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TERAPIA

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Izacyl Guimarães Ferreira

Esse passado é meu. Posso mudá-lo.
Posso esconder um corpo e duas lágrimas,
posso fechar os olhos e esperar de novo.
Posso até mudar de nome.
Posso deixar no escuro uma cidade,
secar o mar em meu lenço,
apagar palavras do pensamento.

(Ia escrevendo a seguir:

Este presente hoje ainda, amanhã ontem,
posso inventá-lo.
O que me aflige é que é só isso o que eu
posso fazer.

Mas não era isto o que eu queria dizer.)

Esse passado é meu. Posso salvar
um sonho ou dois
enquanto a amiga enxuga os olhos.
Posso gravar meu nome numa pedra,
posso dizer perdão, amor,
posso deixar
que um tempo morra sem morrer por ele.

Esse passado é meu. Posso adiá-lo.

 De Declaração de Bens (1980)

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Planos falham…

“Aprendi, ainda, sobre a tolice de todos os nossos planos. A psicanálise interpretou o mito de Édipo como uma tragédia cujo tema é psicológico: o ódio entre pais e filhos e o incesto. Mas a essência do mito não é psicológica. É metafísica. O mito é um relato dos atos que os homens fazem conscientemente a fim de evitar a tragédia, sem saber que são esses mesmos atos que os levam para ela. A tragédia aconteceu porque os homens tentaram evitá-la.

Tolos! Pensamos que nossos planos são capazes de garantir o futuro. Ignoramos que há forças mais profundas. Não estou dizendo teoria. Eu vivi isso. Só estou onde estou porque tudo o que planejei deu errado. Se meus planos tivessem dado certo eu não estaria escrevendo esta crônica, não teria me tornado um escritor… Amaldiçoei o fracasso dos meus planos. Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse.

Muito tarde aprendi os limites da palavra. Alguns pensam que os seus argumentos, por sua clareza e lógica, são capazes de convencer. Levou tempo para que eu compreendesse que o que convence não é a “letra” do que falamos; é a “música” que se ouve nos interstícios de nossa fala. A razão só entende a letra. Mas a alma só ouve a música. O segredo da comunicação é a poesia. Porque poesia é precisamente isso: o uso das palavras para produzir música. Pianista usa piano, violeiro usa viola, flautista usa flauta – o poeta usa a palavra.”

Rubem Alves in As Cores do Crepúsculo

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“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

CASO DE AMOR

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.

Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros

a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir

sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido

em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando

agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto

mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela

melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem

acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando

vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é

carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela

esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela:

um coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.

Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo:

deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai

desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo

no fim de uma estrada…

Deixe, deixe, meu amor.

SOBRE IMPORTÂNCIAS

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga.  Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

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A ontológica ferida

Quando eu me hospedei dentro do meu próprio corpo, desencontrada forasteira do planeta, ainda não o sabia. Ah, quantas tardes passei a afagar o ventre do pensamento, bólide intruso! Inventei, imbuída, noites intermináveis que se ocupassem da sua hipotética existência. Madrugadas me navegaram, imunes ao sono, na ânsia do seu encontro. Eu engolia o lancinante espanto de saber-me orquestrada por cicatrizes ontológicas. E sem ao menos tê-lo tocado.

Como vaguei, Quíron, em busca de unguentos para a minha ferida. Seria apenas uma flor que amarelecia a página esquecida? Não. Nenhum estrangeiro está imune aos vestígios.

Sua vinda trouxe-me o enterro das obviedades monótonas. Permitiu que o sonho recém-nascido impulsionasse aquele choro desesperado de quem aterrisa no mundo. E, assim, pude finalmente reverenciar-me à vulnerabilidade, invólucro da sabedoria.

A pele estará sempre rasgada pelo perceptível. Entre as vísceras, pousa uma flecha em concretude. O coração é, dia após dia, envenenado pelo terreno oxigênio. Contudo, não há devaneio que seja esmagado por tirânicas verdades.

Nos séculos que precederam sua chegada, a fragilidade não alimentou a minha carne. Senti-me dúbia, incoerente, solitária. Como se eu, enclausurada nesse corpo, abrigasse o síncrono. Cavalo e mulher.

Aos deuses, aplausos. Fui abençoada com o fardo incurável das palavras. As mãos seladas ao sangue que jorra em melodia. Nenhuma tristeza me apunhala senão em versos. Irônica, a cura se materializa na desistência da imortalidade. A ambiguidade elíptica me sorri. Sóbria. Louca. Inconclusa.

Leva-me consigo, asteroide errante? Captura o meu cansaço em seus domínios, no ínfimo espaço que há entre Saturno e Urano. Não tenho medo, no escuro de mim. Apavora-me mais a mansuetude dos olhos, rígidos, cárceres da realidade. Estou farta de sepultar quimeras.

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Eu me esqueço até do futebol?

“(…) O que me inveja não são esses jovens, esses “fintabolistas”, todos cheios de vigor. O que eu invejo doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas.

A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penaltis eu já tinha marcado contra o destino? (…)”

Mia Couto,
in O fio das Missangas

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Semeando Constelações

Já se encontrava farta de tudo aquilo que vivera: as conversas enfadonhas com as amigas, a rotina tediosa do trabalho, os forjados jantares familiares. Sua existência se enrolara em não mais sentir. Porque as dores são pássaros ininterruptos do cantar.

Abrigara a estranheza solitária de traduzir o mundo em versos. E nada lhe era mais assustador que aquela sina. A poesia não vem para salvar a humanidade de anseios suicidas, mas para relembrar as mortes diárias da carne, frente ao espírito.

Perguntava a si mesma se havia outra saída que não envolvesse pulsos exangues ou entrada no sanatório. Entressonhava, louca, as possíveis resoluções para a sua grotesca enfermidade. Quem se olha em poesia não possui lugar no planeta autoajuda. Tampouco é permitido sair ilesa das convencionalidades sociais.

Havia, sobretudo, um otimismo tolo que a seguia nos despertares. E ela ia, por masoquismo, tomando duras punhaladas de mesmice, durante manhãs inconfessáveis. Engolia doses e mais doses entrecortadas de ignorância. Pensava-se mártir, naquela altura, consentindo estigmas em prol de algo que lhe era maior, mais forte. Divindades do existir, pensava. O ônus que se paga pelos jardins do sentimento.

Os meses seguintes foram levando a sua lucidez. Os lábios clamavam só por cálices encarnados de vinho. O convívio com seres de carne e osso fora deteriorado por inteiro. Ela desvanecia, dia após dia, da sua condição irrisória. Ao mesmo tempo, suas palavras também iam perdendo potências. Esvaziavam-se em rascunhos mesquinhos. Todo segundo transfigurava-se em logomaquias.

A mulher, contudo, tinha uma sabedoria infantil de respostas. Aceitava o implacável prenúncio dos parágrafos. As imagens insurgiam como o perfume de damas-da-noite. A concretização, todavia, esperneava. Ensandecida por cheiros de pele. Insubordinada às inúteis tentativas do isolamento.

Apenas em confluência com outro ser humano é permitido sonhar. A inadequação – natural – não pode tocar o absoluto. Nenhuma ilha alimenta-se de oceanos. Somos, ainda, reféns de cumplicidades.

Como lhe irritava saber de sua condição! Obrigada a engajar-se, outra vez, em um universo que a havia deitado fora. E agora – para que seus dizeres atingissem o imperecível – abdicaria de sua excentricidade gloriosa. Tornara-se caçadora de convergências humanas.

A tarefa, dificílima, rendeu-lhe quilos de maquiagem e roupas importadas. Contudo, por mais esforços que empreendesse, mais fracassos colecionava. A busca, indispensável para a sua literatura, transformou-se em fardo intransponível.

Os assombros poéticos, concomitantemente, afligiam-na nos sonhos e nas horas de vigília. Os dedos, exaustos, renuíam aos seus apelos. As inspirações rebelavam-se, pungentes.  E a aversão aos seres mundanos se agravava. O esforço convertia-se em repúdio. Atrofia.

Empertigada, decidiu que a morte desenhava a melhor de todas as ideias. Não a vislumbrava em covardia, mas em intrepidez absoluta de quem havia tentado.  Às vesperas de dar cabo ao sofrimento indizível que tece todas as escuridões, aceitou a companhia de um velho conhecido. Convidou-o para passar a madrugada com ela. Ele a endereçou um esquisito olhar que dialogava – indecente – às suas doçuras moribundas.

O autor, nitidamente, nada compreendia dos seus dizeres esquizofrênicos. Não traduzia suas falas com borboletas, nem relutava diante das suas asperezas. Entretanto, ele bebia, voraz, tudo aquilo que ela havia refletido. Ele apenas a confortava com palavras. Mesmo escritas, era uma voz humana que inundava os sorrisos da moça. Às vezes os livros são mais velozes do que estrelas cadentes.  E a noite pode repousar seu sono no monólogo dela.

Vergonhosa de sentir tais obviedades, ela conseguiu suspirar em calmaria. Grávida de périplos e roteiros que fantasiou para os novos personagens. O que se seguiu, foi a descoberta mais latente de sua vida: ao incutir a repartição, sabe-se plenitude. Esse amor que mantemos pelos seres inexistentes. Com todos os seus truísmos literários, assentia mais uma vitória. Um verdadeiro semeador de constelações.

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Paciente fui eu

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Socorro tem cinquenta e poucos anos. É preta. Pobre. Chega quase a ostentar o sofrimento através de suas rugas. Nascida em um manicômio judiciário, pouco sabe de sua mãe. Pouco mais que nada. Foi adotada aos seis meses de vida por um casal que trabalhava no depósito de loucos.

Lembra-se muito pouco de sua infância. Seu pai morreu quando ela era bem menina. Sua mãe na pré-adolescência. De sua família sobraram os irmãos. Eles a acolheram por não terem outra alternativa. Um de seus cunhados a tratava carinhosamente por ‘negão’. Criaram-na como se criam os velhos – assim sem paciência, contando os minutos para que a vida se encarregue da última possibilidade de todos os mortais.

Aos vinte e seis, Socorro tentou contra sua existência. Errou na dose. Fracassou. Por volta dos quarenta viu a si mesma como portadora de hepatite C. Qual não seria a ironia se ela nunca pudesse saber onde a teria pegado? Será que a doença veio como alimento, através de seu cordão umbilical? De que importa a memória? Ela já estava acostumada com o esquecimento.

Aos cinquenta sua alma pediu as contas. Socorro destruiu impiedosamente sua morada. Arrancou o carpete e as cortinas. Rasgou suas roupas e as defenestrou. Destruiu seus colares de miçanga com ódio. Cortou os fios de telefone. Qual contato poderia ela ter com esse mundo exterior?

Ah, tanta bipolaridade pôde ser vista em sua possessão!!!

Socorro contou sua história para muitos. Era impossível não se comover com tamanha tragédia. No entanto, a tragédia jamais a ajudou ou lhe deu abrigo. Talvez não fosse esse o caminho a ser percorrido.

Socorro tem cinquenta e poucos anos. Está sempre maquiada. Cortou os cabelos sarará. Outro dia estava investigando qual problema Deus teria com tatuagens. Não o encontrou e decidiu gravar em sua pele a marca do seu segundo nascimento.

Afugentou, a duras penas, os fantasmas que rodeavam sua casa. Socorro, aliás, mudou-se. Não de endereço propriamente dito, mas de olhar. Agora ela se encontra numa bela mansão, grávida de sonhos. Cinquenta e poucos.

Há um mês sentiu saudade pela primeira vez. Foi lindo, segundo ela. Uma escova de cabelo, uma laje na Lapa, bela vista da cidade. Os olhos encontraram a salgada lembrança. Não pela primeira, mas um dos poucos instantes marejados. Sorriu.

Hoje Socorro descobriu que foi o orgulho que lhe possibilitou a sobrevivência. Que milagre essa vida, diz ela. Percebeu que as lágrimas guardadas, a nunca-saudade, os cacos apenas pelo lado de dentro a tornaram capaz de continuar. Ficou maravilhada! O passado deixou de ser imutável. As dívidas consigo mesma vão, pouco a pouco, sendo quitadas. Quantas lembranças ainda não preparam seus lábios?

Lei tem cerca de mil anos. Branco, olhos verdes. Família gigante. Feliz. Sua vida nada teve, tem ou terá a ver com a de Socorro. Provavelmente ele nunca encontrará no sorriso dela, familiaridade. Uma pena.

Estranhamente, a luminosidade de sua boca foi reconhecida hoje. A mesma luz de mil anos foi acesa novamente. Outro corpo. Outra história. Essa vontade de ser feliz, essa simplicidade apenas destinada aos sábios. É inebriante.

Hoje, ao ouvir Socorro contar meninices dos cinquenta, lembrei. A sala foi invadida por milhares de átomos com gosto de mexerica. Fiquei inerte.

E a poesia, como acontece sempre, obrigou meus dedos a agradecê-los. Era uma questão de vida e morte manifestar minha gratidão. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Eu, com meus vinte anos. Provavelmente na primeira existência – as linhas são fracas na minha palma da mão.

E eu, hoje, envelheci. Toquei meus dedos na doçura dos mil e dos cinquenta. Estou suspensa na divindade dos sorrisos. Perplexa, decidi. Quero muito ser feliz.

PS: Socorro é um nome fictício. Lei não.

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