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Desencontrar-te

portas do sol

“Não estou indo em direção ao fim. Estou indo em direção às origens”. Manoel de Barros

Gosto de atravessar a rua e desdenhar a Praça do Príncipe Real, no caminho para o trabalho. A beleza deve sempre ser evitada, Lisboa. Os passos me parecem mais largos, longe dos bosques amarelecidos. As calçadas, estreitas, desaceleram os meus pensamentos, intransponíveis. A tua lentidão me exaspera.

Passaram-se três séculos e nove meses. Os dias duram demasiado, nos teus braços. As semanas se prolongam em anos e anos, sem envelhecerem meu rosto. Cruéis são estes tempos de espera.

Devo adiar o inadiável, Lisboa? Só basta um instante a navegar nos teus azuis para dizer que sim. Amanheço com o coração encharcado em quimeras, para que o Sol evapore os acontecimentos, nas seis badaladas do porvir.

Um único telefonema é capaz de calar meu pessimismo. Rodopiamos pela madrugada insone. E digo-te: sim, gosto imenso de ti. Sim, cá ficarei. Mas a manhã é irrecuperável, novamente. E tu me dilaceras as certezas com a mesma calma com que me embriagas em promessas.

No domingo fiquei à procura de tempestades. A chuva, no entanto, era fugidia. Só choveu dentro da minha casa porque teimo em abrir as janelas.

Será que todo amor atinge a plenitude no desencontro?

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O espelho

espelho

“Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.”

Mia Couto

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E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

Imagem

Foto de Bob Ferraz, amigo brasileiro que já possui seu heterônimo lisboeta na alma.

Álvaro de Campos – Fernando Pessoa

Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas…
Toda despedida é uma morte…
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, o comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem…

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.

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