Dividir os domingos

“O que um dia vou saber, não sabendo eu já sabia” Guimarães Rosa

Quando o amor, enfim, feneceu em mim, tive a certeza de que já não me apaixonaria mais. Uma mistura de liberdade com esmorecimento, de alegria e desespero. Páginas brancas finalmente povoavam os meus sonhos, antes escritos em nanquim e escarlate. Aquela cama que jamais seria bagunçada de novo. Os olhares, negros em maquiagem, que deitariam molhados no travesseiro, gélido.

Eu já me prometi que o amor seria a última das bobagens a me chatear, nessa incansável solidão.

Contudo, ao ser convidada para revisar esse livro, confesso que me senti ofendida pela vida. Por que seria eu a pessoa a corrigir seus erros, se o maior deles era escrever sobre o amor? Eu nunca soube escrever sobre o amor, Bruno. Eu estarreço de cólera em ser piegas, óbvia, redundante. Nunca acreditei que o viver deva ser sentenciado pela palavra.

Entre delírios de Clarice, sussurros de Paulo Mendes Campos e estalos dos meus próprios dizeres, aceitei esse trabalho. Afinal, esse amor durou só uma estação! Como poderá atar-me a todos os meus invernos?

Você brinca com os olhos que se fecham para descer aos sorrisos da amada. Como se os próprios olhos fossem capazes de se encantar com as tessituras infantes. E você me alerta sobre o quão difícil é carregar uma saudade, sozinho. Ah, Bruno, será que existem saudades compartilhadas?

Fui, inebriada, entre os clichês, inevitáveis, e as paisagens, inusitadas. Com as ressalvas de proximidade ao leitor. Encontrei-me com dias cinzas que se pensavam azuis. Em cada verso, a cada vogal, a cada reticência inconformada do seu texto, eu me percebia romântica. Eu deitava fora minhas amarras infelizes. A quem posso ofertar, agora, esse silêncio que transborda, sem angustiar meu interlocutor?

Já sou capaz de ensinar plenitudes…

Quando acabei, tive sede de chuva. Será que o tempo muda de nome com o amor? Esta pergunta, que ainda me inspira, só se agiganta, ao terminar a obra. Gostar é dividir um domingo, você me explicou. Foi uma honra dividir um domingo contigo.

Link para o crowdfunding do livrohttps://www.catarse.me/brunofontes

 

 

 

 

 

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Quimeras de farol

“A minha solidão é maior que teu silêncio”, disseste-me, há pouco, com os olhos em dilúvio. Ah, Pedro, se tu soubesses como eu sei! A tua solidão nasceu do meu vazio, amor.

A tua avó sempre me disse que o mar me habitava, dentro da barriga dela. Eu, na felicidade estúpida, infante, nunca vislumbrei o óbvio: o mar é a nossa primeira morada, sempre. Não há humanidade sem o líquido ancestral, pois.

Embora eu já tenha te contado tantas referências sensíveis, tantas dores que me trouxeram à condição de poesia, talvez o mar as inaugure todas. Não há mundo antes das águas, Pedro. Todo silêncio prepara o estouro das ondas.

O mar mora dentro de mim, Pedro. Primeiro, nas minhas lágrimas de sal e comiseração. Em sonhos aquáticos, em dúvidas postiças, em serenatas de ressaca. Mora, filho, o júbilo pelos azuis, a estranheza frágil que me suporta, frente às mares.

Mas tu precisas saber que a mudez é o despertar da imaginação. Não existiriam tantas galáxias, dentro de ti, se não houvesse este surdo chamado para os teus próprios oceanos.

A Mamã também soube brincar de enclausurar a voz. Este exercício de contar as histórias para a alma. O abandono dos alardes é o berço dos mergulhos, meu querido. Tu, que querias ter nascido água para ressuscitar os meus naufrágios! Por que te pensas merecedor de cais, Pedro?

Pula com força nestes teus silêncios. Acolhe a efemeridade das tuas marés. Abandona esta súbita vontade de dizer, antes de tudo. A palavra, quando calada, reverbera nas vísceras. Não há poesia tagarela.

Dilacera-me te mostrar a solidão. Grandes são os desertos e tudo é deserto, diria Pessoa.  Mas são maiores os nossos sonhos, quando inauditos. Quando despertares para a grandeza das estrelas, tua dor se unirá ao Universo. Poderás, enfim, cantar quimeras de farol.

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Que invisível se vê…

“Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.”

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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Sonhatório

 

O carnaval nunca foi teu feriado preferido. Sempre me disseste que teu mundo acontecia doze dias antes dele, ou apenas quando ele se ia embora e o ano finalmente começava no Brasil. Acho que odeias o carnaval porque odeias o meu pai. E ele é fruto de uma noite mascarada em teu verão.

Meu pai nunca foi um homem comum. Éramos como estranhos que se comunicavam por sonhos. Havia qualquer cousa que nos afastava. Eu percebo a estranheza da ausência, a vertigem de ver a si, em olhos de outrem. Mas as nossas demoras derivavam de outros escândalos.

Houve, pois, um dia em que descobrimos nossa afinidade. Morávamos, na altura, aquela casa, em Alfama. Um rés-de-chão duplex. Tu sempre gozavas, mamã, da nossa verticalidade para baixo. No entanto, foi lá que tivemos a inventar o sonhatório. E a colecionar todos os sonhos do mundo.

Era segunda-feira, como qualquer outra poderia ter sido. Mas Papá havia sido demitido do trabalho, em Lisboa. Não imaginava que aquilo precederia nossa viagem ao Brasil e à vossa brutal separação. É engraçado como um dia tão feliz possa antever a tragédia. E que nunca estamos imunes à tristeza, nem abençoados pelo céu de churrasco da minha terra.

Papá chegou, olhos marejados, distantes, como se visse o Tejo para sempre. O azul desferia uma beleza improvável. Os olhos de Papá estavam ainda mais azuis, por causa das lágrimas. Eu, com as minhas mãozinhas pequenas, afastei a dor dele. “A cada milágrimas sai um milagre”, cantei.

Declamar com os olhos é algo que a genética me trouxe. Como é vulnerável estar com os olhos a recitar as vísceras! E papá se encheu de oxigênio para impedir que lêssemos as mesmas poesias melancólicas.

O sonhatório foi o nome que ele deu, para nosso jardim. Ensinou-me que era um sótão às avessas, pois não havia janela para ofuscar o horizonte; assim como deveriam ser os sonhos. Descortinados. Infindos. Vingativos.

Pois. Para o meu ídolo, sonhos são vinganças pacíficas que travamos com a vida. Quando a vida se põe a nos fazer chorar, há-se de sonhar. E sonhar estratosferas, universos, galáxias. Vingar-nos de nossa condição.

Perdi meu sonhatório quando o Carnaval de vocês acabou. E jamais consegui me vingar novamente da vida. Então, aceitei a Poesia como segunda vingança. Só a Poesia é senhora do mudar, a partir deste dia, Mamã.

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Sexta-feira

Sextas-feiras são os dias mais bonitos da semana. Tu chamas os amigos para vir a beber uns copos na nossa morada. Eu penso nas interpretações incríveis que lhes posso fazer, para adentrar essas noites contigo. Preparo poesias, ensaio canções, busco fantasias no fundo dos armários, repletos de poeira, e salvação. Não durmo nas quintas anteriores.

Tens um amigo, bêbedo, insuportável, que me vê como um puto paneleiro. Eu só quero deitar a noite na companhia dos realejos. Porque é que te importas com esse tipo de gente, acéfalos em dores de sentir? Talvez exista qualquer inveja que pulse em ti, da qual eu não percebo nada. Tua dor é o teu dom mais belo, mamã.

Quando temos sapateira, tu sempre dizes que é a comida dos deuses. Eu imagino os deuses se lambuzando, perdendo as realezas para lambidas mundanas. Gosto de pensá-los assim: enobrecendo as mãos em saliva. Tu só és feliz ao comer as sapateiras. Porque não gostas de te alimentar, Mamã?

Detestas que os pratos, sujos de histórias e risadas, fiquem à mesa, para contar as decadências. Eu os lavo, feliz, à espera das tertúlias improvisadas. Nessa hora o amigo agressivo vai-se embora. Ele não tolera os dizeres da poesia.

A guitarra está sempre a postos, na nossa sala de estar. Os brasileiros a chamam de violão. Eu amo as palavras inventadas pelos brasileiros. Eu te amo tanto, mamã.

Um Vinícius de Moraes para inaugurar os trabalhos. Fazes sempre essa piada, à luz da Umbanda. Proíbes teus convidados de tocar Garota de Ipanema. A seguir, como é óbvio, tuas cordas vocais ameaçam um português de Portugal – ridículo – porém amado, ao recitar o teu Pessoa: “canções tristes, como as ruas estreitas, quando chove.”

Teus amigos são seres de uma arquitetura imaterial. Sabem à cachaça, aos versos, à eternidade! Estão, às vezes, embriagados demais para sucumbir à tua força de anfitriã. Todavia, mostram suas garras, sempre bem-vindas. Esparramam, cuidadosamente, gentilezas absurdas, obviedades advindas, ignorâncias delicadas. Eu também vos amo, mamã.

O silêncio, quando reina em nossa casa, dilacera meu sorriso, infante. Cálices encarnados, pedaços de queijo pelo chão, palavras escritas em papéis, sujos de vinho. Eu pego, com as mãozinhas envergonhadas, os dizeres que ficaram. Para a próxima sexta-feira.

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O mito de Faetonte à luz da contemporaneidade: uma breve análise dos jovens líderes

“O mito nos oferece, sempre aludida, a plenitude e o sentido, de modo que toda atividade humana, até os menores gestos, aparecem carregados de significação e ligados a algo enormemente importante que se apresenta atrás de cada realidade.” Paul Ricœur

O mito é uma linguagem que organiza a vida, embora muitas vezes não saibamos o significado de suas origens. Identificamo-nos com eles de forma quase intuitiva, desprovida de racionalizações. Por isso, o mito é uma imagem esclarecedora, irrenunciável do autodesenvolvimento.

Neste artigo, pretende-se vincular o mito de Faetonte à era da liderança prematura, clarificando o poder das imagens mitológicas ao entendimento dos cenários atuais.

Faetonte era filho do deus Hélio com a ninfa Climene. Ao nascer, o Deus Sol prometeu à mãe da criança que jamais negaria a realização de um desejo ao filho. Na adolescência, depois de exaustivos questionamentos do jovem, foi revelada essa parte importantíssima de sua narrativa. Quando descobre a identificação paterna, Faetonte resolve ir conhecê-lo, para provar a sua ascendência divina.

Ao chegar no suntuoso palácio, onde jamais existia a escuridão, Faetonte se pôs a imaginar como seria dirigir a carruagem de seu pai, composta por imponentes corcéis, que levava a luz, os dias e as noites a todas as regiões do planeta. A fascinação de estar à frente daquele veículo o consome por inteiro. Ele, então, pede ao pai que o permita pilotar, apenas por uma vez.

Hélio não pode negar o desejo do filho, pela promessa feita à sua mãe. Todavia, ele alerta o jovem dos perigos da vertiginosa trajetória, explicitando suas próprias dificuldades e medos. Hélio, preocupado, diz que ele não terá maturidade para dirigi-lo. O jovem insiste. Nenhum conselho o impediria de navegar pelo céu magnífico que se abria no horizonte.

A tragédia estava anunciada. Ao subir na carruagem, os cavalos já pressentiam a diferença de peso do seu condutor. Poucos foram os momentos de glória, para Faetonte. Alguns instantes de completo êxtase, ínfimos, perto do desastre. Ele perdia, a cada segundo, o controle sobre os poderosos corcéis, desequilibrando-se nas alturas. Cada lugar pelo qual passava sofria as consequências de seu voo irresponsável.

Após quase destruir toda a uniformidade da Terra, Zeus é impelido a matá-lo, com um de seus desconcertantes raios. Seu corpo foi, como um meteoro, até o fundo do rio Erídano. Lá, diz o mito, suas irmãs erigiram um túmulo, em homenagem à sua ousadia juvenil.

Quais ensinamentos este mito pode nos trazer, no contexto do século XXI? Como podemos nos apropriar dessa história, na busca pelo autoconhecimento? Onde vemos Faetontes e Hélios, transformados em pessoas de carne e osso?

Uma consideração fundamental acerca desse mito diz respeito à figura paterna que percebemos atualmente. O pai – culpado pelo excesso de trabalho e pelo contato reduzido com seus filhos – escolhe não impor limites como parte da educação. O medo ao desamor de seus descendentes o torna escravo de caprichos desajuizados. Deixá-los passar por experiências para as quais não estão preparados.

A impossibilidade do não é terrível na construção psicológica de uma criança. O sentimento de onipotência será cruelmente aniquilado no futuro, caso não seja estipulado desde a tenra infância. Conhecer a insuficiência e deparar-se com os próprios defeitos é imprescindível para degustar alguma sabedoria, ao longo da vida.

Não houve, para os jovens líderes, uma educação que reivindicasse o limite como aprendizagem. Os pais, apavorados com o fantasma do desamor, delegaram às escolas a transmissão de valores e a construção da cidadania. Mas, ao livrarem-se da culpa, esqueceram-se de que o papel do ensino formal não supriria a orientação parental, no que concerne à vivência da restrição.

O medo de não ser amado pelos filhos, traz-nos, agora, um nítido retrato da geração que chega à liderança nas organizações. Estes jovens não se defrontaram com as sábias frustrações limitadoras. Na ausência do limite o jovem se sente capaz de conduzir o carro do Sol, produzindo catástrofes inimagináveis.

As empresas, portanto, tornaram-se o lugar onde os jovens recebem, pela primeira vez, a percepção de impossibilidades. São obrigados a se deparar, subitamente, com a própria falibilidade. Isto tem sido um dos maiores desafios para as organizações. Como é possível ensinar tardiamente a necessidade de impotência? Como a carreira desses jovens será traçada, em suas expectativas insustentáveis de grandeza?

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Quiçá

A gente devia parar todo dia e ver o pôr-do-sol
A gente saia correndo de alegria
Só de ter dez minutos mais com quem a gente ama
Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro
Mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
Cada bicho encontrasse um lar
E toda mãe fosse, sim, muito mãe

Dizer mais sim do que não
E que não faltasse pão
E fosse lindo de ver o rio tietê
Tivesse um medo pequeno
E fosse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso
Abre um riso que de dor já chega a do mundo, amor

Que fosse mais bike que carro
Mais abraço que esbarro e mais horas de colchão
Cada tartaruga chegasse no mar
E cada bicho encontrasse
Um lar e toda mãe fosse, sim, muito mãe
Dizer mais sim do que não

E que não faltasse pão
Fosse de lindo de ver o rio tietê
E fosse um medo pequeno
Tivesse um amor tão sereno
Ser feliz até o ultimo fio de cabelo
Se for caso de ser indeciso abre
Um riso que de dor, já chega a do mundo
Que de dor já chega a do mundo, amor

Larissa Baq, essa artista incrível que tive o privilégio de escutar no meu último sarau

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