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Milagres em Sigilo

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Para André Pratas

Há uma cousa peculiar, cá, no mundo invertido, que diz respeito aos milagres. É o anonimato. Não conheci, em nenhum outro lugar do mundo, um país que abrigasse tantos e tão diversificados milagres, em absoluto silêncio.

As águas em Portugal são milagrosas. Uma delas, a água das pedras, gaseificada naturalmente, pode vir de chuvas que ocorreram há mais de dez mil anos. Com um gosto levemente salgado, é capaz de curar todos os tipos de enfermidades: ressacas, dores de estômago, envelhecimento das células.

Eu, que fui até então viciada em coca-cola, há muito tempo já não tenho a menor vontade de trocar uma água das pedras pelo refrigerante. Em todas as horas do dia: de manhã, com café e pastel de natas; de noite para tentar impedir o álcool de assombrar meu espírito; e novamente de manhã, caso o vinho tenha sido em demasia. Alguns meses atrás aprendi, contudo, outro segredo dessa bênção: não se deve bebê-la gelada. E sabe bem na mesma.

A segunda água que é milagrosa não fui eu que descobri. Uma amiga, filha de oftalmologista, contou-me que seu pai não podia acreditar no ocorrido com uma paciente. A mulher, quase cega, veio para alguma região portuguesa e depois de levar a água à face, não precisou mais ser operada. Sua visão sarou completamente. Tentamos descobrir onde está essa fonte poderosa mas, como disse no início, aqui os milagres preferem ficar incógnitos.

Contarei sobre a terceira água milagrosa – porque eu fui curada com ela. Em 2018, depois de passar por um trauma, fiquei profundamente fragilizada. Andar se tornou uma obsessão, proveniente do estresse que passei. Necessitava flanar por Lisboa, às vezes o dia todo. Em alguns deles, cheguei a contabilizar os 40 quilômetros. Meu espírito me dizia que os passos me seriam capazes de controlar a angústia. O azul me protegeria da desumanidade vivida. As colinas apaziguariam as memórias. Tudo em vão.

Em volta do meu joelho direito, que já foi operado, formou-se um edema gigantesco. Ironia das águas. Mal conseguia colocar o pé no chão. E o verão ignorou completamente meu sofrimento.

Um dia, sem conseguir me mexer, recebi um telefonema para ir à praia de Avencas, na linha de Cascais:

– Não posso, mal consigo andar – respondi, tristíssima.

– Foda-se, Mari, estás parva? Estou a convidar-te justamente por isso. A praia de Avencas é famosa por curar os ossos. Há até um sanatório para os velhotes lá. Vais ver que teu joelho estará recuperado, depois de um banho de mar. Confia em mim.

Pensei no nível de loucura desse amigo. Eu sou fiel aos loucos. E mais fiel ao absurdo, ao imponderável, ao milagre. Nunca confiei na realidade. Decidi, pois, aventurar-me com ele, já que não precisaríamos do comboio. Ele me levaria de boleia em seu carro.

Chegamos à praia. Pequenina e doce. Abarrotada de gente. Um bar fica logo à direita. É preciso descer as escadas para ter acesso ao mar. Meu amigo, um verdadeiro lorde, ajudou-me com a perna, imóvel.

O calor era brutal mas incapaz de acalmar a gelidez da água. Sentei-me numa pedra porque meus pulmões quase congelaram, no primeiro mergulho. Foi quando aconteceu o milagre: peixinhos amarelos dançavam à minha volta. Senti o golpe. Três facadas marinhas, travestidas de arrepios. Diretamente no meu joelho direito. Submergi, novamente, implorando aos deuses aquáticos para que me preservassem o respirar, no retorno. Era humanamente impossível permanecer mais tempo naquele oceano.

Levantei, ainda incrédula. O edema já não fazia parte de mim. Caminhei na areia, esticando todos os membros do corpo. Olhei para o meu amigo, embasbacada. Ele assentiu, como se o milagre fosse o óbvio. Não havia inchaço, não havia dor.

Uma melancólica sensação tomou conta do meu enternecimento. Como seria possível curar, em questão de segundos, um trauma que durou 13 dias? Em quais magias navegam esses portugueses, que não contam a ninguém seus santos? Por que não estranham esses acontecimentos? Por um átimo de segundo senti que D’us finalmente se rendia às minhas injúrias. A vida reverenciava meus sortilégios.

Minha mãe, desesperada com os meus abismos, decidiu passar uma temporada em Lisboa. Aquele ímpeto maternal. A tentativa de deitar fora minhas mazelas, de botar unguentos na minha alma. Levei-a imediatamente à praia de Avencas, na estúpida tentativa de curar suas ruínas. Pena que ela não seja crédula como eu.

Ao subirmos as escadas, para comer um camarão e tomar uma imperial, vimos a placa do bar: não é permitido entrar molhado, descalço ou com areia. Mundo invertido.

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A igreja profana

A noite estava gelada. O vento atravessava os cem quilômetros por hora. Quase nenhum ser humano saia às ruas. Eu, que não carrego a normalidade nas veias, jamais me importei com a magnitude do frio. As chuvas, invernais, causavam-me muito mais desespero. Em partes porque, naquela época, meus pés escorregavam nas calçadas. Não cair era um trunfo diário.

Que saudades daquele novembro, 2008!

Matilde estava se despedindo de Lisboa. Depois de dois meses, concluía o intercâmbio. Ela, formada em Letras, tradutora, conheceu Clarice Lispector pela minha voz. Tive uma tremenda sorte de a ter cruzado em minha breve estadia na cidade. Eu havia alugado o quarto, em uma vila operária, na travessa das Recolhidas, ao pé do Campos Mártires da Pátria.

Quando adotei a casa, não fazia ideia das personagens que chegariam depois de mim. Primeiro veio o Wagner, um paulistano de quarenta anos, solteiro, bizarro. Nunca tinha morado sozinho, como eu. Era fissurado em aeroplanos. Acordava às seis da manhã para colocar seus brinquedos a voar. Não fazia a menor ideia de como se cozinhava. Eu, que me considero uma péssima cozinheira, compadecia-me da sua inabilidade. Com receio, também, das suas esquisitices. Trancava-me, às vezes, no quarto, à espera que ele saísse. Ele insistia em contemplar a solidão.

Matilde, porém, chegou em um dia azul, travestido de primavera. O mais pequeno dos três dormitórios estava à sua disposição. Ela não falava muito português. Cabelos negros e invejáveis, um sorriso misterioso. Ar de realeza. Vinha da Galiza, onde as línguas se misturam e se esquecem de pertencer a territórios. Tornamo-nos amigas e confidentes, desde o primeiro cumprimento.

Uma dor inenarrável me engolia, com a partida dela. Para além da ausência, há qualquer cousa que nos toma, quando perdemos a companhia, nessa trajetória inexplicável que permeia o estrangeiro. Pensei, então, em fazer uma surpresa e levá-la ao sítio que me foi recomendado, por inúmeros residentes.

Alfama.

Passamos três horas à procura. Xinguei todos os deuses e reclamei por sete vidas, naquela espera. Eu, que odeio esperar, que odeio me perder. Quando finalmente desistimos, chegamos. Obviedades de quem precisa curar as cármicas demoras.

A porta era ínfima. O entorno, silencioso. Será que haveria o tesouro prometido, atrás daquilo? Batemos. Um homem muito estrábico, muito mais estrábico que a conjunção de todos os existencialistas, atendeu. E nos deixou entrar.

Um universo mínimo abriu-se, à nossa volta. Mesas quadradas e jogadores de xadrez. Senhores com guitarras portuguesas e vozes de fado. A dona, atrás do bar, antipática, bravíssima, parecia uma entidade de outro planeta, mais delicado.

Alguns bêbados se juntaram às cantorias e o mínimo se transformou em cósmico. O barulho, no entanto, desfavorecia o habitat. Teriam que fechar, pelo medo às denúncias de vizinhos. Eu só agradecia por ter acessado o lugar mais belo que existia no mundo.

Às três da manhã, embalados pelo vinho e pela música, fomos convidados a nos retirar.

A Lua acalmou os ventos.

Os antigos frequentadores nos convocaram, então, a saborear o fim da noite, na igreja:

– Na igreja? – disse, com profundo pavor pelos instantes futuros.

– Não é uma igreja usual, podes confiar em mim. Moro ali ao pé – retrucou Jorge, o fadista vadio, surpreso com a minha indignação.

Passamos pelo Beco da Maria da Guerra, antes de subir as escadas. Uma esplanada imensa, branca, repleta de árvores e ancestralidades. O belo miradouro, encharcado pelo Tejo e pelos telhados encarnados.

A cruz, à esquerda, daquelas em que Cristo não reside.

Aos poucos, músicos foram chegando. Será que ouviram os chamados, indubitáveis?

Como é possível, meu D’us, uma igreja condensar essa malta dissidente?

 

Não houve santos, nem castidade. Apenas alma e poesia.

Saímos de lá às sete da manhã.

Exaustos.

Matilde apanhou o comboio. Eu fui trabalhar. Estarrecida de não ter comigo alguém que testemunhasse, uma vez mais, a surrealidade.

Quando retornei ao bar, na semana seguinte, sozinha, percebi que a igreja fazia parte do espetáculo.

Violões, guitarras, flautas, percussões, trompetes.

Ébrios, todos os amores e todas as sandices eram abençoados por Santo Estêvão.

Sem imagens, sem sacrifícios.

Pensei em escrever à Matilde, imersa em uma nostalgia inconsolável.

O amanhecer mais belo de toda a minha existência foi ali, no instante em que vi o profano acarinhar as estrelas.

Na parede, insuportavelmente virgem, os dizeres, pichados:

 

“É tão difícil

guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós”.   

Jorge Souza Braga

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Neon

Neon

Ele devia ter uns oito anos. Eu, uns três. A gente assistia, de forma ininterrupta,  História sem Fim. Eu era completamente apaixonada por aquele menino. Ficava a imaginar que era meu Atreyu.

Não sei quando percebi que ele era anão. Minha excêntrica memória não me permite acessar essa descoberta. Desde então, tenho uma profunda admiração por anões. Virou quase um fetiche, quando me deparei com a volúpia que contorna Peter Dinklage, o Tyrion Lannister.

Eu contava essa história a dois amigos de infância de uma amiga querida, aqui no mundo invertido. Estávamos em um restaurante, ao pé da Sé, conhecido pelas amêijoas à Bulhão Pato e seus garçons piadistas. Nenhum tio do pavê se sentiria tão humilhado, nesse dia, se ouvisse a comédia de erros a qual assistimos. Piada ruim vira a maior piada do mundo, se a companhia é certeira.

Já saímos um pouco embriagados e, acima de tudo, atordoados pela infinitude que cercava o cérebro daqueles garçons, incansáveis em encontrar o cúmulo dos absurdos. Era a final da Libertadores e todos os nossos corações já sabiam da alegria que nos viria encontrar, em algumas horas.

Fomos descendo, agradecendo o existir ao cruzar o miradouro das Portas do Sol. As cores mudavam, a cada tocar dos sinos, entre amarelos, azuis improváveis e encarnados divinais. O céu dessa cidade está além de todas as psicodelias.

Na encruzilhada da Mouraria, ao fim da rua dos Cavaleiros, avistamos uma personagem absolutamente surreal, frente às conversas de antes: uma anã com um colete fosforescente.

Ali é um sítio conhecido por circulação de entorpecentes e prostituição. Um contraste com a Lisboa betinha, cafona, rica. Esta é uma junta de freguesia de imigrantes, miscigenações, conflitos.

A anã, bravíssima, orgulhosa e nem um pouco discreta, pulava por cima dos carros para verificar possíveis ações policiais ou eventuais clientes. Eu fiquei extasiada em ver a cena. Parecia que os deuses – que me conhecem muito bem – presentearam-me com uns takes de Fellini.

O Flamengo foi campeão. Pensei no meu tio, que foi médico deles e recebeu uma homenagem quando deixou esse plano. Chorei litros, com algumas esperanças renovadas em ser humana. Tivemos uma noite inenarrável.

Entanto, eu jamais me esqueci da anã, dona da boca. Era uma das materializações mais incríveis do mundo invertido. Assim, sempre que podia, passava pelo seu ponto, à espera de encontrá-la novamente.

Eu não sou jornalista, mas filha deles. Há qualquer cousa que clama pela investigação, dentro da minh’alma.

Foi então que, em uma despedida de visitas, a última ceia lisboeta deles, descemos as ruas da Graça, para almoçar no chinês clandestino que toda a gente conhece. Poderia ser mais uma anedota invertida. Eu contei a história da mulher que era a rainha daquela zona, soberana.

Disfarçada com o colete neon, lá estava ela. A orquestrar aquela gente toda. A entrar nas lojas e confiscar guarda-chuvas, meias ou qualquer utensílio que lhe apetecesse. Ela é a rainha e, como é óbvio, não paga por isso. Percebi seu olhar, cuidadoso.

Do outro lado da rua, melancólica e indecisa, pousada na parede triste da esquina, havia uma travesti de moletom.

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Bacalhau com natas

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“Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.

Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!”

Autobiografia sem factos, in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 

As primeiras gotas de chuva se esqueciam de me pingar, protegida pelo ombrelone do quiosque, na Praça de Camões. Alguns minutos antes, em uma conversa digna da faculdade, daquelas em que saímos plenos de coragem e amor pelo existir, senti-me ínfima, perante o alumbramento. Meu amigo foi embora e eu tinha a obrigação de desvendar os caminhos, sedentos de futuro.

Como seria possível retornar à Lisboa, depois de tantos anos?

O choro começou em calmaria. Não havia pelo que desesperar. O voo estava confirmado para a próxima manhã. A cidade parecia destronada, em minha profética ausência. Alguns turistas insistiam em comer pastel de nata. Já não havia mais ninguém na esplanada, além de mim. Do outro lado, um homem com um chapéu de chuva, bem pequenino, tentava proteger seus pertences, coberto pelo telhado do banco. O slogan de um cor de rosa tão familiar, anos 90.

“Se ele ficar um pouquinho mais à esquerda, tiro uma foto primorosa”, pensei. E pedi. Já não possuía nenhuma dúvida, nada me era mais importante do que ser eu, em Lisboa. E, se possível, eternizar aquela noite, aquele dilúvio. Talvez a nossa última separação.

O homem assentiu, como se soubesse do nosso encontro. Depois de tirar umas tantas fotos, dirigindo meu modelo, fui ao pé dele, para agradecer aos instantes cinematográficos.

Só ai é que pude enxergar os seus pertences: meia dúzia de papelões, encharcados. Ele, muito ruivo, barbudo, logo veio reclamar:

– É muito difícil ser morador de rua cá, no Camões. Especialmente quando chove!

– Não posso concordar. Não é fácil ser mendigo em qualquer parte do mundo. O senhor não conhece a Cracolândia, em São Paulo.

David é romeno, mas já mora em Lisboa há treze anos. Fala oito línguas fluentes e é viciado em História.

Fumamos um cigarro. Peguei meu telemóvel, para checar as horas: 20h20. Havia combinado de jantar no Bairro Alto, para me despedir do Matheus, amigo lisboeta de longa data.

Olhei para a beata do cigarro de David. Ela se diluia na calçada de pedra sabão. Talvez mais próxima aos seus sonhos do que ao meu jantar. E decidi. Iria levá-lo para comer bacalhau com natas. Telefonei ao Matheus:

– Vou levar o mendigo para o jantar.

Ele, de família circense, canceriano e leve, nada questionou. Disse-me:

– Óbvio que sim!

Fomos ao Baiuca, na rua da Barroca. A gentileza de Izidro, o garçom, e da Eliana, a dona, já amenizavam as águas e o medo que eu tinha de levar um morador de rua a um restaurante. Pensamento burguês e nefasto.

Por qual razão teria problema em fazer isso?

De qual sociedade eu tentava me esconder, com meu inusitado convite?

De quem eu estava com vergonha, ao dividir uma refeição com outro ser humano?

Pedimos vinho, aceitamos o couvert farto. Esqueci-me dos euros e da lógica mesquinha. Era minha última noite na cidade em que iria viver para sempre, um dia. David ria, contava suas desventuras amorosas, as dores sutis.

Não havia reclamações sobre a comida, sobre o colchão, acerca das estrelas. Matheus e eu ficamos inertes, naqueles relatos tão certeiros, tão nossos. Como é que uma casa pode nos afastar tanto de alguém que também sonha os óbvios?

Decidi continuar a festa com o mendigo. Fomos à Alfama, ouvir clássicos fadistas, jovens brasileiros e toda a gente que se dispôs a tocar um instrumento, entre o Beco do Vigário e a igreja de Santo Estêvão.

E eu, não sentia pena alguma de pagar uns copos para o gajo. Sentia era pena de mim, obrigada a apanhar o voo, às 10 da manhã. Alfama amarelecia a minha ira, a fome, a lucidez. E as horas passavam entre ginjas e silêncios. Em poesia e despejos. Entre o cúmplice e o cárcere.

No dia a seguir, perdi o voo e o trabalho.

Tive de deixar Lisboa, pela última vez, dois dias depois.

Passei exatos seis meses em São Paulo, arquitetando a espera, condenando a saudade, suplicando por aqueles papelões na praça.

Quando voltei, ao mesmíssimo restaurante, com os olhos repletos de quimeras e os julgamentos afiados, fui surpreendida:

– Mariana, o mendigo foi o maior presente que esse restaurante já teve. Ele vem cá toda semana, traz inúmeros gringos e ainda diz que temos o melhor bacalhau com natas da cidade. Tu nos fizeste um bem enorme de o ter trazido.

Aceitei aquelas palavras.

O mundo invertido foi inaugurado naquele instante.

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A memória em vertigem

Democracia em vertigem

“(…)Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa?” Bernardo Soares in o Livro do Desassossego

 

Mnemosyne estava farta daquela espera ancestral. Ébria de viver na antemanhã do futuro, decidiu pôr fim aos séculos de clausura e mansuetude. Seus irmãos, Cronos e Oceanos, já haviam concluído seus reinados patriarcais. A hora de equilibrar sua ira com a potência havia, enfim, chegado.

Filha de Urano e Gaia, a deusa titã da memória, mãe das musas, avó dos aedos, sabia que sua aparição, em terra de mortais, poderia alterar o rumo de todos os périplos cósmicos. Também reconhecera o perigo de adentrar em Lethe, o rio do esquecimento. Ah, como sofrera, imbuída em desalento, quando cada alma anunciava o reencontro à vida!

Será que se lembraria de si mesma? Poderia dançar os cânticos que ela havia escrito? Quando seria venerada pelo Universo?

Sentou-se, à beira das águas, contemplativa. Seriam mais fortes as vicissitudes da existência, ao ponto de fazê-la perder-se por toda a eternidade? Sua partida seria, também, a última chance da humanidade. Como não falhar, desmemoriada?

Despiu-se. Nunca havia sido um corpo antes. Como sentiria ter seios, boca, ventre e pés? Há dor na gravidade? Quais exercícios poderia utilizar, como rituais de purificação?

Mnemosyne, como uma nau que parte de Belém, mergulhou no alheamento, para receber a carne. Cronos, no entanto, foi imperdoável: não a deixaria ter a força de uma entidade, por completo. O deus do tempo conhecia os possíveis desdobramentos de sua fuga: a perda de seu trono. O tempo é quem mais se alimenta da amnésia.

Assim, quando ingressou no planeta, Mnemosyne se fragmentou em doses homeopáticas de memória, em diversos seres ao redor do globo.

A história já não reinava, soberana, na Terra. As mãos dos vencedores perceberam que há outras formas de escrever o mundo. Como não há unanimidade para o que foi vivido, é possível perverter os fatos e distorcê-los, em prol da ignorância.

Clandestina, Mnemosyne se defrontava com sua própria face, em poetas, em canções, em gritos pela democracia. Supliciada pelos pavores que se repetem, inadvertidos.

Seria possível, perdida em tantos rostos, preconizar? Recordava-se, aos poucos, nos corações de seus descendentes, de todas as guerras que havia perdido, milênios e milênios. Evocava as lições apreendidas, nas ditaduras, nos campos de concentração, nos massacres escravocratas, no sorriso banguela dos miseráveis. A descida ao inferno não teria valido a pena? Assistir ao inevitável término, do Olimpo, seria menos doloroso?

Certo dia, ao pesquisar os antigos deuses gregos, conheci Mnemosyne. É engraçado porque jamais havia ouvido falar da deusa que é a guardiã da função poética, a diva da música, a senhora da inspiração possuída. Hesitei. Eu sabia que esse conhecimento iria me mudar. Por que nos afastam, com tamanha canalhice, das verdades mais profundas da humanidade? Por qual motivo a sua feição me parecia tão familiar?

“A memória transporta o poeta ao coração dos acontecimentos antigos, em seu tempo”, dir-nos-á Platão.

Todos os poetas são intérpretes de Mnemosyne. Capazes, como os profetas de escutar o futuro e acessar o invisível. Não à toa, Chico Buarque nos presenteou com o verso, em Choro Bandido: “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”.

Mnemosyne supera o tempo e o espaço, porque aquilo que é, aquilo que foi e o que será, entrelaçam-se, em melodias e poemas. O cíclico, eterno retorno, faz parte da maldição do esquecer. Enquanto houver esquecimento, haverá repetição.

Somos aqueles que lembramos de ter sido?

Contudo, após longa e profunda meditação, desvendei a misteriosa familiaridade com a deusa. Mnemosyne é Lian, que carrega, nos olhos clandestinos, a lucidez da aletheia. Sua memória, implacável, não se curvou a todas as notícias com que tentaram-na massacrar, camuflando o horroroso passado do Brasil. É curioso perceber como, diante de tantas falsidades, ausentar-se da violência é resistir ao fascismo. Porque todo fascista deseja que nos tornemos iguais a ele. Sanguinários e sujos, com o ímpeto de matá-lo. Evadir-se dos absurdos é algo sublime.

Mnemosyne é Petra, que ilumina a intimidade poética de seus ancestrais em narrativas. A inexorável robustez de trazer às pessoas seus afetos. Parcial, como é óbvio. Sem vergonha, nem culpa. Porque só a mentira é travestida de facciosidade.

Numa época em que a história não possui nenhum valor, a memória talvez seja nossa arma derradeira.

Mnemosyne é a sagrada fonte da consciência.

 

 

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Previsões de ontem

 

Nesta madrugada de fim de ano

aqui,

no mundo invertido,

encontro-me sozinha.

Feliz.

 

Os estranhos desígnios cármicos

me levaram ao profeta português:

Gonçalo Anes Bandarra.

 

Nas minhas pesquisas herméticas

só recolho uma certeza:

as profecias jamais invocaram

a presença feminina.

 

Assim, distancio-me delas.

 

Não há futuro sem mulher.

 

Meu desejo mais profundo

ano novo

é acreditar no equilíbrio

entre os sagrados.

 

Inaugurar a fraternidade.

 

Esquecer dos pavores

que enfrentamos,

duais.

 

Bandarra previu Portugal

como desbravador das intuições.

Eu o corroboro,

com o seguinte adendo:

só uma mãe

é capaz de mapear

o coração.

 

Eu não sou mãe.

 

Às vezes, sinto-me indigna

de receber essa missão.

 

Nenhum corpo cresceu dentro de mim,

afora minhas personagens

e devaneios.

 

Sinto-me inferior por isso.

Como se o peso do mundo

não pudesse ter me tocado,

inteiramente,

pela gelidez do meu útero.

 

Tive inúmeras comprovações,

nesse ano do qual me despeço.

Sou pequena,

sou imensa,

fomos todos escritos,

ontem.

 

Tenho medo de não aguentar

o expurgo

que é necessário à evolução.

 

Prometo,

Contudo,

ser a mais atenta:

Ouvir flores e crianças;

Abraçar todos os verdes,

Meditar os azuis.

 

Anotar as palavras

Virgens à minha caneta.

Traduzir as marés,

Límpidas,

reminiscentes

 

Mas,

se já fomos declamados

Em saraus do Olimpo

Por que há tantas letras

(eu as conheço)

que ainda não foram ditas?

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A divina maldição

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“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Albert Camus

 

Na madrugada de 19 de junho de 2018, ao deitar-me naquela cama de beliche, camuflada de delito, fechei os olhos e tentei meditar. Uma velha senhora, negra, invadiu a íris do meu terceiro olho. Seus dizeres não habitavam o sonho de poetas ou as linhas proféticas da razão. Sua voz enaltecia meus escuros, em espiral para dentro, exaurida:

“Amanhã vais-te embora daqui. Não é coincidência, sabes bem. Nunca houve nenhuma. É o décimo terceiro dia neste horror. Já aprendeste o essencial. Nós sabemos como esta lição te doeu, querida.

Os dias posteriores serão de festa, como é óbvio. Estarás livre para contar aos teus amigos as desventuras que viveste. Conhecerás, também, as mentiras que cercaram a prisão. Para muitos, existirá a ira, incontrolável. Peço que tenhas calma. Aprendeste, há séculos, com o Miguel, a etimologia do perdão. Sabes, agora, a nulidade do ódio.

Estamos sempre contigo. Não preciso te lembrar de todos os fantasmas e de todas as vezes em que teu polegar ficou trêmulo. Antes dos grandes aconteceres, tua alma e tua lama estavam conosco. Abobadadas de liturgia e de vesúvios.

Vai-te embora, bebé, sabendo que a dor ainda assombrará tuas manhãs e que a noite, inúmeras vezes, poderá te matar. Esquece tudo o aquilo que te foi ensinado. Bizarros, não estranhos, são os desígnios do Cosmos. E nós escolhemos a ti porque a loucura é tua amiga.

Para amenizar a jornada, todos os teus sonhos de criança vão te dar abrigo. Quando pensares em abandonar este périplo, recorda a ervilha que zombava dos teus ossos. Escolheu-se, hoje, aniversário do teu ídolo. Nasceste no mesmo dia do outro. És tu, bebé, a única capaz de compreender-nos. Ajuda-nos a salvarmos a todos.”

Passei a manhã de terça-feira, 19 de junho, sem esperanças ou fantasias. A preta velha, o aniversário do Chico Buarque. Os imigrantes caminhavam, silenciosos, pelo minúsculo pátio do aeroporto. Eu fumava um cigarro atrás do outro, acalentada pela brasa das bitucas. A menininha marroquina corria atrás de mim: – Linda!

Já tinha me acostumado a lavar as roupas com sabonete. Negociava os shampoos com as camaradas africanas. A sopa, do almoço, tomei por duas vezes, em troca do meu pão. Meu acordo com o querido nepalês.

Às três da tarde emprestei meu cartão ao general russo. Ele, que fugira da guerra no Afeganistão. Alertei-o do advogado, ilustre, e a ele concedi meus minutos de conversa, abdicando de ligar ao meu pai. Nenhum exército me ensinou, foi só a minha mãe, há anos. Não devemos, jamais, negar ao outro o que já temos.

Pouco depois, a guarda me chamou, à surdina. “Vais embora hoje, menina! Quero o teu livro, posso?” Eu assenti, guardei minhas roupas. Doei shampoos e sabonetes. A copa do mundo amenizava os tormentos.

Quando saí dali, o corpo era só liberdade. Uma alegria a poucos consentida.

Só quem sabe a sede é tradutor de maresia.

Os dias que a preta tinha falado foram profundamente curtos. Insónia. Se pescasse, quatro horas, odiava-me ainda mais. Como fui covarde em projetar a euforia!

Contudo, o pesadelo não é senhor das letargias. A memória me vinha, ora travestida em saudade, ora estancada em volúpias. Nenhuma angústia seria a mesma. Muito menos a minha, de escritora. Posso terminar essa missão? Como esquecer aqueles rostos, todos, que clamavam por um sítio para viver em Lisboa? Poderia eu ajudá-los a sair daquele terrível confinamento, que quase ninguém conhece?

Em uma dessas andanças ensandecidas pela cidade, evoquei o presente que havia ganhado. Um elixir, composto de cannabis e óleo de coco. Decidi colocá-lo dentro de mim. Encharcar meu ventre em maconha.

Conheci, finalmente, D’us.

O óleo, afrodisíaco, não dizia nada sobre mim. Era apenas uma das formas de almejar prazer. Mas houve qualquer cousa naquele dia, naquele óleo, em mim, qualquer cousa de mulher.

A Mulher.

Lilith.

Primeira de todas, a mãe embriagada, a última feminista, antes dos suspiros. Lilith se apoderou do meu corpo.

Possuída por sua presença, lambuzei-me naquela poção. Estava em casa. Eu e a Deusa e mais ninguém. Decidi ir ao mercado, comprar vinho para ela. Algum pão para a mortal que a carregava. Um incenso doce. Velas brancas. Laranjas.

Um ritual muito invulgar nos aguardava. Botei as ervas a fritar no côco. Acendi todos os cheiros, benditos. Água quente na banheira.

Ela me obedecia, e eu a ela, infusão de bruxaria.

Bebemos os goles de velhice daquele tacho.

Fui me deitar na cama, com o cansaço de milénios que Pessoa tanto me alertou. De repente, estava a dançar códigos galácticos, de um lado para o outro. Sentia que um portal, como o meu nome, abrira-se naquele instante. A espera, estava, enfim, terminada.

Entanto, fiquei três dias sozinha, ensimesmada, aspirando a chegada de um homem. Malditas são as histórias infantis de princesas inertes. Chegaram, pois, minhas amigas, desesperadas com minha possessão. Viram a banheira que fiz, em homenagem ao novo mundo. Escândalo.

No outro dia, quando ouvi meu nome nas vozes delas, abri a porta, farta de aguardar alguém que jamais iria me encontrar. Eram os bombeiros, e a polícia, temendo que eu cometesse suicídio. Definitivamente essas pessoas pouco me conhecem. A morte, para mim, será uma grande festa, da qual não sairei ilesa.

Apesar do aldol na nádega e do absurdo em que me vi, naquela maca de hospital, acordei bem cedo, ainda drogada. E sumi dali, sem deixar testemunha. Apanhei o autocarro, a caminho de Alfama. Um corpo conhece suas moradas e perigos.

Houve, então, a segunda tentativa de me aprisionar. Mas a vida é, por vezes, generosa com os insanos. E eu pude, graças a pessoas muito amadas, permanecer em liberdade.

Pedi perdão para todos os que amei, e desamei. Fui perdoada por alguns deles, em generosidade rudimentar.

Uma depressão abissal me acompanhou, durante meses. Mal conseguia abrir os olhos, todos os dias. Se fui escolhida, onde está o Apocalipse, em sua condição de verdade? Onde foi parar aquele mundo, tão belo, tão perfeito, que construí em curry e resignação?

Em janeiro deste ano, imbuída de utopias, deparei-me com os presságios de Chico Xavier e o fim da quarentena do planeta. Feriu-me imenso voltar a ter esperanças. Entreguei-me a todos os grupos de extraterrestres, em todas as plataformas virtuais.

O Brasil, a cada dia, vai perdendo uma criança negra, um filho pobre, um idoso miserável que necessita de remédios. Por qual razão há tantos ratos dirigindo a nossa nau?

Estaria eu adiantada? Ou já não temos tempo, mãe Terra, de nos refazermos, uma vez mais? Lembro-me dos dilúvios como se fosse agora. Lembro-me dos desertos, das cruzes, das aflições. E que o único de nossos pecados é não estarmos cientes da divindade.

Eu, que tenho visto sincronicidades em toda a Poesia universal. Eu, irreplicavelmente bastarda. Eu, que fugi de tantos socos, dos enxovalhos, da lucidez. Eu que amei tanto essa outra face do Caos, em harmonia com Cronos. Por que diabos me entregaram a luminescência se nada posso fazer em vida?

A existência, nova em folha, atendeu finalmente às minhas súplicas.

Hoje, Mnemosyne esteve em minha casa. Titubeou, antes de esclarecer. Andou, vagarosa, pela imersão do meu banho. E confessou: enquanto a saudade maltratar o teu espírito, nada podemos fazer para acelerar esse processo. Não há homem nenhum, Lilith. Nunca foste gémea de ninguém.

A completude do feminino é, talvez, a última morada da redenção humana.

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