Arquivo do mês: maio 2011

O museu dos amores perdidos

Enquanto o garçom deitava ao chão uma bandeja trovejante de pratos e cálices e restos, para eles o mundo não acontecia. Entre risadas inconfundíveis e tímidas carícias, o mundo não acontecia. Apesar do barulho, o mundo não acontecia. No cerne da futilidade pequeno-burguesa dos restaurantes dos Jardins, nada em torno fazia alarde àquele momento. E o amor era uma crase.

Os céus lhes sorriam e reverenciavam tudo o que não era dito. Mágicas como móbiles em berços, as estrelas salpicavam – uma a uma –  a noite cúmplice. Existiram batidas policiais, assaltos à mão armada, fugas de adolescentes desesperados, porres, injúrias, traições ou suicídios? Nada. O mundo não acontecia ali.

Contudo, a noite se esvaiu e o dia é muito perigoso para quem ama. As manhãs trazem as irregularidades no rosto, as maquiagens borradas, o hálito adormecido. Quando o planeta se ilumina e volta a pegar o ônibus, toda a magia se dissolve em gélidas neblinas.

Eu tenho testemunhado a morte do amor em cada uma de minhas gavetas. Mesmo para os corajosos que se doam e não temem o sofrimento, o amor tem se evaporado. O que me assusta é que tudo pode findar-se por uma semana que os dois não fazem sexo. Porque os jantares na casa da tia avó são enfadonhos e o tio com Alzheimer repete as mesmas histórias da Grande Guerra.

Os mais lindos roteiros de filme que já vi efetivados estão se diluindo. E os casais se rarefazem porque é tão mais difícil superar as adversidades. Que não cabem em cento e quarenta caracteres. O esquecimento imediato torna as pessoas descartáveis.

Onde, então, habita o lugar para quem está disposto? A sombra de vossa liberdade é tão grande e densa quanto sua dolorida conquista. Possuímos um histórico alarmante dos que viveram conjugados por obrigações. Mas, agora, também as nossas cartas perfumadas têm prazo de validade.

Eu sei que o amor acaba. Todavia, qual é a força da condescendência frente à incompletude do outro? Já que não se pode fazer plástica nos horrores estruturais – naquele dia, naquele restaurante, lembra?

Existo para modificar seus futuros. Ah, quanto medo sinto de ser esquecida! Porque eu não esqueço. Eu guardei tudo. Beijos, olhares, feições e todos os amanheceres sutis. Sou o próprio cemitério de todos vocês que andam fugindo. Tornei-me o museu dos amores perdidos porque sei que a nitidez de quem relembra tem a mesma intensidade do momento vivido. Eu luto contra o universo estrondoroso do efêmero.

Nesses dias de pavor à nulidade, dá-me uma vontade de abrir-me todo em ferimentos meninos. Deixá-los gotejar um bocadinho. Levar os dedos a degustar o sangue. Esperar a resiliência corpórea. Atrasá-la uns dias, rompendo-lhes as côdeas. Sentir o formigamento da cura. E tatuar-me em cicatrizes mínimas que recordem o quão poderosas são as ínfimas explosões da delicadeza. Elejo a vibração da dor à mesmice amortecida. Parem de me alimentar!

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O outono visto pela janela / Código Postal

De arrepiar… Obrigada Portugal por existir como minha pátria da poesia!

E ainda mais lindo…

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Amada noite

 Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

 Vem, Noite antiquíssima e idêntica, 
   Noite Rainha nascida destronada, 
   Noite igual por dentro ao silêncio, Noite 
   Com as estrelas lentejoulas rápidas 
   No teu vestido franjado de Infinito.

   Vem, vagamente,
   Vem, levemente,
   Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
   Ao teu lado, vem
   E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
   Funde num campo teu todos os campos que vejo,
   Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
   Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
   Todas as estradas que a sobem,
   Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
   Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
   E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
   Na distância imprecisa e vagamente perturbadora, 
   Na distância subitamente impossível de percorrer.

   Nossa Senhora
   Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
   Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela, 
   Dos propósitos que nos acariciam
   Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
   Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, 
   E que doem por sabermos que nunca os realizaremos… 
   Vem, e embala-nos,
   Vem e afaga-nos.
   Beija-nos silenciosamente na fronte,
   Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam 
   Senão por uma diferença na alma.
   E um vago soluço partindo melodiosamente
   Do antiquíssimo de nós
   Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
   Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
   Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

   Vem soleníssima,
   Soleníssima e cheia
   De uma oculta vontade de soluçar,
   Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
   E todos os gestos não saem do nosso corpo
   E só alcançamos onde o nosso braço chega,
   E só vemos até onde chega o nosso olhar.

   Vem, dolorosa,
   Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
   Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
   Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
   Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
   Vem, lá do fundo
   Do horizonte lívido,
   Vem e arranca-me
   Do solo de angústia e de inutilidade
   Onde vicejo.
   Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
   Folha a folha lê em mim não sei que sina
   E desfolha-me para teu agrado,
   Para teu agrado silencioso e fresco.
   Uma folha de mim lança para o Norte,
   Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
   Outra folha de mim lança para o Sul,
   Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
   Outra folha minha atira ao Ocidente,
   Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
   Que eu sem conhecer adoro;
   E a outra, as outras, o resto de mim
   Atira ao Oriente,
   Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
   Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
   Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
   Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
   Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
   Que tudo o que nós não somos,
   Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
   Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…

   Vem sobre os mares,
   Sobre os mares maiores,
   Sobre os mares sem horizontes precisos,
   Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
   E acalma-o misteriosamente,
   ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

   Vem, cuidadosa,
   Vem, maternal,
   Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
   À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
   E que viste nascer Jeová e Júpiter,
   E sorriste porque tudo te é falso é inútil.

   Vem, Noite silenciosa e extática,
   Vem envolver na noite manto branco
   O meu coração…
   Serenamente como uma brisa na tarde leve,
   Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
   Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
   E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
   Todos os sons soam de outra maneira
   Quando tu vens.
   Quando tu entras baixam todas as vozes,
   Ninguém te vê entrar.
   Ninguém sabe quando entraste,
   Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
   Que tudo perde as arestas e as cores,
   E que no alto céu ainda claramente azul
   Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

   A lua começa a ser real.

                                                       II

   Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades 
   E a mão de mistério que abafa o bulício,
   E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
   Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
   Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
   E que misterioso o fundo unânime das ruas,
   Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, 
   Ó do “Sentimento de um Ocidental”!

   Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
   Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
   Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
   Umedece interiormente o instante lento e longínquo!

   Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
   Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
   Como um mendigo de sensações impossíveis
   Que não sabe quem lhas possa dar …

   Quando eu morrer,
   Quando me for, ignobilmente, como toda a gente, 
   Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente, 
   Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos 
   Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece, 
   Seja por esta hora condigna dos tédios que tive, 
   Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
   Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece, 
   Platão sonhando viu a idéia de Deus
   Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.  
   Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

   Seja por esta hora que me leveis a enterrar, 
   Por esta hora que eu não sei como viver,
   Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho, 
   Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva, 
   Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas, 
   Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível 
   Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

  Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
  Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
  A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
  Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
  — Tu que me conheces — quem eu sou …

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Epifania



Murilo Mendes

Eu te procurei tal qual os três reis magos
Que caminhavam através de mares e desertos,
Até que um dia uma estrela enviada por ti mesmo
Me trouxe até a tua inefável presença.
Não posso te ofertar o ouro, o incenso e a mirra:
Ofereço-te a minha alma que tu mesmo criaste,
Ofereço-te a minha aridez e o meu pecado.
Ilumina agora e sempre todos os que te procuram
E todos aqueles que acreditam no teu fim.
Angústia e escuridão dominam o homem
Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.

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O rio da posse

Bernardo Soares – Fernando Pessoa

Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.

Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo.

O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro.

Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes, (…) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz (como não pensar é a parte melhor, de ser rico).

Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida (e do irreal do sonho com o de sentir a vida irreal).

Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos.

O amor perde identidade na diferença, o que é impossível já na lógica, quanto mais no mundo. O amor quer possuir, quer tornar seu o que tem de ficar fora para ele saber que só torna seu se não é. Amar é entregar-se. Quanto maior a entrega, maior o amor. Mas a entrega total entrega também a consciência do outro. O amor maior é por isso a morte, ou o esquecimento, ou a renúncia — os amores todos que são os absurdiandos do amor.

No terraço antigo do palácio, alçado sobre o mar, meditaremos em silêncio a diferença entre nós. Eu era príncipe e tu princesa, no terraço à beira do mar. O nosso amor nascera do nosso encontro, como a beleza se criou do encontro da Lua com as águas.

O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente.

O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada.

Metafísico. Mas toda a vida é uma metafísica às escuras, com um rumor de deuses e o desconhecimento da rota como única via.

A pior astúcia comigo da minha decadência é o meu amor à saúde e à claridade. Achei sempre que um corpo belo e o ritmo feliz de um andar jovem tinham mais competência no mundo que todos os sonhos que há em mim. E com uma alegria da velhice pelo espírito que sigo às vezes — sem inveja nem desejo — os pares casuais que a tarde junta e caminham braço com braço para a consciência inconsciente da juventude. Gozo-os como gozo uma verdade, sem que pense se me diz ou não respeito. Se os comparo a mim, continuo gozando-os, mas como quem goza uma verdade que o fere, juntando à dor da ferida a consciência de ter compreendido os deuses.

Sou o contrário dos espiritualistas simbolistas, para quem todo o ser, e todo o acontecimento, é a sombra de uma realidade de que é a sombra apenas. Cada coisa, para mim, é, em vez de um ponto de chegada, um ponto de partida. Para o ocultista tudo acaba em tudo; tudo começa em tudo para mim.

Procedo, como eles, por analogia e sugestão, mas o jardim pequeno que lhes sugere a ordem e a beleza da alma, a mim não lembra mais que o jardim maior onde possa ser, longe dos homens, feliz a vida que o não pode ser. Cada coisa sugere-me não a realidade de que é a sombra, mas a realidade para que é o caminho.

O jardim da Estrela, à tarde, é para mim a sugestão de um parque antigo, nos séculos antes do descontentamento da alma.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.  – 273.

Foto: Juquehy à mágica luz de outono. Lei Kassab. Maio/2011

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Uma centelha de futuro

I know not what tomorrow will bring…” – Última frase de Fernando Pessoa

Acordei aturdida de um sonho bom. Agora que as cortinas se fecharam, não há aplausos para a realidade. No entanto, reverbera em mim a familiar sensação de ter pertencido àquela história. Tolos e humanos somos nós, ao despertar desses fragmentos de alma!

No sonhar há um luminoso encontro entre a terrível loucura e a suposta normalidade. Personagens se miscigenam sem pudor. As cisões deixam sua abruptude à margem de meus reinos. Pensamentos enlaçados às ações, em absoluta confluência.  Nada há de tão absurdo que não possa acontecer. Toda trivialidade não plangente se reflete em ontologias. E vivenciar isso é sublime para aqueles que não têm medo de submergir em estranhezas.

Adormeci a minha vida por algumas horas e trouxe a docura infante aos lábios, neste momento. Confesso-o com o intuito de recordá-lo até os limites da memória. Esse sonho bom, só meu. E, como é evidente, não poderei contar o seu enredo. Não suportaria deteriorar a excêntrica ideia de que ele sairá do lápis da minha mente e desenhará minhas futuras cicatrizes.

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