Arquivo da categoria: Crônica

Milagres em Sigilo

Screenshot_20200206_143248

Para André Pratas

Há uma cousa peculiar, cá, no mundo invertido, que diz respeito aos milagres. É o anonimato. Não conheci, em nenhum outro lugar do mundo, um país que abrigasse tantos e tão diversificados milagres, em absoluto silêncio.

As águas em Portugal são milagrosas. Uma delas, a água das pedras, gaseificada naturalmente, pode vir de chuvas que ocorreram há mais de dez mil anos. Com um gosto levemente salgado, é capaz de curar todos os tipos de enfermidades: ressacas, dores de estômago, envelhecimento das células.

Eu, que fui até então viciada em coca-cola, há muito tempo já não tenho a menor vontade de trocar uma água das pedras pelo refrigerante. Em todas as horas do dia: de manhã, com café e pastel de natas; de noite para tentar impedir o álcool de assombrar meu espírito; e novamente de manhã, caso o vinho tenha sido em demasia. Alguns meses atrás aprendi, contudo, outro segredo dessa bênção: não se deve bebê-la gelada. E sabe bem na mesma.

A segunda água que é milagrosa não fui eu que descobri. Uma amiga, filha de oftalmologista, contou-me que seu pai não podia acreditar no ocorrido com uma paciente. A mulher, quase cega, veio para alguma região portuguesa e depois de levar a água à face, não precisou mais ser operada. Sua visão sarou completamente. Tentamos descobrir onde está essa fonte poderosa mas, como disse no início, aqui os milagres preferem ficar incógnitos.

Contarei sobre a terceira água milagrosa – porque eu fui curada com ela. Em 2018, depois de passar por um trauma, fiquei profundamente fragilizada. Andar se tornou uma obsessão, proveniente do estresse que passei. Necessitava flanar por Lisboa, às vezes o dia todo. Em alguns deles, cheguei a contabilizar os 40 quilômetros. Meu espírito me dizia que os passos me seriam capazes de controlar a angústia. O azul me protegeria da desumanidade vivida. As colinas apaziguariam as memórias. Tudo em vão.

Em volta do meu joelho direito, que já foi operado, formou-se um edema gigantesco. Ironia das águas. Mal conseguia colocar o pé no chão. E o verão ignorou completamente meu sofrimento.

Um dia, sem conseguir me mexer, recebi um telefonema para ir à praia de Avencas, na linha de Cascais:

– Não posso, mal consigo andar – respondi, tristíssima.

– Foda-se, Mari, estás parva? Estou a convidar-te justamente por isso. A praia de Avencas é famosa por curar os ossos. Há até um sanatório para os velhotes lá. Vais ver que teu joelho estará recuperado, depois de um banho de mar. Confia em mim.

Pensei no nível de loucura desse amigo. Eu sou fiel aos loucos. E mais fiel ao absurdo, ao imponderável, ao milagre. Nunca confiei na realidade. Decidi, pois, aventurar-me com ele, já que não precisaríamos do comboio. Ele me levaria de boleia em seu carro.

Chegamos à praia. Pequenina e doce. Abarrotada de gente. Um bar fica logo à direita. É preciso descer as escadas para ter acesso ao mar. Meu amigo, um verdadeiro lorde, ajudou-me com a perna, imóvel.

O calor era brutal mas incapaz de acalmar a gelidez da água. Sentei-me numa pedra porque meus pulmões quase congelaram, no primeiro mergulho. Foi quando aconteceu o milagre: peixinhos amarelos dançavam à minha volta. Senti o golpe. Três facadas marinhas, travestidas de arrepios. Diretamente no meu joelho direito. Submergi, novamente, implorando aos deuses aquáticos para que me preservassem o respirar, no retorno. Era humanamente impossível permanecer mais tempo naquele oceano.

Levantei, ainda incrédula. O edema já não fazia parte de mim. Caminhei na areia, esticando todos os membros do corpo. Olhei para o meu amigo, embasbacada. Ele assentiu, como se o milagre fosse o óbvio. Não havia inchaço, não havia dor.

Uma melancólica sensação tomou conta do meu enternecimento. Como seria possível curar, em questão de segundos, um trauma que durou 13 dias? Em quais magias navegam esses portugueses, que não contam a ninguém seus santos? Por que não estranham esses acontecimentos? Por um átimo de segundo senti que D’us finalmente se rendia às minhas injúrias. A vida reverenciava meus sortilégios.

Minha mãe, desesperada com os meus abismos, decidiu passar uma temporada em Lisboa. Aquele ímpeto maternal. A tentativa de deitar fora minhas mazelas, de botar unguentos na minha alma. Levei-a imediatamente à praia de Avencas, na estúpida tentativa de curar suas ruínas. Pena que ela não seja crédula como eu.

Ao subirmos as escadas, para comer um camarão e tomar uma imperial, vimos a placa do bar: não é permitido entrar molhado, descalço ou com areia. Mundo invertido.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Textos meus

Neon

Neon

Ele devia ter uns oito anos. Eu, uns três. A gente assistia, de forma ininterrupta,  História sem Fim. Eu era completamente apaixonada por aquele menino. Ficava a imaginar que era meu Atreyu.

Não sei quando percebi que ele era anão. Minha excêntrica memória não me permite acessar essa descoberta. Desde então, tenho uma profunda admiração por anões. Virou quase um fetiche, quando me deparei com a volúpia que contorna Peter Dinklage, o Tyrion Lannister.

Eu contava essa história a dois amigos de infância de uma amiga querida, aqui no mundo invertido. Estávamos em um restaurante, ao pé da Sé, conhecido pelas amêijoas à Bulhão Pato e seus garçons piadistas. Nenhum tio do pavê se sentiria tão humilhado, nesse dia, se ouvisse a comédia de erros a qual assistimos. Piada ruim vira a maior piada do mundo, se a companhia é certeira.

Já saímos um pouco embriagados e, acima de tudo, atordoados pela infinitude que cercava o cérebro daqueles garçons, incansáveis em encontrar o cúmulo dos absurdos. Era a final da Libertadores e todos os nossos corações já sabiam da alegria que nos viria encontrar, em algumas horas.

Fomos descendo, agradecendo o existir ao cruzar o miradouro das Portas do Sol. As cores mudavam, a cada tocar dos sinos, entre amarelos, azuis improváveis e encarnados divinais. O céu dessa cidade está além de todas as psicodelias.

Na encruzilhada da Mouraria, ao fim da rua dos Cavaleiros, avistamos uma personagem absolutamente surreal, frente às conversas de antes: uma anã com um colete fosforescente.

Ali é um sítio conhecido por circulação de entorpecentes e prostituição. Um contraste com a Lisboa betinha, cafona, rica. Esta é uma junta de freguesia de imigrantes, miscigenações, conflitos.

A anã, bravíssima, orgulhosa e nem um pouco discreta, pulava por cima dos carros para verificar possíveis ações policiais ou eventuais clientes. Eu fiquei extasiada em ver a cena. Parecia que os deuses – que me conhecem muito bem – presentearam-me com uns takes de Fellini.

O Flamengo foi campeão. Pensei no meu tio, que foi médico deles e recebeu uma homenagem quando deixou esse plano. Chorei litros, com algumas esperanças renovadas em ser humana. Tivemos uma noite inenarrável.

Entanto, eu jamais me esqueci da anã, dona da boca. Era uma das materializações mais incríveis do mundo invertido. Assim, sempre que podia, passava pelo seu ponto, à espera de encontrá-la novamente.

Eu não sou jornalista, mas filha deles. Há qualquer cousa que clama pela investigação, dentro da minh’alma.

Foi então que, em uma despedida de visitas, a última ceia lisboeta deles, descemos as ruas da Graça, para almoçar no chinês clandestino que toda a gente conhece. Poderia ser mais uma anedota invertida. Eu contei a história da mulher que era a rainha daquela zona, soberana.

Disfarçada com o colete neon, lá estava ela. A orquestrar aquela gente toda. A entrar nas lojas e confiscar guarda-chuvas, meias ou qualquer utensílio que lhe apetecesse. Ela é a rainha e, como é óbvio, não paga por isso. Percebi seu olhar, cuidadoso.

Do outro lado da rua, melancólica e indecisa, pousada na parede triste da esquina, havia uma travesti de moletom.

2 Comentários

Arquivado em Crônica, Textos meus

Viver é Fictício em Lisboa

MariTris.jpg

 

Ontem a Marielle faria 39 anos. O meu lançamento, em São Paulo, foi um dia depois de sua morte. Hoje, estreio meu filho, em Lisboa, junto ao meu irmão de alma, Flavio Tris, e celebro o nascimento de Marielle. Coincidência? Eu nunca acreditei nesta palavra.

Sincronicidade.

Quando voltava para casa, nesta tarde, à espera do autocarro, tive imenso desejo de tomar café. Decidi cruzar a rua. A moça que me atendeu disse, em presságio:

– Vais sentar para beber o café e o autocarro vai chegar!

Não me importei. A descoberta do aniversário de Marielle me alumbrou em uma esperança muito mais doce que os dezanove minutos que me atrasariam, naquele instante. E a vida é feita dessas pequenas clarividências silenciosas.

Ao terminar o café, voltei à paragem do autocarro. Lá estava um senhor cego que precisaria de alguém para o orientar. Perguntei se ele esperava pelo 735, como eu. Ele assentiu. Explicou-me, ainda, que todos têm o prefixo 7 por conta das colinas da cidade. Entramos no autocarro e indaguei qual era a sua paragem. Ele me respondeu que desceria já na próxima. Uma velhota, atenta, depois que ele saiu, veio me esclarecer, à surdina:

– Ele não gosta de ser ajudado por ninguém.

Ri-me, sozinha. Lisboa é mesmo uma cidade mágica. Um cego que odeia ser ajudado! Que maravilhoso! Depois disso, no mesmo ônibus, vi dois idosos que se recusaram sentar no lugar reservado a pessoas de idade. Cada um deu desculpas distintas. Mas, cá, nos meus olhos de escritora, estava nítido: ninguém quer que a idade seja estampada na cara.

Por não estarmos distraídos, como diria Clarice, percebemos as conexões cósmicas que nos cercam.

Nós, os loucos, os psicóticos, os bêbados, os desencontrados, os excluídos, os gays, as travestis, as mulheres, as putas, os corruptíveis, os sensíveis, os destroçados, os carinhosos, os inconformados, os insones, os desempregados, os estrábicos, os desapontados, os sofredores, as crianças, os mendigos, os cegos, os surdos, os introvertidos, os torturados, os aleijados, as minorias, os angustiados, os depressivos, as ralés de todas as origens somos aqueles que estamos ligados à uma sintonia maior. Porque buscamos o sagrado, o tempo todo.

“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha”, disse Bernardo Soares.

Mas nós, os lúcidos, aprendemos, ao longo dessa árdua luta contra o ego, em busca de nós mesmos, que os papéis, inúmeras vezes, estão invertidos. O casamento é falso. O traficante é bom. O rico é devasso. O padre é pedófilo. Não se deve cobrar pela generosidade.

Tamanhas obviedades parecem-me tão claras, agora. Mas nem sempre aconteceu assim. Foi-me preciso alcançar o último degrau de minha solidão para chegar até aqui. Comigo e com os comigos de mim.

Nessa trajetória, entre Lisboa, Zurique, São Paulo, Aeroporto da Portela e, finalmente Lisboa, descobri que a Poesia foi (e é) a maior prisão da minha vida. E dela jamais me libertarei. Embora não tenha vivido a beleza triunfal nestes tempos de trevas, alcancei a poética da solidão. Pude libertar, enfim, as minhas palavras, e todas as correntes que carreguei, ancestrais.

Obrigada, queridos amigos, por testemunharem, enfim, a minha verdadeira estreia.

Às minhas Babuskas.

Às Deusas.

À Lilith

À Empatia.

Ao Perdão.

Ao Miguel Angelo Perosa, meu terapeuta.

Ao Santo António, Cristo e Santo Estêvão.

Ao Fernando Pessoa.

À Lisboa.

Ao meu pai, aos meus irmãos. À minha família. À minha mamã.

À sincronicidade, maior do que o destino.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

1 comentário

Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente.

alberto-caeiro2.jpg

É costume dizer-se, desde que alguém começou a dizê-lo, que, para compreender um sistema filosófico, é preciso compreender o temperamento do filósofo. Como todas as coisas com ar de cenas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado. Confunde-se a filosofia com a formação dela. O meu temperamento pode levar-me a dizer que dois e dois são cinco, mas a afirmação de que dois e dois são cinco é falsa independentemente do meu temperamento, seja ele qual for. Pode ser interessante saber como é que eu vim a afirmar essa falsidade, mas isso nada tem com a própria falsidade, tem que ver somente com a razão do seu aparecimento.

O meu mestre Caeiro era um temperamento sem filosofia, e por isso a filosofia dele – que a tinha, como toda a gente – não é susceptível sequer destas brincadeiras do jornalismo intelectual. Não há dúvida que, sendo um temperamento, isto é, sendo um poeta, o meu mestre Caeiro exprimiu uma filosofia, isto é, um conceito do universo. Esse conceito do universo é, porém, instintivo e não intelectual; não pode ser criticado como conceito, porque não está lá, e não pode ser criticado como temperamento, porque o temperamento não é criticável.

As ideias organicamente ocultas na expressão poética do meu mestre Caeiro tentaram definir-se, com maior ou menor felicidade lógica, em certas teorias do Ricardo Reis, em certas teorias minhas, e no sistema filosófico -esse perfeitamente definido – do António Mora. Tão fecundo é Caeiro que cada um de nós três, devendo todos o pensamento da alma ao nosso mestre comum, produziu uma interpretação da vida inteiramente diferente da de qualquer dos outros dois. Verdadeiramente, não há direito de comparar a minha metafísica, e a do Ricardo Reis, que são meras vaguidades poéticas tentando esclarecer-se (ao contrário de em Caeiro, onde a alma era de certezas poéticas não buscando esclarecer-se), com o sistema de António Mora, que é realmente um sistema, e não uma atitude ou um remexer. Mas, enfim, ao passo que Caeiro afirmava coisas que, estando todas certas umas com as outras (como todos percebíamos) numa lógica que excede – como uma pedra ou uma árvore – a nossa compreensão, não eram contudo coerentes na sua superfície lógica, tanto o Reis, como eu (não falemos no Mora, por nosso superior em qualidade nesta matéria) tentávamos encontrar uma coerência lógica no que pensávamos, ou supunhamos que pensávamos, a respeito do Mundo. E isso, que pensávamos ou supunhamos que pensávamos, a respeito do mundo, isso devíamos a Caeiro, descobridor das nossas almas, colonizadas depois por nós.

Propriamente falando, Reis, Mora e eu somos três interpretações orgânicas de Caeiro. Reis e eu, que somos fundamentalmente embora diversamente poetas, interpretamos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se tem sentimento, ou temperamento, anda disfarçado.

O conceito da vida, formado por Ricardo Reis, vê-se muito claramente nas suas odes, pois, quaisquer que sejam os seus defeitos, o Reis é sempre claro. Esse conceito da vida é absolutamente nenhum, ao contrário do de Caeiro, que também é nenhum, mas às avessas. Para Ricardo Reis, nada se pode saber do universo, excepto que nos foi dado como real um universo material. Sem necessariamente aceitarmos como real esse universo, temos que o aceitar como tal, pois não nos foi dado outro. Temos que viver nesse universo, sem metafísica, sem moral, sem sociologia nem política. Conformemo-nos com esse universo externo, o único que temos, assim como nos conformariamos com o poder absoluto de um rei, sem discutir se é bom ou mau, mas simplesmente porque é o que é. Reduzamos a nossa acção ao mínimo, fechando-nos quanto possível nos instintos que nos foram dados, e usando-os de modo a produzir o menos desconforto para nós e para os outros, pois tem igual direito a não ter desconforto. Moral negativa, mas clara. Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto); a vida é um dia, e a noite é certa; não façamos a ninguém nem bem nem mal, pois não sabemos o que é bem ou mal, e nem sequer sabemos se fazemos um quando supomos fazer o outro, a verdade, se existe, é com os Deuses, ou seja com as forças que formaram ou criaram, ou governam, o mundo – forças que, como na sua acção violam todas as nossas ideias do que é moral e todas as nossas ideias do que é imoral, estão patentemente além ou fora de qualquer conceito do bem ou do mal, nada havendo a esperar delas para nosso bem ou até para mal nosso. Nem crença na verdade, nem crença na mentira; nem optimismo nem pessimismo. Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é a filosofia de Ricardo Reis. É a de Caeiro endurecida, falsificada pela estilização. Mas é absolutamente a de Caeiro, de outro modo: o aspecto côncavo daquele mesmo arco de que a de Caeiro é o aspecto convexo, o fechar-se sobre si mesmo daquilo que em Caeiro está virado para o Infinito – sim, para o mesmo infinito que nega.

É isto – este conceito tão fundamente negativo das coisas – que dá à poesia de Ricardo Reis aquela dureza, aquela frieza, que ninguém negará que tem, por mais que a admire; e quem a admira – pouca gente – é por essa mesma frieza, aliás, que a admira. Nisto, de resto, Caeiro e Reis são iguais, com a diferença que Caeiro tem frieza sem dureza; que Caeiro, que é a infância filosófica da atitude de Reis, tem a frieza de uma estátua ou de um píncaro nevado, e Reis tem a frieza de um belo túmulo ou de um maravilhoso rochedo sem sol nem onde haver musgos. E é por isto que, sendo a poesia de Reis rigorosamente clássica na forma, é totalmente destituída de vibração – mais ainda que a de Horácio, apesar do maior conteúdo emotivo e intelectual. A tal ponto é intelectual, e portanto fria, a poesia de Reis, que quem não compreender um poema dele (o que facilmente sucede, dada a excessiva compressão) não lhe apreende o ritmo.

Comigo o que se passou foi o mesmo que o que se passou com Ricardo Reis, com a diferença que foi o contrário. O Reis é um intelectual, com o mínimo de sensibilidade de que um intelectual precisa para que a sua inteligência não seja simplesmente matemática, com o mínino do que ente humano precisa para se poder verificar pelo termómetro que não está morto. Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, mas gémeos desavindos. Assim, expontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada. Refiro-me à parte de Caeiro que está integralmente contida naquele verso, «E os meus pensamentos são todos sensações»; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso, que Caeiro se esqueceu de escrever, «as minhas sensações são todas pensamentos». Quando me designei como «sensacionista» ou «poeta sensacionista» não quis empregar uma expressão de escola poética (santo Deus! escola!); a palavra tem um sentido filosófico.

Não creio em nada senão na existência das minhas sensações; não tenho outra certeza, nem a do tal universo exterior que essas sensações me apresentam. Eu não vejo o universo exterior, eu não oiço o universo exterior, eu não palpo o universo exterior. Vejo as minhas impressões visuais; oiço as minhas impressões auditivas; palpo as minhas impressões tácteis. Não é com os olhos que vejo, mas com a alma; não é com os ouvidos que oiço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com [a alma.] E, se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu. De aqui a minha divergência fundamental do fundamental intelectual de Caeiro e de Reis, mas não do fundamental instintivo e sensitivo em Caeiro. Para mim o universo é apenas um conceito meu, uma síntese dinâmica e projectada de todas as minhas sensações. Verifico, ou cuido verificar, que coincidem com as minhas grande número das sensações de outras almas, e a essa coincidência chamo o universo exterior, ou a realidade. Isso nada prova da realidade absoluta do universo porque existe a hipnose colectiva. Já vi um grande hipnotizador obrigar um grande número de pessoas ver, positivamente ver, a mesma hora falsa em relógios que o não estavam. Concluo de aqui a existência de um Hipnotizador supremo, a quem chamo Deus, porque consegue impor a sua sugestão à generalidade das almas, as quais, contudo, não sei se ele criou ou não criou, porque não sei o que é criar, mas que é possível que criasse, cada uma para si mesma, como o hipnotizador me pode sugerir que sou outra pessoa ou que sinto uma dor que eu não posso dizer que não sinto, pois que a sinto. Para mim ser «real» consiste em ser susceptível de ser experienciado por todas as almas; e isto obriga-me a acreditar num Hipnotizador Infinito, pois criou uma sugestão chamada universo capaz de ser experienciado por todas as almas, não só reais, mas até possíveis. À parte isto, sou engenheiro – isto é, não tenho moral, política ou religião independente da realidade real mensurável das coisas mensuráveis, e da realidade virtual das coisas imensuráveis. Também sou poeta, e tenho uma estética que existe por si mesma, sem ter que ver com a filosofia que tenho ou com a moral, a política ou a religião que sou ocasionalmente forçado a ter.

António Mora, sim. Esse realmente, recebendo de Caeiro a mensagem na sua totalidade, se esforçou por traduzi-la em filosofia, esclarecendo, recompondo, reajustando, alterando aqui e ali. Não sei se a filosofia de António Mora será o que seria a de Caeiro, se o meu mestre a tivesse. Mas aceito que seria a filosofia de Caeiro, se ele a tivesse e não fosse poeta, para a não poder ter. Assim como da semente se evolve a planta, e a planta não é a semente magnificada, mas uma coisa inteiramente diferente em aspecto, assim do gérmen contido na totalidade da poesia de Caeiro saiu naturalmente o corpo diferente e complexo que constitui a filosofia de Mora. Vou deixar a exposição da filosofia de Mora para o trecho seguinte a este. Estou cansado de querer entender.

27-2-1931

Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.

– 372.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Outros poetas, Poesia

Botella al mar para el Dios de las palabras

A mis 12 años de edad estuve a punto de ser atropellado por una bicicleta. Un señor cura que pasaba me salvó con un grito: «¡Cuidado!»

El ciclista cayó a tierra. El señor cura, sin detenerse, me dijo: «¿Ya vio lo que es el poder de la palabra?» Ese día lo supe. Ahora sabemos, además, que los mayas lo sabían desde los tiempos de Cristo, y con tanto rigor que tenían un dios especial para las palabras.

Nunca como hoy ha sido tan grande ese poder. La humanidad entrará en el tercer milenio bajo el imperio de las palabras. No es cierto que la imagen esté desplazándolas ni que pueda extinguirlas. Al contrario, está potenciándolas: nunca hubo en el mundo tantas palabras con tanto alcance, autoridad y albedrío como en la inmensa Babel de la vida actual. Palabras inventadas, maltratadas o sacralizadas por la prensa, por los libros desechables, por los carteles de publicidad; habladas y cantadas por la radio, la televisión, el cine, el teléfono, los altavoces públicos; gritadas a brocha gorda en las paredes de la calle o susurradas al oído en las penumbras del amor. No: el gran derrotado es el silencio. Las cosas tienen ahora tantos nombres en tantas lenguas que ya no es fácil saber cómo se llaman en ninguna. Los idiomas se dispersan sueltos de madrina, se mezclan y confunden, disparados hacia el destino ineluctable de un lenguaje global.

La lengua española tiene que prepararse para un oficio grande en ese porvenir sin fronteras. Es un derecho histórico. No por su prepotencia económica, como otras lenguas hasta hoy, sino por su vitalidad, su dinámica creativa, su vasta experiencia cultural, su rapidez y su fuerza de expansión, en un ámbito propio de 19 millones de kilómetros cuadrados y 400 millones de hablantes al terminar este siglo. Con razón un maestro de letras hispánicas en Estados Unidos ha dicho que sus horas de clase se le van en servir de intérprete entre latinoamericanos de distintos países. Llama la atención que el verbo pasar tenga 54 significados, mientras en la República de Ecuador tienen 105 nombres para el órgano sexual masculino, y en cambio la palabra condoliente, que se explica por sí sola, y que tanta falta nos hace, aún no se ha inventado. A un joven periodista francés lo deslumbran los hallazgos poéticos que encuentra a cada paso en nuestra vida doméstica. Que un niño desvelado por el balido intermitente y triste de un cordero dijo: «Parece un faro». Que una vivandera de la Guajira colombiana rechazó un cocimiento de toronjil porque le supo a Viernes Santo. Que don Sebastián de Covarrubias, en su diccionario memorable, nos dejó escrito de su puño y letra que el amarillo es «la color» de los enamorados. ¿Cuántas veces no hemos probado nosotros mismos un café que sabe a ventana, un pan que sabe a rincón, una cerveza que sabe a beso?

Son pruebas al canto de la inteligencia de una lengua que desde hace tiempo no cabe en su pellejo. Pero nuestra contribución no debería ser la de meterla en cintura, sino al contrario, liberarla de sus fierros normativos para que entre en el siglo venturo como Pedro por su casa. En ese sentido me atrevería a sugerir ante esta sabia audiencia que simplifiquemos la gramática antes de que la gramática termine por simplificarnos a nosotros. Humanicemos sus leyes, aprendamos de las lenguas indígenas a las que tanto debemos lo mucho que tienen todavía para enseñarnos y enriquecernos, asimilemos pronto y bien los neologismos técnicos y científicos antes de que se nos infiltren sin digerir, negociemos de buen corazón con los gerundios bárbaros, los qués endémicos, el dequeísmo parasitario, y devuélvamos al subjuntivo presente el esplendor de sus esdrújulas: váyamos en vez de vayamos, cántemos en vez de cantemos, o el armonioso muéramos en vez del siniestro muramos. Jubilemos la ortografía, terror del ser humano desde la cuna: enterremos las haches rupestres, firmemos un tratado de límites entre la ge y jota, y pongamos más uso de razón en los acentos escritos, que al fin y al cabo nadie ha de leer lagrima donde diga lágrima ni confundirá revólver con revolver. ¿Y qué de nuestra be de burro y nuestra ve de vaca, que los abuelos españoles nos trajeron como si fueran dos y siempre sobra una?

Son preguntas al azar, por supuesto, como botellas arrojadas a la mar con la esperanza de que le lleguen al dios de las palabras. A no ser que por estas osadías y desatinos, tanto él como todos nosotros terminemos por lamentar, con razón y derecho, que no me hubiera atropellado a tiempo aquella bicicleta providencial de mis 12 años.

Gabriel Garcia Márquez, o génio tão amado.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Outros poetas

Imobiliária poética

tia-helena

À procura de inquilinos afetivos

 

Eu herdei esse apartamento quando minha tia avó, a tia Helena, faleceu, no natal de 2002. Ela era enfermeira do Hospital das Clínicas e a melhor pessoa do Mundo. Morreu com 88 anos, sem filhos. Eu era a grande paixão da vida dela.

Lembro-me bem de como ela era capaz de pentear os meus cabelos como ninguém mais conseguia. Uma leveza nas mãos que até os anjos invejavam. Guardava, no dia do seu aniversário, em cima da cama, todos os presentes e todos os bilhetes, incluindo os telegramas do banco, com igual carinho e bondade.

 

XL

 

Solidão é agradecer

Aos parabéns

Do Bradesco.

                        Fernando Portela in Poemínimos

 

Na casa da tia Helena morava também a Arlete, uma empregada completamente maluca, que tinha uma linguagem própria e um coração muito maior que os seus olhos arregalados. Eu tinha um pouco de medo, mas todo meu medo sempre se misturava com o cheiro de mofo perfumado; com as duvidosas cores dos carpetes; com os sons insuportáveis do Chacrinha, das tevês sempre ligadas; com as balinhas vencidas e com o azul que desferia da íris, dos óculos enormes da tia Helena.

Às vezes, confesso, ficava com preguiça de ir visitá-la. Mas porque a tevê estava ligada, a Arlete falava dialetos, a bala grudada ao papel. A tia Helena era a única, naquela casa, que me inundava de ternura. Generosidade irritante. E sempre eu ia, com a canalhice felina – escova em punhos – a ofertar-lhe meus fios.

Nos almoços, na casa dos meus pais, minha mãe fazia questão de comprar aqueles vinhos alemães, doces, vagabundos, garrafas azuis. E embriagava a tia Helena. Ela, no auge da sua doçura, em janeiro, proferia: “Daqui a pouco já é natal! ” Como era sábia, meu Deus! Outras vezes, completamente ébria, colocava o cálice dentro do potinho de sorvete. E todos nós ríamos e, por alguns segundos, sentia-me família.

Minha avó, sempre exibida, sempre mais gordinha, sempre imponente, jamais deixava que a tia Helena pudesse ser protagonista de nada. Mas cá, dentro das minhas memórias afetivas, nas vísceras mais trôpegas dessas estúpidas ancestralidades, é ela quem me faz mais falta.

Quando fui morar no ap. da tia Helena, em 2011, várias epifanias me abrigaram também. Era minha primeira morada em São Paulo, como adulta. Aquela região perfeita, que tem a padoca na esquina, o boteco, o japa, as infindas lojas de música. Cozinha psicodélica, com suas laranjas e espirais. Aos sábados, de ressaca, eu acordava com jazz – que o sebo oferece. Se eu extrapolava nas festinhas, em casa, a janela, imensa, batia forte, e eu sabia que era a tia Helena me dando uma bronca doce, com piedade da minha loucura.

Ao me mudar de lá, em 2014, com sonhos de mangueira, cachorro e promessas de que o amor iria durar para sempre, meu coração sangrou um pouquinho.

Afinal, vivemos no apartamento da tia Helena toda a emancipação da Poesia. Os afters dos saraus, os jantares que viravam manhãs, os amanheceres que davam nomes a personagens. Ultimatos, Caubys Peixotos, amnésias poéticas. Eu fui imensamente feliz naquele ninho.

E a tia Helena, nas profundezas da sua solidão, inúmeras vezes, convidava-me a entrar em contato com os meus personagens, com a minha literatura, com a minha poesia. Ela dormia cedo e roncava altíssimo. E eu, já insone, habitava os devaneios mais puros de intimidade: solidões de cabana, à revelia de quaisquer subterfúgios.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Textos meus