Por que há poesia em mim…

Notícias da Ilha

Findo o espanto
Passado o entorpecimento
Trazido pelos calmantes
Doces analgésicos da alma
Resta-me a perplexidade.

Quando deixarei de me surpreender
Com as lutas travadas
Entre a vida e a morte?
Mas a vida, meu irmão,
Vence sempre
Mesmo quando a morte
Rouba-nos o corpo.

Descansa
Ainda é cedo para despertar.
Enquanto dormes
Teu sono invadido pela eternidade
Eu te velo
Como velei nosso pai.
Entoarei cantigas de ninar
Para afugentar os pesadelos e as sombras.

Tua presença ainda está dispersa pela ilha.
Solta pelas esquinas, ruas, bares.
Vejo-te, às vezes,
Acompanhando teu cachorro
nos passeios de fim de tarde.
Ouvi tua voz rouca
No vento sul impiedoso
Que varreu a cidade
No dia da tua morte
E te reconheço nas bandeiras rubro negras
Que vestiram o Maracanã
Após o teu enterro.

Sei que estás presente
Em tudo
O que chamamos vida.
Nas tuas netas que nascerão
Nas histórias que contam a teu respeito
E nos segredos que guardamos.
A vida não se gasta, meu querido irmão.
O que se perdem são as ilusões, os apegos
Para podermos partir mais leves.

Ah, quando seremos educados pra viver
Em vez de perdermos tanto tempo
Com conhecimentos inúteis.
Faço de conta que estamos viajando
Por países diversos e que, em breve,
Trocaremos cartões postais.

Quando despertares, não te assustes
A vida continua sempre.
Se sentires medo, reza
Como aprendeste a fazer
Nos últimos tempos
E verás que luzes coloridas romperão
Os espaços a te abraçar.
Se te sentires só, visita-me
Nunca temi os espíritos,
E serás sempre bem vindo.

Miriam Portela

 

Vivi séculos de fome e cilícios

 

Vivi séculos de fome e cilícios.

Vivi vidas de fausto e opulência.

Vivi a fartura, o êxtase, o sagrado.

Através de ti, todas as primaveras se

anteciparam, todas as colheitas,

os frutos acres e maduros; as neblinas,

os serenos, as madrugadas se ofertaram.

Em ti, vivi o momento cósmico da expansão

dos corpos sólidos.

Ensinaste-me o fogo e ele me consumiu…

Ensinaste-me a saliva e ela me saciou…

Ensinaste-me os suores e eles invadiram os

poros de prazer.

Tu me mostraste

como se mata a sede na concha das mãos e

teceste em minha pele, desvios de rotas.

Tu arrancaste de meu rosto as máscaras

ardidas de dor e me devolveste um rosto sem

rictus.

Tu me revelaste a simplicidade das formas e eu

redescobri a inutilidade de todos os meus

adereços.

Miriam Portela – Nos Mares de Vênus

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1 comentário

Arquivado em Outros poetas

Uma resposta para “Por que há poesia em mim…

  1. “Mas a vida, meu irmão,
    Vence sempre
    Mesmo quando a morte
    Rouba-nos o corpo”

    are u really sure about that? the life wins everytime? or is just a kind of illusion? or is a container? a illusionary container? a container of something fake. i don’t have any sureness, but i’ve my doubts that the life wins everytime.

    Curtir

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