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Botella al mar para el Dios de las palabras

A mis 12 años de edad estuve a punto de ser atropellado por una bicicleta. Un señor cura que pasaba me salvó con un grito: «¡Cuidado!»

El ciclista cayó a tierra. El señor cura, sin detenerse, me dijo: «¿Ya vio lo que es el poder de la palabra?» Ese día lo supe. Ahora sabemos, además, que los mayas lo sabían desde los tiempos de Cristo, y con tanto rigor que tenían un dios especial para las palabras.

Nunca como hoy ha sido tan grande ese poder. La humanidad entrará en el tercer milenio bajo el imperio de las palabras. No es cierto que la imagen esté desplazándolas ni que pueda extinguirlas. Al contrario, está potenciándolas: nunca hubo en el mundo tantas palabras con tanto alcance, autoridad y albedrío como en la inmensa Babel de la vida actual. Palabras inventadas, maltratadas o sacralizadas por la prensa, por los libros desechables, por los carteles de publicidad; habladas y cantadas por la radio, la televisión, el cine, el teléfono, los altavoces públicos; gritadas a brocha gorda en las paredes de la calle o susurradas al oído en las penumbras del amor. No: el gran derrotado es el silencio. Las cosas tienen ahora tantos nombres en tantas lenguas que ya no es fácil saber cómo se llaman en ninguna. Los idiomas se dispersan sueltos de madrina, se mezclan y confunden, disparados hacia el destino ineluctable de un lenguaje global.

La lengua española tiene que prepararse para un oficio grande en ese porvenir sin fronteras. Es un derecho histórico. No por su prepotencia económica, como otras lenguas hasta hoy, sino por su vitalidad, su dinámica creativa, su vasta experiencia cultural, su rapidez y su fuerza de expansión, en un ámbito propio de 19 millones de kilómetros cuadrados y 400 millones de hablantes al terminar este siglo. Con razón un maestro de letras hispánicas en Estados Unidos ha dicho que sus horas de clase se le van en servir de intérprete entre latinoamericanos de distintos países. Llama la atención que el verbo pasar tenga 54 significados, mientras en la República de Ecuador tienen 105 nombres para el órgano sexual masculino, y en cambio la palabra condoliente, que se explica por sí sola, y que tanta falta nos hace, aún no se ha inventado. A un joven periodista francés lo deslumbran los hallazgos poéticos que encuentra a cada paso en nuestra vida doméstica. Que un niño desvelado por el balido intermitente y triste de un cordero dijo: «Parece un faro». Que una vivandera de la Guajira colombiana rechazó un cocimiento de toronjil porque le supo a Viernes Santo. Que don Sebastián de Covarrubias, en su diccionario memorable, nos dejó escrito de su puño y letra que el amarillo es «la color» de los enamorados. ¿Cuántas veces no hemos probado nosotros mismos un café que sabe a ventana, un pan que sabe a rincón, una cerveza que sabe a beso?

Son pruebas al canto de la inteligencia de una lengua que desde hace tiempo no cabe en su pellejo. Pero nuestra contribución no debería ser la de meterla en cintura, sino al contrario, liberarla de sus fierros normativos para que entre en el siglo venturo como Pedro por su casa. En ese sentido me atrevería a sugerir ante esta sabia audiencia que simplifiquemos la gramática antes de que la gramática termine por simplificarnos a nosotros. Humanicemos sus leyes, aprendamos de las lenguas indígenas a las que tanto debemos lo mucho que tienen todavía para enseñarnos y enriquecernos, asimilemos pronto y bien los neologismos técnicos y científicos antes de que se nos infiltren sin digerir, negociemos de buen corazón con los gerundios bárbaros, los qués endémicos, el dequeísmo parasitario, y devuélvamos al subjuntivo presente el esplendor de sus esdrújulas: váyamos en vez de vayamos, cántemos en vez de cantemos, o el armonioso muéramos en vez del siniestro muramos. Jubilemos la ortografía, terror del ser humano desde la cuna: enterremos las haches rupestres, firmemos un tratado de límites entre la ge y jota, y pongamos más uso de razón en los acentos escritos, que al fin y al cabo nadie ha de leer lagrima donde diga lágrima ni confundirá revólver con revolver. ¿Y qué de nuestra be de burro y nuestra ve de vaca, que los abuelos españoles nos trajeron como si fueran dos y siempre sobra una?

Son preguntas al azar, por supuesto, como botellas arrojadas a la mar con la esperanza de que le lleguen al dios de las palabras. A no ser que por estas osadías y desatinos, tanto él como todos nosotros terminemos por lamentar, con razón y derecho, que no me hubiera atropellado a tiempo aquella bicicleta providencial de mis 12 años.

Gabriel Garcia Márquez, o génio tão amado.

 

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Imobiliária poética

tia-helena

À procura de inquilinos afetivos

 

Eu herdei esse apartamento quando minha tia avó, a tia Helena, faleceu, no natal de 2002. Ela era enfermeira do Hospital das Clínicas e a melhor pessoa do Mundo. Morreu com 88 anos, sem filhos. Eu era a grande paixão da vida dela.

Lembro-me bem de como ela era capaz de pentear os meus cabelos como ninguém mais conseguia. Uma leveza nas mãos que até os anjos invejavam. Guardava, no dia do seu aniversário, em cima da cama, todos os presentes e todos os bilhetes, incluindo os telegramas do banco, com igual carinho e bondade.

 

XL

 

Solidão é agradecer

Aos parabéns

Do Bradesco.

                        Fernando Portela in Poemínimos

 

Na casa da tia Helena morava também a Arlete, uma empregada completamente maluca, que tinha uma linguagem própria e um coração muito maior que os seus olhos arregalados. Eu tinha um pouco de medo, mas todo meu medo sempre se misturava com o cheiro de mofo perfumado; com as duvidosas cores dos carpetes; com os sons insuportáveis do Chacrinha, das tevês sempre ligadas; com as balinhas vencidas e com o azul que desferia da íris, dos óculos enormes da tia Helena.

Às vezes, confesso, ficava com preguiça de ir visitá-la. Mas porque a tevê estava ligada, a Arlete falava dialetos, a bala grudada ao papel. A tia Helena era a única, naquela casa, que me inundava de ternura. Generosidade irritante. E sempre eu ia, com a canalhice felina – escova em punhos – a ofertar-lhe meus fios.

Nos almoços, na casa dos meus pais, minha mãe fazia questão de comprar aqueles vinhos alemães, doces, vagabundos, garrafas azuis. E embriagava a tia Helena. Ela, no auge da sua doçura, em janeiro, proferia: “Daqui a pouco já é natal! ” Como era sábia, meu Deus! Outras vezes, completamente ébria, colocava o cálice dentro do potinho de sorvete. E todos nós ríamos e, por alguns segundos, sentia-me família.

Minha avó, sempre exibida, sempre mais gordinha, sempre imponente, jamais deixava que a tia Helena pudesse ser protagonista de nada. Mas cá, dentro das minhas memórias afetivas, nas vísceras mais trôpegas dessas estúpidas ancestralidades, é ela quem me faz mais falta.

Quando fui morar no ap. da tia Helena, em 2011, várias epifanias me abrigaram também. Era minha primeira morada em São Paulo, como adulta. Aquela região perfeita, que tem a padoca na esquina, o boteco, o japa, as infindas lojas de música. Cozinha psicodélica, com suas laranjas e espirais. Aos sábados, de ressaca, eu acordava com jazz – que o sebo oferece. Se eu extrapolava nas festinhas, em casa, a janela, imensa, batia forte, e eu sabia que era a tia Helena me dando uma bronca doce, com piedade da minha loucura.

Ao me mudar de lá, em 2014, com sonhos de mangueira, cachorro e promessas de que o amor iria durar para sempre, meu coração sangrou um pouquinho.

Afinal, vivemos no apartamento da tia Helena toda a emancipação da Poesia. Os afters dos saraus, os jantares que viravam manhãs, os amanheceres que davam nomes a personagens. Ultimatos, Caubys Peixotos, amnésias poéticas. Eu fui imensamente feliz naquele ninho.

E a tia Helena, nas profundezas da sua solidão, inúmeras vezes, convidava-me a entrar em contato com os meus personagens, com a minha literatura, com a minha poesia. Ela dormia cedo e roncava altíssimo. E eu, já insone, habitava os devaneios mais puros de intimidade: solidões de cabana, à revelia de quaisquer subterfúgios.

 

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Confissões e canções de uma antiga suicida

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“nos demais – eu sei,

qualquer um o sabe –

o coração tem domicílio

no peito.

comigo

a anatomia ficou louca.

sou todo coração –

em todas as partes palpita.”

Vladimir Maiakóvski

Eu havia escolhido. Parece que os olhos ficam mais atentos, depois que o coração invoca as estradas. A miopia desaparece. Os instantes se agigantam, ávidos de finitude.

A dor ficava constantemente anestesiada pelos remédios. Afinal, depois de dois muros, três psiquiatras, uma irmã, uma amiga e um quase-pseudo-namorado, qual sofrimento seria vencido pela medicina?

Os amigos? Uns poucos tentaram. As pessoas têm ojeriza à dor. As pessoas também têm ojeriza à alegria. As pessoas não aceitam os excessos, não importa a natureza. Quaisquer transbordamentos, quaisquer dilúvios, quaisquer tempestades remetem aos humanos que a Natureza nos é maior.

Nenhum poeta mendiga por acolhimento, seus idiotas! Dai-me um papelão molhado, na Praça do Comércio. Uma cama no Jaguaré. Um quarto, abandonado, no feudo. Uma esplanada, de frente para a igreja de Santo Estevão. Ah, como dói quando a alma vai viajar e não se sabe o nome do sítio.

 

96 days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffe and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much theses days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffee and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much these days

                                                [Hugh Coltman]

E eu, Pedro, nunca tive medo de ser despejada da minh’alma. Confesso, o meu verdadeiro pavor é não respeitar mais esse planeta. Desprovido de poesia, escasso em generosidade. Lá, de onde viemos, a fartura é condição.

Só que me deparo com Vinícius e a sua casa aberta. São cinco da manhã em Santo André. O céu exige de mim a tradução maior de todas as psicodelias. Sou capaz de atravessar esses azuis, Pedro? Ninguém está pronto para decifrar as alegrias.

No entanto, os roteiristas da vida são uns caras surpreendentes. Eles mudam a cabeça dos personagens, indiscriminadamente, como se as mudanças não tivessem passado por gestações infindas. A gente só arrepia no instante que precede os absurdos.

Leve, como leve pluma

Muito leve, leve pousa.

Muito leve, leve pousa.

 

Na simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma

Suave coisa nenhuma.

 

Sombra, silêncio ou espuma.

Nuvem azul

Que arrefece.

 

Simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma.

Que em mim amadurece

                                    Ney Matogrosso

Por que será que há tanto glamour em sofrer? Por quais razões eu me identifico tanto com aquele poeta tuberculoso, pobre, derrotado? Onde mora essa bizarra união entre a arte e o fracasso?

Ou será ao contrário? Estamos ainda engatinhando na cosmicidade, ludibriando as ciências, envergonhando as estrelas?

Será que a beleza tem sempre que doer, ou somos nós, seres estéreis, incapazes, inconformados com os estrondos, insustentáveis, free jazz, da vida?

Por que eu ainda tenho medo do escuro, já que eu quero morrer?

Por que eu ainda olho para trás, à procura de um estranho, se eu quero morrer?

“(…). És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Ninguém nunca te vai sentir, Pedro. E pior aqueles que acham que te sentem. São muito menos generosos. Estes me doeram muito mais. Porque a tua dor vai ser sempre mais pequena, mais medíocre, menos válida.

 

“(…) All romantics meet the same fate

Someday, cynical and drunk and boring someone

In some dark cafe

You laugh, he said you think you’re immune,

Go look at eyes

They’re full of moon

You like roses and kisses and pretty men to tell you

All those pretty lies, pretty lies

When you gonna realize they’re only pretty lies

Only pretty lies, pretty lies(…)”

                                    Joni Mitchell

Em um mundo onde a derrota do pensamento impera, ser suicida é quase realeza. E, como fenomenóloga, eu luto, veementemente, pelo direito ao protagonismo. Todavia, o meu caso era de Poesia, misturado com muitas escolhas erradas: além de pessoas extremamente egoístas ao meu lado.

Contudo, eu não poderia ser igual aos suicidas óbvios. Então fui aproveitar, com classe. E, assim, quase matei meus pais. Prometi que, antes de morrer, ia te escrever, Pedro. Já que fracassei em tudo, absolutamente tudo nessa merda de planeta, eu ia inventar, eu ia me vingar, eu ia te fazer.

Meu pacto, por fim, comigo e com os comigos de mim era o seguinte: acabar a ti e me divertir. O resto que se foda. E jamais deixar de ser generosa, por mais que me desse vontade. Afinal, é a minha natureza.

Como meu derradeiro presente: fugir do natal. Odeio natal. A hipocrisia maior. Consumismo bizarro, shopping, amigo secreto. Reúne algumas das cousas que eu mais desprezo ao mesmo tempo. “Meu último natal vai ser na Bahia, não me importa com quem”.

No fundo, no fundo, bem lá no fundo, eu não queria me matar. Eu queria encontrar a minha casa. Mas as transformações são demoras que me desesperam. Eu não queria partir de mim. Assim como eu não quis partir de Lisboa. Assim como eu não quis partir dos amores que se estraçalharam, na minha memória. Eu tenho medo de não me ser boa anfitriã.

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“Pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando”

                        Leminski

Não sei te dizer onde foi, Pedro. Se ocorreu no banho de rio, quando a ostra quase decepou o meu dedo do pé, à luz da lua. A caminho do forró, a reclamar das distâncias, aparentemente instransponíveis. Nas risadas intermináveis, com aqueles desconhecidos tão amáveis! Nas madrugadas que fiz amigos pela vila. Nos intermináveis amanheceres que vivi.

Qualquer cousa se passou nessa passagem de ano. Lá estava eu a reverenciar o nascer do sol, no dia primeiro. A deitar fora minhas trevas. A vestir levezas que nem me cabem. A aprender que a beleza pode não mais doer.

E eu já não sei mais, Pedro. Tu não eras para ter uma mãe que passasse por isto. Eu vou ter que reaprender a ser mãe para te escrever também. A felicidade não estava calculada no nosso romance, meu querido.

Canção bõnus:

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Bebem-se Rios

santoandre

“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Bernardo Soares/Fernando Pessoa – O Livro do Desassossego

Era uma da manhã e eu me encontrava, só, no “aeroporto” de Porto Seguro. Acabara de descobrir que me seria impossível guardar meu container, de roupas, de sonhos, de biquínis. Jamais conheceria a passarela do álcool. Lembrei-me que recusei, com orgulho, conhecer Porto Seguro com as pessoas do Palmares, na viagem do terceiro colegial. Ironicamente, foi esse colégio nazista que me conectou ao anfitrião dessa aventura, talvez adolescente, talvez tardia, Baêa.

Quando cheguei, véspera de Natal, presente que me dei, o corpo se repudiou ao cansaço. Ojerizou-se de reclamar. Há qualquer cousa, em terras dos orixás, que só o inefável é capaz de traduzir. E eu? Rendi-me à minha nova condição. Entreguei-me àquelas horas. Àqueles infindos segundos baianos. Aos minutos que se arrastam, que dizem axé à minha ansiedade.

“(…) Na beira da vida

A gente torna a se encontrar só

Casa iluminada

Portão de ferro, cadeado, coração

E eu reconquistado

Vou passeando, passeando e morrer

Perto de seus olhos

Anel de ouro, aniversário, meu amor

Em minha cidade

A gente aprende a viver só”

 Milton Nascimento & Fernando Brant

Dormi, feliz, no banco, como uma mendiga. Amorteci a longa história das olheiras azuis. Fiquei à espera de duas meninas que nunca tinha visto – engano meu. Fiz a piada: tragam um casaco pra cá! O sereno bate à noite! Tantos caíram! Ah, quantas vezes rebobinamos essa ironia.

Não foi fácil sermos primeiras: Puta que pariu! Quanto se compra de queijo pra vinte pessoas? A gente pode levar peito de peru? Você também ama peito de peru? Banana prende! Granola é essencial! Eu tenho diarreia todo dia na Bahia… Nenhuma de nós bebe leite, mas alguém deve beber. Eu já sei que essa breja de milho vai dar merda. Mas está muuuuito mais barata. Vai dar merda! (Caralho não posso brigar com pessoas desconhecidas, vou levar milho e foda-se. O Tato vai comer meu cu com essa merda de milho mas beleza, eu compenso na piada e no Michael Douglas). Meninas, estamos fazendo as escolhas primeiras. É foda para porra. Não te falei que ninguém demora mais do que meia hora no supermercado? Passei dez anos indo pra Juquehy fazendo isso todo fim de semana, gata. Tô namorando todo mundoooo. Toca na propaganda do Spotify. Eu roubo do meu amigo DJ. Esquecemos o café. Chega, meninas. Chama o Rondonelli. Tô exausta. Arigatô Lau e Naná.

Como é possível decidir sem doer?

E veio a ceia, a fartura, os alívios. Os afetos. O inaugurar da madrugada. A queimada da largada. Já constituíamos uma família. E, como toda família, também é bem complicado quando a barriga começa a crescer e, você, criança, não entende de onde veio aquele óvulo, fecundo. Por que eu não fiz parte disso?

Ah, mas você é quase minha amiga também, caralho! Namorou o primo do Madeirada! Porra, você pegou meu melhor amigo! Vamos mandar uma foto pra ele. Alô?! Primeira vida, é você? Bar do Rio, MD? Meu amigo, espantando mosquitos… Eles estão fumando crack? Oi? Ela tá brilhando, gato, deixa! Ah, Madiba, acaba com meu apertaidy. Essa casa só tem, no máximo, um Kevin Bacon.

Não quero babá, motorista… mas nossa, essa faxineira é muita RYQUEZA! Beverly Hills! LUXO, Tem até camarote!  E muito drama! E, como assim, vão brotando essas pessoas! Pedro – nome do meu inventado, você NÃO TROUXE O MEU CIGARRO???? Tens alguma ideia do quanto eu me arrisquei por essas pessoas estranhas aqui para fazer vocês todas felizes? Será que meu excesso de generosidade é uma necessidade de carência?

Entrei no quarto da minha mamãe, determinada a drogá-la. Contudo, a única pessoa que eu droguei, mesmo, foi a Rafa, cuja autorização veio da diretoria e fui obrigada a acatar. A obrigação é seríssima, quando se estuda etimologia. Caipirinha ou água? Bruuu… Essa água tá batizada, sua louca! Mas eu já ia beber mesmo assim, então, foda-se, só me deixa trabalhar mais um pouquinho, aqui.

Enquanto isso, Band descobria uma casa muito engraçada, não tinha janelas, mas tinha porra para todos os lados e dava dor nas costas. Ele limpava a barba do boy, com a rebarba das inúmeras vezes que caiu de cara na areia. Dedé fazia caipirinhas maravilhosas que aprendeu comigo – mas esqueceu de dar os créditos… Tudo bem, estaremos quites, em Tel Aviv. E muito amor por ter me salvado do meu papel de DRAMA QUEEN, aos prantos, quando fui novamente abandonada.

E ganhei bolo de despedida do Gaga, a quem ensinei o melhor engate do Chico (e que tem – talvez – a maior afinidade musical com a minha pessoa). E que virou dois cafés da manhã comigo. E o Zé, que entende os horários dos banzas e não julga as peruanas. E vocês me ensinaram a rir de outra maneira. Como diriam os portugueses: Foda-se!

A Carol – quiçá tenha oublié moi – mas que não teria como não estar na minha vida. Fosse pelos Kevins em comum, pela barca de Yemanjá maravilhosa que ela construiu, ou, minimamente, pelo seu indiscutível bom gosto musical. GRATIDÂO, Universo. Carol, querida, você emana luz! E o Mau, só os nossos bullyings secretos e paralíticos acerca da derrota do pensam… para bom entendedor.

E Roxy você é Curinthia mano, to em casa. É a única mina que eu não me preocuparia… Entre mil parênteses e politicamente corretos, eu tenho dificuldades com as meiguices óbvias que podem aparecer. E você é o avesso disso.

Bom, vocês foderam com toda a minha linha de raciocínio poético e a seriedade – o que é ótimo. Eu odeio escrever palavrões. Eu assumo a linha rebuscada e hermética. VAMO, BEBEM-SE RIOS!

Em Santo André aprendi que a beleza pode não doer. Como diz meu sócio – dando os créditos, sempre – é o fim dessa apologia à decadência do artista. Vocês são pessoas que verdadeiramente me conectaram com essa sensação. Racionalmente, era fácil perceber, mas, mentiras sinceras me interessam. Não há experiência que minta.

E, ai, eu vou foder o Vinícius de Moraes, antes de acabar as o’menage de hoje. Ele estava profundamente equivocado. Foram aqueles olhos de Dudu, olhos que a Má me proibiu, veementemente, de onde eu tive essa epifania: jamais houve fim para a felicidade. CHUPA VINÍCIUS! Tristeza tem fim, felicidade não.

O que ele chama de tristeza eu chamo de medo. A gente morre de medo de ser feliz. A gente se caga de medo de experienciar as cousas. E se for gostoso o beijo grego? E se der prazer aquilo que eu fui treinado a dizer não? Naquela noite no forró, tendo rebarbas de noites e noites sem dormir, abensonhada por vocês e por aqueles céus psicodélicos, eu soube: toda a psicologia está pautada no contrário da cura.

E eu lacrey minha amizade com o Leo, numa planilha que é só nossa, né Madiba… Estou fingindo até agora que eu vi a Naná chegando com a Victória de stand-up, na minha cabeça ladra de escritora.

Odeio um pouquinho Brasília, assim como odeio Paris,

Odeio Paris

[Di Martins]

 

Talvez em Paris

a vida corra melhor e

os homens sejam

mais atenciosos,

fortes

ou mesmo rudes,

como você gosta.

No dia que embarcou

não queria nem

me despedir, mas

você disse:

não vai me dar

um abraço?

Como se não estivesse

acontecendo nada

o avião partiu

levando todos

os meus pedaços.

Mas isso foi neutralizado pela Pat, com essa cousa que eu sinto com tão poucas pessoas: os eleitos. Quero! Eu vou ser amiga dessa mina. E não foi muito difícil. E veio a Rafa, maravilhosa, com essa generosidade de alma que me assusta um pouco: espero ser um pouco mais mesquinha do que ela. Aliás, a ela sim eu enfiei o Michael Douglas, goela abaixo.

E o Thi é foda porque me ignorou hoje (#xatiada) mas, brincadeiras à parte, foi além de “porto seguro” e chacinas ótimas, e porres, e tudo, além de ser nosso cozinheiro que dança daquele jeito esfinge. Muito amor.

Geo, como foi um tesão a nossa conversa. Como psicóloga e, como poeta, eu tenho a certeza que um dia eu escreverei sobre isso: a gente só enlouquece no isolamento. Quando se descobre a companhia, a loucura é perdida. Talvez isso seja o amor. Caralho, tive um réveillon no meu cérebro e estou escrevendo direto. FODA-SE. Talvez estejamos condenadas pela maldição do intelecto.

Alê, a nossa bailarina está no ombro da Bel – minha médica – na primeira vez que ouvi Tchaikovsky! Quanto custa o despertar da sensibilidade? Ela sempre esteve aqui, hibernada, esperando? Ela vai sempre doer? A nossa música vai ficar linda. E ainda sobra outra pra Lisboa, tá?

And, Austin: there is no words in the real talk, man, chokito?! Is this real? That is happening?

Marina, eu espero que tu nunca saibas o quão linda és!

Tatito, desde os Goonies, nós sabemos que, nessa, o poetinha tinha razão. Casa aberta. Mas o seu dom é maior. E o seu pau deve ser também. Ficará latejante no fundo de minh’alma aquela mudança de idolatria, em Sem Fantasia. Eu prometo nunca mais discutir com D’us. Afinal, quem mais eu conheço com um bloquinho de anjos ao redor? Vocês sabiam que não existe coletivo de anjos? A gente inventou. É um nome pagão. Um bocado infame. Bebem-se Rios.

A música que ganhei está aqui:

E o making off:

stoandre

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Das alegrias inéditas

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.” Mia Couto

E, naquele dia em que nada se espera, o dilúvio acontece. Chega, dilacerando obviedades, lava todas as mentiras desenhadas no rosto, enxuga-se com toalhas gordas de amanhãs e de dúvidas.

Sinto-me menina quando me deparo com essas alegrias inéditas, inexploradas pelo pensamento. Como é possível que o sonho não tenha alcançado nenhum roteiro vinculado à realidade? Onde estavam esses enredos, impensados ao coração? Ah, que felicidade vislumbrar a vida superior à literatura!

E é tão difícil ser feliz. Parece-me quase uma afronta às solidões dramatizadas pelos poetas. Possuo uma imensa tristeza de ser feliz, às vezes. Dá-me uma repulsa incomensurável, uma culpa esmagadora, uma vergonha pelas lágrimas que me foram transbordadas.

Tenho medo de sentir as alegrias inéditas, como se me fosse proibido estar em posse desses acontecimentos. Seria capaz de escrever, encharcada por luzes cósmicas? Quantas exclamações não sonhavam interrogar a ausente melancolia?

Percebo que já havia me dado como vencida. Acabou meu prazo de validade. Você é velha e não se pode dar ao luxo de vivenciar um novo amor. Você não tem autorização para estar em cambaleante sincronicidade. A vida já passou por você. Contente-se com as memórias que foram colhidas. Guarde os antigos protagonistas. Esqueça essa bobagem de extasiar-se, uma vez mais!

Agora, ao tocar meus lábios se escancarando, involuntários, infantis, exilo a mim mesma. Torturo-me por almejar esse futuro que me é sonhado, inebriada com as estradas possíveis do existir.

Mas, ao me distrair, canto em voz alta com os olhos fechados, rodopio pelos salões, rio de mim mesma e gosto da pessoa que me reflete no espelho. A inauguração da plenitude é uma recém-nascida, forasteira.

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O perdão do amor demais

anima

Talvez seja pouco conhecida a história de Lilith, a primeira mulher da criação. Nascida da mesma matéria– e em igual potência – a Adão, a personagem banida da Bíblia possui uma análise mitológica dificílima. Para encurtar a história, ao perceber que não poderia dominar o amante, a filha de Deus se vê em um dilema: a igualdade ou a submissão.

Sua alma, no entanto, escolhe não sucumbir à dominação masculina. E ela voa para longe do Éden, inadvertidamente. Três anjos saem à sua caça. Insubordinada, Lilith é alvo da mais cruel das maldições: seria transformada em demônio e cem de seus filhos seriam mortos a cada dia. Ela, por sua vez, retribuiria a dor: atacaria mulheres e crianças recém nascidas e roubaria o sêmen dos homens durante o sono, na tentativa desesperada de repor os descendentes assassinados.

Em termos arquetípicos, é possível comparar o mito de Lilith à anima junguiana. Adão teme o mistério e a obscuridade de sua parte feminina, a qual nega por considerá-la uma ameaça às suas forças. Sua atitude é uma recusa à interioridade, à plenitude e ao processo de individuação.

Astronomicamente, Lilith representa a Lua Negra, quando o satélite se encontra no ponto mais distante da Terra. Exilada do planeta. Em astrologia ela exprime o sacrifício ao todo, à integração cósmica. Sua influência interfere diretamente na fertilidade, na abertura ao novo, na inevitável verdade ontológica. Do útero – a escuridão suprema – nasce a vida.

A liberdade da mulher torna-se, pois, um fardo: não se pode amar demais. Não invadir o que não foi nomeado. É preferível cristalizar a ignorância do que iluminar conteúdos submersos. Proibido como o fruto da serpente (que também, em algumas leituras, é uma animalização de Lilith). A sabedoria dual luz e sombra deve ser evitada, pois não se mensura os limites do conhecimento, em profundezas.

A etimologia, contudo, desvenda os mais belos dizeres sobre o símbolo de Lilith. De origem suméria, “Lil” significa ar. Respirar, concomitantemente, em latim, remete à devolução ao espírito (re – “de novo” e spirare – espírito).

Lilith, expatriada deusa, é um presságio de nosso destino: ao nos defrontarmos com os escuros, feridas impronunciáveis de nós mesmos, preferimos a rejeição. Tememos a dispneia. Revirar os naufrágios, emergir o caos, abraçar a coletividade. Abdicar do ego em prol da igualdade nos é insuportável. Contudo, será possível atingir a clarividência, nas superfícies de nossas almas?

Este texto é uma homenagem ao meu amigo amado Bruno Padilha.

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Graças a mim

puppetFreedomSketch

Nos últimos anos pude perceber, principalmente pela internet, a apropriação superficial de longínquos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro e seu vínculo com a busca pela felicidade. A ascensão meteórica da “autoajuda Namastê” tornou-se um fenômeno que acomete as mentes contemporâneas, com promessas de plenitude e mudanças estruturais imediatas. Há muita gente que já não se permite a utilização da palavra “obrigado”, por exemplo, como forma de agradecimento.

Não é de se estranhar que exista uma alienação quanto à origem da palavra, quando nos deparamos com simplificações de conceitos tão densos quanto os arquétipos.

Contudo, meu incômodo pode se transformar em pesquisa. Fui, assim, encontrar-me com São Tomás de Aquino, em texto brilhante do professor Jean Lauand para resgatar as origens etimológicas, necessárias à compreensão da humanidade como signo primordial das linguagens.

Agradecer é uma palavra sublime: está presente em diversas línguas, mesmo que originadas por radicais totalmente distintos. São Tomás de Aquino já testemunhava o nascimento dos arquétipos, ao proferir que: “línguas diferentes expressem a mesma realidade de modo diverso.”

Sua composição, em inglês, concilia os verbos to think e to thank na mesma família etimológica. Não se poderia agradecer, caso não tivéssemos a reflexão como base ancestral do conhecimento.

Arigatô também possui um cordão umbilical semelhante: “a existência é difícil”, “é difícil viver”, “raridade”, “excelência (excelência da raridade)”. Toda dádiva é uma raridade.

Em latim, a graça possui sentidos ainda mais complexos. Sua formulação original está atrelada a três movimentos: receber a benção de alguém, sem quaisquer merecimentos; compreender o sentido de dom, gratuitamente dado ao indivíduo, sem o buscar; retribuir, como dever, à graça que foi generosamente delegada.

A expressão em português, derivada do latim obligare, “ligar por todos os lados, ligar moralmente” vincula-se, pois, à terceira e mais nobre das dimensões de São Tomás de Aquino, ou seja, eu me sinto muito obrigado em lhe retribuir esta gentileza.

Quantas vezes, ao citarmos essa expressão corriqueira, damo-nos conta da sublimidade de seu poder? Se estou obrigado a retribuir ao Universo, conecto-me verdadeiramente em transferir esse presente, de forma legítima e muda, desprovida de alardes. Uma obrigação em silêncio e em confluência cósmica.

Por fim, nos vagos ensinamentos da autoajuda, nunca há um fortalecimento verdadeiro, no que diz respeito à autoestima e ao amor próprio. Nunca a gratidão é oferecida à própria pessoa: deve-se ao planeta, aos outros, aos temporais, mas e a si mesmo? Não deveríamos nos focalizar em nossas virtudes, excelências dadas a nós em gratuidade?

Hoje, ao trabalhar com processos e ferramentas voltados para o autoconhecimento, percebo que pouco nos colocamos em contato com os nossos dons: queremos sempre saber a inferioridade que nos habita.

A mudança comportamental verdadeira, a que provoca uma alteração significativa na autoimagem, é um processo muitas vezes doloroso. Revivemos, por muito tempo, máscaras deformadas de nós mesmos, que tentam nos colocar em velhos personagens. Mudar, para o cérebro, dói.

Portanto, é essencial dialogar com os dons, com as vocações ontológicas. Descobrir, uma por uma, as preferências estruturais e tirar proveito dos talentos. Estar obrigado a transcender-se. Saber-se abençoado por seus próprios contornos.

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