Arquivo do mês: agosto 2013

Os antigos futuros

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As letras me deixaram órfã aos quinze anos de idade. Naquela altura, depois de escrever meia dúzia de poemas, sofrer em cumplicidade com meu melhor amigo e depurar meus amores inventados, só o vazio parecia fazer-me companhia. Enterrei meus versos e permaneci com a alma vestida de preto durante oito longos anos. Emudecida.

Aos vinte acreditei que a família estava ruindo e que o ódio seria o grande protagonista das reminiscências sobre mim. Minha imaginação estava enclausurada à ideia de permanência.

Quando o amor me rejuvenesceu, semanas depois de ter sido dado como impossível, não acreditei que ele pudesse superar dois países, em mares de saudades: um ano sem a presença dos seus sorrisos-crianças.

Se esfregar os sonhos em busca de um passado, vejo-me menina, a conversar com os espíritos que não voltaram mais. A certeza, contudo, de suas luminosas energias, não foi esquecida em nenhum instante.

E quem imaginaria que as palavras tornariam a me possuir, em noite inesperadamente quente de outono, com vestes rebuscadas e devaneios eternos de existência?

Nunca imaginei que estaria, petrificada de medo, dentro de um avião, em agosto de 2009, rumo à Lisboa. A minha covardia em ficar no Brasil era maior do que o sonho de engolir o país de meu mestre. O Tejo é mais livre em mim, hoje, do que o meu próprio pensar…

Os sentimentos, pois, não bebem o gosto amargo do tempo. Fui eu que escolhi descartá-los de mim, quando o amarelecer das folhas começava a apagar a escrita sobre o vivido. Algumas memórias, náufragas, relutam, porém, em serem deitadas fora, como se a mudez das décadas as estivesse petrificado. Basta um sopro de plenitude para ancorá-las em vida.

Ah, quantas realidades insólitas desejaria sepultar em meus olhos!

Algumas lembranças estão perpetuadas por um olhar imóvel, incapaz de ser restaurado. Pálidas. A releitura de meus antigos futuros permanece sem rancores.

Ao vê-los passar, engrinaldados em óbvias mortalhas, alegro-me por completo. Deixá-los morrer, todos os dias, conforta-me frente ao oceânico medo, inerente às profundezas.

Só há uma velha fantasia que minhas vísceras não suportariam enterrar: esta perfeita intimidade com a escuridão. Esta comunhão transcendental com o inaudito. A solitária nau, esbanjando o azul marinho de todos os acontecidos. Foi ela quem jamais deixou de me navegar, em nenhum tempo verbal. Só a poesia, em mim, é acrônica.

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