Arquivo da categoria: Textos meus

Pierrot

22528729_1814142558599257_5847524340606737794_o

“Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor de água) e sorri com o mesmo beatifico sorriso de seu bisneto recém nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero.”

– Eduardo Galeano em O livro dos abraços.

 

Uma caixinha de música, às vezes, dá corda a mim.

A poesia gorda me envaidece com seus versos, perfeitos.

Eles vêm, sonhos oraculares,

em cores de Van Gogh e voz do Salvador.

 

É difícil dar-lhes nomes,

ou decidir o primogênito.

 

Gostava de morar na beleza primeira que tem as letras,

antes da oração.

 

Uma boneca antiga visita-me a infância.

Faz do passado uma colheita de outono.

 

Uma caixinha de música,

às vezes,

dá cordas em mim.

 

Manipula meus títeres anteriores.

E vai-se embora como a nuvem derradeira

que insiste em acariciar o Tejo.

 

Uma caixinha

de música,

às vezes,

desperta o pierrot aprisionado no brinquedo.

 

Dilacera as dores cicatrizadas.

Dá risada dos projetos juvenis.

 

No dia em que a caixinha de música for abreviada pela obviedade,

talvez seja feliz.

 

A memória,

Poética,

é sempre lapso

dos possíveis futuros.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Poesia, Textos meus

432 Hz

 

“Hoje preciso comprar a melatonina, com urgência”. Ela, que ainda não havia dormido, levantou-se para praticar a meditação de todas as manhãs. Água a ferver, banho, café no coador. O jornal só depois de sentir a inclemência das gotas quentes a abrir os poros, exaustos de insônia.

 

“Pelo menos hoje é sexta-feira”. Este foi o seu único pensamento feliz, naquele alvorecer inóspito. Não havia desvãos para a sua incompletude, às seis e meia. Quaisquer afagos provenientes de exercícios de autoajuda seriam condenados pela sua condição, trêmula. Ah, a falta que existe em despertar sem ter adormecido. Somos seres tolhidos em quimeras, fatalmente.

 

Hoje seria o dia daquela reunião, ridícula, típica de meio de ano. O chefe apresentaria os goals corporativos. As pessoas fingiriam obedecer, num bizarro espetáculo lacaniano de não ditos. Uns já combinariam, a priori, a cerveja vagabunda e gelada das sete. Outros se refugiariam no pôr-d0-sol ostentado pelas igrejas. Colegas passariam quase três horas e meia no vagão lotado até os fins de mundo particulares. Ela só pensava na farmácia, crepuscular.

 

Quando a noite finalmente chegou, pode parar de fingir que ainda trabalhava. Era muito feio sair do escritório antes das oito, em seu cargo de liderança. Por mais que tivesse concluído a enorme lista de tarefas às quatro, ela compreendia o jogo robotizado: a permanência como estilo, conceito, lição. “Eu já sou quase profissional na paciência”, ironizou, exercendo, uma vez mais, suas patéticas meditações positivas.

 

Saiu, melancólica, a pé. Fazia dez graus àquela altura. “Como amo esse tempo!” Podia ir à casa sem derramar uma gota de suor. O inverno, prematuro, era um milagre para o seu humor.

 

O comércio, no entanto, não reagia com a mesma gratidão à temperatura. Tudo estava fechado. Até a farmácia. Ela precisava dormir, de qualquer forma. “Vou à loja de vinhos, que está aberta até às nove. Devem ser os únicos, como eu, que deleitam-se com o frio inesperado de abril”.

 

Era uma grande cliente deste sítio. Os vendedores a cumprimentavam, saciados. A sede da mulher era sempre de tempestades. Jamais compraria uma única garrafa.

 

O dono da loja a acompanhou nas escolhas. Era grisalho e alto. Talvez tenha sido bonito na juventude. Sua pele era rosada, típica de enólogos. Evidenciava que a dor possa ser convertida em álcool.

 

“Este vinho é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O! Eu mesmo o trouxe da vinícola. Como a senhora é habitué, vou fazer um preço especial. E já separo seu queijo da Serra da Estrela, os cogumelos desidratados, um quilo e meio de azeitonas chilenas. Há algo que nos vai surpreender, hoje, querida?”

 

“Não suporto ser chamada de querida”, interrompeu a longa e forçada contemplação que a acompanhara o dia todo. Além disso, ela se sentiu estúpida de ser tão previsível, para seres humanos que mal a conheciam. “Vou levar também esse chocolate do mar, belga, querido”.

 

A devassidão daquele olé no grisalho, austero, dono da loja a conectou com a sintonia profunda ao Universo. Quase como navegar pelas poderosas ondas 432 Hz, sem precisar de música. O quão bom era ser superior àquela criatura? “Eu me amo e sou correspondida, otário. Namastê”.

 

Precisaria realmente celebrar a evolução de consciência que finalmente se instalara, em sua reprogramação emocional. Todos aqueles meses de Yôga e mentalizações estavam surtindo efeito.  “Já que não tenho a melatonina, tomo duas garrafas desse vinho e durmo doze horas seguidas. Quebro meu ritual de sábado para atender às necessidades do corpo. A alma pode, enfim, esperar”.

 

Ao chegar em casa, a mulher guardou as óbvias compras na geladeira. Lavou o decanter, há meses largado no armário maciço de madeira. O cheiro do abandono impregnava no cristal, adormecido desde a sua separação. “Tempo de ressignificar estes séculos de espera”.

 

Após o jantar – uma sopa detox composta de agrião, linhaça, espinafres, quilos de gengibre, cenoura e inhame – ela pousou o queijo, divino, à table. Escolheu seu melhor cálice para abrir os buquês daquele elixir da Natureza. O vinho era a última bebida que fazia parte de sua rigorosa dieta ortomolecular.

 

Antes de trazer à boca o primeiro gole, girou a taça, em círculos perfeitos, para emancipar todos os aromas. Apreciou, com calma, cada um deles: morango, gerânio, um toque de pimenta. Ah, como era bom saber-se conhecedora de vinhos!

 

Em contato com as papilas gustativas, algo se passou, de repente. Um gosto de infância a acometeu. Árvores, exauridas em jabuticaba, no quintal da casa da avó. Risadas dos primos ao redor do galinheiro. Os olhos gentis do caseiro à espera que ela encontrasse os bilhetes deixados pelas fadas, entre as folhas de bananeira.

 

Pôs Chet Baker na vitrola para afugentar o recôndito gosto que se aflorava, ali, depois de quarenta anos. Tomou dois copos de água com gás. Engoliu as memórias, banquete inesperado do cérebro.

 

O segundo cálice veio andrajo, vacilante. Sabia a mar e a meteoros, em noite de réveillon. Conjectura lívida, desprovida de anseios. Manteiga na pipoca, circo, mágicos conduzindo voos. Uma dor inescrupulosa desferiu-lhe os seios. A saudade se ofertava, menina.

 

Trocou o disco. Repetiu os mantras que apaziguavam as culpas. Meditou sobre o terceiro olho, onde reinava a intuição. Lembrou-se, em chakras e lágrimas gordas, que seu cachorro havia morrido. Um mês antes de estar sozinha, novamente.

 

Aquela garrafa de rótulo sóbrio, cores acinzentadas, proveniente de terras tão distantes, despertava cada uma de suas súplicas, naufragadas. Três casamentos, dois abortos, o avô vegetando na U.T.I. Era, sem dúvida, o melhor vinho que havia bebido em toda a sua existência.

A cada gole, uma tortura. Uma gota por imagem. Milímetro a milímetro, nostalgia iminente. A rolha, de cortiça, não era um aglomerado de outras rolhas. Única. Que rolha! Que rolha perfeita.

 

Antes de deitar a rolha natural no estranho compartimento, destinado ao passado dos porres, reviu a cena: sofá intacto, queijo pela metade, gogi berrys atrapalhando o caos. Pão orgânico, intocado, à mesa. “Talvez seja este o cerne da loucura”, refletiu, inebriada. Desacontecer. “Um vinho sem testemunhas”.

1 comentário

Arquivado em Conto, Textos meus

Sol Velho Lua Nova

Eu havia acabado de chegar ao Mezinhas de Alfama, bar de um querido, à espera do encontro que poderia render umas boas conexões em Lisboa. Gente do bem, projecto lindo, lua de gato de Alice.

Recebi, inesperada, a mensagem dele, meu amigo, Flavio Tris, sobre o lançamento do seu disco, uma semana depois daquela quinta-feira, minguante. Ganhava o maior presente de aniversário adiantado, naquelas janelas pululantes de facebook. Entre um gole de vinho e um suspiro para a madrugada, a engatinhar.

“Não se preocupe, meu bem!” “Aproveite a sua noite. O disco é pra ser ouvido de fone, com calma.”

Respeitei os dizeres, sábios, humildes, desencontrados das falsas iluminações egóicas. Ao amanhecer, quando voltei para casa, pés descalços e alma imaculada pelo nascer do novo dia, finalmente ouvi Sol Velho Lua Nova.

Lembrei-me de que a arte nos é selvagem. Perto do coração, tudo nos deixa primitivos.

Em meados de dezembro, prematuro disco, assisti ao show que anunciava a mudança: sereno será. Ele convida-nos a degustar tempestades posteriores, alheias às harmonias de suas nove redondas cancões.

És Bob Dylan. E eu nem gosto de inglês. És xamã, em noite de mirações. Cantas as manhãs ancestrais à nossa redenção cósmica. Faz-nos mergulhar nos azuis uterinos que abençoam os sonhos mais pueris.

Chamei os orixás, os dilúvios, os litorais. Oiço o teu canto, além-mar. Que sejam mais quinze mil eras para descrever as nuanças da tua Terra. E oitocentas mil galáxias para cobrir a tua voz, única.

Incendeias os amores que me virão, banda sonora obrigatória. Cá estou, exausta, inebriada por luzes e horizontes.

Hoje, Flavio, eu não quero esquecer de mim. Cantas pelas janelas que desnudam o Tejo, ao pôr-do-sol. Tua música se confunde com o céu de Van Gogh. Meu escrever almeja ser rupestre.

Não sei quantas estrelas se apagaram. Mas encontraste os caminhos que nos trazem à essência. O som primeiro ignora todas as metáforas. Pulsa, pertence, atrás da palavra. Antes de alvorecer os insones futuros, tu os previste.

Alcancei, ao ouvir-te, a mansuetude de dentro, enfim.

O álbum está disponível na íntegra no YouTube:

 

 

1 comentário

Arquivado em Outros poetas, Textos meus

Dividir os domingos

“O que um dia vou saber, não sabendo eu já sabia” Guimarães Rosa

Quando o amor, enfim, feneceu em mim, tive a certeza de que já não me apaixonaria mais. Uma mistura de liberdade com esmorecimento, de alegria e desespero. Páginas brancas finalmente povoavam os meus sonhos, antes escritos em nanquim e escarlate. Aquela cama que jamais seria bagunçada de novo. Os olhares, negros em maquiagem, que deitariam molhados no travesseiro, gélido.

Eu já me prometi que o amor seria a última das bobagens a me chatear, nessa incansável solidão.

Contudo, ao ser convidada para revisar esse livro, confesso que me senti ofendida pela vida. Por que seria eu a pessoa a corrigir seus erros, se o maior deles era escrever sobre o amor? Eu nunca soube escrever sobre o amor, Bruno. Eu estarreço de cólera em ser piegas, óbvia, redundante. Nunca acreditei que o viver deva ser sentenciado pela palavra.

Entre delírios de Clarice, sussurros de Paulo Mendes Campos e estalos dos meus próprios dizeres, aceitei esse trabalho. Afinal, esse amor durou só uma estação! Como poderá atar-me a todos os meus invernos?

Você brinca com os olhos que se fecham para descer aos sorrisos da amada. Como se os próprios olhos fossem capazes de se encantar com as tessituras infantes. E você me alerta sobre o quão difícil é carregar uma saudade, sozinho. Ah, Bruno, será que existem saudades compartilhadas?

Fui, inebriada, entre os clichês, inevitáveis, e as paisagens, inusitadas. Com as ressalvas de proximidade ao leitor. Encontrei-me com dias cinzas que se pensavam azuis. Em cada verso, a cada vogal, a cada reticência inconformada do seu texto, eu me percebia romântica. Eu deitava fora minhas amarras infelizes. A quem posso ofertar, agora, esse silêncio que transborda, sem angustiar meu interlocutor?

Já sou capaz de ensinar plenitudes…

Quando acabei, tive sede de chuva. Será que o tempo muda de nome com o amor? Esta pergunta, que ainda me inspira, só se agiganta, ao terminar a obra. Gostar é dividir um domingo, você me explicou. Foi uma honra dividir um domingo contigo.

Link para o crowdfunding do livrohttps://www.catarse.me/brunofontes

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Outros poetas, Poesia, Textos meus

Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

Deixe um comentário

Arquivado em Textos meus

Sonhatório

 

O carnaval nunca foi teu feriado preferido. Sempre me disseste que teu mundo acontecia doze dias antes dele, ou apenas quando ele se ia embora e o ano finalmente começava no Brasil. Acho que odeias o carnaval porque odeias o meu pai. E ele é fruto de uma noite mascarada em teu verão.

Meu pai nunca foi um homem comum. Éramos como estranhos que se comunicavam por sonhos. Havia qualquer cousa que nos afastava. Eu percebo a estranheza da ausência, a vertigem de ver a si, em olhos de outrem. Mas as nossas demoras derivavam de outros escândalos.

Houve, pois, um dia em que descobrimos nossa afinidade. Morávamos, na altura, aquela casa, em Alfama. Um rés-de-chão duplex. Tu sempre gozavas, mamã, da nossa verticalidade para baixo. No entanto, foi lá que tivemos a inventar o sonhatório. E a colecionar todos os sonhos do mundo.

Era segunda-feira, como qualquer outra poderia ter sido. Mas Papá havia sido demitido do trabalho, em Lisboa. Não imaginava que aquilo precederia nossa viagem ao Brasil e à vossa brutal separação. É engraçado como um dia tão feliz possa antever a tragédia. E que nunca estamos imunes à tristeza, nem abençoados pelo céu de churrasco da minha terra.

Papá chegou, olhos marejados, distantes, como se visse o Tejo para sempre. O azul desferia uma beleza improvável. Os olhos de Papá estavam ainda mais azuis, por causa das lágrimas. Eu, com as minhas mãozinhas pequenas, afastei a dor dele. “A cada milágrimas sai um milagre”, cantei.

Declamar com os olhos é algo que a genética me trouxe. Como é vulnerável estar com os olhos a recitar as vísceras! E papá se encheu de oxigênio para impedir que lêssemos as mesmas poesias melancólicas.

O sonhatório foi o nome que ele deu, para nosso jardim. Ensinou-me que era um sótão às avessas, pois não havia janela para ofuscar o horizonte; assim como deveriam ser os sonhos. Descortinados. Infindos. Vingativos.

Pois. Para o meu ídolo, sonhos são vinganças pacíficas que travamos com a vida. Quando a vida se põe a nos fazer chorar, há-se de sonhar. E sonhar estratosferas, universos, galáxias. Vingar-nos de nossa condição.

Perdi meu sonhatório quando o Carnaval de vocês acabou. E jamais consegui me vingar novamente da vida. Então, aceitei a Poesia como segunda vingança. Só a Poesia é senhora do mudar, a partir deste dia, Mamã.

2 Comentários

Arquivado em Textos meus

Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

Deixe um comentário

Arquivado em Conto, Textos meus