma roupa, em noite de premiação. Só me restam duas estações. Ele mostra, orgulhoso, o crachá de cobrador. As crianças dão risada. A mãe faz topete com as mechas alisadas.

O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum. “O homem e a hora são um só”, já dizia o sábio Pessoa, em pele de Bernardo Soares.

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Ensaios sobre o porvir

I.

Agora, sentada nesse quarto que não me pertence, com a chuva redundante de verão, teimando em atrapalhar a música, pergunto-me, desesperançosa: como teria sido a minha vida ao teu lado. Será que ainda seríamos felizes, hoje? Ficaste no patamar onírico do impossível, na memória doce do porvir, nos sonhos infantes do amor inesgotável.

Agora, quando o cheiro de finitude das velas invade as reminiscências de nós dois, coloco-me à disposição do Universo para receber as respostas que estão enclausuradas há tantos anos na minha carne. Existe algum pedaço de vida que nos é amputado, pelas escolhas que fazemos?

Com os olhos inchados de tamanha realidade, sinto-me pequena, frente àquilo que não vivemos nós. De todas as dores, esta, mais clichê, é a que mais dilacera uma alma bipolar: o lado que sonha.

Permaneço, nestas horas insones, a flutuar sobre o que não fomos. Ah, se tivesse perdido aquele voo! Ah, se minha alma não fosse tão cruel! Ah, como pude suportar as tuas lágrimas, no táxi que separaria nosso destino para sempre?

Tu sofreste a minha partida tão antes…. Eu sofro a minha chegada, neste instante. Separados, em séculos de espera. Será que existe, nesse mundo, amor em compasso? Ou o amor só resiste aos relógios desconexos, ausentes de plenitude?

Sinto saudade da tua incompletude. De te ensinar o óbvio e ver teus olhos azuis a agigantar epifanias. Sinto falta de falarmos línguas estranhas. Queria reconhecer cada fio de cabelo branco, e ralo, que envaidece a tua cabeça. Desejava colocar-te, uma vez mais, em minhas pernas, e te contar que o teu passado aumenta meu futuro. Almejava ter te visto envelhecer em cada ruga.

De tantos anos e tantas tempestades, é só agora, amado, que minha miopia se foi embora. Dói-me viver sem ter-te tido. Desola-me pensar-te distante desse cais. Que a vida possa-me trazer-te, em ondas, nem que seja por outros mares.

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2015

Cabodaroca.jpg

Seria uma enorme injustiça comigo mesma se colocasse o ano de 2015 como o pior de toda a minha existência. Agora, ao olhá-lo com distanciamento e sem vaidade, sei que esse ínfimo pedaço de tempo me serviu. Alertou-me em todos os ossos. E mostrou a mim as faces do improvável.

Um ano que começou com promessas à Literatura. Fui selecionada para integrar a equipe de pessoas que mudam o mundo, pelo amor às palavras. Em meados de abril minha alma vibrava pelos holofotes que vinham em formato corporativo.

Já em junho pude viver o sonho mais bonito que se transformou em realidade: voltar à Portugal, travestida de trabalho e fé. Sem inferioridades de ser brasileira. Em Lisboa pensei num belo texto. Escrevi-me em pedaços, ao retornar à Babilônia.

Em 2015 tomei o Ayahuasca pela primeira vez. Visitei mistérios dos quais não me senti benvinda. Fui à Bahia e por lá chorei. Senti-me plena e desamparada. Pousei, desiludida, no Rio de Janeiro, onde pude vivenciar um grande amor por ensinar pessoas com talento para perguntas. Perdi minha capacidade de responder, contundentemente, tantas questões que me foram feitas. Estudei para sanar meu desconhecimento.

Conheci o menino que me parecia fútil, mas que me amou pelo meu amor por Fernando Pessoa. Segurei um surto de uma amiga querida, mesmo sem ter forças para sustentar minha própria loucura. Chorei ao desbravar o Príncipe Real, com a ausência de surpresas. Irónico destino, levou-me à sincronicidade. Tive nojo de ser mulher. Tive nojo de ser brasileira. Tive nojo de sentir essas duas coisas juntas. Rompi com um amigo muito amado.

Tentei fugir da dor que despertava, todas as vezes em que encontrava minha infância no hospital. Busquei ser mais espiritualizada, para ajudar a alma a tolerar os desígnios terrestres. A insônia deteve minha mediunidade.

Busquei reinventar-me, sem sucesso, na triste ingenuidade de que o amor precisa viver para sempre. Elaborei melancolias racionalizadas. Fui motivo de chacota.

Pude mostrar à minha mãe quais eram os meus lugares preferidos. Fui borboleta em Lisboa. O desmascaramento de mim trouxe-me questionamentos indeléveis.

Reconheci outra face em Berlim, onde fui feliz. Dormi inúmeras noites no sofá, à procura daquilo que não existia mais. Sofri madrugadas em silêncio, sem ter uma escrivaninha para me debruçar.

Bebi por multidões que se calaram. Machuquei pessoas que me amavam. Fumei cigarros que não se fariam precisos.

Degustei conversas perfeitas. Estraguei jantares e vernissages. Ensinei alguns a lidar com as diferenças. Ganhei presentes por ser profunda demais e muitos feedbacks negativos por ser assim. Espalhei uma música do Arnaldo Antunes. Fui feliz nesse dia.

Convidaram-me para ser madrinha da menina que já me era sonhada. Perdi meu cachorro e minha casa. Estou à espera da próxima. Percebi que São Paulo não me faz mais sentido. Fui borboleta em Lisboa. E lá sou feliz.

Ainda não busquei meus cacos, espalhados numa mangueira que tem nome de gente grande. Tenho medo de ter perdido anos e anos da minha existência pequena. Mas, acima de tudo, seja em 2015, em 2006, e desde que me conheço por gente, há a convicção de que fui poeta, em cada segundo, em cada atalho, em cada porre. Poesia, amada, és a minha única certeza desse ano que tanto me doeu.

 

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