Arquivo do mês: novembro 2014

Ansiedades de amanhecer

vangogh

 

“É no ínfimo que vejo a exuberância.” Manoel de Barros

A véspera da viagem sonhada; o café da manhã da criança, em primeiro dia de aula; à espera de um sábado cinzento, com a agenda repleta de nadas; uma bendita noite, digna de revelar um antigo segredo; a obviedade de um amor, por anos enclausurado em cólera; para despertar os orvalhos; dias de verão, sem nuvens para apaziguar o colorir das peles; consumar o trabalho idealizado; o almoço viciado em ópios; quando a vida é traduzida em outras línguas; será que será eterno?

Quando me foi emprestado o olhar para que a arte se manifestasse em minha íris; dia de faxina para a festa; dia de faxina depois da festa, à procura de sussurros ou embriaguezes primeiras; em busca de um olhar que sorria com a mesma intensidade de quem respira; acender uma vela em oração.

Lagartixa em comunhão com a varanda; aspirar os pensamentos da miragem; sentir-me encharcada por milagres, ainda imaculados; café com cigarro; entregar uma flor de bicicleta; ler o cartão de quem destina uma flor; pela dissonância que torna alguém artista; uma melodia subscrita na carne.

Negação do amanhecer; pela lua que se vai em sincronia com um beijo; o sol primogênito da concretude de um sonho; pela morte de um corpo já sem passado, já sem futuro; rompimento da bolsa; sublimação da dor que há séculos habitava o músculo, fatigado de excessos.

Pela imagem poética ilusória; pelo presságio que dê nome à jornada; por amigos que clamam compartilhar suas quimeras; rompimento dos ovos, em coração de árvore.

Não anoitecer a solidão; transcrever, apenas, minha renúncia à existência mesquinha; carregar o fardo dos vagalumes.

Com ansiedade de amanhecer, recebo, em ternura, a missão de desobsediar epifanias.

Ps: dedico este texto à minha irmã, Renata. Que ela tenha muitas ansiedades de amanhecer na nova vida!

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Rua Gumercindo Saraiva, 54

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À nova Lume

“Eu não vivo no passado. O passado vive em mim”. Paulinho da Viola

Todas as potencialidades de ser residem, em última instância, no nada. É na inexistência fecunda que os sonhos podem ser encarnados em projetos. O vazio deixa de habitar o lugar da mendiguez para suportar os incontáveis caminhos presentes em nossos devaneios mais enraizados.

“Quando está sendo, não há tempo”, disse, certa vez, meu mestre de poesia. A eternidade é anfitriã dos lugares, enquanto estamos inebriados pelo pertencer. A morte é condição sine qua non para um olhar desanuviado, para demolir a experiência em memórias e dar sentido àquilo que foi vivido.

Os objetos encaixotados, as cicatrizes que deixamos nas paredes, os acontecimentos engavetados. Agora, a impermanência é abrigo à descontinuidade.

Ao deixarmos uma casa encontramo-nos com os fragmentos desordenados de quem fomos nós. Essa saudosa alegria, alguma tristeza, amplas reminiscências de nós são passíveis de deixar o espaço para morar no passado.

Contudo não poderemos mais ser como outrora. Disso somos enfaticamente avisados. Há névoas pela frente. Cegos, por ora. Ensimesmados no instante que precede a epifania, travestida de desespero. Ingratos abençoados pelo Cosmos.

Não se esqueçam de caminhar. As nuvens se dissipam no horizonte, à frente. A ruptura alarga os oceanos do sonhador. Para compreender os silêncios extáticos de hoje, precisamos violar as auroras com a língua incompreensível que nossos corpos ainda não estão familiarizados. Ainda.

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À memória de Manoel, o eterno

Mia_Manoel

UM ABRAÇO PARA MANOEL

Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.

Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.

E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.

E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.

MIA COUTO
19-12-2013

 

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta.
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado.
Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.

Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski — seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros

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Livraria do Desassossego

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Aproximando-me do crepúsculo, em plena convalescença com os horizontes de Lisboa, senti-me incómodo. Tantas cores a declarar minha gratidão. A morte do azul de mais um dia. Os ventos gélidos do tímido verão. A iminência da infinda madrugada que testemunharia, por fim, a morte da hipótese.

O Cemitério dos Prazeres, onde moram as últimas paragens, permanecia inaudito. Quão imensa era a trilha, automática, até o número dezasseis, da Coelho da Rocha. Parei em todo café aberto na esperança de que os tragos de bagaceira me pudessem elevar ao estágio mais cósmico dos devaneios.

Por que haveria de deitar-me em sua cama? O meu sonho, há muito, já transbordava as exactas margens do impensável. A Livraria do Desassossego era um fenómeno mundialmente conhecido. O melhor livro de todos os tempos ressonava em corações noruegueses.

Inebriado por estrelas e cachaça, eu perscrutava o quarto mínimo, abrigo das galáxias pessoanas. Aquilo que, a princípio, encontrava-se esgotado por visitantes e estudiosos. Contudo, a poeira de seu baú resplandecia, inédita, às significações etílicas do meu olhar.

Abri a página amarelada e nua do meu caderno de bolso, presente oferecido pela simpática empregada da papelaria Emílio Braga. A virgindade assombrosa de sua capa em tecidos artesanais. O pavor à inexaurível condição de ali estar. Confessar meu sono à tinta negra, em palavras.

Por horas fiquei em pé, na tentativa ridícula de invocar Alberto Caeiro. As pernas tremiam, em exaustão de poesia que não se pode psicografar. Ensaiei, tolo, respirações transcendentais, à espera de um berçário de ideias. Arrefeci em frustrações e impaciências, desenganado de uma vinda triunfal.

Acendi, pois, um cigarro atrás do outro, ainda que fosse impróprio, proibido e egoísta. Pus mais um copo à mão, convencido de que o desmaio tornar-se-ia inevitável.

Como acontece o encontro de duas existências?

Certamente não ocorreria em forma de versos.

Paulatinamente, a poética do quarto minúsculo vai calando meus anseios. Legitima, soberana, a leitura mais óbvia de mim, antes velada pela cobiça à genialidade. Fui percebendo-me pequenino, só, triste. Coitado. E, de repente, farto de sensações que não havia nomeado antes. A cada instante, a cada gole. Em fumaças dispersas por janelas inventadas do amanhã, tu me libertas do meu analfabetismo emocional.

Eu, plágio universal do desassossego.

A poesia surge como música em língua estrangeira, involuntária, batendo meus pés, sem compreensão de sua letra. Amaldiçoa a missão de recolher aquelas vozes, transcrevendo as falas amorosas. A caneta navega sozinha, a apreender os demónios do mestre, assentindo com lealdade às almas heterónimas.

“A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.”

O teu encontro, Pessoa, me atrasa. Séculos antes do desencantamento do mundo. Qualquer coisa se refaz pertencimento, agora. Mas já não estou cá, no teu quarto de miúdo. Já não te revejo, Lisboa, Tejo e tudo. A tua chegada é mansa e estreita, como as ruas de Alfama. Engraçada. Violas minhas mãos com teus gritos absurdos, com teus uivos travestidos de ar. E eu te aceito sem existires. Porque há tanta cousa que, sem existir, existe demoradamente. E demoradamente és meu.

Uma tranquilidade humilde toma-me em abraços. Eu, tão imaturo, só ofertei a inquietude da tua alma para repousar contigo nos abismos.

E tu?

Tu amanheceste minha euforia, escurecendo-me inspiradas vicissitudes.

Ps: a história real é essa: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-96/esquina/pessoa-uma-paixao

Ps2: a foto é do meu querido amigo Luis Jardim, directamente da Casa do Pessoa.

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