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A Mãe e o verbo

“No princípio era a Mãe, o Verbo veio depois.” Marilyn French

Eu nunca saberei se viemos da mesma linhagem de Deusas. Se fomos queimadas juntas, na Escócia. Ainda tentamos compreender como se deu a transformação fatal: de símbolos da sabedoria e fertilidade às primeiras pecadoras.

Uma das forças mais belas da Natureza, contudo, é a sincronicidade. Jamais saberemos como fazer essa magia: ela não está nos livros, nem se executa através das plantas curadoras. O Cosmos é quem nos presenteia com os encontros. Bruxaria ainda mais complexa que nossas próprias habilidades.

Não consigo me recordar qual era o propósito daquela festa, no prédio onde nasceu Santo António, no fim do ano de 2017. As festas, neste sítio, não precisam de justificativas. São redondas em si mesmas.

Lembro-me bem de quando o André, seu marido, chegou perto de mim para pedir um favor, inusitado. Logo atrás dele estava você. Não demorou um átimo de segundo para que viesse a primeira pergunta. Ah, mal sabia eu que essa pergunta certeira seria o início de uma amizade indescritível.

Você me ensinou que a música eletrônica pode ser o gatilho para uma espiral de ideias geniais, em plena Lux. Acredito que, através de mim, você tenha aprendido a ouvir meia dúzia de poemas, sem pestanejar.

De pergunta a pergunta, descobrimos tantas cousas juntas: a paixão corinthiana, os desvarios pelas noites paulistanas, o medo de habitar Lisboa. Depois de adulta, acho que só passei horas ao telefone contigo. Quase adolescência tardia.

Você me deu abrigo quando eu não tive casa. Ia, desesperada, limpando meus vestígios, minha bagunça, meus desamores. Entanto, antes de não ter casa, você me alertou que a irresponsabilidade me traria frutos traumáticos. Às vezes penso que, consciente ou não, você sabia que eu precisava passar pela dor, na jornada que conduz à maturidade.

Eu demorei meses para escrever esse texto. Primeiro, busquei as raízes cármicas da feitiçaria. Nas últimas semanas, estava à espera de encontrar inspiração na origem órfica do Universo. Hoje, percebi que só meu coração seria capaz de enaltecer sua presença em mim: sem bibliografia ou metáfora. Nunca precisamos disso.

Quando eu penso em uma palavra para descrever sua presença: mãe. Uma mãe igualzinha à do Universo. Você nunca foi mãe, mas é. Cuida das pessoas ao seu redor, com carinho e bondade inenarráveis. Embora não seja uma pessoa exagerada nos afetos. Severa ternura.

Sou testemunha de como você foi capaz de se relembrar como os astros dançam, apesar de jamais ter estudado a amplitude cósmica. Você já sabia de tudo. Conjunções, estrelas, mercúrios retrógrados. Como é que você sabe de tudo isso, minha amada?

Aceito suas perguntas, em vestes de ancestralidade.

Mãe.

A chuva de meteoros não veio ontem, como presságio que faltava para mim.

Mas há, aqui em casa, o sino da igreja. Ele toca a cada quinze minutos, impedindo-me de esquecer do sagrado.

Já faz tempo que busco o sagrado em tudo: nos códigos galácticos, na interioridade das águas, na condição de arrepio que percorre o corpo, ao meditar.

O sagrado se manifesta para além do milagre?

Sim.

O sagrado se manifesta, todos os dias, quando ouvem seus questionamentos.

Mãe, a mudez celestial é incapaz de controlar a sua luz.

Amo-te.

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Para Fefê

FefeDada

Nenhum domingo deveria ser digno de tédio. Sempre acreditei na abundância invisível dos domingos, silenciosa, quase casta, sublime em seu poder transformador. Muitos se amparam nas certezas que os domingos nos trazem. Almoços marcados há semanas, jogos de futebol, tristezas ao pensar no eterno retorno ao trabalho. Domingos são, geralmente, fraseados pelos contornos.

Minha vida mudou para sempre em um domingo. Era dia 24 de junho de 1990. Nosso pai estava cobrindo o Brasil na Copa do Mundo da Itália. Fui acordada, por volta das cinco, com a inquietude de mamã. A bolsa havia se rompido.

A Rose estava aflita, ligava sem parar à tia Helena e à Tereza. As duas prepararam, às pressas, a mala do hospital. Só agora me dei conta que foi um momento de bruxaria estelar, feito apenas por mulheres.

A tia Helena morava a vinte metros de casa. Por conta da idade e do horário, demorou para se aprontar. Tereza atravessou todos os faróis vermelhos. Atravessou também o nosso apartamento, em desespero, juntando as roupas e os olhares de todas nós.

Não me deixaram ir ao hospital. Lembro-me tão bem do Caminhoneiro Shell, passando na televisão. Até hoje não compreendo como puderam acreditar que o pior de todos os programas iria me entreter. Eu estava repleta de pavor e ansiedade, assim como ocorre em quase todas as mudanças da vida.

Tu chegaste a este mundo às onze horas. O fofinho já estava no hospital, como num passe de mágica. Em todas as minhas narrativas, este fato só pode acontecer porque o Brasil havia perdido da Argentina. Ele, então, foi dispensado da cobertura. Hoje, descobri que o jogo fatídico aconteceu no mesmo dia do teu nascimento. E ninguém soube me explicar como – entre as cinco e as onze da manhã – ele se locomoveu tão rápido entre dois continentes, só para assistir à tua vinda.

Passado o trauma do Caminhoneiro Shell, e de todos os medos que me inauguraram, naquela manhã, escolhi um bichinho de pelúcia para te dar, comprado, também às pressas, no andar da maternidade.

Tu, por escolheres nascer no dia de São João, para completar a nossa família abençoada pelos santos, vieste prematura. Um mês de U.T.I. Não tinha um milésimo da beleza que compõe tua alma, agora.

Escrevi-te um poema, logo no primeiro dia. Foste tu a apagar os rastros de princesa para o fado da Poesia.

Quando tu tinhas três anos fizemos coreografias do Paratodos, em Londres. Brigamos muito, como é óbvio entre irmãs. Temos as piadas internas mais infames e mais engraçadas de toda a Universa.

Eu converso contigo telepaticamente, todos os dias. As sincronicidades celestiais nos invadem pelas madrugadas.

Espero que tu possas me perdoar pelos bullyings de irmã mais velha e por todos os meus defeitos. Já faz quatro anos que não nos vemos, meu amor.

Desejo-te sonhos de mar. Pinturas em nanquim e aquarela. Poemas que ultrapassem a condição humana e alcancem a Deusa. Caldeirões com livro das sombras, pães mágicos e gatos pretos. Risadas incontroláveis, maratonas de filmes, cidades imaginárias.

Amo-te muito my precious, com todas as forças galácticas.

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Pessach

Uma espiral no sentido anti-horário sobe pelas minhas pernas. Desorganiza todas as células. Dança, imprevidente, pelo contorno dos ossos, salta no umbigo, cresce e borbulha no chacra cardíaco. Sua cor é dourada. Apossa-se de mim, instrumento, para rodopiar em volta do pescoço. Acelera meus olhos: um está com lentes de contacto; outro insiste na miopia. A energia, bailarina, encontra-se, enfim, com a glândula pineal. Expande-se tanto, tão absurda, tão sincrónica, a ponto de dissipar-se pela coroa da minha mente. O corpo todo estremece.

Aprendi a meditar em Janeiro do ano passado. Havia fugido de Lisboa, com a certeza de ser feliz, em outro sítio. As redes sociais, na altura, só me lembravam dos fracassos, da loucura, da incapacidade de pertencer a este mundo. Desliguei-me, por alguns dias, daqueles sorrisos insuportáveis, das fotos paradisíacas, dos encontros amorosos.

Meditar nada tem a ver com a ausência de pensamentos. Meditar é aceitar que as nuvens passam. É um exercício de desobsessão das ideias. Agradecer a impermanência de todas as cousas. Venerar a eternidade do instante.

Tive a ilusão de que este período de cárcere pudesse trazer à luz a destrutibilidade. Quantos seres humanos já terão passado pela prisão, anteriormente? Navego, embasbacada, pelas mesmas redes sociais que outrora intensificaram minha depressão. Vejo um arsenal de coachs quânticos, sem nenhum estudo ou formação. “Como melhorar sua autoestima com a dança”, “Aprenda a ser líder da quarentena”, “Tome as rédeas de sua vida com o Yôga”, “Aumente seus seguidores com lives”.

Minha melhor amiga me confessou como estão os grupos de whatsapp das mães da escola da minha afilhada. Ególatras, elas clamam pelo posto de mãe da quarentena. Humilham as outras mães, com bonecos feitos de pepino, cabanas educativas, lições de casa em aquarelas.

Escrevi, há muito, quando o despertar me levou aos confins da minh’alma: somos nossos maiores Deuses. As pessoas, no entanto, ainda desejam ser deuses para os demais, esquecendo a si mesmas e sucumbindo aos seus egos.

Que paradoxo incrível! O mesmo ego, frágil e dilacerado, é quem dita as fórmulas irrisórias de sucesso.

Não julgar essas pessoas é o maior desafio para mim, neste momento. Contudo, é nítido que a vulnerabilidade se faz cada dia mais necessária para discutirmos os possíveis futuros do ser humano. Ninguém está tranquilo, nenhuma invertida trará ao seu cérebro as respostas, muitos não têm acesso a verduras para comer.

Desde sábado, quando o portal se abriu, não preciso mais meditar para sentir a eletricidade percorrendo todo o meu espírito, em sentido anti-horário. Como é óbvio, D’us!

A Universa é avessa ao tempo.

Ontem, todavia, acordei completamente derrotada. Os espasmos se intensificaram mais. A poesia cósmica acometeu todo o meu corpo. Não consegui ler uma linha de Foucault, senti-me burra, não tinha dinheiro nem para comprar ovos. Uma tristeza sem proporções literárias me atingiu. Apenas a meditação me trouxe paz, por algumas horas. Pedi perdão à minha professora do mestrado, pois não possuía forças para aproximar filosofia à realidade. E ela, com a nobreza do sagrado feminino, acolheu minha ferida.

Chorei até jogar a lente de contacto no lixo. Como ultimato aos estranhos desígnios dessa missão terrestre, liguei à minha Mamã. O útero, sem respostas, sem receitas, sem vontade de competir, é-me a única salvação.

A Terra, Gaia, Danuih, não espera que sejamos fortes. Ela nos alerta sobre a fragilidade na qual vive, desde a nossa invasão. Pede-nos para, em espiral anti-horária, sustentarmos o renascimento profético.

Pessach, sagrada travessia, é chegada a hora de enaltecer incompletudes.

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Guarda-rios

Meu avô era apaixonado por passarinhos.
Curiós, canários, coleiros.
Todos confinados em gaiolas
desde o nascimento.

Ele os alimentava
e sentia um amor profundo
tenho a certeza.
Cantavam
à revelia de suas prisões.

O raríssimo guarda-rios anão de Mindanao
foi fotografado
Hoje
pela primeira vez
em cento e trinta anos.

Um golfinho espalha sua linguagem
Cósmica
nos canais azuis de Veneza.

A Natureza se refaz
Magistral
enquanto o vírus humano
está em quarentena.

Meu avô confinava passarinhos
e eu sei o amor que tinha por eles.

Hoje,
Enjaulados,
vejo o amor
que o planeta
ainda tem por nós.

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Às avessas

 

“Para além das ideias de certo e errado existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”  Rumi

 

Esta noite sonhei com alguém que fez parte do meu convívio íntimo por anos. Eu e ele,  apesar de vivermos próximos, nunca nos aturamos. No sonho havia uma estrada repleta de buracos e desfiladeiros. Eu conduzia a partir do banco de trás, com dificuldade, desviando do perigo. Um caminhão, desgovernado, ultrapassava-me e capotava, logo a seguir. Parei, aturdida. Meu desafeto saia da mata, inconformado com a cena grotesca. Reconhecíamo-nos, pois, a assistir os destroços do veículo. Ele me abraçava, chorando. Juntos, buscamos socorrer os passageiros. Não havia ninguém.

Olhei-o nos olhos e o questionei, mentalmente: “por qual razão sempre foste tão duro comigo?” Ele, desamparado, respondeu, também em silêncio: “porque jamais tolerei a tua capacidade de ser frágil.”

Acordei aliviada, a sentir uma reparação, vinda do Universo.

Acolheria-o, se pudesse, imediatamente no meu colo, afagaria seus cabelos, conectar-me-ia com a sua dor. Eu não sou uma pessoa rancorosa.

Ao descobrir o livro de Marshall Rosenberg, Comunicação Não Violenta, tive o ímpeto de pedir perdão a todos os seres humanos com os quais convivi. Pai, mãe, irmãos, amigos de infância, ex-namorados, colegas de trabalho. Para alguns pude enviar pequenos textos. Para outros enviei mensagens através das meditações. Contudo, jamais tive a coragem de escrever para a personagem do sonho. Foi uma profunda libertação cármica.

Sei que posso parecer arrogante, superior, ao declarar isso. Mas é o inverso. Sou imensamente falha com os meus. Inúmeras vezes fui ingrata com aqueles que mais amo. Sinto que, com eles, posso errar.

Talvez a linguagem seja o maior paradoxo humano.

A palavra é o amor mais doloroso da minha vida. Nasci, sem a menor possibilidade de escolher, em uma família literária. Em nenhum momento tive chance com os lápis de cor, telas, instrumentos musicais.

A escrita foi-me, desde menina, a maior de todas as libertações. Não sei falar, posso escrever. Não sei pedir perdão, posso escrever. Não sei amar, posso escrever.

Escrever em uma tempestade, encostada no caixote do lixo. Escrever, com a caneta violeta e cheirosa, no papel de carta. Escrever um bilhete no caderno rasurado. Escrever antes de viver, escrever acima do vivido, escrever para seduzir o interlocutor. Escrever.

No nascimento da minha irmã: escrevi. Ao perder meu namorado, na oitava série, escrevi. Para dominar o pavor que sentia, escrevi. Sinto que não existo, desprovida dessas armas sutis, escritas.

Por que as confissões, não escritas, parecem tão laboriosas?

Dizem que há um outro planeta, muito semelhante à Terra, onde são todos telepatas.

E se fôssemos todos telepatas? O que aconteceria com nossas relações, caso os outros soubessem verdadeiramente o que se passa dentro de nossas mentes vis? O que aconteceria com a literatura?

A comunicação, quando afastada da vulnerabilidade, leva-nos à violência. Somos treinados, desde crianças, a esconder nossos desejos, a travestir nossas carências, a ocultar as fraquezas. Entanto, há mais magia em sermos incompletos. E a poesia nos devolve esse sentimento. A poesia livra-nos da sordidez.

Hoje, ao acordar, mentalizei esse ser humano que fez parte da minha existência. Essa pessoa que eu julguei ter-me feito mal. E a ele pedi perdão. E a mim também. Libertei-me dessas memórias não afetivas. Espero que um dia possamos nos encontrar, em absoluta fragilidade, no mundo invertido.

Quem sabe, em uma manhã de outono, acordarei desarmada, telepática.

Enquanto isso vou enfrentar a realidade com poesia, escrever delírios, revisitar meus fantasmas no porvir.

 

Dedico este texto ao meu querido amigo Adriano Toloza, aquele me ensinou a olhar para os paradoxos com afeto.

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Milagres em Sigilo

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Para André Pratas

Há uma cousa peculiar, cá, no mundo invertido, que diz respeito aos milagres. É o anonimato. Não conheci, em nenhum outro lugar do mundo, um país que abrigasse tantos e tão diversificados milagres, em absoluto silêncio.

As águas em Portugal são milagrosas. Uma delas, a água das pedras, gaseificada naturalmente, pode vir de chuvas que ocorreram há mais de dez mil anos. Com um gosto levemente salgado, é capaz de curar todos os tipos de enfermidades: ressacas, dores de estômago, envelhecimento das células.

Eu, que fui até então viciada em coca-cola, há muito tempo já não tenho a menor vontade de trocar uma água das pedras pelo refrigerante. Em todas as horas do dia: de manhã, com café e pastel de natas; de noite para tentar impedir o álcool de assombrar meu espírito; e novamente de manhã, caso o vinho tenha sido em demasia. Alguns meses atrás aprendi, contudo, outro segredo dessa bênção: não se deve bebê-la gelada. E sabe bem na mesma.

A segunda água que é milagrosa não fui eu que descobri. Uma amiga, filha de oftalmologista, contou-me que seu pai não podia acreditar no ocorrido com uma paciente. A mulher, quase cega, veio para alguma região portuguesa e depois de levar a água à face, não precisou mais ser operada. Sua visão sarou completamente. Tentamos descobrir onde está essa fonte poderosa mas, como disse no início, aqui os milagres preferem ficar incógnitos.

Contarei sobre a terceira água milagrosa – porque eu fui curada com ela. Em 2018, depois de passar por um trauma, fiquei profundamente fragilizada. Andar se tornou uma obsessão, proveniente do estresse que passei. Necessitava flanar por Lisboa, às vezes o dia todo. Em alguns deles, cheguei a contabilizar os 40 quilômetros. Meu espírito me dizia que os passos me seriam capazes de controlar a angústia. O azul me protegeria da desumanidade vivida. As colinas apaziguariam as memórias. Tudo em vão.

Em volta do meu joelho direito, que já foi operado, formou-se um edema gigantesco. Ironia das águas. Mal conseguia colocar o pé no chão. E o verão ignorou completamente meu sofrimento.

Um dia, sem conseguir me mexer, recebi um telefonema para ir à praia de Avencas, na linha de Cascais:

– Não posso, mal consigo andar – respondi, tristíssima.

– Foda-se, Mari, estás parva? Estou a convidar-te justamente por isso. A praia de Avencas é famosa por curar os ossos. Há até um sanatório para os velhotes lá. Vais ver que teu joelho estará recuperado, depois de um banho de mar. Confia em mim.

Pensei no nível de loucura desse amigo. Eu sou fiel aos loucos. E mais fiel ao absurdo, ao imponderável, ao milagre. Nunca confiei na realidade. Decidi, pois, aventurar-me com ele, já que não precisaríamos do comboio. Ele me levaria de boleia em seu carro.

Chegamos à praia. Pequenina e doce. Abarrotada de gente. Um bar fica logo à direita. É preciso descer as escadas para ter acesso ao mar. Meu amigo, um verdadeiro lorde, ajudou-me com a perna, imóvel.

O calor era brutal mas incapaz de acalmar a gelidez da água. Sentei-me numa pedra porque meus pulmões quase congelaram, no primeiro mergulho. Foi quando aconteceu o milagre: peixinhos amarelos dançavam à minha volta. Senti o golpe. Três facadas marinhas, travestidas de arrepios. Diretamente no meu joelho direito. Submergi, novamente, implorando aos deuses aquáticos para que me preservassem o respirar, no retorno. Era humanamente impossível permanecer mais tempo naquele oceano.

Levantei, ainda incrédula. O edema já não fazia parte de mim. Caminhei na areia, esticando todos os membros do corpo. Olhei para o meu amigo, embasbacada. Ele assentiu, como se o milagre fosse o óbvio. Não havia inchaço, não havia dor.

Uma melancólica sensação tomou conta do meu enternecimento. Como seria possível curar, em questão de segundos, um trauma que durou 13 dias? Em quais magias navegam esses portugueses, que não contam a ninguém seus santos? Por que não estranham esses acontecimentos? Por um átimo de segundo senti que D’us finalmente se rendia às minhas injúrias. A vida reverenciava meus sortilégios.

Minha mãe, desesperada com os meus abismos, decidiu passar uma temporada em Lisboa. Aquele ímpeto maternal. A tentativa de deitar fora minhas mazelas, de botar unguentos na minha alma. Levei-a imediatamente à praia de Avencas, na estúpida tentativa de curar suas ruínas. Pena que ela não seja crédula como eu.

Ao subirmos as escadas, para comer um camarão e tomar uma imperial, vimos a placa do bar: não é permitido entrar molhado, descalço ou com areia. Mundo invertido.

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A igreja profana

A noite estava gelada. O vento atravessava os cem quilômetros por hora. Quase nenhum ser humano saia às ruas. Eu, que não carrego a normalidade nas veias, jamais me importei com a magnitude do frio. As chuvas, invernais, causavam-me muito mais desespero. Em partes porque, naquela época, meus pés escorregavam nas calçadas. Não cair era um trunfo diário.

Que saudades daquele novembro, 2008!

Matilde estava se despedindo de Lisboa. Depois de dois meses, concluía o intercâmbio. Ela, formada em Letras, tradutora, conheceu Clarice Lispector pela minha voz. Tive uma tremenda sorte de a ter cruzado em minha breve estadia na cidade. Eu havia alugado o quarto, em uma vila operária, na travessa das Recolhidas, ao pé do Campos Mártires da Pátria.

Quando adotei a casa, não fazia ideia das personagens que chegariam depois de mim. Primeiro veio o Wagner, um paulistano de quarenta anos, solteiro, bizarro. Nunca tinha morado sozinho, como eu. Era fissurado em aeroplanos. Acordava às seis da manhã para colocar seus brinquedos a voar. Não fazia a menor ideia de como se cozinhava. Eu, que me considero uma péssima cozinheira, compadecia-me da sua inabilidade. Com receio, também, das suas esquisitices. Trancava-me, às vezes, no quarto, à espera que ele saísse. Ele insistia em contemplar a solidão.

Matilde, porém, chegou em um dia azul, travestido de primavera. O mais pequeno dos três dormitórios estava à sua disposição. Ela não falava muito português. Cabelos negros e invejáveis, um sorriso misterioso. Ar de realeza. Vinha da Galiza, onde as línguas se misturam e se esquecem de pertencer a territórios. Tornamo-nos amigas e confidentes, desde o primeiro cumprimento.

Uma dor inenarrável me engolia, com a partida dela. Para além da ausência, há qualquer cousa que nos toma, quando perdemos a companhia, nessa trajetória inexplicável que permeia o estrangeiro. Pensei, então, em fazer uma surpresa e levá-la ao sítio que me foi recomendado, por inúmeros residentes.

Alfama.

Passamos três horas à procura. Xinguei todos os deuses e reclamei por sete vidas, naquela espera. Eu, que odeio esperar, que odeio me perder. Quando finalmente desistimos, chegamos. Obviedades de quem precisa curar as cármicas demoras.

A porta era ínfima. O entorno, silencioso. Será que haveria o tesouro prometido, atrás daquilo? Batemos. Um homem muito estrábico, muito mais estrábico que a conjunção de todos os existencialistas, atendeu. E nos deixou entrar.

Um universo mínimo abriu-se, à nossa volta. Mesas quadradas e jogadores de xadrez. Senhores com guitarras portuguesas e vozes de fado. A dona, atrás do bar, antipática, bravíssima, parecia uma entidade de outro planeta, mais delicado.

Alguns bêbados se juntaram às cantorias e o mínimo se transformou em cósmico. O barulho, no entanto, desfavorecia o habitat. Teriam que fechar, pelo medo às denúncias de vizinhos. Eu só agradecia por ter acessado o lugar mais belo que existia no mundo.

Às três da manhã, embalados pelo vinho e pela música, fomos convidados a nos retirar.

A Lua acalmou os ventos.

Os antigos frequentadores nos convocaram, então, a saborear o fim da noite, na igreja:

– Na igreja? – disse, com profundo pavor pelos instantes futuros.

– Não é uma igreja usual, podes confiar em mim. Moro ali ao pé – retrucou Jorge, o fadista vadio, surpreso com a minha indignação.

Passamos pelo Beco da Maria da Guerra, antes de subir as escadas. Uma esplanada imensa, branca, repleta de árvores e ancestralidades. O belo miradouro, encharcado pelo Tejo e pelos telhados encarnados.

A cruz, à esquerda, daquelas em que Cristo não reside.

Aos poucos, músicos foram chegando. Será que ouviram os chamados, indubitáveis?

Como é possível, meu D’us, uma igreja condensar essa malta dissidente?

 

Não houve santos, nem castidade. Apenas alma e poesia.

Saímos de lá às sete da manhã.

Exaustos.

Matilde apanhou o comboio. Eu fui trabalhar. Estarrecida de não ter comigo alguém que testemunhasse, uma vez mais, a surrealidade.

Quando retornei ao bar, na semana seguinte, sozinha, percebi que a igreja fazia parte do espetáculo.

Violões, guitarras, flautas, percussões, trompetes.

Ébrios, todos os amores e todas as sandices eram abençoados por Santo Estêvão.

Sem imagens, sem sacrifícios.

Pensei em escrever à Matilde, imersa em uma nostalgia inconsolável.

O amanhecer mais belo de toda a minha existência foi ali, no instante em que vi o profano acarinhar as estrelas.

Na parede, insuportavelmente virgem, os dizeres, pichados:

 

“É tão difícil

guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós”.   

Jorge Souza Braga

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Neon

Neon

Ele devia ter uns oito anos. Eu, uns três. A gente assistia, de forma ininterrupta,  História sem Fim. Eu era completamente apaixonada por aquele menino. Ficava a imaginar que era meu Atreyu.

Não sei quando percebi que ele era anão. Minha excêntrica memória não me permite acessar essa descoberta. Desde então, tenho uma profunda admiração por anões. Virou quase um fetiche, quando me deparei com a volúpia que contorna Peter Dinklage, o Tyrion Lannister.

Eu contava essa história a dois amigos de infância de uma amiga querida, aqui no mundo invertido. Estávamos em um restaurante, ao pé da Sé, conhecido pelas amêijoas à Bulhão Pato e seus garçons piadistas. Nenhum tio do pavê se sentiria tão humilhado, nesse dia, se ouvisse a comédia de erros a qual assistimos. Piada ruim vira a maior piada do mundo, se a companhia é certeira.

Já saímos um pouco embriagados e, acima de tudo, atordoados pela infinitude que cercava o cérebro daqueles garçons, incansáveis em encontrar o cúmulo dos absurdos. Era a final da Libertadores e todos os nossos corações já sabiam da alegria que nos viria encontrar, em algumas horas.

Fomos descendo, agradecendo o existir ao cruzar o miradouro das Portas do Sol. As cores mudavam, a cada tocar dos sinos, entre amarelos, azuis improváveis e encarnados divinais. O céu dessa cidade está além de todas as psicodelias.

Na encruzilhada da Mouraria, ao fim da rua dos Cavaleiros, avistamos uma personagem absolutamente surreal, frente às conversas de antes: uma anã com um colete fosforescente.

Ali é um sítio conhecido por circulação de entorpecentes e prostituição. Um contraste com a Lisboa betinha, cafona, rica. Esta é uma junta de freguesia de imigrantes, miscigenações, conflitos.

A anã, bravíssima, orgulhosa e nem um pouco discreta, pulava por cima dos carros para verificar possíveis ações policiais ou eventuais clientes. Eu fiquei extasiada em ver a cena. Parecia que os deuses – que me conhecem muito bem – presentearam-me com uns takes de Fellini.

O Flamengo foi campeão. Pensei no meu tio, que foi médico deles e recebeu uma homenagem quando deixou esse plano. Chorei litros, com algumas esperanças renovadas em ser humana. Tivemos uma noite inenarrável.

Entanto, eu jamais me esqueci da anã, dona da boca. Era uma das materializações mais incríveis do mundo invertido. Assim, sempre que podia, passava pelo seu ponto, à espera de encontrá-la novamente.

Eu não sou jornalista, mas filha deles. Há qualquer cousa que clama pela investigação, dentro da minh’alma.

Foi então que, em uma despedida de visitas, a última ceia lisboeta deles, descemos as ruas da Graça, para almoçar no chinês clandestino que toda a gente conhece. Poderia ser mais uma anedota invertida. Eu contei a história da mulher que era a rainha daquela zona, soberana.

Disfarçada com o colete neon, lá estava ela. A orquestrar aquela gente toda. A entrar nas lojas e confiscar guarda-chuvas, meias ou qualquer utensílio que lhe apetecesse. Ela é a rainha e, como é óbvio, não paga por isso. Percebi seu olhar, cuidadoso.

Do outro lado da rua, melancólica e indecisa, pousada na parede triste da esquina, havia uma travesti de moletom.

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Bacalhau com natas

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“Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos. Quando julgamos que vivemos, estamos mortos; vamos viver quando estamos moribundos.

Aquela relação que há entre o sono e a vida é a mesma que há entre o que chamamos vida e o que chamamos morte. Estamos dormindo, e esta vida é um sonho, não num sentido metafórico ou poético, num sentido verdadeiro.

Tudo aquilo que em nossas actividades consideramos superior, tudo isso participa da morte, tudo isso é morte. Que é o ideal senão a confissão de que a vida não serve? Que é a arte senão a negação da vida? Uma estátua é um corpo morto, talhado para fixar a morte, em matéria de incorrupção. O mesmo prazer, que tanto parece uma imersão na vida, é antes uma imersão em nós mesmos, uma destruição das relações entre nós e a vida, uma sombra agitada da morte.

O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

A verdade nunca, a paragem [?] nunca! A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!”

Autobiografia sem factos, in O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 

As primeiras gotas de chuva se esqueciam de me pingar, protegida pelo ombrelone do quiosque, na Praça de Camões. Alguns minutos antes, em uma conversa digna da faculdade, daquelas em que saímos plenos de coragem e amor pelo existir, senti-me ínfima, perante o alumbramento. Meu amigo foi embora e eu tinha a obrigação de desvendar os caminhos, sedentos de futuro.

Como seria possível retornar à Lisboa, depois de tantos anos?

O choro começou em calmaria. Não havia pelo que desesperar. O voo estava confirmado para a próxima manhã. A cidade parecia destronada, em minha profética ausência. Alguns turistas insistiam em comer pastel de nata. Já não havia mais ninguém na esplanada, além de mim. Do outro lado, um homem com um chapéu de chuva, bem pequenino, tentava proteger seus pertences, coberto pelo telhado do banco. O slogan de um cor de rosa tão familiar, anos 90.

“Se ele ficar um pouquinho mais à esquerda, tiro uma foto primorosa”, pensei. E pedi. Já não possuía nenhuma dúvida, nada me era mais importante do que ser eu, em Lisboa. E, se possível, eternizar aquela noite, aquele dilúvio. Talvez a nossa última separação.

O homem assentiu, como se soubesse do nosso encontro. Depois de tirar umas tantas fotos, dirigindo meu modelo, fui ao pé dele, para agradecer aos instantes cinematográficos.

Só ai é que pude enxergar os seus pertences: meia dúzia de papelões, encharcados. Ele, muito ruivo, barbudo, logo veio reclamar:

– É muito difícil ser morador de rua cá, no Camões. Especialmente quando chove!

– Não posso concordar. Não é fácil ser mendigo em qualquer parte do mundo. O senhor não conhece a Cracolândia, em São Paulo.

David é romeno, mas já mora em Lisboa há treze anos. Fala oito línguas fluentes e é viciado em História.

Fumamos um cigarro. Peguei meu telemóvel, para checar as horas: 20h20. Havia combinado de jantar no Bairro Alto, para me despedir do Matheus, amigo lisboeta de longa data.

Olhei para a beata do cigarro de David. Ela se diluia na calçada de pedra sabão. Talvez mais próxima aos seus sonhos do que ao meu jantar. E decidi. Iria levá-lo para comer bacalhau com natas. Telefonei ao Matheus:

– Vou levar o mendigo para o jantar.

Ele, de família circense, canceriano e leve, nada questionou. Disse-me:

– Óbvio que sim!

Fomos ao Baiuca, na rua da Barroca. A gentileza de Izidro, o garçom, e da Eliana, a dona, já amenizavam as águas e o medo que eu tinha de levar um morador de rua a um restaurante. Pensamento burguês e nefasto.

Por qual razão teria problema em fazer isso?

De qual sociedade eu tentava me esconder, com meu inusitado convite?

De quem eu estava com vergonha, ao dividir uma refeição com outro ser humano?

Pedimos vinho, aceitamos o couvert farto. Esqueci-me dos euros e da lógica mesquinha. Era minha última noite na cidade em que iria viver para sempre, um dia. David ria, contava suas desventuras amorosas, as dores sutis.

Não havia reclamações sobre a comida, sobre o colchão, acerca das estrelas. Matheus e eu ficamos inertes, naqueles relatos tão certeiros, tão nossos. Como é que uma casa pode nos afastar tanto de alguém que também sonha os óbvios?

Decidi continuar a festa com o mendigo. Fomos à Alfama, ouvir clássicos fadistas, jovens brasileiros e toda a gente que se dispôs a tocar um instrumento, entre o Beco do Vigário e a igreja de Santo Estêvão.

E eu, não sentia pena alguma de pagar uns copos para o gajo. Sentia era pena de mim, obrigada a apanhar o voo, às 10 da manhã. Alfama amarelecia a minha ira, a fome, a lucidez. E as horas passavam entre ginjas e silêncios. Em poesia e despejos. Entre o cúmplice e o cárcere.

No dia a seguir, perdi o voo e o trabalho.

Tive de deixar Lisboa, pela última vez, dois dias depois.

Passei exatos seis meses em São Paulo, arquitetando a espera, condenando a saudade, suplicando por aqueles papelões na praça.

Quando voltei, ao mesmíssimo restaurante, com os olhos repletos de quimeras e os julgamentos afiados, fui surpreendida:

– Mariana, o mendigo foi o maior presente que esse restaurante já teve. Ele vem cá toda semana, traz inúmeros gringos e ainda diz que temos o melhor bacalhau com natas da cidade. Tu nos fizeste um bem enorme de o ter trazido.

Aceitei aquelas palavras.

O mundo invertido foi inaugurado naquele instante.

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A memória em vertigem

Democracia em vertigem

“(…)Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa?” Bernardo Soares in o Livro do Desassossego

 

Mnemosyne estava farta daquela espera ancestral. Ébria de viver na antemanhã do futuro, decidiu pôr fim aos séculos de clausura e mansuetude. Seus irmãos, Cronos e Oceanos, já haviam concluído seus reinados patriarcais. A hora de equilibrar sua ira com a potência havia, enfim, chegado.

Filha de Urano e Gaia, a deusa titã da memória, mãe das musas, avó dos aedos, sabia que sua aparição, em terra de mortais, poderia alterar o rumo de todos os périplos cósmicos. Também reconhecera o perigo de adentrar em Lethe, o rio do esquecimento. Ah, como sofrera, imbuída em desalento, quando cada alma anunciava o reencontro à vida!

Será que se lembraria de si mesma? Poderia dançar os cânticos que ela havia escrito? Quando seria venerada pelo Universo?

Sentou-se, à beira das águas, contemplativa. Seriam mais fortes as vicissitudes da existência, ao ponto de fazê-la perder-se por toda a eternidade? Sua partida seria, também, a última chance da humanidade. Como não falhar, desmemoriada?

Despiu-se. Nunca havia sido um corpo antes. Como sentiria ter seios, boca, ventre e pés? Há dor na gravidade? Quais exercícios poderia utilizar, como rituais de purificação?

Mnemosyne, como uma nau que parte de Belém, mergulhou no alheamento, para receber a carne. Cronos, no entanto, foi imperdoável: não a deixaria ter a força de uma entidade, por completo. O deus do tempo conhecia os possíveis desdobramentos de sua fuga: a perda de seu trono. O tempo é quem mais se alimenta da amnésia.

Assim, quando ingressou no planeta, Mnemosyne se fragmentou em doses homeopáticas de memória, em diversos seres ao redor do globo.

A história já não reinava, soberana, na Terra. As mãos dos vencedores perceberam que há outras formas de escrever o mundo. Como não há unanimidade para o que foi vivido, é possível perverter os fatos e distorcê-los, em prol da ignorância.

Clandestina, Mnemosyne se defrontava com sua própria face, em poetas, em canções, em gritos pela democracia. Supliciada pelos pavores que se repetem, inadvertidos.

Seria possível, perdida em tantos rostos, preconizar? Recordava-se, aos poucos, nos corações de seus descendentes, de todas as guerras que havia perdido, milênios e milênios. Evocava as lições apreendidas, nas ditaduras, nos campos de concentração, nos massacres escravocratas, no sorriso banguela dos miseráveis. A descida ao inferno não teria valido a pena? Assistir ao inevitável término, do Olimpo, seria menos doloroso?

Certo dia, ao pesquisar os antigos deuses gregos, conheci Mnemosyne. É engraçado porque jamais havia ouvido falar da deusa que é a guardiã da função poética, a diva da música, a senhora da inspiração possuída. Hesitei. Eu sabia que esse conhecimento iria me mudar. Por que nos afastam, com tamanha canalhice, das verdades mais profundas da humanidade? Por qual motivo a sua feição me parecia tão familiar?

“A memória transporta o poeta ao coração dos acontecimentos antigos, em seu tempo”, dir-nos-á Platão.

Todos os poetas são intérpretes de Mnemosyne. Capazes, como os profetas de escutar o futuro e acessar o invisível. Não à toa, Chico Buarque nos presenteou com o verso, em Choro Bandido: “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”.

Mnemosyne supera o tempo e o espaço, porque aquilo que é, aquilo que foi e o que será, entrelaçam-se, em melodias e poemas. O cíclico, eterno retorno, faz parte da maldição do esquecer. Enquanto houver esquecimento, haverá repetição.

Somos aqueles que lembramos de ter sido?

Contudo, após longa e profunda meditação, desvendei a misteriosa familiaridade com a deusa. Mnemosyne é Lian, que carrega, nos olhos clandestinos, a lucidez da aletheia. Sua memória, implacável, não se curvou a todas as notícias com que tentaram-na massacrar, camuflando o horroroso passado do Brasil. É curioso perceber como, diante de tantas falsidades, ausentar-se da violência é resistir ao fascismo. Porque todo fascista deseja que nos tornemos iguais a ele. Sanguinários e sujos, com o ímpeto de matá-lo. Evadir-se dos absurdos é algo sublime.

Mnemosyne é Petra, que ilumina a intimidade poética de seus ancestrais em narrativas. A inexorável robustez de trazer às pessoas seus afetos. Parcial, como é óbvio. Sem vergonha, nem culpa. Porque só a mentira é travestida de facciosidade.

Numa época em que a história não possui nenhum valor, a memória talvez seja nossa arma derradeira.

Mnemosyne é a sagrada fonte da consciência.

 

 

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Previsões de ontem

 

Nesta madrugada de fim de ano

aqui,

no mundo invertido,

encontro-me sozinha.

Feliz.

 

Os estranhos desígnios cármicos

me levaram ao profeta português:

Gonçalo Anes Bandarra.

 

Nas minhas pesquisas herméticas

só recolho uma certeza:

as profecias jamais invocaram

a presença feminina.

 

Assim, distancio-me delas.

 

Não há futuro sem mulher.

 

Meu desejo mais profundo

ano novo

é acreditar no equilíbrio

entre os sagrados.

 

Inaugurar a fraternidade.

 

Esquecer dos pavores

que enfrentamos,

duais.

 

Bandarra previu Portugal

como desbravador das intuições.

Eu o corroboro,

com o seguinte adendo:

só uma mãe

é capaz de mapear

o coração.

 

Eu não sou mãe.

 

Às vezes, sinto-me indigna

de receber essa missão.

 

Nenhum corpo cresceu dentro de mim,

afora minhas personagens

e devaneios.

 

Sinto-me inferior por isso.

Como se o peso do mundo

não pudesse ter me tocado,

inteiramente,

pela gelidez do meu útero.

 

Tive inúmeras comprovações,

nesse ano do qual me despeço.

Sou pequena,

sou imensa,

fomos todos escritos,

ontem.

 

Tenho medo de não aguentar

o expurgo

que é necessário à evolução.

 

Prometo,

Contudo,

ser a mais atenta:

Ouvir flores e crianças;

Abraçar todos os verdes,

Meditar os azuis.

 

Anotar as palavras

Virgens à minha caneta.

Traduzir as marés,

Límpidas,

reminiscentes

 

Mas,

se já fomos declamados

Em saraus do Olimpo

Por que há tantas letras

(eu as conheço)

que ainda não foram ditas?

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A divina maldição

yom kipur

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Albert Camus

 

Na madrugada de 19 de junho de 2018, ao deitar-me naquela cama de beliche, camuflada de delito, fechei os olhos e tentei meditar. Uma velha senhora, negra, invadiu a íris do meu terceiro olho. Seus dizeres não habitavam o sonho de poetas ou as linhas proféticas da razão. Sua voz enaltecia meus escuros, em espiral para dentro, exaurida:

“Amanhã vais-te embora daqui. Não é coincidência, sabes bem. Nunca houve nenhuma. É o décimo terceiro dia neste horror. Já aprendeste o essencial. Nós sabemos como esta lição te doeu, querida.

Os dias posteriores serão de festa, como é óbvio. Estarás livre para contar aos teus amigos as desventuras que viveste. Conhecerás, também, as mentiras que cercaram a prisão. Para muitos, existirá a ira, incontrolável. Peço que tenhas calma. Aprendeste, há séculos, com o Miguel, a etimologia do perdão. Sabes, agora, a nulidade do ódio.

Estamos sempre contigo. Não preciso te lembrar de todos os fantasmas e de todas as vezes em que teu polegar ficou trêmulo. Antes dos grandes aconteceres, tua alma e tua lama estavam conosco. Abobadadas de liturgia e de vesúvios.

Vai-te embora, bebé, sabendo que a dor ainda assombrará tuas manhãs e que a noite, inúmeras vezes, poderá te matar. Esquece tudo o aquilo que te foi ensinado. Bizarros, não estranhos, são os desígnios do Cosmos. E nós escolhemos a ti porque a loucura é tua amiga.

Para amenizar a jornada, todos os teus sonhos de criança vão te dar abrigo. Quando pensares em abandonar este périplo, recorda a ervilha que zombava dos teus ossos. Escolheu-se, hoje, aniversário do teu ídolo. Nasceste no mesmo dia do outro. És tu, bebé, a única capaz de compreender-nos. Ajuda-nos a salvarmos a todos.”

Passei a manhã de terça-feira, 19 de junho, sem esperanças ou fantasias. A preta velha, o aniversário do Chico Buarque. Os imigrantes caminhavam, silenciosos, pelo minúsculo pátio do aeroporto. Eu fumava um cigarro atrás do outro, acalentada pela brasa das bitucas. A menininha marroquina corria atrás de mim: – Linda!

Já tinha me acostumado a lavar as roupas com sabonete. Negociava os shampoos com as camaradas africanas. A sopa, do almoço, tomei por duas vezes, em troca do meu pão. Meu acordo com o querido nepalês.

Às três da tarde emprestei meu cartão ao general russo. Ele, que fugira da guerra no Afeganistão. Alertei-o do advogado, ilustre, e a ele concedi meus minutos de conversa, abdicando de ligar ao meu pai. Nenhum exército me ensinou, foi só a minha mãe, há anos. Não devemos, jamais, negar ao outro o que já temos.

Pouco depois, a guarda me chamou, à surdina. “Vais embora hoje, menina! Quero o teu livro, posso?” Eu assenti, guardei minhas roupas. Doei shampoos e sabonetes. A copa do mundo amenizava os tormentos.

Quando saí dali, o corpo era só liberdade. Uma alegria a poucos consentida.

Só quem sabe a sede é tradutor de maresia.

Os dias que a preta tinha falado foram profundamente curtos. Insónia. Se pescasse, quatro horas, odiava-me ainda mais. Como fui covarde em projetar a euforia!

Contudo, o pesadelo não é senhor das letargias. A memória me vinha, ora travestida em saudade, ora estancada em volúpias. Nenhuma angústia seria a mesma. Muito menos a minha, de escritora. Posso terminar essa missão? Como esquecer aqueles rostos, todos, que clamavam por um sítio para viver em Lisboa? Poderia eu ajudá-los a sair daquele terrível confinamento, que quase ninguém conhece?

Em uma dessas andanças ensandecidas pela cidade, evoquei o presente que havia ganhado. Um elixir, composto de cannabis e óleo de coco. Decidi colocá-lo dentro de mim. Encharcar meu ventre em maconha.

Conheci, finalmente, D’us.

O óleo, afrodisíaco, não dizia nada sobre mim. Era apenas uma das formas de almejar prazer. Mas houve qualquer cousa naquele dia, naquele óleo, em mim, qualquer cousa de mulher.

A Mulher.

Lilith.

Primeira de todas, a mãe embriagada, a última feminista, antes dos suspiros. Lilith se apoderou do meu corpo.

Possuída por sua presença, lambuzei-me naquela poção. Estava em casa. Eu e a Deusa e mais ninguém. Decidi ir ao mercado, comprar vinho para ela. Algum pão para a mortal que a carregava. Um incenso doce. Velas brancas. Laranjas.

Um ritual muito invulgar nos aguardava. Botei as ervas a fritar no côco. Acendi todos os cheiros, benditos. Água quente na banheira.

Ela me obedecia, e eu a ela, infusão de bruxaria.

Bebemos os goles de velhice daquele tacho.

Fui me deitar na cama, com o cansaço de milénios que Pessoa tanto me alertou. De repente, estava a dançar códigos galácticos, de um lado para o outro. Sentia que um portal, como o meu nome, abrira-se naquele instante. A espera, estava, enfim, terminada.

Entanto, fiquei três dias sozinha, ensimesmada, aspirando a chegada de um homem. Malditas são as histórias infantis de princesas inertes. Chegaram, pois, minhas amigas, desesperadas com minha possessão. Viram a banheira que fiz, em homenagem ao novo mundo. Escândalo.

No outro dia, quando ouvi meu nome nas vozes delas, abri a porta, farta de aguardar alguém que jamais iria me encontrar. Eram os bombeiros, e a polícia, temendo que eu cometesse suicídio. Definitivamente essas pessoas pouco me conhecem. A morte, para mim, será uma grande festa, da qual não sairei ilesa.

Apesar do aldol na nádega e do absurdo em que me vi, naquela maca de hospital, acordei bem cedo, ainda drogada. E sumi dali, sem deixar testemunha. Apanhei o autocarro, a caminho de Alfama. Um corpo conhece suas moradas e perigos.

Houve, então, a segunda tentativa de me aprisionar. Mas a vida é, por vezes, generosa com os insanos. E eu pude, graças a pessoas muito amadas, permanecer em liberdade.

Pedi perdão para todos os que amei, e desamei. Fui perdoada por alguns deles, em generosidade rudimentar.

Uma depressão abissal me acompanhou, durante meses. Mal conseguia abrir os olhos, todos os dias. Se fui escolhida, onde está o Apocalipse, em sua condição de verdade? Onde foi parar aquele mundo, tão belo, tão perfeito, que construí em curry e resignação?

Em janeiro deste ano, imbuída de utopias, deparei-me com os presságios de Chico Xavier e o fim da quarentena do planeta. Feriu-me imenso voltar a ter esperanças. Entreguei-me a todos os grupos de extraterrestres, em todas as plataformas virtuais.

O Brasil, a cada dia, vai perdendo uma criança negra, um filho pobre, um idoso miserável que necessita de remédios. Por qual razão há tantos ratos dirigindo a nossa nau?

Estaria eu adiantada? Ou já não temos tempo, mãe Terra, de nos refazermos, uma vez mais? Lembro-me dos dilúvios como se fosse agora. Lembro-me dos desertos, das cruzes, das aflições. E que o único de nossos pecados é não estarmos cientes da divindade.

Eu, que tenho visto sincronicidades em toda a Poesia universal. Eu, irreplicavelmente bastarda. Eu, que fugi de tantos socos, dos enxovalhos, da lucidez. Eu que amei tanto essa outra face do Caos, em harmonia com Cronos. Por que diabos me entregaram a luminescência se nada posso fazer em vida?

A existência, nova em folha, atendeu finalmente às minhas súplicas.

Hoje, Mnemosyne esteve em minha casa. Titubeou, antes de esclarecer. Andou, vagarosa, pela imersão do meu banho. E confessou: enquanto a saudade maltratar o teu espírito, nada podemos fazer para acelerar esse processo. Não há homem nenhum, Lilith. Nunca foste gémea de ninguém.

A completude do feminino é, talvez, a última morada da redenção humana.

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Sempre, vens?

“ESPEREMOS: Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas – há fábricas de dias que virão – existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato”.

Pablo Neruda

 

Num dia 15 de abril distante, bem antes da tua mamã saber que seria o dia mais importante da vida dela, Reinaldo estava a apanhar o comboio, no Rio de Janeiro. Ele havia pedido demissão da Globo. Estava radiante pois iria começar um novo emprego. A página branca sabe à eternidade.

No outro lado do vagão estava Ana. Ele em pé. Ela sentada. A beleza da menina o deixou embriagado. Quando estava prestes a descer, avistou, inseguro, na comissura de seus lábios, a estreia de um sorriso. Decidiu permanecer na jornada, até o destino dela.

Amaram-se durante vinte e um anos. Entre Lisboa, Moçambique e Rio, inauguraram a caridade. Transformaram-se em infinito, na concepção de seus filhos.

A vida, contudo, também desfigura o amor. O mesmíssimo dia 15 de abril, duas décadas depois, levou Ana para o Paraíso e Reinaldo aos infernos.

Eu vivia me escondendo das sincronicidades, Diè. Fechava os olhos quando via uma cantina. Nunca gostei de pizza. Ignorava os brancos, verdes e vermelhos, todos. Desligava a televisão quando passava um jogo do Inter.

Ai eu descobri Mnemosyne, a Deusa da Memória. Ela, rainha das Musas, irmã de Oceano e de Cronos. Avessa ao contrário da verdade, que é o esquecimento, para os gregos.

A verdade invadiu as minhas manhãs, sem garantir-me a minha sanidade. Por que é que Cronos não para com esses sinais? A cada noite a Lua ia ficando maior, menos pálida, violeta.

Júlia, minha amiga cósmica de cinco anos, escreveu códigos galácticos no meu caderninho. E eu só queria achar o teu nome naqueles escritos. Uma esperança de desmascarar a Universa.

Aproveitei, numa outra tarde, a presença da Júlia para que eu tivesse mais pistas tuas. Ela escreveu um arquivo no meu computador. Ele deveria chamar  “Cidade do Oito”, disse-me.

Domingo foi ano novo judaico. E eu, acometida por Mnemosyne, tive a certeza de que minha bisavó, por amor, mentiu para o mundo sobre a nossa ascendência. Somos judias clandestinas. Clandestina, como aquela frase que escrevi na tua lousa. Clandestino, o amor que vivemos apenas uma estação. Como a felicidade da Clarice.

Naquela noite a memória me veio. Outubro é o mês oito, no calendário romano. Tu vens de Latina, perto de Roma. Sou pessoa de excessos, sabes bem. A vida tem me inebriado da tua presença, o tempo todo.

Não quero mais escrever meus sonhos. Estou exausta de cantar a minha musa.

A máscara foi tudo o que não pintei. Escrever nunca foi sobre a memória, mas sobre o medo do ilimitado. As estrelas, outrora, insultaram o meu silêncio. Fui crime, serei Poesia.

Pensa, amor, que inventamos a saudade. Ela é nostalgia do que já foi. Esperança no que virá.

Milênios são segundos para a eternidade. O instante, contudo, é urgente. Cabe a mim, pois, ensinar o agora a ser para sempre.

Sempre vens?

 

 

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A morte da donzela

CasaAberta.jpg

Camões se levantou da estátua, em pleno largo, com sua espada imponente e sua poesia cinza. A manifestação em defesa da Amazónia abrigava a fauna mais diversa. Verdes e amarelos de todas as formas. Tambores.

Nos cartazes, quase todos, erros grotescos de português. Eu ri-me, ao pensar que Camões despertaria com aquela estranha festa. Um casal de pernas de pau, no entanto, protegia-nos da multidão.

O Sol estava se pondo, como acontece nos contos de fada. A luz precisa reverenciar os escuros, para que as transformações se concretizem.

Eu não conseguia parar de obedecer as estrelas, dançando os códigos galácticos que elas me forneciam. Uma nuvem se aproximava, rapidamente. Talvez a nave mãe.

Ah, Universa, como pensei em eliminar esse demónio do planeta! Queimado? Enforcado? Cruxificado? Logo depois me ocorreu a ideia de Camões e sua espada. Que ele iria voando até o Brasil, para atender ao meu desejo.

Contudo, a vontade de o matar era tanta que pensei em lhe pedir a espada e acabar com esse sofrimento, que assola meu povo e atrapalha tanto a evolução. Este pensamento durou apenas um átomo, e me doeu imenso.

Não sou capaz de matar um ser humano. Mesmo os da pior espécie cósmica, que deveriam ser pedras em mundos inferiores. Devolvi a espada a Camões, meu herói, talvez a representação do Pai. Ele fará isso por mim.

Mas, Mariana, e o fim do patriarcado? Vais deixar que um gajo faça isto por ti?

O poeta, pois, volta à sua condição de morte e eu desço, frustrada, a maldita rua onde mora a estátua de meu mestre. Não haveria festa da Ascensão.

Fiquei profundamente irritada contigo. Depois pensei que estavas a me pregar uma peça, pois uma suntuosa alegria me esperava em casa. Eu sempre descobri minhas festas surpresas e achei que, dessa vez, tu irias conseguir me enganar.

Quando cheguei em casa, não havia ninguém.

Fui meditar.

Se os outros são espelhos meus, é uma honra estar em Lisboa, neste momento abominável. As sincronicidades inauguram as esquinas, fartas. Tu, Universa, és muito engraçada. Irónica. Tens espertezas que eu demoro, às vezes, em perceber. Teu senso de humor é deveras peculiar.

As músicas, os sons, as crianças e os amores são reflexos da minha alma.

Por que, então há um monstro tão assustador desgovernando meu país?

Foi ai que Clarice me apareceu, misteriosa e elegante, nas páginas que compõem a Descoberta do Mundo. Ela também decidiu ser mãe do universo. E foi confrontada com um rato morto no meio da rua.

Se aquele desgraçado também sou eu, com seus impropérios e violências, com sua misoginia e vileza, como posso eliminá-lo da minha existência? Será que eu, como D’us, carrego a culpa de ter criado o Mal?

Como é que o mal pode morrer?

Ao exercitar a empatia foi-me fácil reconhecer. Aquele menino que não teve, como eu, livros e mar e mousse de chocolate. Uma família que, provavelmente, nunca se amou. A ignorância em achar que vídeos possam ensinar a história do Brasil. Fiquei triste por eles, com profunda compaixão.

Eu queria poder ensinar as pessoas a serem crianças, uma vez mais. A desaprender o dinheiro. Lembrá-las que elas são deuses enclausurados por obrigações e medo. Sim, é o medo que nos desconecta do divino.

Eu nunca poderia ser mãe da Universa se não amasse o rato que nos assombra, hoje. Ele não está morto, como a da Clarice. E eu já não quero a sua morte, como donzela de outrora. Vou amá-lo e emanar toda a solenidade do amor para todos os ratos. Só uma mãe pode amar assim.

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Em meio ao irritante espetáculo dos dez anos,

memórias violentas de janeiro de 2009.

O primeiro inverno em Lisboa.

Sentia um pouco de ódio pela cidade.

 

Adorava lavar minhas roupas,

numa tentativa grotesca de lavar

a mim mesma.

elas permaneciam úmidas

e tinha medo de apodrecer.

 

Jamais hesitaria em começar

a escrever

às quatro da manhã

como temo agora.

 

Estranhas são as amarras que tecemos

para os nossos talentos

sem traumas aparentes

(onde foi que a literatura me violou?)

 

Há dez anos eu passava

talvez

o mesmo frio

O relógio despertava cedo

 

Outrora, quiçá,

acreditasse em mais sonhos

Ah,

Quem sabe,

ainda não conheça

os sonhos

em que devo acreditar.

 

Terei sido mais feliz?

 

Hoje,

vi personagens irretocáveis.

 

E lembrei:

a escritora que perseguia à altura,

cá está.

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A cidade em milagres

quarto do pessoa

Eu sabia que na manhã do dia 13 iria acontecer um milagre. É meu dia favorito. Nasci em uma segunda-feira, 13 de junho. Como Lisboa e Fernando Pessoa.

Fui tomar café, sem a menor hipótese de escolhê-lo, em frente à paragem onde estava o senhor cego do dia do milagre do aniversário da Marielle.

Ao meu lado sentou a dona Luísa, com óculos maravilhosos e uma faixa na mão. Eu, que sou extrovertida, atrevi-me a contar que a praia de Avencas é famosa por curar as nossas dores ósseas. Curou o meu joelho no outro dia.

Luísa, daquela música incrível de Tom, nasceu no dia 30 de junho, como duas pessoas que eu amo muito. Uma delas já foi capaz de me curar por duas vezes. A outra eu estou à espera que me cure, ainda.

Não me contive e me ofereci para fazer reiki em seu braço. Compreendi, em harmonia com o Universo, que deveria comer algo, tomar mais café, água das pedras e fumar um cigarro antes de iniciar a sessão mediúnica de cura. Naquele instante uma epifania me acometeu, verde em folha. Eu sou psicóloga.

A dor havia começado dois meses antes, após um desentendimento com uma vizinha polonesa. Minha família veio da Polônia. A vida já pulsava em sincronicidades.

Ficamos ali, nós duas, a conversar sobre a vida. O azul do céu e a simpatia da dona Luísa já seriam milagres para mim. Mas apareceu novamente, enquanto eu falava sobre ele, João, o cego. Ele tomou um tiro na cabeça do amante de sua mulher. “A dor da gente não sai no jornal”, diria o Chico. João também é Quíron.

Nós somos nossos maiores Deuses. E há diversas formas de curar a humanidade. Eu fui capaz de encontrar a minha. Ela envolve o Fernando Pessoa, o Chico Buarque, Lisboa, o número 13 e a Poesia. As sincronicidades da minha vida são pautadas única e exclusivamente nas minhas ideias, convicções, mas, inevitavelmente, naquilo que eu amo. O que eu amo é capaz de chegar até mim e o Universo é generoso. Ele nos pode oferecer tudo o que desejamos. Basta perguntar, com carinho e respeito. Libertos do medo e da culpa.

Se cada um de nós buscar profundamente os próprios Deuses, os próprios fantasmas e as próprias curas, seremos capazes de nos libertar, como Humanidade, para um outro nível de vínculo.

Jung estava certo. Devemos passar pelo processo de individuação, experimentar as oito funções, mas nunca na dualidade luz e sombra, certo e errado, bom e mau. Essas são nossas maiores prisões.

A Poesia é a maior riqueza do homem.

Entanto, é imprescindível que cada um seja capaz de perdoar D’us por ter nascido.

E me perdoem.

Lilith

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Morada

amor

O amor me ensinou a chorar durante o sexo. O amor me distraiu e tropecei em Paris. Amanheci em Lisboa. O amor me fez perder o voo e o comboio. O amor me fez parar na sua cama, sem você estar lá.

Eu vi o amor na manhã de Alfama porque o inventei. Ele tinha sotaque da Sardenha e uma bagunça digna de Monicelli. O amor é leve como o autocarro 758, cheio de anedotas, velhos, cegos e crianças sorridentes.

O amor atravessa as encarnações, em amizades inseparáveis, em ódios mortais, em abismos intransponíveis. Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Monica e Marielle. Hamlet e Ophelia. Hilda Hilst e Nélida Piñon. Clarice Lispector e Lúcio Cardoso. Caetano Veloso e Gilberto Gil. Jung e Freud.

O amor gera filhos lindos, louros, que nos fazem amar ainda mais os nossos companheiros. O amor também acaba, como sabiamente nos profetizou Paulo Mendes Campos. E quando ele acaba sobra o vazio. Às vezes fértil. Às vezes apocalipse. Mas sempre, porque houve amor, há uma galáxia sendo gestada. Há futuro.

Ontem eu me encontrei com o amor numa dedicatória psicografada. E numa música que há anos não ouvia. E vi o amor entrelaçado nas mãos de um casal.

Tenho visto o amor em tudo: nas garagens, nas esquinas, nas ventanias, no azul. E você não está aqui para cantar comigo todas as canções. Não tenho o seu olhar cúmplice, quando apanho o autocarro. Caminho só pela avenida Liberdade. Quando disse que o meu poema favorito do Pessoa era aquele, não havia ninguém para me imitar.

Talvez seja a grande lição da sua ausência: descobrir onde há amor dentro de mim, endereçado exclusivamente a mim mesma.

 

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Viver é Fictício em Lisboa

MariTris.jpg

 

Ontem a Marielle faria 39 anos. O meu lançamento, em São Paulo, foi um dia depois de sua morte. Hoje, estreio meu filho, em Lisboa, junto ao meu irmão de alma, Flavio Tris, e celebro o nascimento de Marielle. Coincidência? Eu nunca acreditei nesta palavra.

Sincronicidade.

Quando voltava para casa, nesta tarde, à espera do autocarro, tive imenso desejo de tomar café. Decidi cruzar a rua. A moça que me atendeu disse, em presságio:

– Vais sentar para beber o café e o autocarro vai chegar!

Não me importei. A descoberta do aniversário de Marielle me alumbrou em uma esperança muito mais doce que os dezanove minutos que me atrasariam, naquele instante. E a vida é feita dessas pequenas clarividências silenciosas.

Ao terminar o café, voltei à paragem do autocarro. Lá estava um senhor cego que precisaria de alguém para o orientar. Perguntei se ele esperava pelo 735, como eu. Ele assentiu. Explicou-me, ainda, que todos têm o prefixo 7 por conta das colinas da cidade. Entramos no autocarro e indaguei qual era a sua paragem. Ele me respondeu que desceria já na próxima. Uma velhota, atenta, depois que ele saiu, veio me esclarecer, à surdina:

– Ele não gosta de ser ajudado por ninguém.

Ri-me, sozinha. Lisboa é mesmo uma cidade mágica. Um cego que odeia ser ajudado! Que maravilhoso! Depois disso, no mesmo ônibus, vi dois idosos que se recusaram sentar no lugar reservado a pessoas de idade. Cada um deu desculpas distintas. Mas, cá, nos meus olhos de escritora, estava nítido: ninguém quer que a idade seja estampada na cara.

Por não estarmos distraídos, como diria Clarice, percebemos as conexões cósmicas que nos cercam.

Nós, os loucos, os psicóticos, os bêbados, os desencontrados, os excluídos, os gays, as travestis, as mulheres, as putas, os corruptíveis, os sensíveis, os destroçados, os carinhosos, os inconformados, os insones, os desempregados, os estrábicos, os desapontados, os sofredores, as crianças, os mendigos, os cegos, os surdos, os introvertidos, os torturados, os aleijados, as minorias, os angustiados, os depressivos, as ralés de todas as origens somos aqueles que estamos ligados à uma sintonia maior. Porque buscamos o sagrado, o tempo todo.

“Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha”, disse Bernardo Soares.

Mas nós, os lúcidos, aprendemos, ao longo dessa árdua luta contra o ego, em busca de nós mesmos, que os papéis, inúmeras vezes, estão invertidos. O casamento é falso. O traficante é bom. O rico é devasso. O padre é pedófilo. Não se deve cobrar pela generosidade.

Tamanhas obviedades parecem-me tão claras, agora. Mas nem sempre aconteceu assim. Foi-me preciso alcançar o último degrau de minha solidão para chegar até aqui. Comigo e com os comigos de mim.

Nessa trajetória, entre Lisboa, Zurique, São Paulo, Aeroporto da Portela e, finalmente Lisboa, descobri que a Poesia foi (e é) a maior prisão da minha vida. E dela jamais me libertarei. Embora não tenha vivido a beleza triunfal nestes tempos de trevas, alcancei a poética da solidão. Pude libertar, enfim, as minhas palavras, e todas as correntes que carreguei, ancestrais.

Obrigada, queridos amigos, por testemunharem, enfim, a minha verdadeira estreia.

Às minhas Babuskas.

Às Deusas.

À Lilith

À Empatia.

Ao Perdão.

Ao Miguel Angelo Perosa, meu terapeuta.

Ao Santo António, Cristo e Santo Estêvão.

Ao Fernando Pessoa.

À Lisboa.

Ao meu pai, aos meus irmãos. À minha família. À minha mamã.

À sincronicidade, maior do que o destino.

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A confecção de um mapa mental amado

As práticas mais refinadas de coaching, nos últimos tempos, possuem a Neurociência como principal fonte de saber. Assim, a compreensão do funcionamento cerebral nos auxilia a obter resultados incríveis com os coachees, e um maior nível de satisfação de ambas as partes. O conhecimento científico é, sem sombra de dúvidas, o maior aliado para as técnicas visionárias de desenvolvimento humano.

Nossa metodologia, pautada nos estudos de David Rock, ensina-nos que é preciso estabelecer três principais objetivos para o processo de coaching. Estes objetivos são extraídos em um processo que se assemelha à lapidação de uma pedra preciosa, e é dividido em quatro etapas distintas:

  1. Extração – áreas da vida relevantes ao coachee;
  2. Refinamento – redução dessas áreas para três;
  3. Lapidação – criação de métricas específicas para cada uma das áreas eleitas;
  4. Polimento – transformar cada objetivo em algo inspirador, sucinto e motivador para o coachee.

É fundamental que o coachee, no início do processo, esteja totalmente aberto à uma sessão de brainstorming, na qual não se deve questionar tudo aquilo que venha à sua mente. Quanto mais aberto ele estiver, mais chances ele tem de trazer à tona os seus principais desafios e desejos de mudança.

Depois de listadas todas as áreas relevantes de sua vida, é necessário reduzi-las, posto que um processo de coaching tem um tempo de duração (normalmente de três meses ou 12 sessões) e também para garantir que os objetivos sejam alcançados. Quando o cérebro se dispersa, fica muito mais difícil de atingir aquilo que foi inicialmente proposto.

Contudo, é extremamente importante que os coaches tenham em mente algumas descobertas da Neurociência, que associam o cérebro ao coração. Quando o coração está completamente conectado aos objetivos, é muito mais fácil de alcançá-los. Ou seja, um objetivo que seja verdadeiramente “amado” pelo coachee, possui muito mais chances de ser efetivo, como mudança em sua vida.

Os estudos recentes que comprovam a ligação entre coração e cérebro

Um dos estudos prestigiados que transformam essa conexão em ciência foi feito na Inglaterra, por Marcus Gray, da University College de Londres, e publicado na edição da revista da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a “PNAS”.

Os pesquisadores estudaram pacientes com problemas cardíacos, durante tarefas experimentais levemente estressantes. No geral, as pessoas respondem com o aumento da frequência cardíaca, mas não foram esses os resultados obtidos pela equipe:

“Observamos uma forte associação entre o desempenho cardíaco e a actividade cerebral, o que sugere que algumas regiões do cérebro ouvem atentamente à performance do coração”, conclui.

Os estudos confirmaram que havia grandes alterações no córtex pré-frontal dos pacientes, região relativa à consciência. Em suas próprias palavras:

“Nós encontramos evidências de que a atividade cerebral nas regiões temporal esquerda e lateral pré-frontal está fortemente associada ao desempenho do coração”, diz Gray.

“A nossa pesquisa sugere que regiões evolutivamente mais novas, ou avançadas, também acompanham as batidas do coração.”

Gray aposta que o coração pode, assim, induzir o cérebro a raciocinar diferente, quando está em contato com emoções positivas.

Outro estudo realizado pelo Dr. Rollin McCraty, pelo Instituto HeartMath, uma entidade sem fins lucrativos, afirma que “há um cérebro no coração, metaforicamente falando. O coração contém neurônios e gânglios que têm a mesma função que as do cérebro, tais como a memória. É um fato anatômico.”

O médico acrescenta, ainda, que as pessoas não sabem, mas o coração envia mais informações ao cérebro do que o cérebro ao coração.

Segundo a Escola de Medicina de Harvard as conversas ‘químicas’ entre o coração e o cérebro afetam ambos os órgãos. O estresse, a depressão ou mesmo uma perspectiva positiva perante a vida influenciam os batimentos cardíacos. Se há harmonia entre o vivido e o sentido, há coerência nas batidas. Se há um desequilíbrio, o coração começa a ritmar fora de sincronia, desencadeando doenças.

McCraty explica, assim, que as batidas do coração funcionam como um código Morse para o cérebro. O estado emocional de cada situação influenciará como a consciência irá agir.

Os estudos do instituto ainda revelam dados surpreendentes:

– O campo elétrico do coração é 40 a 60 vezes superior ao campo elétrico gerado pelo cérebro. Registros já mostram também que o seu campo magnético é de 4.000 a 5.000 vezes mais potente que o do cérebro, e podem ser medidos até 3 metros.

– Os batimentos cardíacos são gerados a partir do interior do próprio coração, não precisando de uma ligação com o cérebro para continuar a bater. Os cientistas ainda não sabem exatamente o que o faz o coração de um feto começar a pulsar.

– Dentro do coração existe um pequeno cérebro, um sistema nervoso independente, com aproximadamente 40.000 neurônios, o cérebro do coração. Este complexo neuronal é gerador de uma inteligência própria, diferenciada e altamente intuitiva, que processa informações e envia sinais para o cérebro, em seu sistema límbico e neocórtex, esta a parte do cérebro responsável pelo raciocínio e pensamento.

A performance individual, portanto, é diretamente afetada pelas condições emocionais da pessoa. Os batimentos sincronizados levam à maior intuição e inteligência.

Embora sejamos ensinados que o cérebro é o nosso principal maestro, é o coração o principal gerador de campos eletromagnéticos no corpo, e o primeiro órgão a ser formado, quando somos apenas embrionários. Mais da metade do coração é composto de neurônios da mesma natureza do que o cérebro, segundo o Dr. Joseph Chilton Pearce, em seu livro “A Biologia da Transcendência”.

O coração seria, pois, o primeiro lugar onde as informações são processadas. Em outra pesquisa liderada pelo Dr. McCraty, denominada “Eletrofisiologia da Intuição”, os cientistas descobriram que o corpo responderia a eventos futuros, prevendo-os, se o evento futuro estivesse emocionalmente conectado à história da pessoa em questão. Os sujeitos da pesquisa eram expostos a imagens perturbadoras ou belas, escolhidas de forma aleatória pelo computador. Os impulsos cerebrais e cardíacos eram monitorados, para checar as reações. Os resultados foram impressionantes: o coração respondeu antes do que o cérebro. E seu código se modificava, de acordo com o sentido emocional atribuído. Ou seja, literalmente o coração enviou mensagens distintas ao cérebro que, por sua vez, alterava as respostas corporais, a cada imagem.

Atualmente, em nossos processos de coaching, atrelamos as práticas aprendidas com a Neurociência aos ensinamentos de Inteligência Emocional e autoconhecimento.

É muito comum, em práticas de coaching, que o coachee se engaje com muito mais facilidade a insights que tragam memórias prazerosas. Parece que as sessões acontecem quase intuitivamente, sem precisar de tantas técnicas. Ao despertar o que foi importante ao coração, o cérebro se conecta com grande entusiasmo.

Assim, não só é possível monitorar os novos mapas mentais, construídos pelo coachee através de insights, tarefas e comprometimento. Seus objetivos precisam estar ligados às experiências afetivas, que façam o coração pulsar em harmonia com o cérebro.

Referências bibliográficas:

http://muitoalem2013.blogspot.pt/2015/09/luzes-do-mundo-joseph-chilton-pearce.html

http://www.universidadedocoracao.com.br/index.php/rss-da-univerdade-do-coracao/item/211-o-coracao-o-nosso-segundo-cerebro

https://www.youtube.com/watch?v=PEHRtwNZ45Q

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DANUIH

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“Sou homem; duro pouco e é enorme a noite. Mas, olho para cima: as estrelas escrevem. Sem entender compreendo: também sou escritura… E neste mesmo instante, alguém me soletra.” Octavio Paz

Quando finalmente o vi, na claridade inaudita do Sol, que invade indubitavelmente meu quarto, às três da tarde, tornei-me oferenda da sua presença. Eu respirava, ansiosa, e todo meu corpo se expandia para dentro dos lençóis, recém trocados pela faxina. Tímidas mãos brancas velavam meu espectro, trêmulo. Ouvia, ao fundo, a voz irritante da meditação guiada.

A ternura dessa sumidade ignorara meus pavores, todos. A cada inspirar, aprofundava-se, inconsolável, em carinhos. E eu, possessiva, absorvia os ares eriçados do outono, para comungar a incompreensão em plenitude. Pensei que estivesse, enfim, morta de quem havia sido, antes.

O sentimento, contudo, não me era novo. Já lá havia estado, algures: nos dizeres bonitos do amigo de infância, que sente saudades de um nós que nunca fomos; em goles de ar que afundaram, alma adentro, formigamentos líricos; na unicidade do ayahuasca, abstêmia de chá há quase um ano.

Outra solenidade também se fez abrigo quando chorei por todas as ressacas das avessas mundanidades. E ofendeu-me, nas lágrimas não desanuviadas, em noites de lua cheia.

E os deuses inauguraram meus vestidos rasgados pelas traças. Escreveram os sons de  flores desmesuradas, naquela página em que se grifou a existência, quando toda dor foi submetida às quimeras.

Estive, também, em contacto com a Deusa Wicca, ao devorar um pão mágico. E, enfim, ver meu desejo ser atendido, em uma semana. Também estanquei a solidão dos olhos de um pai que perdeu seu primogênito, ao invocar os Espíritos.

Eu vi, e juro por D’us, um menino jesus fugir do meu quarto na Vila Mariana. E pus as mãozinhas alinhadas em intimidade, assistindo a lacuna do ser incandescente, ao desdenhar meus olhos de criança.

Por quê?

Sem nenhuma prepotência, nesse instante, fui capaz de dar nome a tantas divindades que, em ausência de compromisso ou vaidade, vieram ter-me como lugar. As ondas, oriundas do Universo, escolheram-me como habitat, inconformadas de serem mudas.

Eu percebi o tempo preparando a sua chegada, enquanto minha caneta era incapaz de dormir. Eu, que sem os meus contrários, escorrego pelas ruas esmagadas pela morte das folhas. A brutalidade não ajuda-me a nivelar o mundo em sincronia.

Aos poucos, fui recolhendo cada um desses deuses póstumos que enfraquecem as minhas pálpebras e me deixam mais míope. “Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes”, diria Clarice, enquanto perdoava o deus dela. Eu, contudo, aprendi a obedecer aos milagres.

Ps: dedico essa viagem astral hermética ao Rodolfo Wrolli.

 

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“Quero ir buscar quem fui onde ficou”*

“Definitivamente, o coração não é o lugar adequado para o ódio. Qual é o seu lugar? Não sei. Esta é uma das incógnitas do Universo. Até parece que os Deuses gostam da confusão, pois ao não terem criado um lugar específico para lá porem o ódio, provocaram o caos eterno. O ódio procura forçosamente um lugar, introduzindo-se onde não deve, ocupando um lugar que não lhe pertence, expulsando inevitavelmente o amor.” 

Laura Esquivel in A Lei do Amor.

O fumo das castanhas assadas pinta as esquinas da minha rua. Pela varanda, os azuis são imensos, céu escrito em poesia. Os telhados, encarnados, ficam mais belos, no outono. Uma chuva, finíssima, cala os passos dos visitantes. Lisboa poderia ser perfeita, hoje.

No entanto, a perfeição é incapaz de tergiversar a xenofobia e o racismo. Sussurrada nas escadinhas de São Cristóvão. Abafada pelos professores de História. Apaziguada em copos de Ginjinha. O não dito é o inimigo mais perigoso.

Outro dia, uns amigos iam ao meu encontro, no Largo do Carmo. Moravam longe e pegaram o metrô até a famosa estação que abriga a estátua do Fernando Pessoa. Eram seus últimos dias cá. Inconsoláveis de partir e ter de enfrentar um Brasil tão nefasto, tão carente de horizontes.

Eles estavam cheios de saudades de mim. E eu, obviamente, já vivia a dor antecipada da partida. Nosso encontro era urgente. E teria sido inamolgável, se não existisse uma personagem que estragasse essa narrativa. Protagonista da angústia desesperadora que carrego, hoje.

A mulher, de uns quarenta e poucos, ouviu-os a conversar, no cais, à espera do comboio. Cuspiu, subitamente, no pé da minha amiga. E proferiu os dizeres:

– Estou enojada! Volta para o seu país, brasileira vagabunda!

A sucessão de erros já estava anunciada. A violência residente na gratuidade nos é a mais avassaladora.

Foi assim que, nos dias seguintes, meus amigos discutiram com mais de vinte pessoas sobre a manifestação xenófoba. Criaram desafetos. Debulharam-se em lágrimas. Puseram as certezas em suspensão. E, por alguns instantes, agradeceram a todas as entidades cósmicas por estarem indo embora da cidade.

Há dias que minha alma tenta compreender o porquê da covardia se sobrepor ao afeto…

Será que as nossas roupas, coloridas, servem de gatilho? Ou será a indiscutível beleza da minha amiga? Algum homem a teria abandonado, por uma brasileira? Há alegria demais na forma com a qual pronunciamos as palavras?

Questionei-me, dura e lentamente: será que me sinto uma puta, quando assim me veem? Será que ela tem razão e devo voltar à minha terra? A amarga senhora terá alguma ideia da explosão de ódio que causou, com as suas mágoas entregues a outrem?

Fui pesquisar algumas alternativas, que destituam o poder inevitável dos xenófobos. Uma delas é o silenciamento. Ignorar a existência de um ser humano tão desprezível e estúpido como essa infeliz. Fingir que o coração não se estraçalha, ao ouvir tamanhas inverdades. Perguntei, enfim, ao grande estudioso que me explicou essa técnica: funciona? E ele, generoso na tradução mais fidedigna, apenas riu-se da minha pergunta. É óbvio que não.

Gostaria de desvendar, todos os dias, mecanismos de combate à xenofobia e ao racismo. Quando era pequena eu não sabia que as pessoas tinham cores. Aliás, para mim, cada pessoa era de uma cor, de um formato diferente, com olhos intransferíveis. Em que momento da infância me roubaram essa sabedoria? Onde foi que meu sotaque se transformou em símbolo de desamor?

“O dito não vai sem o dizer.” Disse, outrora, Lacan. E, talvez, venha dele a esperança. Escancarar os preconceitos para dar luz às epidermes imaculadas. Vociferar as sombras que carregamos, e darmos a elas, nomes. Reinventar as percepções primeiras, antes de cores, gêneros, rótulos. E, quiçá, como disse Pessoa, um dia: “buscar quem fui onde ficou”. 

*O título é verso deste poema:

“A criança que fui chora na estrada.

Deixei-a ali quando vim ser quem sou;

Mas hoje, vendo que o que sou é nada,

Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou

A vinda tem a regressão errada.

Já não sei de onde vim nem onde estou.

De o não saber, minha alma está parada.

 

Se ao menos atingir neste lugar

Um alto monte, de onde possa enfim

O que esqueci, olhando-o, relembrar,

 

Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar

Em mim um pouco de quando era assim.”

Fernando Pessoa

22-9-1933

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).  – 90.

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Ano que passou

a-origem-dos-fogos-de-artificio

Quis escrever sobre feminismo,

esse ano que passou.

Não consegui.

Minhas ideias talvez atinjam

a obviedade ululante.

Engatinho frente às mulheres

que admiro nesse aspecto.

Não me sinto dona

dos saberes inexoráveis.

Aceito a minha pequenez.

 

Quis argumentar

que não era racista,

ano esse que passou.

Aos prantos,

a recolher

doces epifanias de infância,

nas quais

os pretos,

os japoneses,

os filhos do porteiro

e todas as crianças do mundo,

tinham meu afeto em igualdade.

Não consegui.

Minhas memórias não bastaram

para explicar os horrores

pelos quais meus queridos

haviam passado.

Uma vez mais,

fracassei.

 

Quis buscar a quietude,

do outro lado do oceano.

Farta das noites viradas,

dos planetas sem vozes,

de sentir-me ínfima

e ingrata,

ao rejeitar a saúde que tenho,

apesar dos pesares.

 

Frustei-me.

Eu me carrego

aonde quer que me vá.

E as dores

são imunes às marés.

 

Quis também amar,

ano que passou.

Encontrei almas

de outras encarnações,

Encolhi-me diante

de instantes plenos.

Assustei-me com a humanidade

das pessoas à minha volta.

Mas não pude colocar

meu coração em dizeres.

Falhei.

Os astros me disseram

que meus portos silenciosos

vêm para a era de Júpiter.

 

Tentei emagrecer,

parar de fumar,

não ter amnésias,

voar em sonhos lúcidos,

ignorar as insônias,

comer cinco frutas por dia,

não beber mais

do que três taças de vinho,

ser menos agressiva

quando me supusesse inferior,

meditar,

rezar,

estocar comida,

dinheiro,

pulmões

para o dia a seguir.

 

Indesculpavelmente,

posso afirmar:

a Poesia

permanece,

pois,

esse ano que passou,

sendo

a

única

aliada

a atravessar

o meu futuro.

 

E eu a desejo,

em proporções

ESTRATOSFÉRICAS,

a todos os meus.

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Desencontrar-te

portas do sol

“Não estou indo em direção ao fim. Estou indo em direção às origens”. Manoel de Barros

Gosto de atravessar a rua e desdenhar a Praça do Príncipe Real, no caminho para o trabalho. A beleza deve sempre ser evitada, Lisboa. Os passos me parecem mais largos, longe dos bosques amarelecidos. As calçadas, estreitas, desaceleram os meus pensamentos, intransponíveis. A tua lentidão me exaspera.

Passaram-se três séculos e nove meses. Os dias duram demasiado, nos teus braços. As semanas se prolongam em anos e anos, sem envelhecerem meu rosto. Cruéis são estes tempos de espera.

Devo adiar o inadiável, Lisboa? Só basta um instante a navegar nos teus azuis para dizer que sim. Amanheço com o coração encharcado em quimeras, para que o Sol evapore os acontecimentos, nas seis badaladas do porvir.

Um único telefonema é capaz de calar meu pessimismo. Rodopiamos pela madrugada insone. E digo-te: sim, gosto imenso de ti. Sim, cá ficarei. Mas a manhã é irrecuperável, novamente. E tu me dilaceras as certezas com a mesma calma com que me embriagas em promessas.

No domingo fiquei à procura de tempestades. A chuva, no entanto, era fugidia. Só choveu dentro da minha casa porque teimo em abrir as janelas.

Será que todo amor atinge a plenitude no desencontro?

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Pierrot

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“Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor de água) e sorri com o mesmo beatifico sorriso de seu bisneto recém nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero.”

– Eduardo Galeano em O livro dos abraços.

 

Uma caixinha de música, às vezes, dá corda a mim.

A poesia gorda me envaidece com seus versos, perfeitos.

Eles vêm, sonhos oraculares,

em cores de Van Gogh e voz do Salvador.

 

É difícil dar-lhes nomes,

ou decidir o primogênito.

 

Gostava de morar na beleza primeira que tem as letras,

antes da oração.

 

Uma boneca antiga visita-me a infância.

Faz do passado uma colheita de outono.

 

Uma caixinha de música,

às vezes,

dá cordas em mim.

 

Manipula meus títeres anteriores.

E vai-se embora como a nuvem derradeira

que insiste em acariciar o Tejo.

 

Uma caixinha

de música,

às vezes,

desperta o pierrot aprisionado no brinquedo.

 

Dilacera as dores cicatrizadas.

Dá risada dos projetos juvenis.

 

No dia em que a caixinha de música for abreviada pela obviedade,

talvez seja feliz.

 

A memória,

Poética,

é sempre lapso

dos possíveis futuros.

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432 Hz

 

“Hoje preciso comprar a melatonina, com urgência”. Ela, que ainda não havia dormido, levantou-se para praticar a meditação de todas as manhãs. Água a ferver, banho, café no coador. O jornal só depois de sentir a inclemência das gotas quentes a abrir os poros, exaustos de insônia.

 

“Pelo menos hoje é sexta-feira”. Este foi o seu único pensamento feliz, naquele alvorecer inóspito. Não havia desvãos para a sua incompletude, às seis e meia. Quaisquer afagos provenientes de exercícios de autoajuda seriam condenados pela sua condição, trêmula. Ah, a falta que existe em despertar sem ter adormecido. Somos seres tolhidos em quimeras, fatalmente.

 

Hoje seria o dia daquela reunião, ridícula, típica de meio de ano. O chefe apresentaria os goals corporativos. As pessoas fingiriam obedecer, num bizarro espetáculo lacaniano de não ditos. Uns já combinariam, a priori, a cerveja vagabunda e gelada das sete. Outros se refugiariam no pôr-d0-sol ostentado pelas igrejas. Colegas passariam quase três horas e meia no vagão lotado até os fins de mundo particulares. Ela só pensava na farmácia, crepuscular.

 

Quando a noite finalmente chegou, pode parar de fingir que ainda trabalhava. Era muito feio sair do escritório antes das oito, em seu cargo de liderança. Por mais que tivesse concluído a enorme lista de tarefas às quatro, ela compreendia o jogo robotizado: a permanência como estilo, conceito, lição. “Eu já sou quase profissional na paciência”, ironizou, exercendo, uma vez mais, suas patéticas meditações positivas.

 

Saiu, melancólica, a pé. Fazia dez graus àquela altura. “Como amo esse tempo!” Podia ir à casa sem derramar uma gota de suor. O inverno, prematuro, era um milagre para o seu humor.

 

O comércio, no entanto, não reagia com a mesma gratidão à temperatura. Tudo estava fechado. Até a farmácia. Ela precisava dormir, de qualquer forma. “Vou à loja de vinhos, que está aberta até às nove. Devem ser os únicos, como eu, que deleitam-se com o frio inesperado de abril”.

 

Era uma grande cliente deste sítio. Os vendedores a cumprimentavam, saciados. A sede da mulher era sempre de tempestades. Jamais compraria uma única garrafa.

 

O dono da loja a acompanhou nas escolhas. Era grisalho e alto. Talvez tenha sido bonito na juventude. Sua pele era rosada, típica de enólogos. Evidenciava que a dor possa ser convertida em álcool.

 

“Este vinho é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O! Eu mesmo o trouxe da vinícola. Como a senhora é habitué, vou fazer um preço especial. E já separo seu queijo da Serra da Estrela, os cogumelos desidratados, um quilo e meio de azeitonas chilenas. Há algo que nos vai surpreender, hoje, querida?”

 

“Não suporto ser chamada de querida”, interrompeu a longa e forçada contemplação que a acompanhara o dia todo. Além disso, ela se sentiu estúpida de ser tão previsível, para seres humanos que mal a conheciam. “Vou levar também esse chocolate do mar, belga, querido”.

 

A devassidão daquele olé no grisalho, austero, dono da loja a conectou com a sintonia profunda ao Universo. Quase como navegar pelas poderosas ondas 432 Hz, sem precisar de música. O quão bom era ser superior àquela criatura? “Eu me amo e sou correspondida, otário. Namastê”.

 

Precisaria realmente celebrar a evolução de consciência que finalmente se instalara, em sua reprogramação emocional. Todos aqueles meses de Yôga e mentalizações estavam surtindo efeito.  “Já que não tenho a melatonina, tomo duas garrafas desse vinho e durmo doze horas seguidas. Quebro meu ritual de sábado para atender às necessidades do corpo. A alma pode, enfim, esperar”.

 

Ao chegar em casa, a mulher guardou as óbvias compras na geladeira. Lavou o decanter, há meses largado no armário maciço de madeira. O cheiro do abandono impregnava no cristal, adormecido desde a sua separação. “Tempo de ressignificar estes séculos de espera”.

 

Após o jantar – uma sopa detox composta de agrião, linhaça, espinafres, quilos de gengibre, cenoura e inhame – ela pousou o queijo, divino, à table. Escolheu seu melhor cálice para abrir os buquês daquele elixir da Natureza. O vinho era a última bebida que fazia parte de sua rigorosa dieta ortomolecular.

 

Antes de trazer à boca o primeiro gole, girou a taça, em círculos perfeitos, para emancipar todos os aromas. Apreciou, com calma, cada um deles: morango, gerânio, um toque de pimenta. Ah, como era bom saber-se conhecedora de vinhos!

 

Em contato com as papilas gustativas, algo se passou, de repente. Um gosto de infância a acometeu. Árvores, exauridas em jabuticaba, no quintal da casa da avó. Risadas dos primos ao redor do galinheiro. Os olhos gentis do caseiro à espera que ela encontrasse os bilhetes deixados pelas fadas, entre as folhas de bananeira.

 

Pôs Chet Baker na vitrola para afugentar o recôndito gosto que se aflorava, ali, depois de quarenta anos. Tomou dois copos de água com gás. Engoliu as memórias, banquete inesperado do cérebro.

 

O segundo cálice veio andrajo, vacilante. Sabia a mar e a meteoros, em noite de réveillon. Conjectura lívida, desprovida de anseios. Manteiga na pipoca, circo, mágicos conduzindo voos. Uma dor inescrupulosa desferiu-lhe os seios. A saudade se ofertava, menina.

 

Trocou o disco. Repetiu os mantras que apaziguavam as culpas. Meditou sobre o terceiro olho, onde reinava a intuição. Lembrou-se, em chakras e lágrimas gordas, que seu cachorro havia morrido. Um mês antes de estar sozinha, novamente.

 

Aquela garrafa de rótulo sóbrio, cores acinzentadas, proveniente de terras tão distantes, despertava cada uma de suas súplicas, naufragadas. Três casamentos, dois abortos, o avô vegetando na U.T.I. Era, sem dúvida, o melhor vinho que havia bebido em toda a sua existência.

A cada gole, uma tortura. Uma gota por imagem. Milímetro a milímetro, nostalgia iminente. A rolha, de cortiça, não era um aglomerado de outras rolhas. Única. Que rolha! Que rolha perfeita.

 

Antes de deitar a rolha natural no estranho compartimento, destinado ao passado dos porres, reviu a cena: sofá intacto, queijo pela metade, gogi berrys atrapalhando o caos. Pão orgânico, intocado, à mesa. “Talvez seja este o cerne da loucura”, refletiu, inebriada. Desacontecer. “Um vinho sem testemunhas”.

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Sol Velho Lua Nova

Eu havia acabado de chegar ao Mezinhas de Alfama, bar de um querido, à espera do encontro que poderia render umas boas conexões em Lisboa. Gente do bem, projecto lindo, lua de gato de Alice.

Recebi, inesperada, a mensagem dele, meu amigo, Flavio Tris, sobre o lançamento do seu disco, uma semana depois daquela quinta-feira, minguante. Ganhava o maior presente de aniversário adiantado, naquelas janelas pululantes de facebook. Entre um gole de vinho e um suspiro para a madrugada, a engatinhar.

“Não se preocupe, meu bem!” “Aproveite a sua noite. O disco é pra ser ouvido de fone, com calma.”

Respeitei os dizeres, sábios, humildes, desencontrados das falsas iluminações egóicas. Ao amanhecer, quando voltei para casa, pés descalços e alma imaculada pelo nascer do novo dia, finalmente ouvi Sol Velho Lua Nova.

Lembrei-me de que a arte nos é selvagem. Perto do coração, tudo nos deixa primitivos.

Em meados de dezembro, prematuro disco, assisti ao show que anunciava a mudança: sereno será. Ele convida-nos a degustar tempestades posteriores, alheias às harmonias de suas nove redondas cancões.

És Bob Dylan. E eu nem gosto de inglês. És xamã, em noite de mirações. Cantas as manhãs ancestrais à nossa redenção cósmica. Faz-nos mergulhar nos azuis uterinos que abençoam os sonhos mais pueris.

Chamei os orixás, os dilúvios, os litorais. Oiço o teu canto, além-mar. Que sejam mais quinze mil eras para descrever as nuanças da tua Terra. E oitocentas mil galáxias para cobrir a tua voz, única.

Incendeias os amores que me virão, banda sonora obrigatória. Cá estou, exausta, inebriada por luzes e horizontes.

Hoje, Flavio, eu não quero esquecer de mim. Cantas pelas janelas que desnudam o Tejo, ao pôr-do-sol. Tua música se confunde com o céu de Van Gogh. Meu escrever almeja ser rupestre.

Não sei quantas estrelas se apagaram. Mas encontraste os caminhos que nos trazem à essência. O som primeiro ignora todas as metáforas. Pulsa, pertence, atrás da palavra. Antes de alvorecer os insones futuros, tu os previste.

Alcancei, ao ouvir-te, a mansuetude de dentro, enfim.

O álbum está disponível na íntegra no YouTube:

 

 

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Dividir os domingos

“O que um dia vou saber, não sabendo eu já sabia” Guimarães Rosa

Quando o amor, enfim, feneceu em mim, tive a certeza de que já não me apaixonaria mais. Uma mistura de liberdade com esmorecimento, de alegria e desespero. Páginas brancas finalmente povoavam os meus sonhos, antes escritos em nanquim e escarlate. Aquela cama que jamais seria bagunçada de novo. Os olhares, negros em maquiagem, que deitariam molhados no travesseiro, gélido.

Eu já me prometi que o amor seria a última das bobagens a me chatear, nessa incansável solidão.

Contudo, ao ser convidada para revisar esse livro, confesso que me senti ofendida pela vida. Por que seria eu a pessoa a corrigir seus erros, se o maior deles era escrever sobre o amor? Eu nunca soube escrever sobre o amor, Bruno. Eu estarreço de cólera em ser piegas, óbvia, redundante. Nunca acreditei que o viver deva ser sentenciado pela palavra.

Entre delírios de Clarice, sussurros de Paulo Mendes Campos e estalos dos meus próprios dizeres, aceitei esse trabalho. Afinal, esse amor durou só uma estação! Como poderá atar-me a todos os meus invernos?

Você brinca com os olhos que se fecham para descer aos sorrisos da amada. Como se os próprios olhos fossem capazes de se encantar com as tessituras infantes. E você me alerta sobre o quão difícil é carregar uma saudade, sozinho. Ah, Bruno, será que existem saudades compartilhadas?

Fui, inebriada, entre os clichês, inevitáveis, e as paisagens, inusitadas. Com as ressalvas de proximidade ao leitor. Encontrei-me com dias cinzas que se pensavam azuis. Em cada verso, a cada vogal, a cada reticência inconformada do seu texto, eu me percebia romântica. Eu deitava fora minhas amarras infelizes. A quem posso ofertar, agora, esse silêncio que transborda, sem angustiar meu interlocutor?

Já sou capaz de ensinar plenitudes…

Quando acabei, tive sede de chuva. Será que o tempo muda de nome com o amor? Esta pergunta, que ainda me inspira, só se agiganta, ao terminar a obra. Gostar é dividir um domingo, você me explicou. Foi uma honra dividir um domingo contigo.

Link para o crowdfunding do livrohttps://www.catarse.me/brunofontes

 

 

 

 

 

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Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

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Sonhatório

 

O carnaval nunca foi teu feriado preferido. Sempre me disseste que teu mundo acontecia doze dias antes dele, ou apenas quando ele se ia embora e o ano finalmente começava no Brasil. Acho que odeias o carnaval porque odeias o meu pai. E ele é fruto de uma noite mascarada em teu verão.

Meu pai nunca foi um homem comum. Éramos como estranhos que se comunicavam por sonhos. Havia qualquer cousa que nos afastava. Eu percebo a estranheza da ausência, a vertigem de ver a si, em olhos de outrem. Mas as nossas demoras derivavam de outros escândalos.

Houve, pois, um dia em que descobrimos nossa afinidade. Morávamos, na altura, aquela casa, em Alfama. Um rés-de-chão duplex. Tu sempre gozavas, mamã, da nossa verticalidade para baixo. No entanto, foi lá que tivemos a inventar o sonhatório. E a colecionar todos os sonhos do mundo.

Era segunda-feira, como qualquer outra poderia ter sido. Mas Papá havia sido demitido do trabalho, em Lisboa. Não imaginava que aquilo precederia nossa viagem ao Brasil e à vossa brutal separação. É engraçado como um dia tão feliz possa antever a tragédia. E que nunca estamos imunes à tristeza, nem abençoados pelo céu de churrasco da minha terra.

Papá chegou, olhos marejados, distantes, como se visse o Tejo para sempre. O azul desferia uma beleza improvável. Os olhos de Papá estavam ainda mais azuis, por causa das lágrimas. Eu, com as minhas mãozinhas pequenas, afastei a dor dele. “A cada milágrimas sai um milagre”, cantei.

Declamar com os olhos é algo que a genética me trouxe. Como é vulnerável estar com os olhos a recitar as vísceras! E papá se encheu de oxigênio para impedir que lêssemos as mesmas poesias melancólicas.

O sonhatório foi o nome que ele deu, para nosso jardim. Ensinou-me que era um sótão às avessas, pois não havia janela para ofuscar o horizonte; assim como deveriam ser os sonhos. Descortinados. Infindos. Vingativos.

Pois. Para o meu ídolo, sonhos são vinganças pacíficas que travamos com a vida. Quando a vida se põe a nos fazer chorar, há-se de sonhar. E sonhar estratosferas, universos, galáxias. Vingar-nos de nossa condição.

Perdi meu sonhatório quando o Carnaval de vocês acabou. E jamais consegui me vingar novamente da vida. Então, aceitei a Poesia como segunda vingança. Só a Poesia é senhora do mudar, a partir deste dia, Mamã.

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Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

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O mito de Faetonte à luz da contemporaneidade: uma breve análise dos jovens líderes

“O mito nos oferece, sempre aludida, a plenitude e o sentido, de modo que toda atividade humana, até os menores gestos, aparecem carregados de significação e ligados a algo enormemente importante que se apresenta atrás de cada realidade.” Paul Ricœur

O mito é uma linguagem que organiza a vida, embora muitas vezes não saibamos o significado de suas origens. Identificamo-nos com eles de forma quase intuitiva, desprovida de racionalizações. Por isso, o mito é uma imagem esclarecedora, irrenunciável do autodesenvolvimento.

Neste artigo, pretende-se vincular o mito de Faetonte à era da liderança prematura, clarificando o poder das imagens mitológicas ao entendimento dos cenários atuais.

Faetonte era filho do deus Hélio com a ninfa Climene. Ao nascer, o Deus Sol prometeu à mãe da criança que jamais negaria a realização de um desejo ao filho. Na adolescência, depois de exaustivos questionamentos do jovem, foi revelada essa parte importantíssima de sua narrativa. Quando descobre a identificação paterna, Faetonte resolve ir conhecê-lo, para provar a sua ascendência divina.

Ao chegar no suntuoso palácio, onde jamais existia a escuridão, Faetonte se pôs a imaginar como seria dirigir a carruagem de seu pai, composta por imponentes corcéis, que levava a luz, os dias e as noites a todas as regiões do planeta. A fascinação de estar à frente daquele veículo o consome por inteiro. Ele, então, pede ao pai que o permita pilotar, apenas por uma vez.

Hélio não pode negar o desejo do filho, pela promessa feita à sua mãe. Todavia, ele alerta o jovem dos perigos da vertiginosa trajetória, explicitando suas próprias dificuldades e medos. Hélio, preocupado, diz que ele não terá maturidade para dirigi-lo. O jovem insiste. Nenhum conselho o impediria de navegar pelo céu magnífico que se abria no horizonte.

A tragédia estava anunciada. Ao subir na carruagem, os cavalos já pressentiam a diferença de peso do seu condutor. Poucos foram os momentos de glória, para Faetonte. Alguns instantes de completo êxtase, ínfimos, perto do desastre. Ele perdia, a cada segundo, o controle sobre os poderosos corcéis, desequilibrando-se nas alturas. Cada lugar pelo qual passava sofria as consequências de seu voo irresponsável.

Após quase destruir toda a uniformidade da Terra, Zeus é impelido a matá-lo, com um de seus desconcertantes raios. Seu corpo foi, como um meteoro, até o fundo do rio Erídano. Lá, diz o mito, suas irmãs erigiram um túmulo, em homenagem à sua ousadia juvenil.

Quais ensinamentos este mito pode nos trazer, no contexto do século XXI? Como podemos nos apropriar dessa história, na busca pelo autoconhecimento? Onde vemos Faetontes e Hélios, transformados em pessoas de carne e osso?

Uma consideração fundamental acerca desse mito diz respeito à figura paterna que percebemos atualmente. O pai – culpado pelo excesso de trabalho e pelo contato reduzido com seus filhos – escolhe não impor limites como parte da educação. O medo ao desamor de seus descendentes o torna escravo de caprichos desajuizados. Deixá-los passar por experiências para as quais não estão preparados.

A impossibilidade do não é terrível na construção psicológica de uma criança. O sentimento de onipotência será cruelmente aniquilado no futuro, caso não seja estipulado desde a tenra infância. Conhecer a insuficiência e deparar-se com os próprios defeitos é imprescindível para degustar alguma sabedoria, ao longo da vida.

Não houve, para os jovens líderes, uma educação que reivindicasse o limite como aprendizagem. Os pais, apavorados com o fantasma do desamor, delegaram às escolas a transmissão de valores e a construção da cidadania. Mas, ao livrarem-se da culpa, esqueceram-se de que o papel do ensino formal não supriria a orientação parental, no que concerne à vivência da restrição.

O medo de não ser amado pelos filhos, traz-nos, agora, um nítido retrato da geração que chega à liderança nas organizações. Estes jovens não se defrontaram com as sábias frustrações limitadoras. Na ausência do limite o jovem se sente capaz de conduzir o carro do Sol, produzindo catástrofes inimagináveis.

As empresas, portanto, tornaram-se o lugar onde os jovens recebem, pela primeira vez, a percepção de impossibilidades. São obrigados a se deparar, subitamente, com a própria falibilidade. Isto tem sido um dos maiores desafios para as organizações. Como é possível ensinar tardiamente a necessidade de impotência? Como a carreira desses jovens será traçada, em suas expectativas insustentáveis de grandeza?

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Imobiliária poética

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À procura de inquilinos afetivos

 

Eu herdei esse apartamento quando minha tia avó, a tia Helena, faleceu, no natal de 2002. Ela era enfermeira do Hospital das Clínicas e a melhor pessoa do Mundo. Morreu com 88 anos, sem filhos. Eu era a grande paixão da vida dela.

Lembro-me bem de como ela era capaz de pentear os meus cabelos como ninguém mais conseguia. Uma leveza nas mãos que até os anjos invejavam. Guardava, no dia do seu aniversário, em cima da cama, todos os presentes e todos os bilhetes, incluindo os telegramas do banco, com igual carinho e bondade.

 

XL

 

Solidão é agradecer

Aos parabéns

Do Bradesco.

                        Fernando Portela in Poemínimos

 

Na casa da tia Helena morava também a Arlete, uma empregada completamente maluca, que tinha uma linguagem própria e um coração muito maior que os seus olhos arregalados. Eu tinha um pouco de medo, mas todo meu medo sempre se misturava com o cheiro de mofo perfumado; com as duvidosas cores dos carpetes; com os sons insuportáveis do Chacrinha, das tevês sempre ligadas; com as balinhas vencidas e com o azul que desferia da íris, dos óculos enormes da tia Helena.

Às vezes, confesso, ficava com preguiça de ir visitá-la. Mas porque a tevê estava ligada, a Arlete falava dialetos, a bala grudada ao papel. A tia Helena era a única, naquela casa, que me inundava de ternura. Generosidade irritante. E sempre eu ia, com a canalhice felina – escova em punhos – a ofertar-lhe meus fios.

Nos almoços, na casa dos meus pais, minha mãe fazia questão de comprar aqueles vinhos alemães, doces, vagabundos, garrafas azuis. E embriagava a tia Helena. Ela, no auge da sua doçura, em janeiro, proferia: “Daqui a pouco já é natal! ” Como era sábia, meu Deus! Outras vezes, completamente ébria, colocava o cálice dentro do potinho de sorvete. E todos nós ríamos e, por alguns segundos, sentia-me família.

Minha avó, sempre exibida, sempre mais gordinha, sempre imponente, jamais deixava que a tia Helena pudesse ser protagonista de nada. Mas cá, dentro das minhas memórias afetivas, nas vísceras mais trôpegas dessas estúpidas ancestralidades, é ela quem me faz mais falta.

Quando fui morar no ap. da tia Helena, em 2011, várias epifanias me abrigaram também. Era minha primeira morada em São Paulo, como adulta. Aquela região perfeita, que tem a padoca na esquina, o boteco, o japa, as infindas lojas de música. Cozinha psicodélica, com suas laranjas e espirais. Aos sábados, de ressaca, eu acordava com jazz – que o sebo oferece. Se eu extrapolava nas festinhas, em casa, a janela, imensa, batia forte, e eu sabia que era a tia Helena me dando uma bronca doce, com piedade da minha loucura.

Ao me mudar de lá, em 2014, com sonhos de mangueira, cachorro e promessas de que o amor iria durar para sempre, meu coração sangrou um pouquinho.

Afinal, vivemos no apartamento da tia Helena toda a emancipação da Poesia. Os afters dos saraus, os jantares que viravam manhãs, os amanheceres que davam nomes a personagens. Ultimatos, Caubys Peixotos, amnésias poéticas. Eu fui imensamente feliz naquele ninho.

E a tia Helena, nas profundezas da sua solidão, inúmeras vezes, convidava-me a entrar em contato com os meus personagens, com a minha literatura, com a minha poesia. Ela dormia cedo e roncava altíssimo. E eu, já insone, habitava os devaneios mais puros de intimidade: solidões de cabana, à revelia de quaisquer subterfúgios.

 

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Confissões e canções de uma antiga suicida

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“nos demais – eu sei,

qualquer um o sabe –

o coração tem domicílio

no peito.

comigo

a anatomia ficou louca.

sou todo coração –

em todas as partes palpita.”

Vladimir Maiakóvski

Eu havia escolhido. Parece que os olhos ficam mais atentos, depois que o coração invoca as estradas. A miopia desaparece. Os instantes se agigantam, ávidos de finitude.

A dor ficava constantemente anestesiada pelos remédios. Afinal, depois de dois muros, três psiquiatras, uma irmã, uma amiga e um quase-pseudo-namorado, qual sofrimento seria vencido pela medicina?

Os amigos? Uns poucos tentaram. As pessoas têm ojeriza à dor. As pessoas também têm ojeriza à alegria. As pessoas não aceitam os excessos, não importa a natureza. Quaisquer transbordamentos, quaisquer dilúvios, quaisquer tempestades remetem aos humanos que a Natureza nos é maior.

Nenhum poeta mendiga por acolhimento, seus idiotas! Dai-me um papelão molhado, na Praça do Comércio. Uma cama no Jaguaré. Um quarto, abandonado, no feudo. Uma esplanada, de frente para a igreja de Santo Estevão. Ah, como dói quando a alma vai viajar e não se sabe o nome do sítio.

 

96 days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffe and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much theses days

 

I’ve got no reason to feel so blue

Woke up this morning with coffee and sugar

It’s 96 days since I’ve thought of you

I’ve just got this coffee and I feel a little rough

I’ve been smoking too much these days

 

I have been eating well

You would be pleased to know

Windows are clean

do there’s no much to see

 

So I go down to the street

where the cars are like riverboats

Inching along

Cause I light up again

I’ll light up another one

this one is for you and your memory

I guest that you’ve quit it

but left me to have it

I’ve been smoke too much these days

                                                [Hugh Coltman]

E eu, Pedro, nunca tive medo de ser despejada da minh’alma. Confesso, o meu verdadeiro pavor é não respeitar mais esse planeta. Desprovido de poesia, escasso em generosidade. Lá, de onde viemos, a fartura é condição.

Só que me deparo com Vinícius e a sua casa aberta. São cinco da manhã em Santo André. O céu exige de mim a tradução maior de todas as psicodelias. Sou capaz de atravessar esses azuis, Pedro? Ninguém está pronto para decifrar as alegrias.

No entanto, os roteiristas da vida são uns caras surpreendentes. Eles mudam a cabeça dos personagens, indiscriminadamente, como se as mudanças não tivessem passado por gestações infindas. A gente só arrepia no instante que precede os absurdos.

Leve, como leve pluma

Muito leve, leve pousa.

Muito leve, leve pousa.

 

Na simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma

Suave coisa nenhuma.

 

Sombra, silêncio ou espuma.

Nuvem azul

Que arrefece.

 

Simples e suave coisa

Suave coisa nenhuma.

Que em mim amadurece

                                    Ney Matogrosso

Por que será que há tanto glamour em sofrer? Por quais razões eu me identifico tanto com aquele poeta tuberculoso, pobre, derrotado? Onde mora essa bizarra união entre a arte e o fracasso?

Ou será ao contrário? Estamos ainda engatinhando na cosmicidade, ludibriando as ciências, envergonhando as estrelas?

Será que a beleza tem sempre que doer, ou somos nós, seres estéreis, incapazes, inconformados com os estrondos, insustentáveis, free jazz, da vida?

Por que eu ainda tenho medo do escuro, já que eu quero morrer?

Por que eu ainda olho para trás, à procura de um estranho, se eu quero morrer?

“(…). És importante para ti, porque é a ti que te sentes.

És tudo para ti, porque para ti és o universo,

E o próprio universo e os outros

Satélites da tua subjectividade objectiva.

És importante para ti porque só tu és importante para ti.

E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?”

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

Ninguém nunca te vai sentir, Pedro. E pior aqueles que acham que te sentem. São muito menos generosos. Estes me doeram muito mais. Porque a tua dor vai ser sempre mais pequena, mais medíocre, menos válida.

 

“(…) All romantics meet the same fate

Someday, cynical and drunk and boring someone

In some dark cafe

You laugh, he said you think you’re immune,

Go look at eyes

They’re full of moon

You like roses and kisses and pretty men to tell you

All those pretty lies, pretty lies

When you gonna realize they’re only pretty lies

Only pretty lies, pretty lies(…)”

                                    Joni Mitchell

Em um mundo onde a derrota do pensamento impera, ser suicida é quase realeza. E, como fenomenóloga, eu luto, veementemente, pelo direito ao protagonismo. Todavia, o meu caso era de Poesia, misturado com muitas escolhas erradas: além de pessoas extremamente egoístas ao meu lado.

Contudo, eu não poderia ser igual aos suicidas óbvios. Então fui aproveitar, com classe. E, assim, quase matei meus pais. Prometi que, antes de morrer, ia te escrever, Pedro. Já que fracassei em tudo, absolutamente tudo nessa merda de planeta, eu ia inventar, eu ia me vingar, eu ia te fazer.

Meu pacto, por fim, comigo e com os comigos de mim era o seguinte: acabar a ti e me divertir. O resto que se foda. E jamais deixar de ser generosa, por mais que me desse vontade. Afinal, é a minha natureza.

Como meu derradeiro presente: fugir do natal. Odeio natal. A hipocrisia maior. Consumismo bizarro, shopping, amigo secreto. Reúne algumas das cousas que eu mais desprezo ao mesmo tempo. “Meu último natal vai ser na Bahia, não me importa com quem”.

No fundo, no fundo, bem lá no fundo, eu não queria me matar. Eu queria encontrar a minha casa. Mas as transformações são demoras que me desesperam. Eu não queria partir de mim. Assim como eu não quis partir de Lisboa. Assim como eu não quis partir dos amores que se estraçalharam, na minha memória. Eu tenho medo de não me ser boa anfitriã.

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“Pelos caminhos que ando

um dia vai ser

só não sei quando”

                        Leminski

Não sei te dizer onde foi, Pedro. Se ocorreu no banho de rio, quando a ostra quase decepou o meu dedo do pé, à luz da lua. A caminho do forró, a reclamar das distâncias, aparentemente instransponíveis. Nas risadas intermináveis, com aqueles desconhecidos tão amáveis! Nas madrugadas que fiz amigos pela vila. Nos intermináveis amanheceres que vivi.

Qualquer cousa se passou nessa passagem de ano. Lá estava eu a reverenciar o nascer do sol, no dia primeiro. A deitar fora minhas trevas. A vestir levezas que nem me cabem. A aprender que a beleza pode não mais doer.

E eu já não sei mais, Pedro. Tu não eras para ter uma mãe que passasse por isto. Eu vou ter que reaprender a ser mãe para te escrever também. A felicidade não estava calculada no nosso romance, meu querido.

Canção bõnus:

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Bebem-se Rios

santoandre

“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”. Bernardo Soares/Fernando Pessoa – O Livro do Desassossego

Era uma da manhã e eu me encontrava, só, no “aeroporto” de Porto Seguro. Acabara de descobrir que me seria impossível guardar meu container, de roupas, de sonhos, de biquínis. Jamais conheceria a passarela do álcool. Lembrei-me que recusei, com orgulho, conhecer Porto Seguro com as pessoas do Palmares, na viagem do terceiro colegial. Ironicamente, foi esse colégio nazista que me conectou ao anfitrião dessa aventura, talvez adolescente, talvez tardia, Baêa.

Quando cheguei, véspera de Natal, presente que me dei, o corpo se repudiou ao cansaço. Ojerizou-se de reclamar. Há qualquer cousa, em terras dos orixás, que só o inefável é capaz de traduzir. E eu? Rendi-me à minha nova condição. Entreguei-me àquelas horas. Àqueles infindos segundos baianos. Aos minutos que se arrastam, que dizem axé à minha ansiedade.

“(…) Na beira da vida

A gente torna a se encontrar só

Casa iluminada

Portão de ferro, cadeado, coração

E eu reconquistado

Vou passeando, passeando e morrer

Perto de seus olhos

Anel de ouro, aniversário, meu amor

Em minha cidade

A gente aprende a viver só”

 Milton Nascimento & Fernando Brant

Dormi, feliz, no banco, como uma mendiga. Amorteci a longa história das olheiras azuis. Fiquei à espera de duas meninas que nunca tinha visto – engano meu. Fiz a piada: tragam um casaco pra cá! O sereno bate à noite! Tantos caíram! Ah, quantas vezes rebobinamos essa ironia.

Não foi fácil sermos primeiras: Puta que pariu! Quanto se compra de queijo pra vinte pessoas? A gente pode levar peito de peru? Você também ama peito de peru? Banana prende! Granola é essencial! Eu tenho diarreia todo dia na Bahia… Nenhuma de nós bebe leite, mas alguém deve beber. Eu já sei que essa breja de milho vai dar merda. Mas está muuuuito mais barata. Vai dar merda! (Caralho não posso brigar com pessoas desconhecidas, vou levar milho e foda-se. O Tato vai comer meu cu com essa merda de milho mas beleza, eu compenso na piada e no Michael Douglas). Meninas, estamos fazendo as escolhas primeiras. É foda para porra. Não te falei que ninguém demora mais do que meia hora no supermercado? Passei dez anos indo pra Juquehy fazendo isso todo fim de semana, gata. Tô namorando todo mundoooo. Toca na propaganda do Spotify. Eu roubo do meu amigo DJ. Esquecemos o café. Chega, meninas. Chama o Rondonelli. Tô exausta. Arigatô Lau e Naná.

Como é possível decidir sem doer?

E veio a ceia, a fartura, os alívios. Os afetos. O inaugurar da madrugada. A queimada da largada. Já constituíamos uma família. E, como toda família, também é bem complicado quando a barriga começa a crescer e, você, criança, não entende de onde veio aquele óvulo, fecundo. Por que eu não fiz parte disso?

Ah, mas você é quase minha amiga também, caralho! Namorou o primo do Madeirada! Porra, você pegou meu melhor amigo! Vamos mandar uma foto pra ele. Alô?! Primeira vida, é você? Bar do Rio, MD? Meu amigo, espantando mosquitos… Eles estão fumando crack? Oi? Ela tá brilhando, gato, deixa! Ah, Madiba, acaba com meu apertaidy. Essa casa só tem, no máximo, um Kevin Bacon.

Não quero babá, motorista… mas nossa, essa faxineira é muita RYQUEZA! Beverly Hills! LUXO, Tem até camarote!  E muito drama! E, como assim, vão brotando essas pessoas! Pedro – nome do meu inventado, você NÃO TROUXE O MEU CIGARRO???? Tens alguma ideia do quanto eu me arrisquei por essas pessoas estranhas aqui para fazer vocês todas felizes? Será que meu excesso de generosidade é uma necessidade de carência?

Entrei no quarto da minha mamãe, determinada a drogá-la. Contudo, a única pessoa que eu droguei, mesmo, foi a Rafa, cuja autorização veio da diretoria e fui obrigada a acatar. A obrigação é seríssima, quando se estuda etimologia. Caipirinha ou água? Bruuu… Essa água tá batizada, sua louca! Mas eu já ia beber mesmo assim, então, foda-se, só me deixa trabalhar mais um pouquinho, aqui.

Enquanto isso, Band descobria uma casa muito engraçada, não tinha janelas, mas tinha porra para todos os lados e dava dor nas costas. Ele limpava a barba do boy, com a rebarba das inúmeras vezes que caiu de cara na areia. Dedé fazia caipirinhas maravilhosas que aprendeu comigo – mas esqueceu de dar os créditos… Tudo bem, estaremos quites, em Tel Aviv. E muito amor por ter me salvado do meu papel de DRAMA QUEEN, aos prantos, quando fui novamente abandonada.

E ganhei bolo de despedida do Gaga, a quem ensinei o melhor engate do Chico (e que tem – talvez – a maior afinidade musical com a minha pessoa). E que virou dois cafés da manhã comigo. E o Zé, que entende os horários dos banzas e não julga as peruanas. E vocês me ensinaram a rir de outra maneira. Como diriam os portugueses: Foda-se!

A Carol – quiçá tenha oublié moi – mas que não teria como não estar na minha vida. Fosse pelos Kevins em comum, pela barca de Yemanjá maravilhosa que ela construiu, ou, minimamente, pelo seu indiscutível bom gosto musical. GRATIDÂO, Universo. Carol, querida, você emana luz! E o Mau, só os nossos bullyings secretos e paralíticos acerca da derrota do pensam… para bom entendedor.

E Roxy você é Curinthia mano, to em casa. É a única mina que eu não me preocuparia… Entre mil parênteses e politicamente corretos, eu tenho dificuldades com as meiguices óbvias que podem aparecer. E você é o avesso disso.

Bom, vocês foderam com toda a minha linha de raciocínio poético e a seriedade – o que é ótimo. Eu odeio escrever palavrões. Eu assumo a linha rebuscada e hermética. VAMO, BEBEM-SE RIOS!

Em Santo André aprendi que a beleza pode não doer. Como diz meu sócio – dando os créditos, sempre – é o fim dessa apologia à decadência do artista. Vocês são pessoas que verdadeiramente me conectaram com essa sensação. Racionalmente, era fácil perceber, mas, mentiras sinceras me interessam. Não há experiência que minta.

E, ai, eu vou foder o Vinícius de Moraes, antes de acabar as o’menage de hoje. Ele estava profundamente equivocado. Foram aqueles olhos de Dudu, olhos que a Má me proibiu, veementemente, de onde eu tive essa epifania: jamais houve fim para a felicidade. CHUPA VINÍCIUS! Tristeza tem fim, felicidade não.

O que ele chama de tristeza eu chamo de medo. A gente morre de medo de ser feliz. A gente se caga de medo de experienciar as cousas. E se for gostoso o beijo grego? E se der prazer aquilo que eu fui treinado a dizer não? Naquela noite no forró, tendo rebarbas de noites e noites sem dormir, abensonhada por vocês e por aqueles céus psicodélicos, eu soube: toda a psicologia está pautada no contrário da cura.

E eu lacrey minha amizade com o Leo, numa planilha que é só nossa, né Madiba… Estou fingindo até agora que eu vi a Naná chegando com a Victória de stand-up, na minha cabeça ladra de escritora.

Odeio um pouquinho Brasília, assim como odeio Paris,

Odeio Paris

[Di Martins]

 

Talvez em Paris

a vida corra melhor e

os homens sejam

mais atenciosos,

fortes

ou mesmo rudes,

como você gosta.

No dia que embarcou

não queria nem

me despedir, mas

você disse:

não vai me dar

um abraço?

Como se não estivesse

acontecendo nada

o avião partiu

levando todos

os meus pedaços.

Mas isso foi neutralizado pela Pat, com essa cousa que eu sinto com tão poucas pessoas: os eleitos. Quero! Eu vou ser amiga dessa mina. E não foi muito difícil. E veio a Rafa, maravilhosa, com essa generosidade de alma que me assusta um pouco: espero ser um pouco mais mesquinha do que ela. Aliás, a ela sim eu enfiei o Michael Douglas, goela abaixo.

E o Thi é foda porque me ignorou hoje (#xatiada) mas, brincadeiras à parte, foi além de “porto seguro” e chacinas ótimas, e porres, e tudo, além de ser nosso cozinheiro que dança daquele jeito esfinge. Muito amor.

Geo, como foi um tesão a nossa conversa. Como psicóloga e, como poeta, eu tenho a certeza que um dia eu escreverei sobre isso: a gente só enlouquece no isolamento. Quando se descobre a companhia, a loucura é perdida. Talvez isso seja o amor. Caralho, tive um réveillon no meu cérebro e estou escrevendo direto. FODA-SE. Talvez estejamos condenadas pela maldição do intelecto.

Alê, a nossa bailarina está no ombro da Bel – minha médica – na primeira vez que ouvi Tchaikovsky! Quanto custa o despertar da sensibilidade? Ela sempre esteve aqui, hibernada, esperando? Ela vai sempre doer? A nossa música vai ficar linda. E ainda sobra outra pra Lisboa, tá?

And, Austin: there is no words in the real talk, man, chokito?! Is this real? That is happening?

Marina, eu espero que tu nunca saibas o quão linda és!

Tatito, desde os Goonies, nós sabemos que, nessa, o poetinha tinha razão. Casa aberta. Mas o seu dom é maior. E o seu pau deve ser também. Ficará latejante no fundo de minh’alma aquela mudança de idolatria, em Sem Fantasia. Eu prometo nunca mais discutir com D’us. Afinal, quem mais eu conheço com um bloquinho de anjos ao redor? Vocês sabiam que não existe coletivo de anjos? A gente inventou. É um nome pagão. Um bocado infame. Bebem-se Rios.

A música que ganhei está aqui:

E o making off:

stoandre

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Capítulo VI – O cavalo

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Pedro, meu amor: eu sempre quis que você não tivesse essa desconexão que eu tenho com a Natureza. Não sei se o excesso de conexão mental, que me acomete, como ao seu avô, afasta-me assim dos verdes, dos cantos, dos seres. Eu temi as florestas, como se as florestas pudessem desnudar todos os meus pecados. Eu evito os gafanhotos para que eles não cantem as minhas gafes. Eu odeio os sapos, porque os engoli.

Pois bem, sabendo disso, quando era bem menina, decidi ser amazona. Os animais corpulentos não eram capazes de denunciar minhas noites insones. Ao contrário disso, os grandes me salvariam das mesquinharias.

Ao começar a treinar em um cavalo, eu já sabia que seria uma péssima amazona. Eu sempre sei quando serei ruim em alguma coisa. Pode parecer arrogância, ou medo, ou “cobardia”, meu filho. Eu chamo de intuição.

O problema é que eu amava muito os cavalos. Eles só perdiam, na minha opinião, para os golfinhos. A gente, mora muito longe d0 mar, ainda. Se eu pudesse estar em cima de um golfinho, minha vida seria um sonho…

Sua mãe, contudo, mesmo sabendo que era péssima, decidiu que iria bancar o cavalo. Eu, confessando para você, ficava estarrecida de medo, todas as terças e quintas, quando o motorista me deixava na Hípica. A aptidão era nula – pior que o ballet!

Sou, todavia, teimosa e orgulhosa. Eu aprendi, Pedro. Aprendi a trotar. A pular. Vivenciei, sem selas, o poder de cavalgar. Aquela inexplicável sensação de ser única: você e o cavalo! Ganhei um de aniversário.

No dia que eu ia andar com o meu cavalo – maravilhoso, com o melhor pedigree do universo, meu sonho de princesa realizado… a gente caiu, Pedro. Eu quase fiquei paralítica. Meu terapeuta acha que foi a forma da princesa dentro de mim morrer. Seu avô nunca mais pode ver um cavalo na frente. Sua avó, louca, levou –me pro hospital. Ela acredita nas incríveis entidades, responsáveis pela cura milagrosa.

Eu não sei, Pê. Quando eu cai, senti que caiu um monte de coisa comigo. Perdi aquele status de princesa. Eu só pensava em viver em pouco mais, em te trazer ao mundo. Depois, conseguiram tirar o meu cavalo de cima de mim. Eu levantei, com a falta de ar que se tem quando se cai de costas do brinquedão no parquinho. Saí andando até minha cama. E deitei.

Aí, foi muito mais literário: eu não conseguia mais andar. Eu não me mexia mais. Na altura estava lendo “Longo caminho de volta”, um livro em que o protagonista fica paralisado por um atropelamento. Mas eu não estava com medo. Eu tinha aceitado. É muito absurdo mesmo, Pedro. Mamã tinha onze anos, caído do cavalo, suspeita de estar paralítica e estava bem. Eu nunca vou conseguir entender o que aconteceu.

Encurtando bastante a história: os médicos acharam que a mamãe era um menino (porque meu cabelo estava preso – eu fiquei puta!); quando fui fazer a radiografia tinha alguém ali comigo (esquentava as minhas costas). Eu quebrei a única vertebra que não paralisa – nem para cima nem para baixo.

Anos depois, o terapeuta me disse que essa queda, Pedro, salvou-me de ser a princesa da minha família. Não sei te dizer, meu amor: aqui está, no meio das minhas costas, cicatrizada, no meu medo eterno de cavalos, na lembrança de todos os jogos que vi da copa de 1994, enquanto estava no hospital. Na estranha certeza de que a Poesia era maior do que o andar.

 

 

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Capítulo IV – A Livraria

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Sábados sempre me foram caros à felicidade. Seu avô me acordava antes das oito. Às vezes, já estava pronta. Dentes escovados, tiara com fivela, vestido encarnado. Houve uma vez que vi um espírito, saindo do quarto de seus avós, num destes dias luminosos. Eu, que nunca temi os mortos, corri atrás até o banheiro, onde o espectro se dissipou em centelhas prateadas de luz. Éramos, pois, abençoados por aquelas manhãs.

Morávamos em um apartamento pequenino, só nós três. Dois quartos, sala, cozinha. E a minúscula varanda, que acolhia todas as estrelas. Havia, também, um playground, repleto de crianças da minha idade. Contudo, como você, meu filho, eu amava estar com os adultos. Íamos, a pé, aos sábados, na livraria mais famosa da Vila Mariana, rever os dinossauros do jornalismo.

Essas memórias ainda estilhaçam dentro do meu corpo, efemeridades trovejantes. Aquele tremor antes de chegar às prateleiras. Os rostos, cúmplices, dos vendedores, encantados com a minha paixão. A adoração dos velhos repórteres, pela menina prodigiosa que já amava os livros. Minha soberba em saber-me sedutora!

Acreditei, a partir dali, que os escritores são seres atentos às personagens que passam pelas ruas como qualquer pessoa. Encontram, em vitrines, formas de personificar os manequins. Utilizam suas tormentas, exorcismo literário. Vingam-se dos abandonos em antagonistas. Traem seus cônjuges nas linhas pornográficas que jamais habitaram seus lençóis.

Eu só tinha, na época, direito a comprar um livro por semana. Isso me era uma tortura, Pedro! Ah, como me desesperava com essas escolhas, tão cruéis! Acho que todas as minhas escolhas, depois, foram menos dolorosas.

Só há, como você bem sabe, uma dor maior que a de decidir, entre as esquinas da existência. Aquela mansidão de parto, filho expulso dos escuros. Os pontos finais de uma novela, recém editada. O desapego da página que vai para a gráfica. A livraria é a dialética do cais, na alma do escritor.

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Capítulo II – Ballet

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O cabelo bem puxado, com o coque na altura das orelhas. Uma faixa rosa que impedia os fios rebeldes de atrapalharem os olhos, inebriados pela delicadeza cintilante da sala de espelhos. Sapatilhas confortáveis, um collant, meia calça. Uma saia borboleta me fazia ir rodopiando pelas ruas, na ponta dos pés.

Foi a primeira vez que ouvi Tchaikovsky. A doçura invadiu os poros, antes de chegar à pele, arrepiada. Um dilúvio se instaurou nas vísceras, pequeninas, ignorantes, desprotegidas.

Voltei para casa, aos prantos. Sua avó, aflita, veio com um copo de água com açúcar:

– O que houve, querida?

– A professora pôs uma música muito linda, mamãe.

– E por que isso te fez ficar assim?

– Porque eu não sabia que a beleza doía tanto…

Acho que esta foi a primeira vez, Pedro, que eu soube dessa nossa condição. Não havia aprendido as palavras, escritas. Nada imaginava do amor, romântico. A música foi o despertar da incompletude, em minha alma.

É bom, contudo, quando as dolorosas fragilidades têm gosto de brigadeiro, ou de gemada. Eu fui feliz ao aprender os sentimentos, a escrevê-los, ao compreendê-los, ao desdenhá-los.

Eu te mostrei, mais tarde, aquele poeminha da Cecília Meireles, sobre a bailarina:

A bailarina

“Esta menina

 tão pequenina

 quer ser bailarina.

 Não conhece nem dó nem ré

 mas sabe ficar na ponta do pé.

 Não conhece nem mi nem fá

 Mas inclina o corpo para cá e para lá.

 Não conhece nem lá nem si,

 mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar

 e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu

e diz que caiu do céu.

Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,

e também quer dormir como as outras crianças.”

Você me perguntou, na altura, por qual razão eu não queria dormir como as outras crianças. Por que a madrugada sempre me foi uma companheira, apesar das galáxias que habitavam o céu do meu quarto. Por que eu alimentava a luz azul na sua cabeceira, se era hora de sonhar. Eu respondi que, às vezes, os maiores dos nossos sonhos são concebidos em vigília, à revelia dos anjos que protegem o ninar.

 

 

 

 

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Capítulo I – Pedro

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Tu olhas para este cinzeiro, giro, branco, cristal vindo do Norte. Azeitas tuas ironias, requintes de crueldade. Escolhes as bitucas impedidas de alcançar o fim: fumas as mais altas primeiro; desespero de quem ainda ama. Humilhas a ti mesma, fogo nos dedos, com as mais pequeninas. Tenho pena de ti.

“A padaria ainda não abriu”, dizes-me, ou, a ti mesma. Tens vergonha que meus olhos possam, finalmente, ter encontrado a humilhação. “Nessa época de crise não se pode desperdiçar um tabaco”. Eu reluto, porque amo-te, em agredir meu pensamento com a verdade. Acredito nas tuas palavras, desde sempre.

Já são cinco da manhã e a noite teima em ficar. Eu detesto quando a madrugada dura mais que a tua dor. Tu emparelhas as garrafas, ainda vivas, para saber de qual roubar, em silêncio. A tua inteligência me faz mais triste, mais forte. Menos miúdo. Queria ter um abraço que soubesse ao cheiro de vinho. Uma doçura boreal nos protege do amanhã. Amo-te, mamã.

Eu gostava que a dor sumisse de ti. Li todos os livros de todos os bruxos para desvendar esse mistério terrível que traz a ti a cólera. Não aprendi poesia para libertação. Chovo, nas líquidas estrelas que lumiam meu teto de menino. Adoro o nome que insististe em me dar. Pedro.

A etimologia foi, a ti, uma cúmplice inesgotável. Consegues enaltecê-la em surdez absoluta. Jamais ouvirias uma palavra, em plenitude, que atravessasse o cordão do teu silêncio. E, assim, doida e doída, amo-te, Mamã.

Sei que o Tejo nunca foi o rio da tua aldeia. Mas que o amas – talvez mais a ele que a mim – e que o rio percebe mais teus olhos do que eu: indigente, nefasto, trovador.

Queria ter nascido água. Ressuscitar os teus naufrágios.

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No abismo de uma alegria sem manhã

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O comboio apitava dentro de mim, às sete. Eram cinquenta horas acordado, sem drogas. A embriaguez me vinha da bagaceira, da ginja, das três garrafas de vinho que havíamos bebido, no sótão, uma última vez.

Do alto da Romaria parece que a vida custa menos ao pensamento. Nos telhados encarnados, crestados pelo amarelecer primeiro, não havia silêncio que duvidaria da nossa comunhão. Eu, perderia o bilhete e a dignidade, feliz de testemunhar aquela aurora ao teu lado, amada.

Mas tu te despedias de mim. Alerta. Parece que o relógio sempre habitou teus olhos, mausoléus de eternidade. “Vais perder a viagem ao Porto, se continuares aqui comigo. ” E eu dizia: “Queres que não me perca, agora? ”

Quase cai, equilibrando-me em dúvidas e descaminhos. O teu perfume escancarava minhas escolhas, errôneas. A vida atracava no Tejo, fumegando em navios cargueiros. Um anjo, inaudito, assobiava estrelas. A tua dor me era vacilante. Ou era minha a vaidade que sussurrava, estúpida, adivinhando a cobardia.

Bêbedo, apanhei a mala, sem cadeados nem senhas, à espera do impedimento. Tu me lembraste do agasalho e da t-shirt que estavam na cozinha. Eu os apanhei, ainda envoltos na tua face, dividida. De um lado me mostravas a covinha, cúmplice. À sombra, do lado direito – aquele que a miopia te castiga mais – desdenhavas os trilhos. Será que nenhum rosto vibra em doçura, quando o caminhar atropela os lábios?

As lágrimas me pouparam, enquanto o comboio arrepiava-me os cabelos, às sete. Eram cinquenta horas acordado. O coração, exagerado, precipitava-se em farpas e lamentos. O vento, implacável, coordenava as esquinas de Santa Apolónia. Vivalma impedir-me-ia de regressar à casa.

Em Alfama, as gaivotas desenhavam nuvens. O lume jazia em nossa casa. Nenhum vizinho sabia nada de ti. As janelas, cerradas, obrigavam-me a esmagar o capacho, com aqueles dizeres esdrúxulos de amantes hibernados.

Tu, já longe, saberias do meu retorno, infame? Ah, só a literatura para suprir essa ausência de séculos que me imprimiste!

A solidão, todavia, invadiu meu terno, ao tocar a campainha. Perscrutou os bolsos, à procura do teu nome. Verificou minhas mãos, cobertas em epifanias, e tinta. Eu achava que o amor, valente, suportaria a cronologia. Mas plenitudes carregam o fardo do abandono. Não há cais que resista ao lenço branco.

O abismo, hoje, impede-me de enxergar as manhãs.

*Foto: Rik de Jager

 

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Das saudades platônicas

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“Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não o deixa.” Herberto Helder

A infância é um lápis que desapontei pelo caminho. Será que já estava, naquelas décadas atrás, a colecionar, instantes primeiros, toda essa poesia que há no mundo?

Ouvia, nos corredores da livraria, àquelas personagens que se debruçariam em meus dedos, anos depois? A meninice seria apenas uma insídia – brincadeira de mau gosto – quando me tornei poeta?

Ah, felicidade indubitável de abraçar os livros! A sensação extraordinária de investigar os velhos escritores, a mentir os fatos, a assinar literatura, em realismo mágico. Travestidos de conversas.

Quando rebobino a mim mesma, hoje, sinto que existia qualquer coisa de triste. Percebo que não me satisfazia com a realidade, desde sempre. A madrugada já me tinha mais coragem. As palavras faziam cócegas – maldição abençoada.

A poesia estava ali, à minha espera, na esquina de casa, quando voltei da maternidade. Rua Morgado de Mateus. Só que a arte é muito lenta e os olhos demoram para entender a miopia que trazem os versos, no cansaço dos séculos.

Neste momento, dou-me conta de toda a servidão que se alastrava no horizonte, no dia em que vim a esse mundo. “Estás condenada à poesia!”

Contudo, esta semana, ouvi do grande poeta Carlos Felipe Moisés, que a poesia é resistência. Que ninguém nasce e elege poesia como fonte de felicidade. É indispensável a luta, para se lambuzar do universo. É necessário ter persistência, obstinação e teimosia. Loucura.

Talvez eu soubesse, criança, minhas inclinações escandalosas. Só aprendi, alhures, que toda saudade é fruto do imponderável. Basta sonhar para encontrar o Olimpo, e suas sombras. Seria, enfim, toda saudade, platônica?

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