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A morte da donzela

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Camões se levantou da estátua, em pleno largo, com sua espada imponente e sua poesia cinza. A manifestação em defesa da Amazónia abrigava a fauna mais diversa. Verdes e amarelos de todas as formas. Tambores.

Nos cartazes, quase todos, erros grotescos de português. Eu ri-me, ao pensar que Camões despertaria com aquela estranha festa. Um casal de pernas de pau, no entanto, protegia-nos da multidão.

O Sol estava se pondo, como acontece nos contos de fada. A luz precisa reverenciar os escuros, para que as transformações se concretizem.

Eu não conseguia parar de obedecer as estrelas, dançando os códigos galácticos que elas me forneciam. Uma nuvem se aproximava, rapidamente. Talvez a nave mãe.

Ah, Universa, como pensei em eliminar esse demónio do planeta! Queimado? Enforcado? Cruxificado? Logo depois me ocorreu a ideia de Camões e sua espada. Que ele iria voando até o Brasil, para atender ao meu desejo.

Contudo, a vontade de o matar era tanta que pensei em lhe pedir a espada e acabar com esse sofrimento, que assola meu povo e atrapalha tanto a evolução. Este pensamento durou apenas um átomo, e me doeu imenso.

Não sou capaz de matar um ser humano. Mesmo os da pior espécie cósmica, que deveriam ser pedras em mundos inferiores. Devolvi a espada a Camões, meu herói, talvez a representação do Pai. Ele fará isso por mim.

Mas, Mariana, e o fim do patriarcado? Vais deixar que um gajo faça isto por ti?

O poeta, pois, volta à sua condição de morte e eu desço, frustrada, a maldita rua onde mora a estátua de meu mestre. Não haveria festa da Ascensão.

Fiquei profundamente irritada contigo. Depois pensei que estavas a me pregar uma peça, pois uma suntuosa alegria me esperava em casa. Eu sempre descobri minhas festas surpresas e achei que, dessa vez, tu irias conseguir me enganar.

Quando cheguei em casa, não havia ninguém.

Fui meditar.

Se os outros são espelhos meus, é uma honra estar em Lisboa, neste momento abominável. As sincronicidades inauguram as esquinas, fartas. Tu, Universa, és muito engraçada. Irónica. Tens espertezas que eu demoro, às vezes, em perceber. Teu senso de humor é deveras peculiar.

As músicas, os sons, as crianças e os amores são reflexos da minha alma.

Por que, então há um monstro tão assustador desgovernando meu país?

Foi ai que Clarice me apareceu, misteriosa e elegante, nas páginas que compõem a Descoberta do Mundo. Ela também decidiu ser mãe do universo. E foi confrontada com um rato morto no meio da rua.

Se aquele desgraçado também sou eu, com seus impropérios e violências, com sua misoginia e vileza, como posso eliminá-lo da minha existência? Será que eu, como D’us, carrego a culpa de ter criado o Mal?

Como é que o mal pode morrer?

Ao exercitar a empatia foi-me fácil reconhecer. Aquele menino que não teve, como eu, livros e mar e mousse de chocolate. Uma família que, provavelmente, nunca se amou. A ignorância em achar que vídeos possam ensinar a história do Brasil. Fiquei triste por eles, com profunda compaixão.

Eu queria poder ensinar as pessoas a serem crianças, uma vez mais. A desaprender o dinheiro. Lembrá-las que elas são deuses enclausurados por obrigações e medo. Sim, é o medo que nos desconecta do divino.

Eu nunca poderia ser mãe da Universa se não amasse o rato que nos assombra, hoje. Ele não está morto, como a da Clarice. E eu já não quero a sua morte, como donzela de outrora. Vou amá-lo e emanar toda a solenidade do amor para todos os ratos. Só uma mãe pode amar assim.

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Em meio ao irritante espetáculo dos dez anos,

memórias violentas de janeiro de 2009.

O primeiro inverno em Lisboa.

Sentia um pouco de ódio pela cidade.

 

Adorava lavar minhas roupas,

numa tentativa grotesca de lavar

a mim mesma.

elas permaneciam úmidas

e tinha medo de apodrecer.

 

Jamais hesitaria em começar

a escrever

às quatro da manhã

como temo agora.

 

Estranhas são as amarras que tecemos

para os nossos talentos

sem traumas aparentes

(onde foi que a literatura me violou?)

 

Há dez anos eu passava

talvez

o mesmo frio

O relógio despertava cedo

 

Outrora, quiçá,

acreditasse em mais sonhos

Ah,

Quem sabe,

ainda não conheça

os sonhos

em que devo acreditar.

 

Terei sido mais feliz?

 

Hoje,

vi personagens irretocáveis.

 

E lembrei:

a escritora que perseguia à altura,

cá está.

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A cidade em milagres

quarto do pessoa

Eu sabia que na manhã do dia 13 iria acontecer um milagre. É meu dia favorito. Nasci em uma segunda-feira, 13 de junho. Como Lisboa e Fernando Pessoa.

Fui tomar café, sem a menor hipótese de escolhê-lo, em frente à paragem onde estava o senhor cego do dia do milagre do aniversário da Marielle.

Ao meu lado sentou a dona Luísa, com óculos maravilhosos e uma faixa na mão. Eu, que sou extrovertida, atrevi-me a contar que a praia de Avencas é famosa por curar as nossas dores ósseas. Curou o meu joelho no outro dia.

Luísa, daquela música incrível de Tom, nasceu no dia 30 de junho, como duas pessoas que eu amo muito. Uma delas já foi capaz de me curar por duas vezes. A outra eu estou à espera que me cure, ainda.

Não me contive e me ofereci para fazer reiki em seu braço. Compreendi, em harmonia com o Universo, que deveria comer algo, tomar mais café, água das pedras e fumar um cigarro antes de iniciar a sessão mediúnica de cura. Naquele instante uma epifania me acometeu, verde em folha. Eu sou psicóloga.

A dor havia começado dois meses antes, após um desentendimento com uma vizinha polonesa. Minha família veio da Polônia. A vida já pulsava em sincronicidades.

Ficamos ali, nós duas, a conversar sobre a vida. O azul do céu e a simpatia da dona Luísa já seriam milagres para mim. Mas apareceu novamente, enquanto eu falava sobre ele, João, o cego. Ele tomou um tiro na cabeça do amante de sua mulher. “A dor da gente não sai no jornal”, diria o Chico. João também é Quíron.

Nós somos nossos maiores Deuses. E há diversas formas de curar a humanidade. Eu fui capaz de encontrar a minha. Ela envolve o Fernando Pessoa, o Chico Buarque, Lisboa, o número 13 e a Poesia. As sincronicidades da minha vida são pautadas única e exclusivamente nas minhas ideias, convicções, mas, inevitavelmente, naquilo que eu amo. O que eu amo é capaz de chegar até mim e o Universo é generoso. Ele nos pode oferecer tudo o que desejamos. Basta perguntar, com carinho e respeito. Libertos do medo e da culpa.

Se cada um de nós buscar profundamente os próprios Deuses, os próprios fantasmas e as próprias curas, seremos capazes de nos libertar, como Humanidade, para um outro nível de vínculo.

Jung estava certo. Devemos passar pelo processo de individuação, experimentar as oito funções, mas nunca na dualidade luz e sombra, certo e errado, bom e mau. Essas são nossas maiores prisões.

A Poesia é a maior riqueza do homem.

Entanto, é imprescindível que cada um seja capaz de perdoar D’us por ter nascido.

E me perdoem.

Lilith

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Morada

amor

O amor me ensinou a chorar durante o sexo. O amor me distraiu e tropecei em Paris. Amanheci em Lisboa. O amor me fez perder o voo e o comboio. O amor me fez parar na sua cama, sem você estar lá.

Eu vi o amor na manhã de Alfama porque o inventei. Ele tinha sotaque da Sardenha e uma bagunça digna de Monicelli. O amor é leve como o autocarro 758, cheio de anedotas, velhos, cegos e crianças sorridentes.

O amor atravessa as encarnações, em amizades inseparáveis, em ódios mortais, em abismos intransponíveis. Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Monica e Marielle. Hamlet e Ophelia. Hilda Hilst e Nélida Piñon. Clarice Lispector e Lúcio Cardoso. Caetano Veloso e Gilberto Gil. Jung e Freud.

O amor gera filhos lindos, louros, que nos fazem amar ainda mais os nossos companheiros. O amor também acaba, como sabiamente nos profetizou Paulo Mendes Campos. E quando ele acaba sobra o vazio. Às vezes fértil. Às vezes apocalipse. Mas sempre, porque houve amor, há uma galáxia sendo gestada. Há futuro.

Ontem eu me encontrei com o amor numa dedicatória psicografada. E numa música que há anos não ouvia. E vi o amor entrelaçado nas mãos de um casal.

Tenho visto o amor em tudo: nas garagens, nas esquinas, nas ventanias, no azul. E você não está aqui para cantar comigo todas as canções. Não tenho o seu olhar cúmplice, quando apanho o autocarro. Caminho só pela avenida Liberdade. Quando disse que o meu poema favorito do Pessoa era aquele, não havia ninguém para me imitar.

Talvez seja a grande lição da sua ausência: descobrir onde há amor dentro de mim, endereçado exclusivamente a mim mesma.

 

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Viver é Fictício em Lisboa

MariTris.jpg

 

Ontem a Marielle faria 39 anos. O meu lançamento, em São Paulo, foi um dia depois de sua morte. Hoje, estreio meu filho, em Lisboa, junto ao meu irmão de alma, Flavio Tris, e celebro o nascimento de Marielle. Coincidência? Eu nunca acreditei nesta palavra.

Sincronicidade.

Quando voltava para casa, nesta tarde, à espera do autocarro, tive imenso desejo de tomar café. Decidi cruzar a rua. A moça que me atendeu disse, em presságio:

– Vais sentar para beber o café e o autocarro vai chegar!

Não me importei. A descoberta do aniversário de Marielle me alumbrou em uma esperança muito mais doce que os dezanove minutos que me atrasariam, naquele instante. E a vida é feita dessas pequenas clarividências silenciosas.

Ao terminar o café, voltei à paragem do autocarro. Lá estava um senhor cego que precisaria de alguém para o orientar. Perguntei se ele esperava pelo 735, como eu. Ele assentiu. Explicou-me, ainda, que todos têm o prefixo 7 por conta das colinas da cidade. Entramos no autocarro e indaguei qual era a sua paragem. Ele me respondeu que desceria já na próxima. Uma velhota, atenta, depois que ele saiu, veio me esclarecer, à surdina:

– Ele não gosta de ser ajudado por ninguém.

Ri-me, sozinha. Lisboa é mesmo uma cidade mágica. Um cego que odeia ser ajudado! Que maravilhoso! Depois disso, no mesmo ônibus, vi dois idosos que se recusaram sentar no lugar reservado a pessoas de idade. Cada um deu desculpas distintas. Mas, cá, nos meus olhos de escritora, estava nítido: ninguém quer que a idade seja estampada na cara.

Por não estarmos distraídos, como diria Clarice, percebemos as conexões cósmicas que nos cercam.

Nós, os loucos, os psicóticos, os bêbados, os desencontrados, os excluídos, os gays, as travestis, as mulheres, as putas, os corruptíveis, os sensíveis, os destroçados, os carinhosos, os inconformados, os insones, os desempregados, os estrábicos, os desapontados, os sofredores, as crianças, os mendigos, os cegos, os surdos, os introvertidos, os torturados, os aleijados, as minorias, os angustiados, os depressivos, as ralés de todas as origens somos aqueles que estamos ligados à uma sintonia maior. Porque buscamos o sagrado, o tempo todo.

“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha”, disse Bernardo Soares.

Mas nós, os lúcidos, aprendemos, ao longo dessa árdua luta contra o ego, em busca de nós mesmos, que os papéis, inúmeras vezes, estão invertidos. O casamento é falso. O traficante é bom. O rico é devasso. O padre é pedófilo. Não se deve cobrar pela generosidade.

Tamanhas obviedades parecem-me tão claras, agora. Mas nem sempre aconteceu assim. Foi-me preciso alcançar o último degrau de minha solidão para chegar até aqui. Comigo e com os comigos de mim.

Nessa trajetória, entre Lisboa, Zurique, São Paulo, Aeroporto da Portela e, finalmente Lisboa, descobri que a Poesia foi (e é) a maior prisão da minha vida. E dela jamais me libertarei. Embora não tenha vivido a beleza triunfal nestes tempos de trevas, alcancei a poética da solidão. Pude libertar, enfim, as minhas palavras, e todas as correntes que carreguei, ancestrais.

Obrigada, queridos amigos, por testemunharem, enfim, a minha verdadeira estreia.

Às minhas Babuskas.

Às Deusas.

À Lilith

À Empatia.

Ao Perdão.

Ao Miguel Angelo Perosa, meu terapeuta.

Ao Santo António, Cristo e Santo Estêvão.

Ao Fernando Pessoa.

À Lisboa.

Ao meu pai, aos meus irmãos. À minha família. À minha mamã.

À sincronicidade, maior do que o destino.

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A confecção de um mapa mental amado

As práticas mais refinadas de coaching, nos últimos tempos, possuem a Neurociência como principal fonte de saber. Assim, a compreensão do funcionamento cerebral nos auxilia a obter resultados incríveis com os coachees, e um maior nível de satisfação de ambas as partes. O conhecimento científico é, sem sombra de dúvidas, o maior aliado para as técnicas visionárias de desenvolvimento humano.

Nossa metodologia, pautada nos estudos de David Rock, ensina-nos que é preciso estabelecer três principais objetivos para o processo de coaching. Estes objetivos são extraídos em um processo que se assemelha à lapidação de uma pedra preciosa, e é dividido em quatro etapas distintas:

  1. Extração – áreas da vida relevantes ao coachee;
  2. Refinamento – redução dessas áreas para três;
  3. Lapidação – criação de métricas específicas para cada uma das áreas eleitas;
  4. Polimento – transformar cada objetivo em algo inspirador, sucinto e motivador para o coachee.

É fundamental que o coachee, no início do processo, esteja totalmente aberto à uma sessão de brainstorming, na qual não se deve questionar tudo aquilo que venha à sua mente. Quanto mais aberto ele estiver, mais chances ele tem de trazer à tona os seus principais desafios e desejos de mudança.

Depois de listadas todas as áreas relevantes de sua vida, é necessário reduzi-las, posto que um processo de coaching tem um tempo de duração (normalmente de três meses ou 12 sessões) e também para garantir que os objetivos sejam alcançados. Quando o cérebro se dispersa, fica muito mais difícil de atingir aquilo que foi inicialmente proposto.

Contudo, é extremamente importante que os coaches tenham em mente algumas descobertas da Neurociência, que associam o cérebro ao coração. Quando o coração está completamente conectado aos objetivos, é muito mais fácil de alcançá-los. Ou seja, um objetivo que seja verdadeiramente “amado” pelo coachee, possui muito mais chances de ser efetivo, como mudança em sua vida.

Os estudos recentes que comprovam a ligação entre coração e cérebro

Um dos estudos prestigiados que transformam essa conexão em ciência foi feito na Inglaterra, por Marcus Gray, da University College de Londres, e publicado na edição da revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a “PNAS”.

Os pesquisadores estudaram pacientes com problemas cardíacos, durante tarefas experimentais levemente estressantes. No geral, as pessoas respondem com o aumento da frequência cardíaca, mas não foram esses os resultados obtidos pela equipe:

“Observamos uma forte associação entre o desempenho cardíaco e a actividade cerebral, o que sugere que algumas regiões do cérebro ouvem atentamente à performance do coração”, conclui.

Os estudos confirmaram que havia grandes alterações no córtex pré-frontal dos pacientes, região relativa à consciência. Em suas próprias palavras:

“Nós encontramos evidências de que a atividade cerebral nas regiões temporal esquerda e lateral pré-frontal está fortemente associada ao desempenho do coração”, diz Gray.

“A nossa pesquisa sugere que regiões evolutivamente mais novas, ou avançadas, também acompanham as batidas do coração.”

Gray aposta que o coração pode, assim, induzir o cérebro a raciocinar diferente, quando está em contato com emoções positivas.

Outro estudo realizado pelo Dr. Rollin McCraty, pelo Instituto HeartMath, uma entidade sem fins lucrativos, afirma que “há um cérebro no coração, metaforicamente falando. O coração contém neurônios e gânglios que têm a mesma função que as do cérebro, tais como a memória. É um fato anatômico.”

O médico acrescenta, ainda, que as pessoas não sabem, mas o coração envia mais informações ao cérebro do que o cérebro ao coração.

Segundo a Escola de Medicina de Harvard as conversas ‘químicas’ entre o coração e o cérebro afetam ambos os órgãos. O estresse, a depressão ou mesmo uma perspectiva positiva perante a vida influenciam os batimentos cardíacos. Se há harmonia entre o vivido e o sentido, há coerência nas batidas. Se há um desequilíbrio, o coração começa a ritmar fora de sincronia, desencadeando doenças.

McCraty explica, assim, que as batidas do coração funcionam como um código Morse para o cérebro. O estado emocional de cada situação influenciará como a consciência irá agir.

Os estudos do instituto ainda revelam dados surpreendentes:

– O campo elétrico do coração é 40 a 60 vezes superior ao campo elétrico gerado pelo cérebro. Registros já mostram também que o seu campo magnético é de 4.000 a 5.000 vezes mais potente que o do cérebro, e podem ser medidos até 3 metros.

– Os batimentos cardíacos são gerados a partir do interior do próprio coração, não precisando de uma ligação com o cérebro para continuar a bater. Os cientistas ainda não sabem exatamente o que o faz o coração de um feto começar a pulsar.

– Dentro do coração existe um pequeno cérebro, um sistema nervoso independente, com aproximadamente 40.000 neurônios, o cérebro do coração. Este complexo neuronal é gerador de uma inteligência própria, diferenciada e altamente intuitiva, que processa informações e envia sinais para o cérebro, em seu sistema límbico e neocórtex, esta a parte do cérebro responsável pelo raciocínio e pensamento.

A performance individual, portanto, é diretamente afetada pelas condições emocionais da pessoa. Os batimentos sincronizados levam à maior intuição e inteligência.

Embora sejamos ensinados que o cérebro é o nosso principal maestro, é o coração o principal gerador de campos eletromagnéticos no corpo, e o primeiro órgão a ser formado, quando somos apenas embrionários. Mais da metade do coração é composto de neurônios da mesma natureza do que o cérebro, segundo o Dr. Joseph Chilton Pearce, em seu livro “A Biologia da Transcendência”.

O coração seria, pois, o primeiro lugar onde as informações são processadas. Em outra pesquisa liderada pelo Dr. McCraty, denominada “Eletrofisiologia da Intuição”, os cientistas descobriram que o corpo responderia a eventos futuros, prevendo-os, se o evento futuro estivesse emocionalmente conectado à história da pessoa em questão. Os sujeitos da pesquisa eram expostos a imagens perturbadoras ou belas, escolhidas de forma aleatória pelo computador. Os impulsos cerebrais e cardíacos eram monitorados, para checar as reações. Os resultados foram impressionantes: o coração respondeu antes do que o cérebro. E seu código se modificava, de acordo com o sentido emocional atribuído. Ou seja, literalmente o coração enviou mensagens distintas ao cérebro que, por sua vez, alterava as respostas corporais, a cada imagem.

Atualmente, em nossos processos de coaching, atrelamos as práticas aprendidas com a Neurociência aos ensinamentos de Inteligência Emocional e autoconhecimento.

É muito comum, em práticas de coaching, que o coachee se engaje com muito mais facilidade a insights que tragam memórias prazerosas. Parece que as sessões acontecem quase intuitivamente, sem precisar de tantas técnicas. Ao despertar o que foi importante ao coração, o cérebro se conecta com grande entusiasmo.

Assim, não só é possível monitorar os novos mapas mentais, construídos pelo coachee através de insights, tarefas e comprometimento. Seus objetivos precisam estar ligados às experiências afetivas, que façam o coração pulsar em harmonia com o cérebro.

Referências bibliográficas:

http://muitoalem2013.blogspot.pt/2015/09/luzes-do-mundo-joseph-chilton-pearce.html

http://www.universidadedocoracao.com.br/index.php/rss-da-univerdade-do-coracao/item/211-o-coracao-o-nosso-segundo-cerebro

https://www.youtube.com/watch?v=PEHRtwNZ45Q

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DANUIH

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“Sou homem; duro pouco e é enorme a noite. Mas, olho para cima: as estrelas escrevem. Sem entender compreendo: também sou escritura… E neste mesmo instante, alguém me soletra.” Octavio Paz

Quando finalmente o vi, na claridade inaudita do Sol, que invade indubitavelmente meu quarto, às três da tarde, tornei-me oferenda da sua presença. Eu respirava, ansiosa, e todo meu corpo se expandia para dentro dos lençóis, recém trocados pela faxina. Tímidas mãos brancas velavam meu espectro, trêmulo. Ouvia, ao fundo, a voz irritante da meditação guiada.

A ternura dessa sumidade ignorara meus pavores, todos. A cada inspirar, aprofundava-se, inconsolável, em carinhos. E eu, possessiva, absorvia os ares eriçados do outono, para comungar a incompreensão em plenitude. Pensei que estivesse, enfim, morta de quem havia sido, antes.

O sentimento, contudo, não me era novo. Já lá havia estado, algures: nos dizeres bonitos do amigo de infância, que sente saudades de um nós que nunca fomos; em goles de ar que afundaram, alma adentro, formigamentos líricos; na unicidade do ayahuasca, abstêmia de chá há quase um ano.

Outra solenidade também se fez abrigo quando chorei por todas as ressacas das avessas mundanidades. E ofendeu-me, nas lágrimas não desanuviadas, em noites de lua cheia.

E os deuses inauguraram meus vestidos rasgados pelas traças. Escreveram os sons de  flores desmesuradas, naquela página em que se grifou a existência, quando toda dor foi submetida às quimeras.

Estive, também, em contacto com a Deusa Wicca, ao devorar um pão mágico. E, enfim, ver meu desejo ser atendido, em uma semana. Também estanquei a solidão dos olhos de um pai que perdeu seu primogênito, ao invocar os Espíritos.

Eu vi, e juro por D’us, um menino jesus fugir do meu quarto na Vila Mariana. E pus as mãozinhas alinhadas em intimidade, assistindo a lacuna do ser incandescente, ao desdenhar meus olhos de criança.

Por quê?

Sem nenhuma prepotência, nesse instante, fui capaz de dar nome a tantas divindades que, em ausência de compromisso ou vaidade, vieram ter-me como lugar. As ondas, oriundas do Universo, escolheram-me como habitat, inconformadas de serem mudas.

Eu percebi o tempo preparando a sua chegada, enquanto minha caneta era incapaz de dormir. Eu, que sem os meus contrários, escorrego pelas ruas esmagadas pela morte das folhas. A brutalidade não ajuda-me a nivelar o mundo em sincronia.

Aos poucos, fui recolhendo cada um desses deuses póstumos que enfraquecem as minhas pálpebras e me deixam mais míope. “Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes”, diria Clarice, enquanto perdoava o deus dela. Eu, contudo, aprendi a obedecer aos milagres.

Ps: dedico essa viagem astral hermética ao Rodolfo Wrolli.

 

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