Arquivo do mês: junho 2010

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!  …

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

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De carne e osso…

Pouquíssimas coisas na vida são mais doces que conhecer a primavera dos versos em um grande poeta!

SORRISO PERDIDO


Calma…
Calma que um dia o sorriso volta
Está perdido entre soluços
Preso entre músculos retesados
Calma.
Veja se não está escondido numa gaveta
junto de uma foto do passado
Busca nos pêlos desse cão que te lambe
Talvez num pedaço de céu, de jardim
Calma.
Olha pra mim
Quando o viu pela última vez?
Vai que esqueceu-o no espelho
Vai que largou-o pelo caminho
enquanto distraía-se por aí
Faz uma reza a São Longuinho
Mas calma, pra tudo tem jeito
Pode estar na boca de alguém
Outro alguém, não eu…
Como diz a minha avó
O que é perfeito tem defeito.
Calma.
Vamos achar esse sorriso
E chega de choro
Chega de olhar xoxo
Chega.
Não se perde um sorriso assim
de uma hora pra outra
Esse seu sorriso ilumina
Alguém roubou? Me diz
Não tenha medo
Calma.
Procura essa luz aí no quarto
na sala, embaixo do sofá
Será que ninguém varreu?
O vento não levou?
Às vezes o vento leva as esperanças
Calma.
Calma.
Melhor dormir
Procura amanhã
Amanhã seu sorriso volta
Deita e dorme triste
Um sono sem sonhos, pode ser
Amanhã seu sorriso volta
Eu volto também, se isso ajuda
Faça lágrima
Faça riso
Estarei.
Seu sorriso vai voltar.
Calma.

Gustavo Braun, 2006

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Homenagem ao meu pai, o geminiano mais genial que eu conheço…


Estate sei calda come i baci che ho perduto

sei piena di un amore che è passato

che il cuore mio vorrebbe cancellare

Estate il sole che ogni giorno ci scaldava

che splendidi tramonti dipingeva

adesso brucia solo con furore

Tornerà un altro inverno

cadranno mille petali di rose

la neve coprirà tutte le cose

e forse un po’ di pace tornerà

Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore

l’estate che ha creato il nostro amore

per farmi poi morire di dolore

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Aniversário (meu e dele)

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…


15/10/1929

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Memórias de um verão em Lisboa…

La lune de Gorée

Gilberto Gil
Capinan

La lune qui se lève
Sur l’île de Gorée
C’est la même lune qui
Sur tout le monde se lève

Mais la lune de Gorée
A une couleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Dans d’autres parts du monde
C’est la lune des esclaves
La lune de la douleur

Mais la peau qui se trouve
Sur les corps de Gorée
C’est la même peau qui couvre
Tous les hommes du monde

Mais la peau des esclaves
A une douleur profonde
Qui n’existe pas du tout
Chez d’autres hommes du monde
C’est la peau des esclaves
Un drapeau de Liberté

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Nous nous aimions le temps d’une chanson

La Javanaise

Serge Gainsbourg

J’avoue j’en ai bavé pas vous
Mon amour
Avant d’avoir eu vent de vous
Mon amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson

A votre avis qu’avons nous vu
De l’amour
De vous a moi vous m’avez eu
Mon amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson

Hélas avril en vain me voue
A l’amour
J’avais envie de voir en vous
Cet amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson

La vie ne vaut d’être vécue
Sans amour
Mais c’est vous qu il’avez voulu
Mon amour

Ne vous déplaise
En dansant la Javanaise
Nous nous aimions
Le temps d’une chanson.

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Epifanias Cadentes

“Por epifania entendia uma súbita manifestação espiritual, tanto na vulgaridade da fala ou do gesto, quanto numa frase memorável da própria mente. Acreditava ser função do homem de letras registrar essas epifanias com extremo cuidado, visto serem elas os momentos mais delicados e evanescentes”. James Joyce in “Stephen Hero”, primeiro ensaio que ele escreveu para o “Retrato do artista quando Jovem”.

Perdia-me, sempre, em gordas horas de reflexão. Buscava, arrogante, pelo ainda inominável. O que não foi desvelado à espécie? Quais inovações posso trazer para a literatura? Que florestas do pensar ainda estão virgens para as minhas palavras? Como poderei desembravecer as feras poéticas que me habitam e que sufocam a minha inteligência?

Assim, quem sabe, havia de me tornar grande. Única.

Enquanto eu procurava pelas originalidades inviáveis, ia negligenciando grande parte das minúsculas luminescências que carregam os instantes. Esquecia dos segundos de claridade que contêm uma alegria efêmera. Redonda. E nunca menos densa.

Esses rasteiros e silenciosos lampejos, agora, impedem-me de cair em obtusidades mesquinhas. Alerta ao instantâneo, posso colher as imagens mais ricas. Uma conversa despretensiosa transforma-se em sopro criador. Afinal, são as choupanas que trazem a sabedoria da escrita ao espírito. Todo palácio é prolixo.

Se a mente perpetua-se em vigília, há inesgotáveis manifestações dessas harmonias anãs. Ah, que prazer superior foi sentir o cheiro da casa natal, vindo incandescente na distração de um sonhar vagabundo! Pertencimento infante que toma o corpo mais uma vez. Jorra a bela lembrança do brincar. Época em que os esconderijos, uterinos, guardavam amigos imaginários e devaneios de boneca.

Às vezes, aconteceu de abrir o livro amarelecido, envolto em poeira e herança familiar. A página, aberta aleatoriamente, tem cravada em si a letra incorrigível da avó, falecida há anos. Neste momento há uma capacidade de se confrontar com frases em carne viva. Algum cerne do viver. A jornada anciã pertence, finalmente, ao seu destino. A comunhão supera a instranponível passagem da morte.

Quando turista também pude me deparar com esse ínfimo alumbramento. Perdida, enfurecida, desnorteada. Todavia, ao enxergar uma viela, uma praça fora do mapa, uma árvore ou, quiçá, uma esquina, fui coberta pelo improvável sorriso. Se estivesse atenta, soberana, jamais avistaria esses segredos. Boas viagens não se documentam por cartões postais.

Hoje, por exemplo, vivenciei o inescrutável sentimento de compaixão frente à dor de uma personagem. Quando as lágrimas resplandecem um sofrimento  coletivo e invariavelmente humano. E como isso já me foi trivial! Quão inútil pode-se compreender a cumplicidade.

Nos últimos dias estou mais desperta para o vagalumiar da existência. Abandonei as grandiosas fontes de inspiração. Aprecio o entristecer crepuscular dos olhos. Porque a noite é grande e escura e límpida demais para a pequeneza da minha alma. Quero amanhecer em sobriedade aos detalhes inoportunos. Irrelevantes. Qualquer vão acontecimento desabrocha a poesia, antes de a fenecer.

Tenho pautado meus cadernos naquilo que é momentâneo. E observo que a plenitude tem sido a melhor hóspede. Depois de tragar a humildade para dentro dos pulmões, o coração está livre. Quando digo adeus às inúteis tentativas de imensidão, uma tempestade de centelhas incontornáveis vem me visitar. O verso já pode compor sua força nos limites. Só por causa delas, as epifanias cadentes.


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