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Eu, aquela que guardava os tesouros em mapas indecifráveis

Eu, aquela que guardava os tesouros em mapas indecifráveis… Como resolução de ano novo, decidi doar meus amores literários. Posso dizer adeus às coisas que amo porque os olhos me são e nenhum indivíduo sequer é capaz de ofertar às minhas musas maior afeto dedicado, tamanha devoção canina. E o meu amor pelos meus se torna um desafio para quem o compartilho.

Perfil a lápis – Paulo Mendes Campos

Morei em Ipanema, passei para o Lebon, virei serrano. Vou e venho.

Amo e desamo. As palavras me pegam. No fim resta o silêncio: sou vidrado na minha dor.

A ecologia era esta: vovô me dava doces. Vovô me deu um menino Jesus de barro. Mamãe comprava palmito para a minha salada de alface. Papai fazia cadernos para que eu estudasse. Tia Zizinha cortava-me as unhas com muito carinho. Tia Nininha costurava meus calções de futebol. Tio Valdemar me levava para ver o Atlético, tio Tatá me dava prata de cinco mil-réis. Tio João esgrimava comigo no fundo do quintal. Tio Antonio fez uma horta Meu primo Hélio me deu meu primeiro cigarro. Dolores, minha mãe regra-três, me defendia dos capetas maiores. E Isabel, também regra-três, olhava para mim com doçura e suspirava: “Coitadinho dele!”

No sentido publicitário do verbo, vou me vendendo depressa a idéias, pessoas, paisagens, climas, livros, objetos – o que existe no mercado. Quando morei em Ipanema fui Ipanemense convicto; passei a ser lebloniano; fiz uma casa na serra, virei serrano.

Nunca tive centro de gravidade mental ou psíquico. Vou com todo mundo, todas as têmperas, todas as cores, todos os pratos do cardápio. Copiei um grifo de Stendhal: “Nunca tive consciência nem sentimento moral.” Fiz meu o verso de Murilo: “Sou firme que nem areia em noite de tempestade.”

Dou a alma pelo azul e traio o azul com o castanho.

Nasci para ser mundano, apesar de toda a minha desconfiança. Se soubesse dançar bem, não sairia do dancing. Amo acima de todas as coisas a sobriedade dos sentidos. Mas dou um boi pra ficar ubriaco.

Não posso contemplar cartaz de propaganda turística sem me derramar pelas ravinas glaciais da Suíça, ou passar o verão no Marrocos, ou flanar pelo chiaroucuro de Praga, ou estender-me como roupa branca de Portugal. Mas sou capaz de trocar tudo por entre um sono entre o jantar e a velhice.

Não é preciso qualquer eloquência para persuadir-me. Nasci convencido. Amarro minhas mãos para não bater palmas aos discursos idiotas. Prendo meus tornozelos a pesadas grilhetas para não frequentar locais absolutamente intoleráveis.

Fecho meus olhos para não sorrir a quem não vai comigo ou me detesta; mas às vezes já é tarde.

Também às vezes me agrido porque também amo a agressão. Às vezes choro porque chorar é um prazer irreprimível e o mundo gosta de lágrimas. Li os clássicos com saudade dos românticos.

Perdôo a mim mesmo porque é doce perdoar. E também me destruo porque é duro destruir. Sou vidrado na minha dor.

Estraçalho uma bacalhoada com um vigor lusitano, mas sei dedilhar uma travessa de caracóis com um racionalismo gaulês. E talvez gostasse de passar a pão e água.

A chuva me pega com facilidade. E quando chega o sol, faço-me uma ode de carne e vou tomar sol.
Se me dedico dois minutos a imaginar o tamanho da terra, quero ir às honestas canseiras da lavoura, sou lavrador, bicho do chão, raiz. Mas já dei comigo consultando livros de mineralogia. E saio sempre voando quando passa o avião.

Pobre ser mercurial, escorro em tudo, rolo, desato-me e depois me recomponho, para escorrer de novo, rolar, desatar-me.

Às vezes dou comigo comprando uma casa no subúrbio, mas a poluição me desanima: compro um rancho nas lonjuras de Góias. Ou abro uma salsicharia na Avenida Ipiranga.

Vou e venho – é um direito, é uma obrigação que me impele, que me abusa, que me pertuba. Amo e desamo. Faço e desfaço.

Vi em Shakespeare um tonto quando li a antipatia de Tolstoi. No dia seguinte achei o russo um cego.

Passo para o lado de quem me ataca. Desculpo o bem e o mal que me fazem.

Redigindo publicidade, acabei me apaixonando pela técnica de fabricação de certos produtos.

As palavras me pegam. As imagens me pegam. As inflexões me pegam. Viro amigo de infãncia de qualquer desconhecido.

O mal e o ruim frequentemente ganham de mim. Chego a morrer com simpatia.

No fim de tudo resta o silêncio, que é a minha liberdade. O meu vazio.
Serei o bobo do universo?
Nem isso: só um bobo. Mas gosto de ser bobo.

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Aniversário (meu e dele)

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[473]

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais       copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…


15/10/1929

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Onde vivem os dons

“Se um dia me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixa sair de mim.” Mia Couto – Terra Sonâmbula.

Há semanas procuro uma resposta. Na verdade, sei que as respostas são ínfimas, fragmentadas na cosmologia dos pensamentos. Não há nada nelas que assossegue o ser. Assim mesmo, sonho com o seu vulto lampejando a alma em epifanias.

Onde moram os dons? – questionava-me. Quando eles são despertos? Cada pessoa abriga dentro de si uma indelével cicatriz da arte? Somos todos convidados, bem-vindos para acordar em sua cama? Há sinais suficientemente claros para que a vigília nos possua? É possível viver em letargia? Existirá dor maior do que o hibernar de uma vida inteira?

Nenhuma resolução foi a mim concedida, desde que todas essas interrogativas passaram a povoar minha escrita. Então decidi ir atrás daquilo que me era palpável: os vígeis.

Não foi necessário pensar muito. Em poucos segundos já existia uma pessoa reverberando em mim: meu amigo músico Flavio Tris. Ele concordou em me receber para uma entrevista, sem questionar a minha motivação.

E lá estava ele. Pronto para as minhas loucas perguntas naquela quarta-feira insuportavelmente ensolarada. Quis ser cronológica, para investigar sua meninice primeiro. Verificar, meticulosa, todos os espaços que me trariam algum conforto. Sábio, meu entrevistado soube lidar com as minhas aflições. E respondeu a cada pergunta como se revisitasse sua estrada musical.

O hospedeiro, então infante, ainda nada sabia sobre seu destino. Contudo, tinha as mãos pousadas no piano. Por mais que as referências parentais gritassem a sua jornada, ele parecia alheio a qualquer tipo de determinismo. Talvez fosse a certeza do reencontro. Mia Couto já advertia: “Em criança não nos despedimos dos lugares. Pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez.”

As aulas de piano não vociferaram seu chamado. Pelo contrário. Era quando acabavam que o menino mais tinha vontade de tocar. A desobediência eu já conhecia: todo dom é insubordinado.

Depois, veio o violão. Sem nunca uma aula ter feito parte dessa parceria. Na adolescência, as cordas, associadas às aulas de gramática, trouxeram o sabor primeiro dos grandes músicos brasileiros.

Contudo, a arte lhe seria um fardo insultuoso: todos os seus irmãos já navegavam por esses oceanos marginais. Assim, ele optou pelo Direito. “Fui ser ‘normal’ e aliviar minha família”, disse a mim. “Acreditava que a carreira seria uma ferramenta de transformação social, além de o futuro ser rentável e sólido”.

A música, pois, não deixaria Flavio em paz. Mais tarde, no recolhimento solitário, ilhado pela melancolia amorosa do intercâmbio linguístico em Montpellier, ela o abraçaria e o tornaria arredondado. Terapêutica.

Foi num desses diálogos silenciosos que ele tomou gosto pelas incertezas. “Passei a elogiar os mistérios da vida em minhas canções”. Esse reinado de possibilidades, a abertura de janelas, infinidade de caminhos. A imersão no vazio fértil o estimulava. E o olhar surpreso ia invadindo as paisagens francesas e a obra do artista.

A metamorfose da voz também se ofereceu em ontologias. É o caso de “Brisa Boa, Vento Leve”. O amor já não povoava suas composições: “O compor foi se modificando, alcançando minhas percepções vitais. Tocar a natureza. Buscar um lirismo para enovelar  situações corriqueiras.”

A arte é uma casa que resiste às tempestades da vida mundana. E não é coragem, frente ao destino. Flavio permitiu a si regressar, àquilo que já na infância fora dito. Abandonou o terno e renasceu, rebatizando-se. Veio o Tris: “Há uma ambiguidade na minha escolha. Tris é parte do sobrenome de minha mãe. Tris remete a triz. Tris me leva à triade: somos três músicos. O Maurício Maas, no acordeon e percuteria; e o Tchelo Nunes, no violino e baixo elétrico.”

E eu não perdi a oportunidade de provocá-lo: “Dá muito medo? Largar o pontilhar certeiro do seu sucesso na advocacia para a inesperada condição da música?” Ele nem titubeou: “Meu medo de não tentar seguir o chamado é muito maior. Tenho certeza de que iria me frustrar, caso permanecesse vivendo nos moldes sociais que me impus.”

Deambulei, inerte por aqueles dizeres familiares. Era o peremptório se apossando de mim. Porque a arte, se não tem espaço para a florescência, inflama a pele. O dom, como a loucura, fica à espera de um cisco que o acorde.

Mergulhei em silêncios no meio da entrevista. Não havia mais nenhum assunto a ser explanado. Nada mais importava. A confluência: era a vida dele sendo recordada; era a minha vida sendo preenchida em improvisos. Nessas horas, o coração se agiganta.

Ali, aconchegada pela melodia, todos os devaneios de orfandade iam para o exílio. Extintos. Quando a arte nos atinge, não adianta mais tentar arrancar os brancos fios, enluarados. Há de se aceitar a ancestralidade libertária, como as árvores que assumem ser berço dos passarinhos.

Ps: quem já ouviu o Flavio, compreende a invasão prenunciada do vício: como a dor que dá a leitura das últimas linhas de um livro sublime, a gente torce para que a madrugada se enlace ao infinito. E que imponha aos nossos ouvidos ateus a condição de estarem atentos: por favor, não percam as notas na imemória!

Para encontrá-lo: hoje, 25/03/10, a partir das 21h no Caldeira Acústica – Casa das Caldeiras. 

Myspace: 

https://myspace.com/flaviotris

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O colecionador de saudades*

colecionador de saudade1

colecionador de saudades2

Eu gostava mesmo de escrever em terceira pessoa. No entanto, tentei e foi um bocado frustrante. Acho que ainda trago a própria vida embutida no coração do pensamento. E isso passará, com o rebentar dos anos.

Chamava-me Manuel Leite de Barros. Tenho vinte e dois anos e decidi dar um fim a mim mesmo. E não, não cometerei suicídio. A morte não tocará meu corpo, embora eu vá matar a mim durante essas páginas. Porque estou farto de ser eu.

Desde miúdo sinto-me um estranho em casa. É tradição em minha família colecionar. Meu pai possui uma coleção de bulas de remédios. Obviamente, trata-se de um inveterado hipocondríaco. Ele cataloga todas as descrições medicamentosas em ordem alfabética, dividindo-as em doenças. E orgulha-se imenso de ter mais de dois mil papéis ordenados em uma pasta castanha.

Minha mãe desde sempre foi apaixonada por corujas. Para ela, mais que símbolo do saber, as corujas são as grandes amantes da noite. “Com certeza a sabedoria acontece na escuridão”, diz-me repetidas vezes. Hoje, sua coleção já transborda doze estantes e ultrapassa quinhentas réplicas de todos os formatos, regiões e cores.

Até mesmo uma prima que mora no Brasil é viciada em coleções. Ela armazena todas as palavras bonitas que lê nos jornais. Por dia são escritas em seu caderno cerca de cento e doze novas aquisições.

Duvidei de meus laços sanguíneos até amar pela única vez. Uma profética festa de Santo Antônio, no dia 12 de junho de 2003. Antes disso, não havia colecionado absolutamente nada.

Eu me encontrava ao pé do Beco do Vigário, em Alfama. A lua estava cheia e a embriaguez já começava a me cobrir de sorrisos tolos. Foi ali que avistei Carminho.

Maria do Carmo Pereira tinha acabado de completar seus dezenove anos. Era irmã de um conhecido meu. Eu havia sido apresentado a ela quando éramos crianças. Passamos dez anos sem nos cruzar – mesmo sendo Lisboa uma cidade minúscula.

O velho clichê do amor instantâneo fez de mim sua vítima. Passamos a madrugada toda a conversar. Acolhidos pelo miradouro secreto, atrás da igreja de Santo Estevão. Só nos permitimos partir quando a manhã nasceu quente e o Tejo inundava-se em raios de ilusória pureza.

Foi assim que comecei a colecionar. A colecionar Carminho. Seus gestos, sua timidez. Cada partícula de sua alma. Apreendi sessenta e três olhares, cento e quarenta e sete sorrisos, vinte e seis jeitos dela prender os cabelos e duzentos e oito beijos. Superando toda e qualquer dicotomia sujeito-objeto, eu era capaz de colar minha visão ao seu rosto. Um ser indissolúvel, apartado em dois corpos.

Nada necessitava de catálogo. Ficava tudo cravado em minha memória. Nas horas em que não a via, brincava de contar minha suntuosa coleção. Ao final, sentia-me verdadeiramente um Leite de Barros.

Contudo, nossa relação teve um prematuro fim. No dia 14 de julho de 2004, ao sair apressada da Estação Cais do Sodré para me encontrar, Carminho foi atropelada por um elétrico. Seus ossos frágeis não resistiram às feridas e, algum tempo depois, ela faleceu no hospital.

Eu não me conformei com a perda. E, para não deixá-la morrer em mim, passei a colecionar saudades. Todos os dias, religiosamente, dava corda nos seus beijos, nos seus olhares, nos seus cabelos.

Algumas semanas após o seu enterro, decidi deixar Lisboa e a minha família. “Porque me sabia bem sentir saudades deles todos”. O afastamento seria imprescindível para aumentar minha coleção.

Pedi transferência do meu estágio para Viseu, onde meus pais tinham uma propriedade vazia. Por longos seis meses, pude beber da minha nostalgia. Enxertava a pele em fotográficos ensaios. Alimentava a melancolia com curtas metragens daqueles que eu amava. E todos os sofrimentos eram apaziguados.    

Cometi, todavia, um erro fatal. Posicionei Chronos em cumplicidade. E ele é um assassino silencioso. Porque a saudade – ao contrário do que dizem os fadistas – é inimiga das horas. É brutalmente borrada no tempo.

Na manhã de hoje, fui incapaz de reviver um dos beijos de Carminho. Espremi os olhos e não o achei. Rebobinei-me todo e havia desaparecido. A sofreguidão em resgatá-lo deixou-me ainda mais confuso. Eu me traí, sepultando minha doce reminiscência. Agora, estou à deriva. Só enxergo nebulosas. Destroços. Lábios partidos ao meio.

Hoje fui deitado fora. Como me dói, meu Deus! Como me dói essa saudade que sinto das minhas saudades colecionadas! Antagônico, o esquecimento enjaula-me à lembrança. Ninguém ensinou a mim que as coleções devem ficar cobertas de pó. Encostadas em prateleiras. Presas em vidros de éter.

O amor não é encarcerado nem posto em conserva. Mesmo o maior dos amores pode nublar. Paulatinamente, por inércia, cautela em demasia ou escolha, todo amor é passível de fenecer. E a saudade, pela sutil vingança do tempo, não é colecionável.

Digo adeus a mim neste momento porque vou me mudar. Levo meu espírito para abrigar outra identidade. Crio um semi heterônimo. Sem passado algum. Colecionarei saudades de mim mesmo, enquanto me for permitido. Avisto virgens futuros para o meu efêmero ser. Se, por ironia, apagar também essa saudade, não há problema. Eu já não me serei.

* Ps: tive a honra de ter sido publicada no Suplemento Literário de Minas Gerais, com este conto.

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Promessa de Ano Novo

O Natal de Maria Clara, naquele ano, havia sido mais triste. Desde que conhecera o Teatro Municipal, não encontrara muita beleza nas luzes estapafúrdias que engoliam a cidade e as pessoas.

O Réveillon também era uma estranha recordação. Seus tios, depois de uma certa altura, pareciam mais crianças que ela mesma – e isto fora muito divertido. Só que, no dia seguinte, passaram a se queixar de dores de cabeça. Cobriam seus olhos com óculos escuros. Fugiam impunes do sol, em plena praia. Como uma noite de infância dói tanto?

Clarinha refletiu muito tempo sobre esse assunto. E, como necessitava de uma resolução para todos os problemas, perdoou os parentes. Realmente ser criança é ter muitos planetas à disposição. Isso deve machucar as cabeças que trabalham todos os dias.

O verdadeiro significado do verão, para ela, no fundo, no fundo, era o mar. Levantar bem cedinho – o frio da noite ainda não fora dormir – e observar os raios amarelos que pintavam as ondas com precisa timidez.

Com o mar, Maria Clara passava horas de sereia. Coordenava aventuras infinitas, que só seriam resolvidas no misterioso amanhã. Aumentar o tamanho das histórias prolonga os verões, pensava com orgulho de si mesma. E era o almoço o invencível vilão. Porque depois dele o mar seria saudade de imaginar. Ah, a obrigação horrorosa de digerir as manhãs. 

A menina descobrira uma forma genial de acelerar as duas horas que a separavam do mar. E como sentia-se esperta de ter elaborado aquela saída! Eram horas de leitura, de concentrar-se totalmente nos livros. Até sentir a vertigem gostosa. Até grudar-se nas páginas e quase não ler mais: a palavra já estava presa aos olhos.

Nos fins de tarde, quando o mar era muito gelado e o coração estava nublado de lembrança, vinham as peripécias contadas pelos tios. Narrativas de piratas e navegadores de verdade. Mas tudo, tudo sempre encharcado de oceanos protagonistas.

E foi numa tarde de janeiro que a tia, com ironia ferina, contou para ela sobre a descoberta do Brasil. Com desdém, riu-se dos índios. Primitivos. Incapazes de enxergar as caravelas. Sentiram apenas uma estranheza no horizonte!

Para a menina, nada era mais óbvio. Como poderiam ter avistado? A imaginação ainda não tinha sonhado com navios. Exatamente igual ao que ocorria com seus personagens de mar. O hoje é fundamental para o nascimento das coisas. Ontem, por exemplo, não havia criado uma baleia que a salvasse dos dentes terríveis do tubarão. Se a baleia fosse antecipada, não existiria a taquicardia da batalha.

Enquanto os tios amarfanhavam os heroicos índios, Clarinha ia deixando aquelas falas inúteis serem anonimizadas. Fez para si uma promessa de Ano Novo: passaria o resto daquele verão – ou se fosse preciso, o ano inteiro – à procura de índios. Índios que, como ela, não traduziriam em caravelas o indizível sentido das marés.

 

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