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Das saudades platônicas

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“Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não o deixa.” Herberto Helder

A infância é um lápis que desapontei pelo caminho. Será que já estava, naquelas décadas atrás, a colecionar, instantes primeiros, toda essa poesia que há no mundo?

Ouvia, nos corredores da livraria, àquelas personagens que se debruçariam em meus dedos, anos depois? A meninice seria apenas uma insídia – brincadeira de mau gosto – quando me tornei poeta?

Ah, felicidade indubitável de abraçar os livros! A sensação extraordinária de investigar os velhos escritores, a mentir os fatos, a assinar literatura, em realismo mágico. Travestidos de conversas.

Quando rebobino a mim mesma, hoje, sinto que existia qualquer coisa de triste. Percebo que não me satisfazia com a realidade, desde sempre. A madrugada já me tinha mais coragem. As palavras faziam cócegas – maldição abençoada.

A poesia estava ali, à minha espera, na esquina de casa, quando voltei da maternidade. Rua Morgado de Mateus. Só que a arte é muito lenta e os olhos demoram para entender a miopia que trazem os versos, no cansaço dos séculos.

Neste momento, dou-me conta de toda a servidão que se alastrava no horizonte, no dia em que vim a esse mundo. “Estás condenada à poesia!”

Contudo, esta semana, ouvi do grande poeta Carlos Felipe Moisés, que a poesia é resistência. Que ninguém nasce e elege poesia como fonte de felicidade. É indispensável a luta, para se lambuzar do universo. É necessário ter persistência, obstinação e teimosia. Loucura.

Talvez eu soubesse, criança, minhas inclinações escandalosas. Só aprendi, alhures, que toda saudade é fruto do imponderável. Basta sonhar para encontrar o Olimpo, e suas sombras. Seria, enfim, toda saudade, platônica?

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À memória de Manoel, o eterno

Mia_Manoel

UM ABRAÇO PARA MANOEL

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.

Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.

E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.

E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.

MIA COUTO
19-12-2013

 

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.

Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski — seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros

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O delírio das assinaturas

 

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O que a noite me ensinou, sobre todas as coisas, pode ser traduzido na meditação desesperada dos silêncios. Estes instantes de exílio poético, em que as clausuras do amanhã não se sobrepõem às eternidades imaginadas.

Sempre precisei das madrugadas para dar início a uma carta, uma leitura profunda, uma mudez escancarada em quimeras. Manhãs nunca me foram testemunhas dos sonhares.

Por que será que as vísceras só se abrem nessas horas? Quais reinos são libertos, na escuridão dos antigos murmúrios? “Meu coração é um albergue aberto toda a noite”, sussurra Pessoa.

Contudo, uma vez proferidas, as palavras se despedem para habitar outras íris, outras mãos, outros pensamentos. E eu poucas vezes me percebi, anoitecendo minha alma na memória de narrativas alheias.

Nas últimas semanas, fui revisitar-me em duas ocasiões, em sincronia cósmica. Uma velha amiga me agradeceu pelo livro que a presenteei, em seu aniversário de vinte anos. Foram algumas poucas frases para que pudesse trazer à mente todos os desejos pueris que envolviam aquela data. E o coração pode celebrar, sem fantasias, a grandeza de ser repertório da existência dela, ainda que o hoje já não abrigasse nossos caminhos. Ontem fui imprescindível para aquela pessoa.

“Escrevemos cada vez mais para um mundo cada vez menos”, ensinou-me, tardiamente, Alberto da Cunha Melo. Essa melancolia arque(típica), quase inoportuna, quase clichê que apavora o destino de todos os escribas.

O mais importante, todavia, veio de um saudoso amigo da adolescência, por quem nutri muito carinho e admiração – na primeira metade de mim. Ele me confessou, com ternura juvenil, que eu havia escrito uma das cartas mais bonitas de toda a sua vida.

Meu coração, o albergue, sofreu um dilúvio imediato. Recordei todos os sentimentos que me avassalavam naquela época: dores infinitas, a solitude do não pertencimento, a recusa à obediência. Depois, fui encharcada por um orgulho sem nome, uma alegria além dos versos. Era a minha carne de menina, em papel e tinta, morando na alteridade.

Um pedaço meu guardado pelo tempo, expatriado da minha lembrança. De quem seriam aquelas declarações? Por quais estradas com ele estive, nesses anos todos? Quais seriam as inúteis revelações? De onde nasceram essas sagradas cicatrizes que eu havia cometido?

O fundamental daquele fenômeno, pois, não residia nos lugares comuns que eu provavelmente utilizei, tampouco o conteúdo de uma carta, ridícula. Os fatos eram apenas o preâmbulo de algo essencial: só me comunico através da escrita, verdadeiramente. Se amei, amo ou amarei alguém, nesta encarnação, necessito das palavras para elaborar as sensações. Só peço desculpas quando incorporada em literatura.

Não há memória que atinja, em igual beleza, uma superfície perfumada, com firma reconhecida. E isto constitui o maior fardo e o maior dom que alguém pode carregar. Todas as verdades só existem antigamente, quando a coragem legitimou o delírio de uma assinatura.

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