Arquivo do mês: fevereiro 2012

O Medo foi um dos meus primeiros mestres…

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O insight do Artista

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. João Guimarães Rosa

Fui assistir – em uma mistura de medo e curiosidade – ao filme “O Artista”, do diretor francês Michel Hazanavicius. O medo consistia em não suportar por duas longas horas um filme inteiramente mudo e em P&B. A curiosidade era ainda mais óbvia: indicado a onze Oscars e vencedor de sete BAFTAs, “O Artista” vem sendo consagrado pelo público e pela crítica cinematográfica ao longo dos últimos dias de uma maneira assombrosa.

Com uma trilha sonora impecável, assinada por Ludovic Bourcesobre, a história nos relembra as estrelas notáveis de Fred Astaire e Gene Kelly, com um toque hitchockiano fantástico. É maravilhoso ver como as expressões se sobrepõem às falas e aos músculos, nesta saudosa homenagem ao cinema hollywoodiano.

“O Artista” nos revela as faces escondidas da nossa sensibilidade, ofertando-nos inúmeras reflexões acerca dos trilhos que a indústria quer seguir: precisamos mesmo da terceira dimensão para nos entreter com a sétima arte? Mais vale um rosto bonito do que um grande ator para se tornar um sucesso de bilheteria? Precisamos de tantas explosões e efeitos especiais para permanecermos atônitos em frente ao grande ecrã?

Contudo, embora essas questões sejam importantíssimas no incansável debate sobre o filme, outra interrogativa surgiu-me como insight. George Valentin, o protagonista, é um brilhante e carismático ator do cinema mudo na década de 20.  Sua segurança e competência – características incontestáveis do sucesso – atreladas ao conservadorismo típico de quem está no auge, impedem-no de vislumbrar o futuro. A mudez está com os dias contados.

Sua insistência nos mostra o quão importante é termos um olhar atento ao amanhã. O quanto nossas vestes podem estar ultrapassadas no mundo corporativo, de uma hora para outra. Ah, como devemos escutar os sonhos oraculares que às vezes se comportam como pesadelos!

“O Artista”, além de grande e visionário, ensina-nos a respeitar o papel que a arte exerce sobre a nossa própria narrativa. A gestão de nossas carreiras é uma das esquinas que nos colocam à prova: serei eu o protagonista de minha existência ou a vitima coisificada, traída pelos destinos? É imprescindível refazermo-nos, dia após dia, nesse universo acelerado que é capaz de esmagar nossos sonhos profissionais. Insucessos carregam também o sentido da jornada. A alguns passos da ruína, iminente, devemos sentir o vento que traz a liberdade dos fracassos. A vida imita a arte.

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ULTIMATUM

 

Mestre maior, visionário impecável Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (1917)

 

“Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma ideia grande, nenhuma corrente política que soe a uma ideia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.”

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