Arquivo da categoria: Crônica

“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente.

alberto-caeiro2.jpg

É costume dizer-se, desde que alguém começou a dizê-lo, que, para compreender um sistema filosófico, é preciso compreender o temperamento do filósofo. Como todas as coisas com ar de cenas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado. Confunde-se a filosofia com a formação dela. O meu temperamento pode levar-me a dizer que dois e dois são cinco, mas a afirmação de que dois e dois são cinco é falsa independentemente do meu temperamento, seja ele qual for. Pode ser interessante saber como é que eu vim a afirmar essa falsidade, mas isso nada tem com a própria falsidade, tem que ver somente com a razão do seu aparecimento.

O meu mestre Caeiro era um temperamento sem filosofia, e por isso a filosofia dele – que a tinha, como toda a gente – não é susceptível sequer destas brincadeiras do jornalismo intelectual. Não há dúvida que, sendo um temperamento, isto é, sendo um poeta, o meu mestre Caeiro exprimiu uma filosofia, isto é, um conceito do universo. Esse conceito do universo é, porém, instintivo e não intelectual; não pode ser criticado como conceito, porque não está lá, e não pode ser criticado como temperamento, porque o temperamento não é criticável.

As ideias organicamente ocultas na expressão poética do meu mestre Caeiro tentaram definir-se, com maior ou menor felicidade lógica, em certas teorias do Ricardo Reis, em certas teorias minhas, e no sistema filosófico -esse perfeitamente definido – do António Mora. Tão fecundo é Caeiro que cada um de nós três, devendo todos o pensamento da alma ao nosso mestre comum, produziu uma interpretação da vida inteiramente diferente da de qualquer dos outros dois. Verdadeiramente, não há direito de comparar a minha metafísica, e a do Ricardo Reis, que são meras vaguidades poéticas tentando esclarecer-se (ao contrário de em Caeiro, onde a alma era de certezas poéticas não buscando esclarecer-se), com o sistema de António Mora, que é realmente um sistema, e não uma atitude ou um remexer. Mas, enfim, ao passo que Caeiro afirmava coisas que, estando todas certas umas com as outras (como todos percebíamos) numa lógica que excede – como uma pedra ou uma árvore – a nossa compreensão, não eram contudo coerentes na sua superfície lógica, tanto o Reis, como eu (não falemos no Mora, por nosso superior em qualidade nesta matéria) tentávamos encontrar uma coerência lógica no que pensávamos, ou supunhamos que pensávamos, a respeito do Mundo. E isso, que pensávamos ou supunhamos que pensávamos, a respeito do mundo, isso devíamos a Caeiro, descobridor das nossas almas, colonizadas depois por nós.

Propriamente falando, Reis, Mora e eu somos três interpretações orgânicas de Caeiro. Reis e eu, que somos fundamentalmente embora diversamente poetas, interpretamos ainda com sujidades do sentimento. Mora, puramente intelectual, interpreta com a razão; se tem sentimento, ou temperamento, anda disfarçado.

O conceito da vida, formado por Ricardo Reis, vê-se muito claramente nas suas odes, pois, quaisquer que sejam os seus defeitos, o Reis é sempre claro. Esse conceito da vida é absolutamente nenhum, ao contrário do de Caeiro, que também é nenhum, mas às avessas. Para Ricardo Reis, nada se pode saber do universo, excepto que nos foi dado como real um universo material. Sem necessariamente aceitarmos como real esse universo, temos que o aceitar como tal, pois não nos foi dado outro. Temos que viver nesse universo, sem metafísica, sem moral, sem sociologia nem política. Conformemo-nos com esse universo externo, o único que temos, assim como nos conformariamos com o poder absoluto de um rei, sem discutir se é bom ou mau, mas simplesmente porque é o que é. Reduzamos a nossa acção ao mínimo, fechando-nos quanto possível nos instintos que nos foram dados, e usando-os de modo a produzir o menos desconforto para nós e para os outros, pois tem igual direito a não ter desconforto. Moral negativa, mas clara. Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto); a vida é um dia, e a noite é certa; não façamos a ninguém nem bem nem mal, pois não sabemos o que é bem ou mal, e nem sequer sabemos se fazemos um quando supomos fazer o outro, a verdade, se existe, é com os Deuses, ou seja com as forças que formaram ou criaram, ou governam, o mundo – forças que, como na sua acção violam todas as nossas ideias do que é moral e todas as nossas ideias do que é imoral, estão patentemente além ou fora de qualquer conceito do bem ou do mal, nada havendo a esperar delas para nosso bem ou até para mal nosso. Nem crença na verdade, nem crença na mentira; nem optimismo nem pessimismo. Nada: a paisagem, um copo de vinho, um pouco de amor sem amor, e a vaga tristeza de nada compreender e de ter que perder o pouco que nos é dado. Tal é a filosofia de Ricardo Reis. É a de Caeiro endurecida, falsificada pela estilização. Mas é absolutamente a de Caeiro, de outro modo: o aspecto côncavo daquele mesmo arco de que a de Caeiro é o aspecto convexo, o fechar-se sobre si mesmo daquilo que em Caeiro está virado para o Infinito – sim, para o mesmo infinito que nega.

É isto – este conceito tão fundamente negativo das coisas – que dá à poesia de Ricardo Reis aquela dureza, aquela frieza, que ninguém negará que tem, por mais que a admire; e quem a admira – pouca gente – é por essa mesma frieza, aliás, que a admira. Nisto, de resto, Caeiro e Reis são iguais, com a diferença que Caeiro tem frieza sem dureza; que Caeiro, que é a infância filosófica da atitude de Reis, tem a frieza de uma estátua ou de um píncaro nevado, e Reis tem a frieza de um belo túmulo ou de um maravilhoso rochedo sem sol nem onde haver musgos. E é por isto que, sendo a poesia de Reis rigorosamente clássica na forma, é totalmente destituída de vibração – mais ainda que a de Horácio, apesar do maior conteúdo emotivo e intelectual. A tal ponto é intelectual, e portanto fria, a poesia de Reis, que quem não compreender um poema dele (o que facilmente sucede, dada a excessiva compressão) não lhe apreende o ritmo.

Comigo o que se passou foi o mesmo que o que se passou com Ricardo Reis, com a diferença que foi o contrário. O Reis é um intelectual, com o mínimo de sensibilidade de que um intelectual precisa para que a sua inteligência não seja simplesmente matemática, com o mínino do que ente humano precisa para se poder verificar pelo termómetro que não está morto. Eu sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas, ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência entrepenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, mas gémeos desavindos. Assim, expontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada. Refiro-me à parte de Caeiro que está integralmente contida naquele verso, «E os meus pensamentos são todos sensações»; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso, que Caeiro se esqueceu de escrever, «as minhas sensações são todas pensamentos». Quando me designei como «sensacionista» ou «poeta sensacionista» não quis empregar uma expressão de escola poética (santo Deus! escola!); a palavra tem um sentido filosófico.

Não creio em nada senão na existência das minhas sensações; não tenho outra certeza, nem a do tal universo exterior que essas sensações me apresentam. Eu não vejo o universo exterior, eu não oiço o universo exterior, eu não palpo o universo exterior. Vejo as minhas impressões visuais; oiço as minhas impressões auditivas; palpo as minhas impressões tácteis. Não é com os olhos que vejo, mas com a alma; não é com os ouvidos que oiço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com [a alma.] E, se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu. De aqui a minha divergência fundamental do fundamental intelectual de Caeiro e de Reis, mas não do fundamental instintivo e sensitivo em Caeiro. Para mim o universo é apenas um conceito meu, uma síntese dinâmica e projectada de todas as minhas sensações. Verifico, ou cuido verificar, que coincidem com as minhas grande número das sensações de outras almas, e a essa coincidência chamo o universo exterior, ou a realidade. Isso nada prova da realidade absoluta do universo porque existe a hipnose colectiva. Já vi um grande hipnotizador obrigar um grande número de pessoas ver, positivamente ver, a mesma hora falsa em relógios que o não estavam. Concluo de aqui a existência de um Hipnotizador supremo, a quem chamo Deus, porque consegue impor a sua sugestão à generalidade das almas, as quais, contudo, não sei se ele criou ou não criou, porque não sei o que é criar, mas que é possível que criasse, cada uma para si mesma, como o hipnotizador me pode sugerir que sou outra pessoa ou que sinto uma dor que eu não posso dizer que não sinto, pois que a sinto. Para mim ser «real» consiste em ser susceptível de ser experienciado por todas as almas; e isto obriga-me a acreditar num Hipnotizador Infinito, pois criou uma sugestão chamada universo capaz de ser experienciado por todas as almas, não só reais, mas até possíveis. À parte isto, sou engenheiro – isto é, não tenho moral, política ou religião independente da realidade real mensurável das coisas mensuráveis, e da realidade virtual das coisas imensuráveis. Também sou poeta, e tenho uma estética que existe por si mesma, sem ter que ver com a filosofia que tenho ou com a moral, a política ou a religião que sou ocasionalmente forçado a ter.

António Mora, sim. Esse realmente, recebendo de Caeiro a mensagem na sua totalidade, se esforçou por traduzi-la em filosofia, esclarecendo, recompondo, reajustando, alterando aqui e ali. Não sei se a filosofia de António Mora será o que seria a de Caeiro, se o meu mestre a tivesse. Mas aceito que seria a filosofia de Caeiro, se ele a tivesse e não fosse poeta, para a não poder ter. Assim como da semente se evolve a planta, e a planta não é a semente magnificada, mas uma coisa inteiramente diferente em aspecto, assim do gérmen contido na totalidade da poesia de Caeiro saiu naturalmente o corpo diferente e complexo que constitui a filosofia de Mora. Vou deixar a exposição da filosofia de Mora para o trecho seguinte a este. Estou cansado de querer entender.

27-2-1931

Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa . Teresa Rita Lopes. Lisboa: Estampa, 1990.

– 372.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Outros poetas, Poesia

Botella al mar para el Dios de las palabras

A mis 12 años de edad estuve a punto de ser atropellado por una bicicleta. Un señor cura que pasaba me salvó con un grito: «¡Cuidado!»

El ciclista cayó a tierra. El señor cura, sin detenerse, me dijo: «¿Ya vio lo que es el poder de la palabra?» Ese día lo supe. Ahora sabemos, además, que los mayas lo sabían desde los tiempos de Cristo, y con tanto rigor que tenían un dios especial para las palabras.

Nunca como hoy ha sido tan grande ese poder. La humanidad entrará en el tercer milenio bajo el imperio de las palabras. No es cierto que la imagen esté desplazándolas ni que pueda extinguirlas. Al contrario, está potenciándolas: nunca hubo en el mundo tantas palabras con tanto alcance, autoridad y albedrío como en la inmensa Babel de la vida actual. Palabras inventadas, maltratadas o sacralizadas por la prensa, por los libros desechables, por los carteles de publicidad; habladas y cantadas por la radio, la televisión, el cine, el teléfono, los altavoces públicos; gritadas a brocha gorda en las paredes de la calle o susurradas al oído en las penumbras del amor. No: el gran derrotado es el silencio. Las cosas tienen ahora tantos nombres en tantas lenguas que ya no es fácil saber cómo se llaman en ninguna. Los idiomas se dispersan sueltos de madrina, se mezclan y confunden, disparados hacia el destino ineluctable de un lenguaje global.

La lengua española tiene que prepararse para un oficio grande en ese porvenir sin fronteras. Es un derecho histórico. No por su prepotencia económica, como otras lenguas hasta hoy, sino por su vitalidad, su dinámica creativa, su vasta experiencia cultural, su rapidez y su fuerza de expansión, en un ámbito propio de 19 millones de kilómetros cuadrados y 400 millones de hablantes al terminar este siglo. Con razón un maestro de letras hispánicas en Estados Unidos ha dicho que sus horas de clase se le van en servir de intérprete entre latinoamericanos de distintos países. Llama la atención que el verbo pasar tenga 54 significados, mientras en la República de Ecuador tienen 105 nombres para el órgano sexual masculino, y en cambio la palabra condoliente, que se explica por sí sola, y que tanta falta nos hace, aún no se ha inventado. A un joven periodista francés lo deslumbran los hallazgos poéticos que encuentra a cada paso en nuestra vida doméstica. Que un niño desvelado por el balido intermitente y triste de un cordero dijo: «Parece un faro». Que una vivandera de la Guajira colombiana rechazó un cocimiento de toronjil porque le supo a Viernes Santo. Que don Sebastián de Covarrubias, en su diccionario memorable, nos dejó escrito de su puño y letra que el amarillo es «la color» de los enamorados. ¿Cuántas veces no hemos probado nosotros mismos un café que sabe a ventana, un pan que sabe a rincón, una cerveza que sabe a beso?

Son pruebas al canto de la inteligencia de una lengua que desde hace tiempo no cabe en su pellejo. Pero nuestra contribución no debería ser la de meterla en cintura, sino al contrario, liberarla de sus fierros normativos para que entre en el siglo venturo como Pedro por su casa. En ese sentido me atrevería a sugerir ante esta sabia audiencia que simplifiquemos la gramática antes de que la gramática termine por simplificarnos a nosotros. Humanicemos sus leyes, aprendamos de las lenguas indígenas a las que tanto debemos lo mucho que tienen todavía para enseñarnos y enriquecernos, asimilemos pronto y bien los neologismos técnicos y científicos antes de que se nos infiltren sin digerir, negociemos de buen corazón con los gerundios bárbaros, los qués endémicos, el dequeísmo parasitario, y devuélvamos al subjuntivo presente el esplendor de sus esdrújulas: váyamos en vez de vayamos, cántemos en vez de cantemos, o el armonioso muéramos en vez del siniestro muramos. Jubilemos la ortografía, terror del ser humano desde la cuna: enterremos las haches rupestres, firmemos un tratado de límites entre la ge y jota, y pongamos más uso de razón en los acentos escritos, que al fin y al cabo nadie ha de leer lagrima donde diga lágrima ni confundirá revólver con revolver. ¿Y qué de nuestra be de burro y nuestra ve de vaca, que los abuelos españoles nos trajeron como si fueran dos y siempre sobra una?

Son preguntas al azar, por supuesto, como botellas arrojadas a la mar con la esperanza de que le lleguen al dios de las palabras. A no ser que por estas osadías y desatinos, tanto él como todos nosotros terminemos por lamentar, con razón y derecho, que no me hubiera atropellado a tiempo aquella bicicleta providencial de mis 12 años.

Gabriel Garcia Márquez, o génio tão amado.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Outros poetas

Imobiliária poética

tia-helena

À procura de inquilinos afetivos

 

Eu herdei esse apartamento quando minha tia avó, a tia Helena, faleceu, no natal de 2002. Ela era enfermeira do Hospital das Clínicas e a melhor pessoa do Mundo. Morreu com 88 anos, sem filhos. Eu era a grande paixão da vida dela.

Lembro-me bem de como ela era capaz de pentear os meus cabelos como ninguém mais conseguia. Uma leveza nas mãos que até os anjos invejavam. Guardava, no dia do seu aniversário, em cima da cama, todos os presentes e todos os bilhetes, incluindo os telegramas do banco, com igual carinho e bondade.

 

XL

 

Solidão é agradecer

Aos parabéns

Do Bradesco.

                        Fernando Portela in Poemínimos

 

Na casa da tia Helena morava também a Arlete, uma empregada completamente maluca, que tinha uma linguagem própria e um coração muito maior que os seus olhos arregalados. Eu tinha um pouco de medo, mas todo meu medo sempre se misturava com o cheiro de mofo perfumado; com as duvidosas cores dos carpetes; com os sons insuportáveis do Chacrinha, das tevês sempre ligadas; com as balinhas vencidas e com o azul que desferia da íris, dos óculos enormes da tia Helena.

Às vezes, confesso, ficava com preguiça de ir visitá-la. Mas porque a tevê estava ligada, a Arlete falava dialetos, a bala grudada ao papel. A tia Helena era a única, naquela casa, que me inundava de ternura. Generosidade irritante. E sempre eu ia, com a canalhice felina – escova em punhos – a ofertar-lhe meus fios.

Nos almoços, na casa dos meus pais, minha mãe fazia questão de comprar aqueles vinhos alemães, doces, vagabundos, garrafas azuis. E embriagava a tia Helena. Ela, no auge da sua doçura, em janeiro, proferia: “Daqui a pouco já é natal! ” Como era sábia, meu Deus! Outras vezes, completamente ébria, colocava o cálice dentro do potinho de sorvete. E todos nós ríamos e, por alguns segundos, sentia-me família.

Minha avó, sempre exibida, sempre mais gordinha, sempre imponente, jamais deixava que a tia Helena pudesse ser protagonista de nada. Mas cá, dentro das minhas memórias afetivas, nas vísceras mais trôpegas dessas estúpidas ancestralidades, é ela quem me faz mais falta.

Quando fui morar no ap. da tia Helena, em 2011, várias epifanias me abrigaram também. Era minha primeira morada em São Paulo, como adulta. Aquela região perfeita, que tem a padoca na esquina, o boteco, o japa, as infindas lojas de música. Cozinha psicodélica, com suas laranjas e espirais. Aos sábados, de ressaca, eu acordava com jazz – que o sebo oferece. Se eu extrapolava nas festinhas, em casa, a janela, imensa, batia forte, e eu sabia que era a tia Helena me dando uma bronca doce, com piedade da minha loucura.

Ao me mudar de lá, em 2014, com sonhos de mangueira, cachorro e promessas de que o amor iria durar para sempre, meu coração sangrou um pouquinho.

Afinal, vivemos no apartamento da tia Helena toda a emancipação da Poesia. Os afters dos saraus, os jantares que viravam manhãs, os amanheceres que davam nomes a personagens. Ultimatos, Caubys Peixotos, amnésias poéticas. Eu fui imensamente feliz naquele ninho.

E a tia Helena, nas profundezas da sua solidão, inúmeras vezes, convidava-me a entrar em contato com os meus personagens, com a minha literatura, com a minha poesia. Ela dormia cedo e roncava altíssimo. E eu, já insone, habitava os devaneios mais puros de intimidade: solidões de cabana, à revelia de quaisquer subterfúgios.

 

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Textos meus

Confissões e canções de uma antiga suicida

15822795_1490983227581860_8192551862866890706_n

“nos demais – eu sei,

qualquer um o sabe –

o coração tem domicílio

no peito.

comigo

a anatomia ficou louca.

sou todo coração –

em todas as partes palpita.”

Vladimir Maiakóvski

Eu havia escolhido. Parece que os olhos ficam mais atentos, depois que o coração invoca as estradas. A miopia desaparece. Os instantes se agigantam, ávidos de finitude.

A dor ficava constantemente anestesiada pelos remédios. Afinal, depois de dois muros, três psiquiatras, uma irmã, uma amiga e um quase-pseudo-namorado, qual sofrimento seria vencido pela medicina?

Os amigos? Uns poucos tentaram. As pessoas têm ojeriza à dor. As pessoas também têm ojeriza à alegria. As pessoas não aceitam os excessos, não importa a natureza. Quaisquer transbordamentos, quaisquer dilúvios, quaisquer tempestades remetem aos humanos que a Natureza nos é maior.

Nenhum poeta mendiga por acolhimento, seus idiotas! Dai-me um papelão molhado, na Praça do Comércio. Uma cama no Jaguaré. Um quarto, abandonado, no feudo. Uma esplanada, de frente para a igreja de Santo Estevão. Ah, como dói quando a alma vai viajar e não se sabe o nome do sítio.

 

96 days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffe and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much theses days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffee and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much these days

                                                [Hugh Coltman]

E eu, Pedro, nunca tive medo de ser despejada da minh’alma. Confesso, o meu verdadeiro pavor é não respeitar mais esse planeta. Desprovido de poesia, escasso em generosidade. Lá, de onde viemos, a fartura é condição.

Só que me deparo com Vinícius e a sua casa aberta. São cinco da manhã em Santo André. O céu exige de mim a tradução maior de todas as psicodelias. Sou capaz de atravessar esses azuis, Pedro? Ninguém está pronto para decifrar as alegrias.

No entanto, os roteiristas da vida são uns caras surpreendentes. Eles mudam a cabeça dos personagens, indiscriminadamente, como se as mudanças não tivessem passado por gestações infindas. A gente só arrepia no instante que precede os absurdos.

Leve, como leve pluma

Muito leve, leve pousa.

Muito leve, leve pousa.

 

Na simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma

Suave coisa nenhuma.

 

Sombra, silêncio ou espuma.

Nuvem azul

Que arrefece.

 

Simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma.

Que em mim amadurece

                                    Ney Matogrosso

Por que será que há tanto glamour em sofrer? Por quais razões eu me identifico tanto com aquele poeta tuberculoso, pobre, derrotado? Onde mora essa bizarra união entre a arte e o fracasso?

Ou será ao contrário? Estamos ainda engatinhando na cosmicidade, ludibriando as ciências, envergonhando as estrelas?

Será que a beleza tem sempre que doer, ou somos nós, seres estéreis, incapazes, inconformados com os estrondos, insustentáveis, free jazz, da vida?

Por que eu ainda tenho medo do escuro, já que eu quero morrer?

Por que eu ainda olho para trás, à procura de um estranho, se eu quero morrer?

“(…). És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Ninguém nunca te vai sentir, Pedro. E pior aqueles que acham que te sentem. São muito menos generosos. Estes me doeram muito mais. Porque a tua dor vai ser sempre mais pequena, mais medíocre, menos válida.

 

“(…) All romantics meet the same fate

Someday, cynical and drunk and boring someone

In some dark cafe

You laugh, he said you think you’re immune,

Go look at eyes

They’re full of moon

You like roses and kisses and pretty men to tell you

All those pretty lies, pretty lies

When you gonna realize they’re only pretty lies

Only pretty lies, pretty lies(…)”

                                    Joni Mitchell

Em um mundo onde a derrota do pensamento impera, ser suicida é quase realeza. E, como fenomenóloga, eu luto, veementemente, pelo direito ao protagonismo. Todavia, o meu caso era de Poesia, misturado com muitas escolhas erradas: além de pessoas extremamente egoístas ao meu lado.

Contudo, eu não poderia ser igual aos suicidas óbvios. Então fui aproveitar, com classe. E, assim, quase matei meus pais. Prometi que, antes de morrer, ia te escrever, Pedro. Já que fracassei em tudo, absolutamente tudo nessa merda de planeta, eu ia inventar, eu ia me vingar, eu ia te fazer.

Meu pacto, por fim, comigo e com os comigos de mim era o seguinte: acabar a ti e me divertir. O resto que se foda. E jamais deixar de ser generosa, por mais que me desse vontade. Afinal, é a minha natureza.

Como meu derradeiro presente: fugir do natal. Odeio natal. A hipocrisia maior. Consumismo bizarro, shopping, amigo secreto. Reúne algumas das cousas que eu mais desprezo ao mesmo tempo. “Meu último natal vai ser na Bahia, não me importa com quem”.

No fundo, no fundo, bem lá no fundo, eu não queria me matar. Eu queria encontrar a minha casa. Mas as transformações são demoras que me desesperam. Eu não queria partir de mim. Assim como eu não quis partir de Lisboa. Assim como eu não quis partir dos amores que se estraçalharam, na minha memória. Eu tenho medo de não me ser boa anfitriã.

 img_3036

“Pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando”

                        Leminski

Não sei te dizer onde foi, Pedro. Se ocorreu no banho de rio, quando a ostra quase decepou o meu dedo do pé, à luz da lua. A caminho do forró, a reclamar das distâncias, aparentemente instransponíveis. Nas risadas intermináveis, com aqueles desconhecidos tão amáveis! Nas madrugadas que fiz amigos pela vila. Nos intermináveis amanheceres que vivi.

Qualquer cousa se passou nessa passagem de ano. Lá estava eu a reverenciar o nascer do sol, no dia primeiro. A deitar fora minhas trevas. A vestir levezas que nem me cabem. A aprender que a beleza pode não mais doer.

E eu já não sei mais, Pedro. Tu não eras para ter uma mãe que passasse por isto. Eu vou ter que reaprender a ser mãe para te escrever também. A felicidade não estava calculada no nosso romance, meu querido.

Canção bõnus:

2 Comentários

Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

Bebem-se Rios

santoandre

“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Bernardo Soares/Fernando Pessoa – O Livro do Desassossego

Era uma da manhã e eu me encontrava, só, no “aeroporto” de Porto Seguro. Acabara de descobrir que me seria impossível guardar meu container, de roupas, de sonhos, de biquínis. Jamais conheceria a passarela do álcool. Lembrei-me que recusei, com orgulho, conhecer Porto Seguro com as pessoas do Palmares, na viagem do terceiro colegial. Ironicamente, foi esse colégio nazista que me conectou ao anfitrião dessa aventura, talvez adolescente, talvez tardia, Baêa.

Quando cheguei, véspera de Natal, presente que me dei, o corpo se repudiou ao cansaço. Ojerizou-se de reclamar. Há qualquer cousa, em terras dos orixás, que só o inefável é capaz de traduzir. E eu? Rendi-me à minha nova condição. Entreguei-me àquelas horas. Àqueles infindos segundos baianos. Aos minutos que se arrastam, que dizem axé à minha ansiedade.

“(…) Na beira da vida

A gente torna a se encontrar só

Casa iluminada

Portão de ferro, cadeado, coração

E eu reconquistado

Vou passeando, passeando e morrer

Perto de seus olhos

Anel de ouro, aniversário, meu amor

Em minha cidade

A gente aprende a viver só”

 Milton Nascimento & Fernando Brant

Dormi, feliz, no banco, como uma mendiga. Amorteci a longa história das olheiras azuis. Fiquei à espera de duas meninas que nunca tinha visto – engano meu. Fiz a piada: tragam um casaco pra cá! O sereno bate à noite! Tantos caíram! Ah, quantas vezes rebobinamos essa ironia.

Não foi fácil sermos primeiras: Puta que pariu! Quanto se compra de queijo pra vinte pessoas? A gente pode levar peito de peru? Você também ama peito de peru? Banana prende! Granola é essencial! Eu tenho diarreia todo dia na Bahia… Nenhuma de nós bebe leite, mas alguém deve beber. Eu já sei que essa breja de milho vai dar merda. Mas está muuuuito mais barata. Vai dar merda! (Caralho não posso brigar com pessoas desconhecidas, vou levar milho e foda-se. O Tato vai comer meu cu com essa merda de milho mas beleza, eu compenso na piada e no Michael Douglas). Meninas, estamos fazendo as escolhas primeiras. É foda para porra. Não te falei que ninguém demora mais do que meia hora no supermercado? Passei dez anos indo pra Juquehy fazendo isso todo fim de semana, gata. Tô namorando todo mundoooo. Toca na propaganda do Spotify. Eu roubo do meu amigo DJ. Esquecemos o café. Chega, meninas. Chama o Rondonelli. Tô exausta. Arigatô Lau e Naná.

Como é possível decidir sem doer?

E veio a ceia, a fartura, os alívios. Os afetos. O inaugurar da madrugada. A queimada da largada. Já constituíamos uma família. E, como toda família, também é bem complicado quando a barriga começa a crescer e, você, criança, não entende de onde veio aquele óvulo, fecundo. Por que eu não fiz parte disso?

Ah, mas você é quase minha amiga também, caralho! Namorou o primo do Madeirada! Porra, você pegou meu melhor amigo! Vamos mandar uma foto pra ele. Alô?! Primeira vida, é você? Bar do Rio, MD? Meu amigo, espantando mosquitos… Eles estão fumando crack? Oi? Ela tá brilhando, gato, deixa! Ah, Madiba, acaba com meu apertaidy. Essa casa só tem, no máximo, um Kevin Bacon.

Não quero babá, motorista… mas nossa, essa faxineira é muita RYQUEZA! Beverly Hills! LUXO, Tem até camarote!  E muito drama! E, como assim, vão brotando essas pessoas! Pedro – nome do meu inventado, você NÃO TROUXE O MEU CIGARRO???? Tens alguma ideia do quanto eu me arrisquei por essas pessoas estranhas aqui para fazer vocês todas felizes? Será que meu excesso de generosidade é uma necessidade de carência?

Entrei no quarto da minha mamãe, determinada a drogá-la. Contudo, a única pessoa que eu droguei, mesmo, foi a Rafa, cuja autorização veio da diretoria e fui obrigada a acatar. A obrigação é seríssima, quando se estuda etimologia. Caipirinha ou água? Bruuu… Essa água tá batizada, sua louca! Mas eu já ia beber mesmo assim, então, foda-se, só me deixa trabalhar mais um pouquinho, aqui.

Enquanto isso, Band descobria uma casa muito engraçada, não tinha janelas, mas tinha porra para todos os lados e dava dor nas costas. Ele limpava a barba do boy, com a rebarba das inúmeras vezes que caiu de cara na areia. Dedé fazia caipirinhas maravilhosas que aprendeu comigo – mas esqueceu de dar os créditos… Tudo bem, estaremos quites, em Tel Aviv. E muito amor por ter me salvado do meu papel de DRAMA QUEEN, aos prantos, quando fui novamente abandonada.

E ganhei bolo de despedida do Gaga, a quem ensinei o melhor engate do Chico (e que tem – talvez – a maior afinidade musical com a minha pessoa). E que virou dois cafés da manhã comigo. E o Zé, que entende os horários dos banzas e não julga as peruanas. E vocês me ensinaram a rir de outra maneira. Como diriam os portugueses: Foda-se!

A Carol – quiçá tenha oublié moi – mas que não teria como não estar na minha vida. Fosse pelos Kevins em comum, pela barca de Yemanjá maravilhosa que ela construiu, ou, minimamente, pelo seu indiscutível bom gosto musical. GRATIDÂO, Universo. Carol, querida, você emana luz! E o Mau, só os nossos bullyings secretos e paralíticos acerca da derrota do pensam… para bom entendedor.

E Roxy você é Curinthia mano, to em casa. É a única mina que eu não me preocuparia… Entre mil parênteses e politicamente corretos, eu tenho dificuldades com as meiguices óbvias que podem aparecer. E você é o avesso disso.

Bom, vocês foderam com toda a minha linha de raciocínio poético e a seriedade – o que é ótimo. Eu odeio escrever palavrões. Eu assumo a linha rebuscada e hermética. VAMO, BEBEM-SE RIOS!

Em Santo André aprendi que a beleza pode não doer. Como diz meu sócio – dando os créditos, sempre – é o fim dessa apologia à decadência do artista. Vocês são pessoas que verdadeiramente me conectaram com essa sensação. Racionalmente, era fácil perceber, mas, mentiras sinceras me interessam. Não há experiência que minta.

E, ai, eu vou foder o Vinícius de Moraes, antes de acabar as o’menage de hoje. Ele estava profundamente equivocado. Foram aqueles olhos de Dudu, olhos que a Má me proibiu, veementemente, de onde eu tive essa epifania: jamais houve fim para a felicidade. CHUPA VINÍCIUS! Tristeza tem fim, felicidade não.

O que ele chama de tristeza eu chamo de medo. A gente morre de medo de ser feliz. A gente se caga de medo de experienciar as cousas. E se for gostoso o beijo grego? E se der prazer aquilo que eu fui treinado a dizer não? Naquela noite no forró, tendo rebarbas de noites e noites sem dormir, abensonhada por vocês e por aqueles céus psicodélicos, eu soube: toda a psicologia está pautada no contrário da cura.

E eu lacrey minha amizade com o Leo, numa planilha que é só nossa, né Madiba… Estou fingindo até agora que eu vi a Naná chegando com a Victória de stand-up, na minha cabeça ladra de escritora.

Odeio um pouquinho Brasília, assim como odeio Paris,

Odeio Paris

[Di Martins]

 

Talvez em Paris

a vida corra melhor e

os homens sejam

mais atenciosos,

fortes

ou mesmo rudes,

como você gosta.

No dia que embarcou

não queria nem

me despedir, mas

você disse:

não vai me dar

um abraço?

Como se não estivesse

acontecendo nada

o avião partiu

levando todos

os meus pedaços.

Mas isso foi neutralizado pela Pat, com essa cousa que eu sinto com tão poucas pessoas: os eleitos. Quero! Eu vou ser amiga dessa mina. E não foi muito difícil. E veio a Rafa, maravilhosa, com essa generosidade de alma que me assusta um pouco: espero ser um pouco mais mesquinha do que ela. Aliás, a ela sim eu enfiei o Michael Douglas, goela abaixo.

E o Thi é foda porque me ignorou hoje (#xatiada) mas, brincadeiras à parte, foi além de “porto seguro” e chacinas ótimas, e porres, e tudo, além de ser nosso cozinheiro que dança daquele jeito esfinge. Muito amor.

Geo, como foi um tesão a nossa conversa. Como psicóloga e, como poeta, eu tenho a certeza que um dia eu escreverei sobre isso: a gente só enlouquece no isolamento. Quando se descobre a companhia, a loucura é perdida. Talvez isso seja o amor. Caralho, tive um réveillon no meu cérebro e estou escrevendo direto. FODA-SE. Talvez estejamos condenadas pela maldição do intelecto.

Alê, a nossa bailarina está no ombro da Bel – minha médica – na primeira vez que ouvi Tchaikovsky! Quanto custa o despertar da sensibilidade? Ela sempre esteve aqui, hibernada, esperando? Ela vai sempre doer? A nossa música vai ficar linda. E ainda sobra outra pra Lisboa, tá?

And, Austin: there is no words in the real talk, man, chokito?! Is this real? That is happening?

Marina, eu espero que tu nunca saibas o quão linda és!

Tatito, desde os Goonies, nós sabemos que, nessa, o poetinha tinha razão. Casa aberta. Mas o seu dom é maior. E o seu pau deve ser também. Ficará latejante no fundo de minh’alma aquela mudança de idolatria, em Sem Fantasia. Eu prometo nunca mais discutir com D’us. Afinal, quem mais eu conheço com um bloquinho de anjos ao redor? Vocês sabiam que não existe coletivo de anjos? A gente inventou. É um nome pagão. Um bocado infame. Bebem-se Rios.

A música que ganhei está aqui:

E o making off:

stoandre

1 comentário

Arquivado em Crônica, Poesia, Textos meus

Das alegrias inéditas

“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.” Mia Couto

E, naquele dia em que nada se espera, o dilúvio acontece. Chega, dilacerando obviedades, lava todas as mentiras desenhadas no rosto, enxuga-se com toalhas gordas de amanhãs e de dúvidas.

Sinto-me menina quando me deparo com essas alegrias inéditas, inexploradas pelo pensamento. Como é possível que o sonho não tenha alcançado nenhum roteiro vinculado à realidade? Onde estavam esses enredos, impensados ao coração? Ah, que felicidade vislumbrar a vida superior à literatura!

E é tão difícil ser feliz. Parece-me quase uma afronta às solidões dramatizadas pelos poetas. Possuo uma imensa tristeza de ser feliz, às vezes. Dá-me uma repulsa incomensurável, uma culpa esmagadora, uma vergonha pelas lágrimas que me foram transbordadas.

Tenho medo de sentir as alegrias inéditas, como se me fosse proibido estar em posse desses acontecimentos. Seria capaz de escrever, encharcada por luzes cósmicas? Quantas exclamações não sonhavam interrogar a ausente melancolia?

Percebo que já havia me dado como vencida. Acabou meu prazo de validade. Você é velha e não se pode dar ao luxo de vivenciar um novo amor. Você não tem autorização para estar em cambaleante sincronicidade. A vida já passou por você. Contente-se com as memórias que foram colhidas. Guarde os antigos protagonistas. Esqueça essa bobagem de extasiar-se, uma vez mais!

Agora, ao tocar meus lábios se escancarando, involuntários, infantis, exilo a mim mesma. Torturo-me por almejar esse futuro que me é sonhado, inebriada com as estradas possíveis do existir.

Mas, ao me distrair, canto em voz alta com os olhos fechados, rodopio pelos salões, rio de mim mesma e gosto da pessoa que me reflete no espelho. A inauguração da plenitude é uma recém-nascida, forasteira.

Deixe um comentário

Arquivado em Crônica, Textos meus