Arquivo do mês: dezembro 2011

Perdi meu amor em Lisboa

Antes de tu chegares jamais pude escolher o meu sonhar. E, confesso, desde pequenina tentava driblar esses vastos porões do inconsciente – a fim de domá-los. Arrogante que era, acreditava que as fúrias de minha profundeza também me pertenciam, domesticáveis.

Porém, certa noite, desejei ter-te cá dentro da minha narrativa selvagem. Aceitei ser títere dos baús empoeirados, abrir os lacres poderosos da razão. E sonhei com a possibilidade de estar ao teu lado.

Na altura eu era jovem e louca e infantil. Não havia aprendido a linguagem nítida dos devaneios noturnos. Estrangeira. Sozinha. Liberta das amarras do pertencimento.

O sonho era óbvio. Literal – como são essas terras. Estávamos em uma festa, dispersos nas conversas triviais com conhecidos e outras pessoas que trouxe do meu país para o sonho. Embriagados e obtusos.

Acordei. Invólucro, ainda, de vinhos não entornados. Desorientada de estar na realidade de mais um dia. Fui à tua procura, certa de que deveria desanuviar as incertezas, apagar a lembrança não vivida. Quantas horas passamos a falar! Tu, totalmente imune ao meu sonho, enquanto eu tentava rebobinar as fantasias para ver se faziam jus aos porões.

No entanto, foi a noite seguinte que consumiu a profecia autorrealizadora. Depois de um jantar irrelevante. Ah, como me senti manipuladora nos instantes que precederam o beijo. Porque já o havia beijado antes, mesmo que tu não soubesses disso.

Não aguardava o amanhã que te trazia novamente. Não era mais sonho, não havia roteiro traçado. E tu estavas lá, à minha espera. Com os olhos negros e vazios, convidando-me a preenchê-los com a minha própria vida. Como compreendeste cedo as canções impronunciáveis de meus artistas natais! Ensinaste a mim a literatura anciã dos navegantes e os ventos que compõem as tempestades. Foi assim que aprendi: as calmarias duradouras são perigosas iminências do mudar.

Tu desmembraste minha família destruída, colocaste-me no rígido papel de protagonista. As minhas lágrimas vitimizadas perdiam, a cada momento, seu triunfal poder de convencimento. E eu, tão pobre de retórica, tão fraca em me expressar na tua língua, via-me solo das sementes inesgotáveis.

Com o paganismo infantil, ampliava meus ouvidos para a música que só tu eras capaz de explicar, em gestos magistrais de professor. Distinguia cada um dos Beatles nas canções – pela forma, conteúdo, voz. Contudo, admito que avistava em Ringo o mais estranho dos personagens e, por isto, o amava a revelia dos truísmos.

Mas, também eu era capaz de ensinar. A tua robustez nutria meu cerne, pouco a pouco. Conseguia traduzir em notas os minúsculos poros da tua pele exótica. Discorria sobre as engenhosas construções matemáticas que compõem uma tessitura. Compartilhava meus costumes gélidos, explicando como a minha nação não tinha condições de agregar culturas indígenas. Preparava refeições, no ímpeto de alimentar tuas inspirações literárias.

Pude resgatar a ti dos abismos atrozes onde moram os pesadelos, ao levar-te por um passeio inusitado à beira do Tejo, em madrugada estelar. Tua alma, cintilante, finalmente atingia a incomensurável felicidade. Sempre nos gestos banais, microscópicos, eu estava a exercer a função pedagógica do amor.

Quis casar-me contigo, todos os dias, embora não possuísse emprego fixo nem curso superior. Obedeci, pois, a cada um dos fugazes impulsos que vivia meu coração apaixonado.

Paulatinamente, amado, fui recuperando meu ser esquecido, antes pelos lamentos. Enquanto as tuas raízes convertiam-se em maleabilidade, minha casa ganhava ornamentos. Tu vivias anseios de naufrágios juvenis, corajosos e típicos de quem sabe navegar. Eu queria apenas fincar minha bandeira em solo clandestino.

Nevoeiros tornam-se sutis, frente aos temporais.

Assim, nossa cumplicidade telepática foi tornando-se adúltera. Tu, sedes de além-mar. Eu, quimeras continentais, com horror aos arquipélagos. Nossa solidez, taciturna, foi-se devastando em crescimentos incompatíveis, alheia à intersecção primeira.

Tu foste à África, buscar os sons que engrandecem tua língua. No Brasil, abandonaste as feições tristes do fado. Descobriste a razão de ter os pés sempre a tremer. Era o samba, erupção vulcânica, escondido em tua carne.

Simultânea, interpretei todos os azuis dessa cidade, atrás do teu rastro. Deitei pelas noites gentis, a enlanguescer-me. Retornei, apática, à fonética carecida de poesia de meus iguais.

Dissipamo-nos, faíscas, como a breve carcaça das fogueiras.

Desaprendeste de mim? Conseguiste caminhos em tua memória que apagassem meu nome? Pois esforço-me imenso, até hoje, por fórmulas imediatas de revogar. Invoco lúcidos sonhos que me retirem de Lisboa, berço desse lirismo tolo. Um eclipse irrefutável, talvez.

Escrevo para calar aquilo que reverbera. Esquecer-te desperta, em vigília. Onírica, já sabes, serei incapaz de deitar-te fora. A noite sempre me chega para rarefazer as cicatrizes, para enaltecer os domínios dos quais não sou senhora.

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Arquivado em Conto, Textos meus