Dezembro 9, 2009

Realizado!

Dezembro 9, 2009

Sobre cataventos


Estou farta da escrita rebuscada. Alheia às difíceis palavras adultas, às jornadas maduras, à literatura anciã. Eu só quero, esta noite, estar no colo de uma poesia criança que ensope os devaneios em simplicidade.

Luto árdua e diariamente contra tudo o que carregue etiquetas. Muitas vezes a batalha é desleal, posto que creio no efeito das dificuldades. Só que agora me dei conta – porque sou uma pessoa perlongada – de que nada vale poeticamente senão em nudez absoluta. A sabedoria é crudívora.

A poesia verdadeira mora em minha casa de bonecas. Seus versos miudinhos têm dedos curtos demais para acertar uma trança em simetria. No entanto, ela alcança com precisão os nós dos cadarços coloridos.

Suas estrofes são floreadas por estalos, brotos de maria-sem-vergonha. Têm olhos descerrados, rebentos. Como se a inocência tivesse sido violada por outonais crepúsculos. E, ao mesmo tempo, está acorrentada à dor infante da eternidade. 

Ela anda a embebedar-me em longínquas viagens pelo chão do quarto. Para meu espanto de gente grande, não há silêncio ou solidão que a incomode. São, ao contrário, parte dos cenários, essência dos castelos, eixo dos bichos inventados. Porque não é trânsfuga da sua condição. Esses medos não habitam os hemisférios pueris. Brincar desacompanhado é catavento. Só é preciso um sopro para existir vida.    

Procuro perscrutar o que a poesia menina balbucia. E ela não responde mas açucara as minhas imagens. Depois, exausta de perder-se em bosques instransponíveis, adormece. Prefere dormir com o estrepitar da chuva. Não pela obviedade do ninar – essa melodia lugar comum – mas porque sabe que na chuva há companhia para atravessar os escuros.

Vejo-a resfolegar o mundo onírico. Descubro sua pele. Ela está repleta de machucados azuis. Aqueles que se aperta com prazer para recordar que algumas dores são doces. E que, passado um segundo, não doem mais.

Tento tocá-la. Imediatamente esquivo-me. Sinto-me desguarnecida. A meninice poética assusta mais do que o espectro do envelhecer. Assim, ela escorrega de mim em cambalhotas e carrosséis. Eu aceito sem questionar. Pois sei. O dia em que meu escrever atravessar o oráculo da infância, estarei pronta para deixá-lo. 

Dezembro 2, 2009

Minha verdadeira musa

Já confessei, outrora, que a minha paixão pelas poesias começou com os velhos cadernos encapados de minha mãe. Quantos poemas eu não roubei daquelas páginas! E hoje ainda sonho em ter um milésimo dessa intimidade. De presenciar ao menos um encontro, como os dela com as palavras…

O Hóspede – Miriam Portela

Mora em minha casa

um poeta louco

cansado de seus excessos.

Nos seus desvarios

ele me fala de aventuras e de sonhos.

Nos momentos de lucidez

descreve territórios e pátrias

em que já viveu.

Mora em minha casa

um poeta velho

exausto de eternidade.

Na sua loucura mansa

cultiva canteiros

de girassóis e miosótis

que esmaga com fúria nos momentos de dor.

e toda luz o cega

fazendo-o chorar lágrimas excessivamente salgadas. 

De vez em quando

ele me toma nos braços

e dançamos noites seguidas:

ele embriagado pelos escuros

e eu fascinada por sua embriaguez.

Mora em minha casa

um poeta rude

que grita impropérios e

rasga com suas unhas sujas de terra

os versos recém nascidos.

 

De vez em quando

em suas mãos crestadas pelo sol

ele me oferta o gosto do sal

trazido do mar do norte

e em sua pele áspera

cortada pelos ventos gélidos do ártico

desenha rios e fiordes.

mora em minha casa

um poeta triste

como um menino órfão

a exigir carícias

a cobrar afetos

tantos

Vive em mim

um poeta

e eu o protejo.

Dezembro 2, 2009

Míope é a vida!

Um lindo poema da Adélia Prado, interpretado pelo Mané do Café. E, incidental ou não, uma homenagem à minha mãe!

Dezembro 2, 2009

Sonhos não envelhecem…

E no meio de tanta tristeza que aterrorizou a sua segunda-feira, você lembrou de mim. Meus sonhos, ao seu lado, não envelhecem…

Novembro 26, 2009

O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Porque a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

Novembro 25, 2009

Das Purezas Clandestinas

Perdoem-me os inquilinos do Sol, ávidos de manhãs. O relinchar dos pássaros me é alergia. Porque não há nada nas auroras que seja límpido: a claridade espanta cruelmente as purezas da terra. O olhar, quando puro, é sempre acompanhado de escuridão. Os crepúsculos, cavaleiros impiedosos, anunciam que a Majestade se aconchega. Incapaz de ser contaminada pelo brilhantismo mesquinho dos diamantes.

 

A poesia dificilmente nasce resplandecente. Porque a terra é sempre castanha. Os porões não são senão iluminados por velas. Epifanias são cegas. Essa singela atmosfera primaveril – lugar comum dos sonhos! – é insuportável para as meditações. 

 

Eu confesso. Prefiro as feridas abertas à espera das crostas. Quando o sangue ainda está vivo percebe-se melhor a dor. Quando a vermelhidão jaz não se pode alcançar a nova pele. Posterga-se o futuro. Encolhe-se a liquidez frente à incerteza do porvir. Contudo, a escolha dos corpos pelas côdeas não é aleatória. Serve de abrigo para a epidérmica purificação clandestina. Revigora as chances de renascer outras carnes.

 

E é sobre a ilegitimidade da vida que se deve falar. Ah, penosas imigrações solitárias! Quando a boca aprecia, estupefata, o vinho que foi servido em chávena. A morte das uvas só é evidenciada nas faces transparentes dos cálices. Quando ocultado pela porcelana, é irrevogável. Alcoólicas farpas pulsam dentro de nós. A alegria indizível, infantil, daquilo que não nos é permitido.

 

Ao pular os muros regulamentados, o mundo liberta as matizes da humanidade. Os pecados, a culpa católica! Tudo sendo dissolvido num depurar bastardo. As mais belas vozes são trêmulas, embriagadas. Violadas dos preceitos religiosos. Das convenções, manuais dos errantes, leva-se a certeza das infrações. Os ritos suntuosos só espelham solenes lavagens cerebrais.

 

Nos segredos tortuosos, nas intimidades sujas, nas coléricas madrugadas fazem-se palavras. A imundície é o verdadeiro palco dos versos. Só esconjurando Deus é possível emancipar-se. A viuvez primeira de se saber fraco. Diligência em saber-se erro. Estar alerta, consentâneo. Descortinado. Insanável, como tudo aquilo que comunga os silêncios.

Novembro 18, 2009

Quase

 

Quando eu era pequena tinha um cachorro de plástico com rodinhas e chapéu quadriculado – daqueles que a gente pode fantasiar passeios – chamado Quase. Do Quase eu me lembro nitidamente, como se ele tivesse acompanhado todos os amadureceres ao meu lado. Talvez seja o brinquedo que mais tenha alma de fotografia, dentro da minha memória.

Nos últimos tempos, tenho recordado inúmeras vezes meu Quase. Porque eu, hoje, habito a morada dos quases. E, não sei se por egoísmo ou ontologia, acredito que esse lugar seja o grande limbo da humanidade. O Quase é a casa da deslembrança.

Primo do Quase é o mediano. No entanto, contrário do que se pode pensar – em uma primeira análise – eles são desirmanados. A planície da mediocridade, embora vizinha, não germina os mesmos frutos. Porque o dono da propriedade deita sementes de outras naturezas.

Nas cordilheiras do Quase reside um senhor de relógios. Suas vestes foram carcomidas por amores adiados. Seus dedos têm rugas de mar. E mesmo desvastado por tudo aquilo que não foi, o senhor permanece insuspeito, tranquilo, imune.

O senhor de relógios só cultiva coisas demoradas. Há uma vinicultura gigantesca em seu território. Como essas uvas anseiam pela metamorfose! Quantas vezes sonham com a liquidez em garrafas. Mas as brumas gestantes suspendem todos os seus desejos de celeridade.

Os homens e mulheres que convivem nos domínios do Quase são muitos. Alguns demonstram fadiga e envelhecimento. Porque não há camas nos cômodos. O senhor dos relógios não permite que o sono abrande o esgotamento da jornada. Tampouco é permitido sentar-se à beira do lago. O Quase é reino de movimento.

Assim, as janelas ficam escancaradas. Não há distração que não possa entrar. Mágoas maquiam púrpuras olheiras. Desesperos assobram os inquilinos com sopros de eternidade. E amiúdes fracassos deblateram os perigos de almejar.

As semoventes aparições levam as pessoas à loucura com enorme facilidade. E todos os dias eu vejo esquálidas criaturas dizerem adeus ao domicílio do Quase. Com as almas em carne viva, desistem. Emigram, cabisbaixas, para os vales da mediocridade.

Outros encontram-se totalmente anestesiados. Já não andam nem falam. Em pé, permanecem imóveis. São pessoas que aceitaram a tardança. Não têm a mínima intenção de caminhar direção ao cume.

Eu estou aguentando a paralisia do agora. Sei que hoje não avistarei o mundo do ápice. Insone, permaneço. Sem precipitar os devaneios de topo. Não carrego nenhuma pressa. Porque sei que a realização não é casa de ninguém, mas a  efêmera luz que ela deixa apaga todas as demoras.    

 

 

 

 

 

Novembro 17, 2009

Sorrir

Lembro-me de estar só em Girona. Era um dia lindo e meu amor havia partido. Andei por aquela minúscula cidade, cercada por muros seculares. No meio do caminho, estava a exposição do Chaplin, pequenina como Girona. Foi o grande sorriso que inundou aquele dia.

Sábio, como devem ser todos os palhaços…

 

Novembro 13, 2009

Escrito no ar – roubado do projeto Scott Johnsonn

 

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Naquela noite fria e chuvosa em Alfama, o Tejo bar, como de costume, estava repleto de pessoas com diferentes feições e sotaques. Uma certa aura de mistério misturada com uma aparente disposição para o encontro fazia com que pequenos grupos de italianos, espanhóis, alemães, brasileiros, portugueses, cabo-verdianos e franceses (pelo menos foram estas pronúncias que pude reconhecer), partilhassem olhares, gestos, declamações, algumas palavras na língua alheia, acordes no violão e algumas canções. Este clima foi modificado bruscamente com a entrada daquele homem que se apresentou como Scott Johnsonn. Mesmo se portando de uma maneira visivelmente sob excessiva influência do álcool, somado ao péssimo português falado, Scott Johnsonn prendeu a atenção de todos com suas narrativas tão exóticas e cambaleantes quanto sua figura. O que sugeriam ser narrativas autobiográficas.
Contudo, aquele tom vacilante do Scott Johnsonn, de súbito, se transformou em um eloqüente e insurgente discurso. Igualmente súbita foi sua queda após pronunciar aquelas palavras à porta do Tejo bar. Por sorte, distraidamente havia deixado minha câmera ligada desde a bela declamação de Clarice Lispector feita por Mariana antes da chegada do Scott Johnsonn, permitindo a captura em áudio. Não sabíamos naquela altura que aquele homem que teve uma vida praticamente livresca iria deixar a sua última obra escrita no ar:
“Somos todos judeus alemães!” Não se engane foi apenas o Campo de Concentração que se modernizou. Antes e, não obstante arduamente, vivêssemos em uma época de servidão voluntária como bem diagnosticou La Boétie. A servidão ganha agora ares de um sinistro genocídio auto-imposto. Este escrito fará mais sentido se lido num domingo de noite. Caso isso não coincida, imagine-se envolto pela presença de uma segunda-feira rotineira e talvez já seja suficiente. Bem- vindo à Era dos micro-genocídios, aqui o seu corpo cruelmente morto não será necessariamente jogado em uma vala comum, afinal, na melhor das hipóteses, nós mortos-vivos-padrão nos encaminharemos, mais cedo do que gostaríamos, a alguma forma de transporte público lotado para depois termos a honra de sermos explorados. Um verdadeiro privilégio para um contingente cada vez menor. Isto não é tão somente a expressão indignada de um vagabundo insatisfeito com a sua própria vida como já me questionaram, é mais um ruído de alguém que pensa que a nossa pretensa harmonia, mais do que enlouquece, mata. O cigarro me advertiu: o Estado mata! Aliás, para lembrar uma “equação” foucaultiana de um de seus cursos aritmética da existência aplicada à guerra, o Soberano que fazia morrer e deixava viver, entretanto, o Estado contemporâneo faz viver e deixa morrer. Então não me acusem de cinismo, olhe para nossa organização e verá bem mais… Ou então, antes de ir trabalhar repare bem ao escovar os dentes na sua cara de zumbi. Mas tente se alegrar, os tempos são outros, você morreu, mas deixaram-te viver!
Mas antes de sair repare bem na sua casa, em como a solidão transformou a nossa relação com os eletrodomésticos, esses arautos da vida “moderna”. Abrimos a geladeira para meditar, ligamos a televisão para cuidar de nossos filhos, observamos pelo computador o que se passa lá fora… Se estes espantosos atos lhe dizem alguma coisa, então por que não rebatizar esses nossos companheiros?! Geladeira-oráculo, Televisão-babá, Computador-janela. É favor não me classificar como romântico antes de terminarem de ler. Ao mesmo tempo diria que isso é um julgamento quase inevitável para quem está praticamente etiquetando os seus costumes com um tom de desaprovação, algo que pode realmente ser lido como um saudosismo de uma comunidade perdida. Contudo, prefiro me inspirar no Bruno Latour que propôs de uma maneira desconcertante: e se jamais fomos modernos? Então, respondo perguntando: isto faz de nós pós-modernos-medievais?! Logo, comunidade nunca existiu, saudade tampouco! Então foi assim e Hakim Bey em parte me daria razão: mentiram sobre bem e mal, sobre o nosso amor carnal, incutiram massivas doses de medo, umas porções generosas de culpa e boas pitadas ressentimento… Pronto! Está dada a receita do pão-nosso-de-cada-dia. Só não se esqueçam de rezar antes da refeição e incluir nos agradecimentos o mestre-cuca Nietzsche, afinal ele que traduziu para o alemão o nosso cardápio favorito.
(Alex Reinecke de Alverga)