Arquivo da tag: Van Gogh

Ansiedades de amanhecer

vangogh

 

“É no ínfimo que vejo a exuberância.” Manoel de Barros

A véspera da viagem sonhada; o café da manhã da criança, em primeiro dia de aula; à espera de um sábado cinzento, com a agenda repleta de nadas; uma bendita noite, digna de revelar um antigo segredo; a obviedade de um amor, por anos enclausurado em cólera; para despertar os orvalhos; dias de verão, sem nuvens para apaziguar o colorir das peles; consumar o trabalho idealizado; o almoço viciado em ópios; quando a vida é traduzida em outras línguas; será que será eterno?

Quando me foi emprestado o olhar para que a arte se manifestasse em minha íris; dia de faxina para a festa; dia de faxina depois da festa, à procura de sussurros ou embriaguezes primeiras; em busca de um olhar que sorria com a mesma intensidade de quem respira; acender uma vela em oração.

Lagartixa em comunhão com a varanda; aspirar os pensamentos da miragem; sentir-me encharcada por milagres, ainda imaculados; café com cigarro; entregar uma flor de bicicleta; ler o cartão de quem destina uma flor; pela dissonância que torna alguém artista; uma melodia subscrita na carne.

Negação do amanhecer; pela lua que se vai em sincronia com um beijo; o sol primogênito da concretude de um sonho; pela morte de um corpo já sem passado, já sem futuro; rompimento da bolsa; sublimação da dor que há séculos habitava o músculo, fatigado de excessos.

Pela imagem poética ilusória; pelo presságio que dê nome à jornada; por amigos que clamam compartilhar suas quimeras; rompimento dos ovos, em coração de árvore.

Não anoitecer a solidão; transcrever, apenas, minha renúncia à existência mesquinha; carregar o fardo dos vagalumes.

Com ansiedade de amanhecer, recebo, em ternura, a missão de desobsediar epifanias.

Ps: dedico este texto à minha irmã, Renata. Que ela tenha muitas ansiedades de amanhecer na nova vida!

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

Despertares

“Todo o caso de loucura é porque alguma coisa voltou. Os possessos, eles não são possuídos pelo que vem, mas pelo que volta” Clarice Lispector

A loucura invade a galáxia, irrompe a atmosfera, atravessa estradas, violenta a casa e o atinge. Não. A loucura estava dentro, hibernava profunda dentro dele. Acorda ainda sonolenta, os olhos bem devagar alcançam as luzes e dão formas às coisas. O rosto ainda inchado daquele sonho de séculos. Depois do seu despertar, todavia, não há volta. A loucura tem os ouvidos atentos para a ruidez do piscar de olhos do seu hospedeiro. Ah, todos os silêncios preparam o estourar das ondas!

Parasita, a loucura se deleita nessa terra de ninguém que é o homem. E a pobre vítima se desespera, esperneia, vocifera, quer matar, quer cometer suicídio. A estranheza se apossou do espectro e não há nada – só o tempo? – que o permita sublimá-la.

Hipocrisia tamanha em assombrar-se com o âmago! Porque o louco não é avesso ao mundo. O louco não é manicomial. A vida só está pulsando em ritmo acelerado e se enxerga demais. O louco toca seu vazio fértil, engole todas as possibilidades de uma vez e não as digere.

Não há íris que suporte essa nitidez horrível que há em cada pedra.

Uma vez insano e acabou. É um gole para contaminar toda a existência. Não há cura. Mas há a arte que fagocita. E há também a intersecção das realidades. É no outro, cúmplice, hospedeiro insone. A noite pode avizinhar-se em calmaria. Desde que exista um e apenas um ser humano que confesse em mudez. As palavras não libertam a loucura. Também já estive adormecido.

1 comentário

Arquivado em Textos meus

Noctívaga

vangogh-starry_night_edit

São quase quatro da manhã e o inverno espantou todas as minhas folhas. Faz frio, chove, venta. É um desamparo tão característico, até vergonhoso. Beira a mesquinhez das imagens. Mas a descrição é verdadeira. Eu, curiosamente, preciso de gelo para aliviar minhas dores. E vivo o mais estranho paradoxo: se a neve cura meus músculos atormentados, porque o frio trata tão mal minha alma? 

Mas há o silêncio das quatro da manhã. Ele fez faxina nas vozes, nos problemas e nos bichos. Sua força é ingente. Poderia fugir com ele, se ele me quisesse para sempre em sua casa. Iria sem identidade, esqueceria meus filhos, abandonaria o marido. Iria nua, mente sem agasalhos, pés descalços. Ah, se esse silêncio me desejasse também!

Estou inerte, esquecida no quintal da minha casa. Uma tristeza encharca o banco no qual estou sentada. Esse pedaço de madeira me suporta. Aninha-me nos braços. Incapaz estou de ver as estrelas. A lua está escondida por um céu cor de terra. Meus amigos vivem seus cotidianos, emaranhados de tarefas e compromissos. Só a noite tem me feito companhia.

A necessidade de escrever é maior nessa hora. Desde rebenta assim fui: trocando os horários da normalidade. Parece a mim que o dia não espanta somente os vampiros. A poesia fica escondida sob o sol.

Os minutos das manhãs me são longos, uniformes, óbvios. Caminho por eles de muletas. Temo encostar os dedos em suas gélidas faces. A luminosidade encobre uma rigidez característica dos períodos ensolarados. Porque o calor não lhes pertence, é empréstimo beneficente do astro rei.  

Os caminhantes estão enforcados nas gravatas. As senhoras com cheiro de almoço apressam o passo. Parece que a música foi calada pelos escritórios e carros. E há uma algazarra desarmoniosa, inquietante, estúpida. O tempo nascido em claridade tem gosto de função fática. Traz em si a banalidade das conversas no elevador. Queima minha língua e as minhas palavras: eu só discorro quando o crepúsculo invade as corujas. A minha escrita dá-se no intervalo dos pássaros. Inversa aos estereótipos e chavões, são galos que anunciam o meu repouso.  

2 Comentários

Arquivado em Textos meus