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O cérebro em festa

insight

“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” Carl Gustav Jung

Uma explosão de ondas gama navega pelo topo do córtex pré-frontal do lado direito do cérebro, antecipando conexões que estavam distantes por milhares de quilômetros entre si. Uma viagem sideral que produz uma descarga de energia necessária para a criação de uma nova ideia. Assim nasce o insight.

Este termo, exaustivamente utilizado em Neurociência, constitui o solo poderoso dos processos de coaching baseados na neuroplasticidade cerebral. É curioso pensar que toda mudança comportamental está baseada em um conflito saudável entre os neurônios, que se chocam e divergem, possibilitando-nos vivenciar a inesquecível sensação de uma epifania.

O requinte e a sofisticação, consequentemente, estão longe de serem aliados desse percurso. O lado direito do cérebro interpreta as informações de forma mais rude e arcaica, podendo agrupar elementos distintos em mesmos contextos. Ao trabalhar com dados inespecíficos, fica mais fácil conectar o inusitado.

Assim, o nascer de uma ideia se vincula ao caos, ao improviso, ao inesperado. É indispensável, também, que o olhar esteja desatento, desfocado das percepções visuais. A mente tem que estar míope, para expandir a capacidade de relacionar o improvável.

Contudo, a preguiça e a automatização são inimigas mortais dessa festa cerebral. O insight, efêmero, perder-se-á em milésimos de segundos, caso o autor não o grave em papel e tinta. A documentação faz-se profundamente necessária, para o início de uma nova era de atitudes.

É preciso, pois, doutrinar as compreensões súbitas e traduzi-las em objetivos, estratégias e ações. Reforçar, positivamente, todas as inaugurações que a mente de um ser humano é capaz de produzir. Trazê-lo às rédeas existenciais, como protagonista de um novo enredo.

O papel do coach, torna-se, assim, imprescindível. Além de presenciar o nascimento das novidades em seu coachee, ele será o grande parceiro na trilha em prol da transformação.

Ao indagar o seu coachee, acompanhando-o em suas metas pessoais e profissionais, o coach o provoca sobre o quão importante é a consciência do pensamento para a sua solução.

O coach representa o foco no futuro, o projetar de sonhos e objetivos. Estabelece-se, na relação, como um coautor à procura de novos caminhos, responsável pela mudança positiva no coachee e pelo engajamento a partir da emoção. Afinal, é muito mais fácil criar um novo hábito do que eliminar um antigo.

Ser coach é testemunhar o cérebro em festa.

 

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O insight do Artista

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. João Guimarães Rosa

Fui assistir – em uma mistura de medo e curiosidade – ao filme “O Artista”, do diretor francês Michel Hazanavicius. O medo consistia em não suportar por duas longas horas um filme inteiramente mudo e em P&B. A curiosidade era ainda mais óbvia: indicado a onze Oscars e vencedor de sete BAFTAs, “O Artista” vem sendo consagrado pelo público e pela crítica cinematográfica ao longo dos últimos dias de uma maneira assombrosa.

Com uma trilha sonora impecável, assinada por Ludovic Bourcesobre, a história nos relembra as estrelas notáveis de Fred Astaire e Gene Kelly, com um toque hitchockiano fantástico. É maravilhoso ver como as expressões se sobrepõem às falas e aos músculos, nesta saudosa homenagem ao cinema hollywoodiano.

“O Artista” nos revela as faces escondidas da nossa sensibilidade, ofertando-nos inúmeras reflexões acerca dos trilhos que a indústria quer seguir: precisamos mesmo da terceira dimensão para nos entreter com a sétima arte? Mais vale um rosto bonito do que um grande ator para se tornar um sucesso de bilheteria? Precisamos de tantas explosões e efeitos especiais para permanecermos atônitos em frente ao grande ecrã?

Contudo, embora essas questões sejam importantíssimas no incansável debate sobre o filme, outra interrogativa surgiu-me como insight. George Valentin, o protagonista, é um brilhante e carismático ator do cinema mudo na década de 20.  Sua segurança e competência – características incontestáveis do sucesso – atreladas ao conservadorismo típico de quem está no auge, impedem-no de vislumbrar o futuro. A mudez está com os dias contados.

Sua insistência nos mostra o quão importante é termos um olhar atento ao amanhã. O quanto nossas vestes podem estar ultrapassadas no mundo corporativo, de uma hora para outra. Ah, como devemos escutar os sonhos oraculares que às vezes se comportam como pesadelos!

“O Artista”, além de grande e visionário, ensina-nos a respeitar o papel que a arte exerce sobre a nossa própria narrativa. A gestão de nossas carreiras é uma das esquinas que nos colocam à prova: serei eu o protagonista de minha existência ou a vitima coisificada, traída pelos destinos? É imprescindível refazermo-nos, dia após dia, nesse universo acelerado que é capaz de esmagar nossos sonhos profissionais. Insucessos carregam também o sentido da jornada. A alguns passos da ruína, iminente, devemos sentir o vento que traz a liberdade dos fracassos. A vida imita a arte.

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Alberto Caeiro e Gaston Bachelard: aproximações

Para a Fenomenologia Existencial a poesia é a linguagem mais própria do ser humano. Segundo Bachelard, ela finca suas raízes no aqui-agora, nunca como um “eco do passado”. A poesia sempre inaugura o âmbito da novidade, da abertura de sentidos. Alberto Caeiro, dentro dessa perspectiva, abriu muitos sentidos novos para a poesia ocidental. Seu pensamento está estritamente ligado a uma filosofia oriental, que não fragmenta o homem e a Natureza, que não tem a esquizofrenia (no sentido etimológico da palavra – alma dividida) como referência para tratar do humano; pelo contrário, ele inclui o humano na Natureza, como forma constituinte.

Fernando Pessoa, ao criar Alberto Caeiro, no dia triunfal, não apenas escutou o que chama de inspiração, mas também o fez como um apelo para a reformulação da poesia de sua época. A poesia de Caeiro vem como forma de salvá-lo da “doença do ocidente”. Pessoa era um homem absolutamente obcecado por doenças mentais.

A salvação de Caeiro começa pela integração entre a humanidade e a Natureza, mas vai além, quando recusa a racionalidade como forma de conhecer e acessar as “cousas” e o mundo. Caeiro acredita que o sentir é a forma mais pura de acesso ao mundo, e a única que pode resgatar o sentido. Bachelard concorda com isso. Diz, logo no começo do livro “A poética do espaço” de 1957 que a poesia nunca pode ser enxergada pelo ponto de vista causalista que inunda a cultura humana: “A imagem poética é um súbito realce do psiquismo, realce mal estudado em causalidades psicológicas subalternas”.(2000, p. 1).

Bachelard acredita que o único acesso viável para a poesia é a pessoalidade, entrar em contato diretamente, sem distanciar-se do que se está buscando. Outro aspecto fundamental em sua obra é alertar o leitor que a verdade da imagem poética não pode existir nos rebuscamentos ou metáforas complexas. É na simplicidade que uma imagem adquire grandeza. Caeiro concorda com ele. Toda a sua obra é inspirada apenas nas imagens da Natureza, nas imagens mais corriqueiras:

VI

“(…) Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos! …” (1987, p. 142).

Para Bachelard, todo acontecimento poético é um encontro entre o autor e o leitor. Um encontro genuíno, encontro que coloca a poesia no plano do pertencimento. O leitor acolhe o que ouve através da ressonância e depois a poesia entranha-se nele. Esse movimento nada tem a ver com o raciocínio, com o movimento da mente. É através de um olhar primeiro, ingênuo, infantil que o poema transborda o leitor. Esse aspecto, o olhar primeiro, a ingenuidade é também material repetidamente discutido no poema “Guardador de Rebanhos” de Caeiro:

(…) Dito de maneira mais simples, trata-se aqui de uma impressão bastante conhecida de todo leitor apaixonado por poemas: o poema nos toma por inteiro. Essa invasão do ser pela poesia tem uma marca fenomenológica que não engana. (…) É como se, com sua exuberância, o poema reanimasse profundezas em nosso ser. (…) Por essa repercussão, indo imediatamente além de toda psicologia ou psicanálise, sentimos um poder poético erguer-se ingenuamente em nós. (…). (2000, p. 7).

Em outro livro seu: “O ar e os sonhos”, Bachelard completa essa tese, colocando que o poema expande o universo do leitor, convidando-o a novos sentidos: “O poema é essencialmente uma aspiração a imagens novas. Corresponde à necessidade essencial de novidade que caracteriza o psiquismo humano”. (2001, p. 2). Caeiro, por sua vez, coloca a questão da ingenuidade e do pertencimento não mentalista, não racionalizado através do olhar da criança. O caráter da novidade não pode ser mais claro que no universo infantil, a capacidade de se espantar com a mais simples das imagens:

XXV

“As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer cousa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.”
(1987, p. 152).

Essa poesia também inicia uma outra questão que está presente no pensamento de Bachelard. Ao falar da imagem poética não se pode buscar uma essência, algo que está por trás da própria imagem. A imagem é sempre clara, sempre desvela o sentido na sua aparência. Tanto Caeiro quanto Bachelard repudiam a dicotomia aparência / essência. A interpretação de um poema, a tentativa de traduzi-lo, para Bachelard é um modo de fugir da própria poesia.

A poesia assume então a necessidade de abandono das técnicas que o ser humano está mais familiarizado para conhecer. Conhecer uma imagem poética não é “acertar” o seu significado profundo, misterioso. Muito pelo contrário, é aceitá-la em sua simplicidade. Para que a intimidade apareça entre o leitor e o poema é preciso desaprender os métodos causais de busca da verdade. O sentido só se revela quando o encontro existe antes da intelectualização:

(…) Ao recebermos uma imagem poética nova, sentimos seu valor de intersubjetividade. Sabemos que a repetiremos para comunicar nosso entusiasmo. Considerada na transmissão de uma alma para outra, uma imagem poética foge às pesquisas de causalidade. As doutrinas timidamente causais, como a psicanálise, não podem determinar a ontologia do poético. Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura, no modo literário, nem a percepção, no modo psicológico. (…). (2000, p. 8).

Caeiro concorda com as afirmações de Bachelard acerca do acesso à poesia. Para ele, não só na poesia, mas em qualquer tentativa humana de conhecer o mundo é preciso desaprender, libertar-se das interpretações. É necessário esvaziar a mente para que o olhar seja verdadeiro. Ao fazer a limpeza de todos os pressupostos teóricos que invadem o olhar se enxerga claramente. Pessoa criou seu mestre debochando do eu-pensante, tentando-se livrar da sua hipertrofia intelectual:

XXIV

“O que nós vemos das cousas são as cousas.

Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?

Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos

Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,

Saber ver sem estar a pensar,

Saber ver quando se vê,

E nem pensar quando se vê

Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),

Isso exige um estudo profundo,

Uma aprendizagem de desaprender

E uma sequestração na liberdade daquele convento

De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas

E as flores as penitentes convictas de um só dia,

Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas

Nem as flores senão flores.

Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.”. (1987, p. 151).

A linguagem que constitui a poética não é uma linguagem que limita, que define, que encerra o sentido. Cada leitor compreende a poesia de modo único. Não se pode julgá-lo, assinalar veracidade ou equívoco. Todo sentido que se desvela ao ler uma poesia é válido, posto que os sentidos são inesgotáveis e o movimento implica em encobrimento. O mesmo ocorre com os poetas, suas percepções acerca do mundo são singulares. Ao encontrar-se com um sentido, o leitor (tanto quanto o poeta) ilumina uma destinação para aquela imagem, enquanto simultaneamente encobre outra: “(…) Mas a poesia está aí, com seus milhares de imagens imprevisíveis, imagens pelas quais a imaginação criadora se instala nos seus próprios domínios. (…)”. (2000, p. 13).

Caeiro descreve o movimento único do olhar do poeta zombando e distinguindo-se dos poetas que atribuem sensações e sentimentos aos elementos que constroem o mundo. Para ele é muito mais honesto confessar que todas as percepções que esses poetas místicos conferem às “cousas” são, na realidade, os sentimentos que estão percorrendo suas veias.

Bachelard completa esse raciocínio diferenciando a imagem poética da simples metáfora. Para ele não se pode confundi-las. A imagem tem essa função descrita acima, de abertura para a intimidade, de estar sempre em movimento de criação, de ativar a imaginação do leitor. A metáfora tem uma função distinta. Ela já está pronta, definida. A compreensão de uma metáfora não dá ao leitor a liberdade de encontrar o sentido singular, a partir de sua própria existência. Ela carrega em si sua significação própria. Quando o leitor se encontra com uma metáfora, ele não pode dela apropriar-se. A metáfora não habita o íntimo.

O “Guardador de Rebanhos” é um mergulho nas imagens poéticas simples e claras. Não se encontram metáforas. O heterônimo mestre de Pessoa exercita sempre, em todos os poemas, a vivência do olhar primordial, o olhar desprovido de um saber. Suas imagens estão sempre situadas em seus momentos de intimidade com a Natureza. A Natureza é o habitat das imagens que não estão mediadas pelo conhecimento intelectual. A Natureza surge, na obra de Caeiro, como o lugar das não-metáforas.

O que por Caeiro é nomeado Natureza, por Bachelard é conhecido como a imagem da casa. Para o filósofo a casa aparece como a imagem primeira dos devaneios poéticos. A casa propicia a intimidade que a poética oferece ao leitor. É o lugar mais primitivo de acolhimento:

(…) a casa é, evidentemente, um ser privilegiado; isso é claro, desde que a consideremos ao mesmo tempo em sua unidade e em sua complexidade, tentando integrar todos os seus valores particulares em um valor fundamental. A casa nos fornecerá simultaneamente imagens dispersas e um corpo de imagens. Em ambos os casos, provaremos que a imaginação aumenta os valores da realidade. Uma espécie de atração de imagens concentra as imagens em torno da casa. Através das lembranças de todas as casas em que encontramos abrigo, além de todas as casas que sonhamos habitar, é possível isolar uma essência íntima e concreta que seja uma justificação do valor singular de todas as nossas imagens de intimidade protegida? Eis o problema central. (…)  (2000, p. 23).

Viver a casa é fundamental na existência humana. Ela abriga o ser humano, possibilitando-o sonhar e também não se encerra em um passado que não possa ser re-significado. As lembranças guardadas nas gavetas podem ser revisitadas no presente e adquirirem novas tonalidades de cor. Toda casa, por mais que tenha um passado, inaugura uma nova imagem poética.

A casa de Bachelard caracteriza pela simplicidade. Mesmo os castelos sonhados estão estruturados pela cabana. A casa de Caeiro também é simples. Tão simples que ele lamenta a vivência do homem da cidade. Bachelard discorre sobre a vivência poética do homem contemporâneo, encaixotado nos edifícios. A arquitetura dos apartamentos dificulta o devaneio íntimo do poeta:

(…) A casa não tem raízes. Coisa inimaginável para um sonhador de casa: os arranha-céus não têm porão. Da calçada ao teto, as peças se amontoam e a tenda de um céu sem horizontes encerra cidade inteira. Os edifícios, na cidade, têm apenas uma altura exterior. Os elevadores destroem os heroísmos da escada. Já há não mérito em morar perto do céu. E o em casa não é mais que uma simples horizontalidade. Falta às diferentes peças de um abrigo acuado no pavimento um dos princípios fundamentais para distinguir e classificar os valores de intimidade. (…)   (2000, p. 44-45).

Caeiro viveu sempre no campo. Para a sua tuberculose era mais recomendável que vivesse longe dos grandes centros. E o mestre se orgulha da sua morada. Pode entrar diretamente em contato com a solidão das árvores, com a grandeza de uma trovoada, com a impotência frente ao inverno, ou o nascimento da primavera. Ele tem pena dos homens da cidade e se compadece do sofrimento daqueles homens que têm a alma no campo, embora estejam aprisionados nas cidades:

III

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele!  Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…”
(1987, p. 139).

O homem das cidades não apenas vive o aprisionamento da sua liberdade, mas também apresenta maior dificuldade de encontrar-se com as “cousas” elas mesmas, voltar o olhar para a redescoberta dos universos que se configuram no olhar infância. O homem das cidades acredita-se enorme, enquanto o homem dos campos enxerga-se miniatura. Mas o homem das cidades é infinitamente menor que o homem dos campos, dirá Caeiro. Até mesmo porque restringe o Universo a si. A grandeza, mesmo na pequenez encontra-se na inocência do olhar e não na tentativa de controlar o mistério…

VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver
.” (1987, p. 142).

Esse poema de Caeiro ilumina uma questão que é trabalhada por Bachelard, na construção das imagens poéticas. Em um dos capítulos da “Poética do Espaço” ele devaneia a imagem da miniatura. A principio parece que é uma imagem insignificante, pequena também no sentido figurado. Ao longo do texto, Bachelard vai possibilitando ao leitor a abertura de novos sentidos que compõem a imagem mínima.

Para o filósofo, a imagem da miniatura traz consigo a concentração do devaneio. Não é apenas porque o espaço é pequeno que seu devaneio seja minúsculo. A imaginação ultrapassa os valores concebidos pela geometria, e em sentido amplo, pela lógica cartesiana em geral.

Não é à toa que Bachelard encaixa a criança e a própria infância na imagem da miniatura. Elas são mais do que sua própria altura e seus devaneios erguem os brinquedos em tamanhos “reais”, ou até mesmo gigantes. Porque as crianças e, sobretudo o olhar infantil sobre o mundo é como a poesia de Caeiro: “Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura…”.

A condensação da imagem que a miniatura viabiliza não é mais que uma faceta da intimidade. Não é, pois, uma faceta qualquer, que deva ser dispensada pelo interrogador dos sentidos. A imersão na miniatura só pode se dar quando o poeta permite-se ultrapassar os limites físicos dos seus devaneios. Segundo Bachelard: “O homem da lupa toma o Mundo como uma novidade”. (2000, p. 163).

A capacidade de entrar em contato com o detalhe, com o pequeno devaneio é propiciada pelo surpreender-se. Pois a cada momento a miniatura traz ao observador uma nova e inesperada característica. Os olhos precisam estar muito atentos para os desvelamentos que não passem despercebidos. Caeiro insiste nesse olhar que, ao descrever a Natureza, a ama.

Novamente aparece, em ambos autores a questão do primeiro olhar, o olhar que não verifica, mas que se espanta com o que se abre diante dele. O poeta necessita exercitar o seu olhar, se prender nas pequenas imagens e nos pequenos sonhos para desvendar algumas das verdades do mundo.

Porque o poeta não precisa rebuscar os devaneios para ser belo, ou mesmo para ser real. O poeta precisa também enxergar a irrealidade das “cousas” para compreendê-las. Da simplicidade brotam universos de destinos. Pois os universos têm como referência seus núcleos. Em cada átomo existe um mundo, esperando para ser sonhado.

O encontro entre o poeta e seu devaneio mínimo necessita paciência, diz Bachelard. É preciso esperar que o átomo apareça perante os olhos. Deixar o tempo ser protagonista do devaneio implica em solidão. Muitas vezes, como os pescadores, é em silêncio e apenas na presença de si mesmo que o poeta consegue enxergar os sons que anunciam a miniatura.

O poeta precisa acalmar-se para sentir toda a imensidão que há no mundo das pequenas coisas. O poeta só enxerga se a sua referência for a casa natal, a casa-natureza, que espera o tempo das coisas mesmas. O poeta precisa estar entregue à natureza, pois entre os dois existe pertencimento. Os dois são partes integrantes de um mesmo universo de sentidos… O sonhador impaciente com o surgimento de seus versos é como se a Natureza desejasse acelerar a duração das estações do ano.

Quando o devaneio da miniatura atinge o universo na menor das imagens, Bachelard introduz a imensidão. O imenso que pode existir em uma pedra, em uma flor, em um pôr-do-sol. A principal característica do imenso é a transcendência das fronteiras físicas, tal qual ocorre nas miniaturas.

A imensidão não é um devaneio que tenha um espaço delimitado. É um devaneio que está suspenso entre as “cousas”, delineado pelo nada que permeia o mundo. Somente a partir da compreensão da miniatura o poeta aceita o infinito. Aceita que tudo o que se encontra no mundo pode ser enxergado de inesgotáveis maneiras, aceita que o mundo é muito maior que sua poesia.

Mas há algo ainda mais importante em redimir-se perante a imensidão do Universo. O poeta que se aceita mínimo é também o poeta que sabe que não é o possuidor da sua poesia. Ao encontrar-se com o nada, o poeta se aprisiona em liberdade. Sabe que é um escravo das verdades do mundo e que, dessa forma, escreve seus versos para a humanidade como um todo, e não apenas para liberar suas próprias angústias existenciais.

A imaginação dos poetas é um culto ao mundo e não só a si próprio. Ao compreender o movimento do infinito, o poeta também se torna ilimitado. É aí que podemos entender como a poesia escrita por outrem é também uma poesia que pertence ao leitor. O poeta não escreve para si, nem acredita em sua poesia como sua posse. Afinal, como ela está no mundo, a ele pertence. Pessoa bem conhece a não propriedade de seus versos. O exemplo mais claro é a descrição de sua vivência no dia triunfal, quando Caeiro dele se apossou e durante toda a madrugada escreveu os versos que compõem o imenso poema “Guardador de Rebanhos”. Pessoa admite que não era ele ali quem escrevia, era apenas a sua mão o instrumento para Caeiro aparecer. Do mesmo modo, o poeta mestre compreende que de seus versos não é dono pois dele também não é o Universo:

XLVIII

“Da mais alta janela da minha casa

Com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.

Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos

Porque não posso fazer o contrário

Como a flor não pode esconder a cor,

Nem o rio esconder que corre,

Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?

Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.

Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.

Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.

Submeto-me e sinto-me quase alegre,

Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.

Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo”.

O poeta se traduz exatamente como ocorre com a Natureza. Do mesmo modo que há uma generosidade dos rios, árvores e flores, ele também se oferece ao mundo, compreende-se ferramenta para que a poesia possa se expressar. O poeta ouve o que pede o mundo e escreve, quase possuído pelas palavras. Pessoa chama essa experiência de psicografia, como se a vivência do poeta fosse a mesma vivência do médium que recebe as mensagens do além. Só que, no caso do escravo da verdade, são mensagens do Universo…

O poeta é o protagonista da contemplação perante o mundo. Ele precisa chegar tão perto do mundo que deseja sonhar que até mesmo pode-se fundir com ele por alguns instantes. O distanciamento impossibilita as imagens poéticas. A imaginação traduz por uma singela imagem todo um universo. Nas palavras do poeta pode-se perceber o quanto o todo toca as partes e as transforma em imagens de redondeza. Circulares são os devaneios poéticos.

Na análise do redondo encontramos a tranquilidade que Bachelard nos convida a sentir. Porque a redondeza dos versos abriga o âmbito do vazio fértil e ao mesmo tempo constitui um universo em uma simples imagem. Caeiro, ao criticar os valores impostos pela metafísica e pelo pensamento racional, compreende o redondo das suas imagens. E com a imagem do menino Jesus, vai ensinando como o olhar primeiro é fundamental para a poesia, como a inocência das crianças necessita contaminar os olhares da poesia. A partir de cada árvore, cada flor e cada pedra o redondo se manifesta. E, portanto, através dos devaneios cósmicos, todos os elementos do mundo se transformam em Universos de Sentidos:

VIII

“Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
“Se é que ele as criou, do que duvido” —
“Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.”
E depois, cansados de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
e eu levo-o ao colo para casa.
…………………………………………………………………..
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo

E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales,
E a fazer doer nos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
…………………………………………………………….
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
……………………………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?”

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As Fabulosas Cores de LiliRoze

IX
“O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.”

Manoel de Barros

O instantâneo captura a plenitude. É assim que podemos descrever o belíssimo trabalho de LiliRoze, fotógrafa franco-suíça que chega a São Paulo na próxima semana para inaugurar sua primeira exposição no Brasil.

Em 2009, ela ganhou o maior prêmio de foto de moda na França, pela APPPF – Agence Pour la Promotion de La Photographie Profissionelle en France. Sob a lente da câmera Sinar 4×5 e filmes de Polaroid, LiliRoze expressa suas visões coloridas ao mundo. Para ela, todo o seu feito é imbuído de intimidade. A ideia do desnudamento, da fragilidade e do abandono são suas maiores fontes de inspiração.

A predileção pela fotografia não aconteceu casualmente. Desde muito pequena, LiliRoze estava aos pés de seu pai, ansiosa para ver a mágica transformação que acontecia na banheira onde as fotos em preto e branco eram reveladas. Perplexa, ela não conseguia compreender como aqueles simples papéis se modificavam tão rapidamente, em tantos universos.

Só a imaginação infante pode trazer uma tradução precisa das obras da fotógrafa. Esse saber primitivo, esse olhar primeiro sobre as nuances da matéria. Só a criança tem a capacidade de tornar os instantes infinitos. Parece que, a cada retrato, LiliRoze reencontra sua casa natal.

Revisitar a própria casa! Reviver os cheiros, as luzes, os dias e as noites. Quando um artista devaneia intimamente sua casa, nós também somos invadidos por uma visita, transportados às nossas casas, aos nossos devaneios. A imagem da casa abandonada, da casa esquecida, da casa coberta pelo pó e por panos brancos já não pode mais existir. As janelas se abrem, permitindo que a luz possua a sala. Os barulhos aparecem novamente, as trepadeiras ressuscitam em caracóis as paredes, e podem ser verdes, profundamente verdes. A casa está completamente povoada. De novo.

Deixar-se entorpecer por toda a profundidade de um instante é um dom que precisa ser lapidado. Se o instante não é vivido em toda sua imensidão, não pode existir a imagem poética. E, para além do instante, o artista-criança também tem o poder de transformar, através da imaginação ativa, os tédios em pinturas, os objetos em moradas.

LiliRoze confessa, pois, que toda a sua obra está mais próxima do imaginar do que da realidade. As cores, assim, podem criar histórias originais. E o impressionismo lhe salva da crueldade mundana. A experiência onírica a suspende dos horrores concretos.

Para definir suas influências, ela cita Paolo Roversi, Sarah Moon, Joel-Peter Witkins, Duane Michals. E afirma que todo fotógrafo é um agente de novos horizontes. É impossível fazer arte sem trazer consigo loucuras e fantasias. Viver é absolutamente fictício.

Dessa forma, justifica também a escolha “primitiva” da Polaroid: ela é capaz de apreender acidentes inestimáveis para as fotografias. O leve flou (desfoque) acontece também pelas árduas opções. Ela trabalha com pouca luz, sensibilidade de filme baixa e longos períodos de exposição. Estará LiliRoze certa em negar a digitalidade atual? Vale a pena haurir seus portraits e tirar as próprias conclusões.

Exposição AS FABULOSAS CORES DE LILIROZECoquetel de Inauguração: 8 de abril das 19h às 24h. Exposição: De 9 de abril a 12 de maio, no Espaço de Arte Trio – Rua Gomes de Carvalho n°1759, Vila Olimpia – São Paulo. Telefone: 11 3757–3333. Horário de funcionamento: 12h às 15h. Grátis.

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Fahrenheit 451*, Oralidade e Memória


O caixão passa despercebido pela multidão, inerte pelas imagens paralisantes de uma televisão. Uma criança – pois a infância é menos distraída – pergunta aos pais: quem é o morto? O pai responde, sem tirar os olhos entorpecidos: “É a literatura, meu filho. Ela não tem mais lugar nesse mundo”.

Já nos anunciava Ray Douglas Bradbury, escritor da história que deu origem à obra prima de François Truffaut “Fahrenheit 451” (1966) que a televisão nos deixaria órfãos do prazer literário. Embriagados pelo imediatismo dos videoclipes, em poucos anos não só deixaríamos de ler, como passaríamos a repreender aqueles que quisessem passar horas solitárias em companhia de um livro.

As palavras podem soar extremistas, ou mesmo absurdas. No entanto, é inegável a metáfora. Até mesmo nossas refeições são apimentadas pelo televisor. Dificilmente uma pessoa passa um dia sem ligar o aparelho. Postas de lado, as pequeninas folhas tornam-se cada vez mais amareladas, esquecidas na cabeceira. O livro se tornou uma espécie de adorno, mais um item indispensável na decoração de uma morada.

O início do filme já anuncia uma de suas simbologias. Os créditos são lidos por uma voz em off. Não há nenhuma letra, nada que possa ser lido pelo espectador. A primeira cena do filme já demonstra o suspense que irá permear toda a trajetória da película. Um rapaz recebe um telefonema que o alerta do perigo de permanecer em sua casa. Em poucos segundos ele abandona o recinto. Na sequência, uma equipe de bombeiros chega ao local e começa a busca por livros. A primeira referência é uma edição condensada de Dom Quixote. Toda a literatura impressa presente na casa é defenestrada. No meio de uma multidão de curiosos transeuntes, os livros são incendiados pelos bombeiros.

Em nenhum momento do filme fica explícito qual é o país ou a época. Entretanto, trata-se claramente de um regime totalitário no qual as pessoas são proibidas de ler. O único meio de comunicação permitido para os cidadãos é a televisão – fonte de informações nitidamente manipuladas.

O protagonista, Montag (Oskar Werner), é um jovem bombeiro dedicado ao trabalho. No princípio do filme ele não se questiona sobre a natureza de seu ofício, nem entra em conflitos existenciais. Todavia, ao conhecer uma vizinha, a professora Clarisse (Julie Christie), sua vida é posta em xeque. Ela o questiona se ele nunca lê nada daquilo que queima. A primeira epifania do filme é então anunciada – por que se deve incendiar os livros se nem ao menos se sabe o que neles está contido?

A partir desse momento, Montag aproveita suas buscas para guardar os livros em sua casa. Com uma dificuldade terrível, consegue ler as primeiras linhas de David Cooperfield (Charles Dickens). É engraçado identificar o movimento infantil da personagem. A falta de intimidade com a leitura faz dele um analfabeto funcional: é preciso ler em voz alta e pausadamente.

Em contraposição à evolução interna de Montag está sua mulher, também vivida pela atriz Julie Christie. A personagem Linda é praticamente um zumbi. Passa os dias em frente à televisão, absorvendo sem consciência crítica tudo aquilo que lhe é mostrado. Toma diversos comprimidos que a anestesiam dos sentimentos mais sofridos.

Um dos momentos fundamentais para compreender a mente de uma sociedade pautada em televisores é o diálogo entre Montag e Linda. Logo depois da transformação instantânea da personagem principal pela leitura, ambos discutem sobre a importância do livro. Ela demonstra uma profunda ojeriza. Diz ao marido que os livros deixam as pessoas tristes. A essa altura, Montag já se deu conta de que a tristeza é parte integrante e essencial do ser humano.

Montag vê-se, pois, títere do sistema. Incendiar a memória humana já não é mais concebível para ele. O ápice de sua epifania ocorre quando ele testemunha uma velha senhora a preferir ser queimada junto com seus livros do que existir em um mundo desprovido da imaginação literária.

A obra de Truffaut é toda envolta em maneirismo. A inversão dos valores humanos – salvaguardar a cultura e a história através das bibliotecas – é uma forma de lidar com a ambivalência constituinte do humano. O uso dos paradoxos por Truffaut não é apenas intuitivo ou acidental. Colocar as coisas de cabeça para baixo – bombeiros que provocam fogo, pessoas voluntariamente impossibilitadas de ler, livros vistos como armadilhas para a humanidade, etc. – tudo faz parte de um tear chamado Nouvelle Vague, movimento artístico da década de 60. Os realizadores que participaram dessa vanguarda, como Godard em Acossado, tinham como principal objetivo expor a palavra louca.

Talvez o grande triunfo do filme ainda fique para o final. Após o abandono de sua função, Montag descobre através de Clarisse que há uma sociedade alternativa, marginal ao regime totalitário. É a sociedade dos homens-livros. Todas as pessoas que não suportaram a ditadura televisiva formam uma espécie de aldeia onde cada um tem a obrigação de se tornar um livro, decorando-o.

É necessário ressaltar que a origem etimológica da palavra decorar tem o sentido de colocar no coração. Ou seja, em seu signo primeiro, decorar nada tem a ver com o movimento mecânico de ensino.

Sendo assim, os homens-livros têm a missão de memorizar o livro preferido e depois disso queimá-lo, para não serem condenados pelo regime. A beleza da mensagem é simples: nenhuma ditadura pode atingir o coração e a imaginação do ser humano.

Fahrenheit 451 e a Idade Média: aproximações

A primeira consideração diz respeito ao livro. No filme os livros são considerados diabólicos, elementos que retiram o homem do contato com seus semelhantes. É uma oposição à dimensão sagrada que o livro assumiu durante os tempos medievais. Há uma inversão de tudo: bombeiros que incendiam, televisões que educam, livros amaldiçoados. De acordo com Chevalier & Gheerbrant (2002), “o livro fechado significa a matéria virgem, conservando o seu segredo, mas se aberto a matéria está fecunda e o conteúdo é tomado por quem o investiga”.

As casas do filme também requerem uma breve análise: são todas à prova de fogo. Isso pode carregar o sentido de que toda forma é preservada, frente ao conteúdo. Os primeiros livros da Idade Média tinham características semelhantes: como eram objetos muito caros para serem confeccionados, suas capas eram enfeitadas por diamantes. As pessoas gostavam de mostrar os livros como símbolo de status.

A supremacia do fútil, da superficialidade é apontada por diversas ocasiões no filme. Uma muito nítida é a personagem Linda, esposa de Montag. Ela supre suas angústias com pílulas que a retiram da tristeza. Para ela a verdade não tem nenhuma importância, “porque dói”. Outro exemplo é o toque. Em várias cenas é possível ver as personagens a tocar em suas peles, como se o corpo fosse a única fonte de prazer.

Assim como as bruxas foram condenadas por estarem a difamar a palavra de Deus, a enxergar outras realidades inconcebíveis para a Igreja Católica, os livros em Fahrenheit 451 são oráculos da dúvida, do sofrimento, da transcendência. Diz o capitão a Montag: “A única maneira de sermos felizes é que sejamos todos iguais”. O diferente, aquele que tem consciência crítica torna-se demasiado perigoso para os regimes totalitários.

O filme apresenta duas imagens muito belas que dizem respeito à memória. A primeira delas é um dos últimos diálogos que Montag tem com sua mulher. Ele a questiona onde foi que os dois se conheceram. Ela não consegue mais se recordar. A incapacidade de lembrar-se impede a evolução do ser humano.

A segunda imagem é ainda mais nítida. No fim do filme, quando Montag descobre que existe uma sociedade alternativa, na qual as pessoas são os livros, é quase impossível não ter o questionamento: isso é totalmente inverossímel! Nenhuma pessoa é capaz de decorar um livro inteiro!

Só um pesquisador atento pode desconstruir essas exclamações. Apenas alguém que estudou a fundo a Idade Média conhece a capacidade do ser humano de memorização. Decorar – de coração – é algo que há em nossas capacidades intelectuais, embora tenha se perdido ao longo do tempo. Segundo Bradbury (2003):

— […] Todos nós possuímos memória fotográfica, mas passamos a vida aprendendo a bloquear as coisas que estão realmente lá dentro. Simmons trabalhou nisso durante vinte anos e agora dispomos de um método pelo qual podemos evocar tudo o que já tenhamos lido. Montag, algum dia você gostaria de ler a República de Platão?

— Claro!

— Eu sou a República de Platão. Gostaria de ler Marco Aurélio? O senhor Simmons é Marco Aurélio. […] Quero que conheça Jonathan Swift, autor daquele pernicioso livro político, As viagens de Gulliver! E esse sujeito aqui é Charles Darwin, e este aqui é Schopenhauer, este outro é Einstein, e este aqui ao meu lado é o senhor Albert Schweitzer, um filófoso realmente muito gentil. Estamos todos aqui, Montag. Aristófanes, Mahatma Gandhi, Gautama Buda, Confúncio, Thomas Love Peacock, Thomas Jefferson e o senhor Lincoln, se você quiser. Somos também Mateus, Marcos, Lucas e João. […] Somos todos fragmentos e obras de história, literatura e direito internacional. Byron, Tom Paine, Maquiavel ou Cristo, tudo está aqui. (2003, p. 186-187)

O menino que está a guardar o livro de seu tio, em uma das últimas cenas, é uma metáfora para a aparente dicotomia memória/esquecimento. Ele só consegue memorizar as últimas frases porque coincidem com a neve e a morte do seu mentor. O esquecimento é o desejo do menino em eternizar o seu tio, tal como na Idade Média o esquecimento dos poetas não está assim tão distante da memória. Segundo Ferreira (1991), esquecer também faz parte do legado do trovador medieval pois é algo:

que desliza, sob os mais diversos pretextos, nas sequências narrativas, situações em que se mascaram, eufemizam ou simplesmente se omitem fatos e passagens. Deve-se lembrar a questão da seletividade e de como o indivíduo, a comunidade ou o próprio atrito entre eles expulsa os elementos indesejáveis, aquilo que faz explodir a tensão. A dupla esquecimento/memória, portanto, é apenas uma aparente oposição. Numa grande medida, estas oposições são instrumentos conjuntos e indispensáveis em projetos narrativos que dão conta de eixos do conflito.

A oralidade, tanto no filme como na Idade Média, é parte constitutiva da comunidade. É só no grupo de exilados que Montag encontra seu lugar, liberto da ditadura igualitária que paralisa. Jamais seria possível encontrar seu caminho sem estar no mundo com outras pessoas que o compreendessem.

As pessoas que eram responsáveis pelas tertúlias medievais também representavam o arquétipo da comunidade na qual viviam. Segundo Zumthor, “A voz poética assume a função coesiva e estabilizante sem a qual o grupo social não poderia sobreviver” (ZUMTHOR, 1993: 139).

Uma última consideração que aproxima os leitores da Idade Média ao protagonista do filme é o ruminar. Montag precisa ler em voz alta, devagar. Passa os dedos por cima das palavras, como uma criança que inicia a alfabetização. Porque na realidade é uma metáfora: ele está a irromper todo um mundo imaginário, como se fosse a primeira vez – e é.

Não é possível nem necessário imaginar se Bradbury ou Truffaut pensaram em resgatar os antigos ensinamentos da oralidade ou da memória. Todavia, o filme ultrapassa as óbvias análises. Não é apenas um alerta aos perigos totalitários. Não é um hino de amor à literatura, somente. É um filme que toca em nossas potencialidades adormecidas. Desperta das trevas conceitos e símbolos que caminham com a humanidade há milhares de anos. Arde os olhos como o fogo.

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*O título Fahrenheit 451 é uma referência à temperatura que os livros são queimados. Convertido para Celsius equivale a 233 graus.

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O Blog e o Espetáculo

O cadeado é um signo do segredo. Ele tranca, silenciosamente, o recôndito entre as páginas do diário. As confissões mais cruas, a nudez dos sentimentos, a brutalidade dos defeitos. Tudo estava protegido pelas chaves interiores do coração escritor. Durante séculos e séculos foi assim que o protagonista-autor lidou com suas inefáveis verdades.

O íntimo, hoje em dia, abriu as portas ao mundo. O particular atinge quem estiver interessado na leitura. Com o surgimento dos blogs, no final da década de 90, a privacidade perdeu seus contornos. As paredes sucumbiram ao exibicionismo. Os núcleos sigilosos possuem as portas abertas. As algemas da clausura estão enferrujadas. E o palco está inteiramente iluminado. Basta saber se haverá expectadores na plateia. Afinal, todos parecem estar mais preocupados com as suas próprias atuações.

Em pouquíssimos anos de existência – o que dificulta muito uma bibliografia minuciosa do assunto – a blogosfera cresceu em imensa escala. Acredita-se hoje que há cerca de 112 milhões de blogs em todo o mundo.

O que tantas pessoas podem ter a dizer? Será que existe uma distância tão grande assim entre nós? Precisamos manter vivos os pensamentos em procuras do google? “Já que não consigo verbalizar, eu te mando a página do meu blog!” A página do blog fala mais das pessoas do que elas próprias são capazes de expressar. Sendo assim, o blog é sempre uma resposta. Mas, afinal, quem é a pessoa que se contrói no blog? Por quais razões o secreto está brutalmente escancarado em rede mundial?

Debord, em 1967, criou o conceito de Sociedade do Espetáculo. Quase trinta anos antes do surgimento dos diários virtuais, ele vislumbrou desdobramentos inacreditáveis que o mundo iria manifestar.

Recorrer a ele para analisar as marcas existentes nas páginas pessoais é quase instantâneo. Afinal de contas, a construção de um blog com o objetivo de desnudar a intimidade é um sintoma do narcisismo desvairado que enlouqueceu a todos nós:

Não se pode contrapor abstratamente o espetáculo à atividade social efetiva; este desdobramento está ele próprio desdobrado. O espetáculo que inverte o real é produzido de forma que a realidade vivida acaba materialmente invadida pela contemplação do espetáculo, refazendo em si mesma a ordem espetacular pela adesão positiva. A realidade objetiva está presente nos dois lados. O alvo é passar para o lado oposto: a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo no real. Esta alienação recíproca é a essência e o sustento da sociedade existente.

Ao transpô-lo à virtualidade, percebe-se facilmente o que está implícito. Alimentando, dia após dia nossos blogs, podemos inventar nossas próprias vidas, transformando-as em peças muito mais interessantes. Nós, autores, não estamos realmente despidos perante nossos leitores, muito pelo contrário: fingimos a nueza que nos dê contornos mais harmoniosos. Corpos de mentira, espectros daquilo que acreditamos ser mais sedutor para quem nos lê.

As relações humanas tornaram-se um jogo de personas, de aparências mais belas. Os nossos defeitos puderam ser – a partir de fotos felizes e relatos fantasiosos – apagados. O teclado assume o papel de narrador da história que se gostaria de contar. A realidade é feia, cheia de cicatrizes e errâncias.

Debord invade as linhas, conduzindo-nos a aberturas do pensar ainda mais penosas que a existência da representação. Ele expõe que é o espetáculo o grande construtor da realidade, e que a sociedade se pauta naquilo que aparenta para conduzir suas doutrinas e verdades.

Estamos a negar a existência de nós mesmos por qual motivo? Por que nos é tão assustadora a incapacidade de sermos perfeitos? Por que o palco e a plateia clamam por tamanha energia? A incompletude é inerente ao humano. Talvez a fragilidade não deva ser negligenciada. A sombra é essência. Ora, o horrível negrume dos defeitos! Ele merece ser esquecido?

Da mesma maneira, essas falsas verdades estão em constantes modificações. A cada novo amanhecer, as descobertas são supérfluas e desprezíveis. Basta um piscar de olhos para que um comportamento saia de moda e outro tome seu lugar. A mídia eletrônica reformula as notícias de acordo com a apreciação do público. Nas palavras de Calvino:

Vivemos debaixo de uma chuva ininterrupta de imagens; os mais poderosos meios não fazem senão transformar o mundo em imagens e multiplicá-los através de uma fantasmagoria de jogos de espelhos: imagens que em grande parte estão privadas da necessidade interna que deveria caracterizar toda a imagem, como forma e significado, como força de impor à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte desta nuvem de imagens dissolve-se imediatamente, tal como os sonhos que não deixam marcas na memória; mas não se dissolve uma sensação de estranheza e mal-estar.

Porque essa sensação de estranheza fica sempre em nós? O estrangeiro nos pertence? Por que tudo se dissolve com a mesma facilidade que cria a matéria? E o homem líquido é também paradoxal: deseja uma solidez de resposta. A humanidade que somos clama por raízes e segurança. Mesmo que o amanhã as apague. É só deletar o blog e o passado morreu. Facilmente se encontra uma imagem mais bonita que ilustre a irrealidade teatral. Afinal de contas, o que é a memória na sociedade espetacular?

Uma das contradições mais engraçadas que se pode encontrar, na análise de um blog pessoal, diz respeito à linguagem. Em sua maioria esmagadora, os artigos são de uma pobreza semântica inacreditável. Além das abreviações típicas do mundo virtual (vc; aki; kd; etc.), vemos uma infinidade de erros gramaticais e problemas ortográficos. Por que será que os atores principais dos blogs não têm esse tipo de preocupação? A língua está obsoleta? Uma imagem vale mesmo mais do que mil palavras? “Diga isso sem usar palavras”, diria Millôr Fernandes.

Ora, é claro que sim! Muito mais importante é estar vestido adequadamente, ter as unhas devidamente cortadas, os cabelos iluminados por cremes caros. A maneira de falar ou escrever é irrelevante, se o corpo está em forma. Em blogs pessoais, mais vale que o autor seja fotogênico, que tenha bons vídeos, que saiba entreter seus leitores. Ele está, então, anos luz à frente de um autor preocupado com as miudezas da escrita.

Somos, assim, vítimas e protagonistas do espetáculo. Escolhemos livros pela beleza das capas. Acreditamos nos programas televisivos como se realmente os jornalistas fossem seres desprovidos de opiniões e tendências. A nossa avidez por novidades é incalculável. E o blog não é diferente disso tudo: é apenas mais uma triste fotografia do planeta, na era pós-moderna.

Será que os pretensos escritores dos blogs pessoais estão fartos de não pertencer ao nefário espetáculo que é o mundo? E esse sentimento de infelicidade, de ter apenas uma vida normal pode enfim ser aniquilado, com postagens megalômanas?

Contudo, seria imensamente triste se existisse uma homogeneidade nesse universo, se toda e qualquer página possuísse as mesmas intenções. Nem só de figurantes fantasiosos vive a blogosfera. Nem todos os autores gostam de se expor deliberadamente. Não é porque o espetáculo tomou conta do mundo que não se pode tirar proveito disso.

A comunicação virtual dá espaço para pessoas que sonham em publicar seus livros. Infelizmente, as editoras estão mais interessadas nas vendas do que na qualidade dos textos. É muito provável que sejamos privados de grandes escritores, todos os dias, pela falta de competência do mercado editorial.

Claramente não é possível afirmar que os donos de blogs literários sejam mais evoluídos que os outros, nem que superem a sociedade espetacular. Todo autor precisa do público para existir. No entanto, o público não pode ser regente do autor: quem escreve deve ser maestro de si mesmo, dir-nos-á Nietzsche:

O pensador não necessita da aprovação e dos aplausos, desde que esteja seguro de seus próprios aplausos: desses não pode prescindir. Existirão pessoas que dispensam esta ou aquela espécie de aprovação? Duvido; e mesmo dos mais sábios dizia Tácito, que não era nenhum difamador de homens sábios: “ainda para os sábios o desejo de glória é o último que desistem” – o que nele significa: nunca.

A imensa diferença entre um blog com vontade de ser livro e um blog pessoal é o conteúdo. Um deles assiste ao espetáculo e sucumbe às montras. Conta-nos histórias privadas sem critérios pré-definidos. Expõe suas entranhas na rede. Espera pelo aplauso. Utiliza-se de um linguajar pobre. Desabafa, exibe e destranca os velhos cadeados do diário.

Os blogs literários não estão imunes ao palco. Pelo contrário, eles aproveitam-se dessa enorme vitrine que é a rede para divulgar seus trabalhos, quase como um curriculum vitae.

Temos, por fim, duas verdades inexoráveis. O formato de blog vai se multiplicar cada vez mais, até mesmo como recurso jornalístico. E o palco irá permanecer aceso, gigante, louco por plateias. Cabe a cada um de nós utilizá-lo como janela para apreciações mais profundas, mais pautadas em conteúdo.

Se há nos homens a consciência do Espetáculo, fica muito mais fácil avaliar quando somos engolidos pelo jogo narcísico. E não se pode agir com pessimismo, neste caso. Devemos iluminar o lado bom. Quantos músicos, quantos escritores, quantos pintores nossos olhos poderão conhecer, com a democracia virtual? A ideia de que a nossa sociedade é a primeira capaz de superar a ditadura dos meios artísticos é maravilhosa. Eu também sonhei em ser um livro. Utilizei esse pequeno espaço para alcançar o tão esperado papel. E repousarei meu epitáfio no interior da livraria.

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Autoajuda e Poesia


*Foto: Marcela Lalim

As prateleiras ficam, a cada dia, menores para eles. Seus autores acumulam milhares de milhões de dólares pelo mundo afora. Homens e mulheres correm em desespero atrás das palavras otimistas: anseiam pelo acalanto que venha através das mágicas fórmulas. Enquanto a humanidade sente-se órfa de Deus, a autoajuda reina solitária. Aproveita-se muito bem do vazio espiritual que há.

A célebre passagem do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “Deus está morto!” embora já tenha sido questionada e revisitada inúmeras vezes, encaixa-se perfeitamente na análise cultural da autoajuda. Infelizmente não ocorreu o que Nietzsche esperava. Os homens não aproveitaram a morte de seu criador para repensar os valores morais e éticos das novas sociedades. Não fomos capazes de utilizar a filosofia como condutora da nossa liberdade. Apenas substituímos Deus por nós mesmos – e cada um é livre para construir suas doutrinas.

O conceito em questão não tem raízes contemporâneas. O primeiro livro encontrado nessa categoria data de 1859, escrito pelo autor inglês Samuel Smiles. Self Help é baseado em feitos pessoais e descrições de pessoas cujas vidas foram bem sucedidas. Aliás, sucesso é palavra chave para a sociedade moderna. Perseverança, conquista, força de vontade. Os grandes chavões nunca tocam a necessidade da tristeza ou do sofrimento. O caminho para apanhar o estrelato não pode ser acompanhado de fraquezas. O homem precisa engolir o choro, abandonar seus medos. Só assim será uma grande estrela, no universo dos triunfos.

A crescente perda da ligação com o Cosmos tem auxiliado muito esses mercados. A agência Marketdata estima que o mercado da “Auto-Melhoria” movimentou cerca de US$11 bilhões em 2008. São palestras, livros, vídeos, catálogos, treinamentos e cursos destinados a grupos. Tudo em prol do auto desenvolvimento.

As pílulas da felicidade instantânea são espalhadas como as pestes, nos precários tempos de outrora. Todos os meios são justificáveis para Vencer. No entanto, a procura por medicamentos que aliviam as angústias tem crescido em progressões geométricas. Sentir-se entristecido tem sido compreendido como doença. O sofrimento – embora seja parte essencial de nossa evolução – é tragédia iminente. O fracasso não pode ser tolerado.

Pensamentos como os de Shri Swami Tilak, podem ser facilmente encontrados em sites de autoajuda: “O sábio e o ignorante, ambos vivem no mundo. O sábio sabe como diferenciar o verdadeiro do falso, enquanto o ignorante confunde um com o outro. A causa do sofrimento não é o mundo, mas a nossa atitude perante o mundo.”

Será que realmente o sábio distingue com maestria o verdadeiro do falso? A felicidade é possível de ser alcançada, a partir de exercícios repetitivos e metodologias plagiadas? Como pode existir uma ajuda de si mesmo se o humano é ontologicamente um ser com os outros? Não estamos rodeados por uma infinidade de convicções? É possível que, para além da orfandade divina, estejamos também carentes das imagens poéticas? Baudelaire, nos dirá, em seus Escritos Íntimos:

É por não ser ambicioso que não tenho convicções, como as entendem as pessoas do meu século. Não há em mim nenhuma base para convicção. Há sempre uma certa covardia ou moleza nas pessoas de bem. Só os aventureiros têm convicções. De quê? – De que têm de vencer. E por isso vencem.  

Um enorme silêncio atinge então o coração do leitor que busca ajudar a si próprio. Será que vencer existe? E, em caso afirmativo, o êxito traz plenitude ao existir? Não seremos meros títeres, em palcos absurdamente artificiais? Cabe a nós seguir o caminho do Olimpo?

Talvez a fragilidade não deva ser negligenciada. A sombra é essência. Ora, o horrível negrume dos defeitos. Ele merece ser esquecido? A verdade dos poetas desanuvia. O pecado confessado aquece. E o desconhecimento de si faz ninho.

Manoel de Barros, poeta brasileiro, sempre buscou a inspiração nas lesmas e nas rãs. Viu a si como um filho do Universo. Seus poemas retratam a ligação cósmica da qual estamos privados. Ao lermos Auto Retrato Falado, confrontamo-nos com a mais pura fragilidade: “Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo”. Um líder motivacional utilizaria esse verso para personificar um verdadeiro perdedor. A poesia não poderá jamais recrutar jovens que aspiram ao sucesso. Quantos defeitos encontramos em suas palavras! Quanto medo, quanto desespero pode estar contido em uma estrofe. A obra escrita muitas vezes leva-nos ao escândalo. Maurice Blanchot, em um dos seus ensaios compilados em O Livro Por Vir, diz que “a arte nos oferece enigmas mas, felizmente nenhum herói.” Sutil e silencioso, o ensaista francês traduz a arte como um quebra-cabeças infindo. Feliz será o anti-herói? Ou ainda: não estamos a viver enclausurados em uma figura idolatrada que não nos pertence? Não seria demasiado perigoso irmos atrás da perfeição? Blanchot continua a esclarecer a obscura relação do homem com a poética, esclarecendo-nos a questão:

O que pode ensinar-nos a obra de arte acerca das relações humanas em geral? Que espécie de exigência nela se anuncia, de modo que não possa ser captada por nenhuma das formas morais em curso, sem se tornar culpado quem a ignora, nem inocente quem pensa realizá-la, livrando-nos de todas as injunções do “Eu devo”, de todas as pretensões do “Eu quero”, para nos deixar livres? Entretanto, nem livres, nem privados de liberdade, como se ela nos atraísse a um ponto onde, esgotado o ar do possível, oferece-se a relação nua que não é um poder, que precede até mesmo a toda possibilidade de relação.

A arte é, pois, tomada pelo caos? Não, as palavras de Blanchot habitam outras configurações. O que ele quis deixar claro é a soberania da arte sobre a Humanidade. A linguagem artística transcende nossas formas de organização. E ao mesmo tempo não sucumbe aos devaneios de anarquia. Porque é de harmoniosa relação com o Universo. De quais discursos necessitam os rebanhos humanos? Quais as mitológicas criaturas devemos seguir? Obedeceremos aos autarcas? Seguiremos os conselhos oferecidos em palestras de autoconhecimento? Nossos ouvidos incorporam os cultos motivacionais? Blanchot também se interrogou acerca disso. E nos adverte sobre o poder mudo que as palavras infligem:

No mundo, a linguagem é poder por excelência. Aquele que fala é o poderoso e o violento. Nomear é a violência que afasta o que é o nomeado, para ter sob a forma cômoda de um nome. Nomear é o que faz do homem essa estranheza inquietante e perturbadora, que estorva os outros seres vivos e até mesmo os deuses solitários que dizem ser mudos. (…) Somos tentados a crer que a linguagem do poeta é a do mestre. Quando o poeta fala, é uma fala soberana, fala daquele que se lançou no risco, diz o que jamais foi dito, nomeia o que não entende, apenas fala, de modo que ele não sabe o que diz.

É preciso analisar as palavras de Blanchot com cautela. Primeiro, ele aponta para a poderosa capacidade da linguagem. A fala move o mundo e domina as relações entre os homens. Todavia, estamos a condicionar essas relações em formas verticais: há sempre o mestre, o detentor da palavra; há sempre o servo, o ser desprovido de uma caligrafia própria: analfabeto do mundo que habita. A servidão não tem mãos nem olhos: só é convidada a ouvir.

Apesar disso, a autoridade verdadeira sobre o mundo não é dos mestres. Os guardiães do mundo são poetas. Sim, ele dirá, os poetas, estes duendes, estes seres da Natureza. Inúmeras vezes não compreendem o que escutam, entorpecem-se em irreais imagens que povoam seus olhares. Seus dedos, suas penas, suas máquinas de escrever, contudo, não se paralisam diante das incompreensões.

Roland Barthes também foi um pesquisador das imagens poéticas. Em Le Degré Zero de l’Écriture, ele nos convida a mergulhar no oceano que se abre entre o leitor e a obra. Há um passado na imagem? O leitor escuta passivamente o livro?

A palavra poética é aqui um ato sem passado imediato, um ato sem contornos, e que propõe apenas a sombra espessa dos reflexos de todas as origens que lhe estão ligadas. Assim, sob cada palavra da poesia moderna jaz uma espécie de geologia existencial, em que se reúne o conteúdo do Nome, e já não o seu conteúdo eletivo, como na prosa e na poesia clássica.

É possível que o leitor seja um co-autor da obra? Como o livro está aberto? Que tipo de ligação pode haver entre esses dois seres, separados pela língua, pelo tempo, pelo espaço?

Nem todas as pessoas estão aptas para essa reunião. Estamos sempre a conferir signos inconscientes e mensagens subliminares em tudo o que nossos desconfiados olhares enxergam. Revelar o mistério é, muitas vezes, procurado por nós. Não entendê-lo como parte indivisível do poema. Uma busca por interpretações complexas, explicações plausíveis. E a perda é inestimável: a imagem é viva e mutável. Seu único valor está no inefável.

Segundo Gaston Bachelard, em Poética do Espaço, um fenomenólogo autêntico, como são todos os artistas, não consegue perceber uma poesia de forma psicanalítica. Não há causas nos versos, as estrofes negam origens. A imagem não existe para julgamento, se o objetivo é acessá-la. A poesia nunca é reduzida às condições psicológicas de seu criador. A insanidade, presente em grande parte do mundo das artes, nada diz da obra. Não se deve encaixar a poesia em diagnósticos prematuros e infundados. Apenas olhemos para ela. Admiremo-la. E deixemos que ela possa chegar ao seu destino. O destino de todas as poesias é percorrer o sangue do seu leitor.

A Humanidade não estaria melhor nas mãos dos poetas do que na ditadura imperativa da autoajuda? Não estaríamos nos desenvolvendo mais como seres humanos se assumíssemos o grande horror do desconhecido? Dir-nos-á Avicena, citado por Octavio Paz em Versiones y Diversiones: “Um homem não sente dificuldade em caminhar por uma tábua enquanto acredita que ela está apoiada no solo; mas ele vacila – e afinal despenca – ao se dar conta de que a tábua está suspensa sobre um abismo”. 

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