Uma vida que é vivida e a outra vida que é pensada…

Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

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O país dos sonhos

Eduardo Galeano
Era um imenso acampamento ao ar livre. Das cartolas dos magos brotavam alfaces cantoras e pimentões luminosos, e por todas as partes havia gente oferecendo sonhos para trocar. Havia os que queriam trocar um sonho de viagem por um sonho de amores, e havia quem oferecesse um sonho para rir a troco de um sonho para chorar um pranto gostoso.
Um senhor andava ao léu buscando os pedacinhos de seu sonho, despedaçado por culpa de alguém que o tinha atropelado: o senhor ia recolhendo os pedacinhos e os colava e com eles fazia um estandarte cheio de cores.
O aguadeiro de sonhos levava água aos que sentiam sede enquanto dormiam. Levava a água nas costas, em uma jarra, e a oferecia em taças altas.
Sobre uma torre havia uma mulher, de túnica branca, penteando a cabeleira, que chegava aos seus pés. O pente soltava sonhos, com todos seus personagens: os sonhos saíam dos cabelos e iam embora pelo ar.

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Lágrimas na Literatura

“A beleza é tudo aquilo que você não dá conta de ver sozinho”. Bartolomeu Campos de Queirós

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Aprendizado

“Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.”

Ferreira Gullar

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Vista Cansada

Otto Lara Resende

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou. Fugiu enquanto pôde do desespero que o roía – e daquele tiro brutal.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

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Perdi meu amor em Lisboa

Antes de tu chegares jamais pude escolher o meu sonhar. E, confesso, desde pequenina tentava driblar esses vastos porões do inconsciente – a fim de domá-los. Arrogante que era, acreditava que as fúrias de minha profundeza também me pertenciam, domesticáveis.

Porém, certa noite, desejei ter-te cá dentro da minha narrativa selvagem. Aceitei ser títere dos baús empoeirados, abrir os lacres poderosos da razão. E sonhei com a possibilidade de estar ao teu lado.

Na altura eu era jovem e louca e infantil. Não havia aprendido a linguagem nítida dos devaneios noturnos. Estrangeira. Sozinha. Liberta das amarras do pertencimento.

O sonho era óbvio. Literal – como são essas terras. Estávamos em uma festa, dispersos nas conversas triviais com conhecidos e outras pessoas que trouxe do meu país para o sonho. Embriagados e obtusos.

Acordei. Invólucro, ainda, de vinhos não entornados. Desorientada de estar na realidade mais um dia. Fui à tua procura, certa de que deveria desanuviar as incertezas, apagar a lembrança não vivida. Quantas horas passamos a falar! Tu, totalmente imune ao meu sonho, enquanto eu tentava rebobinar as fantasias para ver se faziam jus aos porões.

No entanto, foi a noite seguinte que consumiu a profecia autorrealizadora. Depois de um jantar irrelevante. Ah, como me senti manipuladora nos instantes que precederam o beijo. Porque já o havia beijado antes, mesmo que tu não soubesses disso.

Não aguardava o amanhã que te trazia novamente. Não era mais sonho, não havia roteiro traçado. E tu estavas lá, à minha espera. Com os olhos negros e vazios, convidando-me a preenchê-los com a minha própria vida. Como compreendeste cedo as canções impronunciáveis de meus artistas natais! Ensinaste a mim a literatura anciã dos navegantes e os ventos que compõem as tempestades. Foi assim que aprendi: as calmarias duradouras são perigosas iminências do mudar.

Tu desmembraste minha família destruída, colocaste-me no rígido papel de protagonista. As minhas lágrimas vitimizadas perdiam, a cada momento, seu triunfal poder de convencimento. E eu, tão pobre de retórica, tão fraca em me expressar na tua língua, via-me solo das sementes inesgotáveis.

Com o paganismo infantil, ampliava meus ouvidos para a música que só tu eras capaz de explicar, em gestos magistrais de professor. Distinguia cada um dos Beatles nas canções – pela forma, conteúdo, voz. Contudo, admito que avistava em Ringo o mais estranho dos personagens e, por isto, o amava a revelia dos truísmos.

Mas, também eu era capaz de ensinar. A tua robustez nutria meu cerne, pouco a pouco. Conseguia traduzir em notas os minúsculos poros da tua pele exótica. Discorria sobre as engenhosas construções matemáticas que compõem uma tessitura. Compartilhava meus costumes gélidos, explicando como a minha nação não tinha condições de agregar culturas indígenas. Preparava refeições, no ímpeto de alimentar tuas inspirações literárias.

Pude resgatar a ti dos abismos atrozes onde moram os pesadelos, ao levar-te por um passeio inusitado à beira do Tejo, em madrugada estelar. Tua alma, cintilante, finalmente atingia a incomensurável felicidade. Sempre nos gestos banais, microscópicos, eu estava a exercer a função pedagógica do amor.

Quis casar-me contigo, todos os dias, embora não possuísse emprego fixo nem curso superior. Obedeci, pois, a cada um dos fugazes impulsos que vivia meu coração apaixonado.

Paulatinamente, amado, fui recuperando meu ser esquecido, antes pelos lamentos. Enquanto as tuas raízes convertiam-se em maleabilidade, minha casa ganhava ornamentos. Tu vivias anseios de naufrágios juvenis, corajosos e típicos de quem sabe navegar. Eu queria apenas fincar minha bandeira em solo clandestino.

Nevoeiros tornam-se sutis, frente aos temporais.

Assim, nossa cumplicidade telepática foi tornando-se adúltera. Tu, sedes de além-mar. Eu, quimeras continentais, com horror aos arquipélagos. Nossa solidez, taciturna, foi-se devastando em crescimentos incompatíveis, alheia à intersecção primeira.

Tu foste à África, buscar os sons que engrandecem tua língua. No Brasil, abandonaste as feições tristes do fado. Descobriste a razão de ter os pés sempre a tremer. Era o samba, erupção vulcânica, escondido em tua carne.

Simultânea, interpretei todos os azuis dessa cidade, atrás do teu rastro. Deitei pelas noites gentis, a enlanguescer-me. Retornei, apática, à fonética carecida de poesia de meus iguais.

Dissipamo-nos, faíscas, como a breve carcaça das fogueiras.

Desaprendeste de mim? Conseguiste caminhos em tua memória que apagassem meu nome? Pois esforço-me imenso, até hoje, por fórmulas imediatas de revogar. Invoco lúcidos sonhos que me retirem de Lisboa, berço desse lirismo tolo. Um eclipse irrefutável, talvez.

Escrevo para calar aquilo que reverbera. Esquecer-te desperta, em vigília. Onírica, já sabes, serei incapaz de deitar-te fora. A noite sempre me chega para rarefazer as cicatrizes, para enaltecer os domínios dos quais não sou senhora.

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Estátuas

Luis Fernando Verissimo

O ESTADÃO – 20/11/11

“Há uma estátua do Carlos Drummond de Andrade sentada num banco da praia de Copacabana, uma estátua do Fernando Pessoa sentada em frente ao café A Brasileira, em Lisboa, uma estátua do Mario Quintana sentada num banco da Praça da Alfândega de Porto Alegre. Salvo um cataclismo inimaginável, as três estatuas jamais se encontrarão. Mas, e se se encontrassem?

– Uma estátua é um equivoco em bronze – diria o Mario Quintana, para começar a conversa.

– Do que nos adianta sermos eternos, mas imóveis? – diria Drummond.

Pessoa faria “sim” com a cabeça, se pudesse mexê-la. E acrescentaria:

– Pior é ser este corpo duro sentado num lugar duro. Eu trocaria a eternidade por uma almofada.

– Pior são as câimbras – diria Drummond.

– Pior são os passarinhos – diria Quintana.

– Fizeram estátuas justamente do que menos interessa em nós: nossos corpos mortais.

– Justamente do nosso exterior. Do que escondia a poesia.

– Do que muitas vezes atrapalhava a poesia.

– Espera lá, espera lá (Drummond) Minha poesia também vinha do corpo. Minha cara de padre era um disfarce para a sensualidade. Minha poesia dependia do corpo e dos seus sentidos. E o sentido que mais me faz falta, aqui em bronze, é o do tato. Eu daria a eternidade para ter de volta a sensação na ponta dos meus dedos.

Pessoa:

– O corpo nunca ajudou minha poesia. Eu e meus heterônimos habitávamos o mesmo corpo, com a sua cara de professor de geografia, mas não nos envolvíamos com ele. Nossa poesia era à revelia dele. E fizeram a estátua do professor de geografia.

Quintana:

– Pra mim, o corpo não era nem inspiração nem receptáculo. Acho que já era a minha estátua, esperando para se livrar de mim.

– Pessoa – diria Drummond –, estamos há meia hora com você nesta mesa do Chiado, e você não nos ofereceu nem um cafezinho.

– Não posso – responderia Pessoa. – Não consigo chamar o garçom. Não consigo me mexer. Muito menos estalar os dedos.

– Nós também não…

– Não posso reagir quando sentam à minha volta para serem fotografados, ou retribuir quando me abraçam, ou espantar as crianças que me chutam, ou protestar quando um turista diz “Olha o Eça de Queiroz”…

– Em Copacabana é pior – diria Drummond. – Fico de costas para a praia, só ouvindo o ruído do mar e o tintilar das mulheres, sem poder me virar…

– Pior, pior mesmo – diria Quintana – é estar cheio de poemas ainda não escritos e não poder escrevê-los, nem em cima da perna.

Os três concordam: o pior é serem poetas eternos, monumentos de bronze à prova das agressões do tempo, fora poluição e vandalismo – e não poderem escrever nem sobre isto.

As estátuas de poetas são a sucata da poesia.

E ficariam os três, desolados e em silêncio, até um turista apontá-los para a mulher e dizer.

– O do meio eu não sei, mas os outros dois são o Carlos Gardel e o José Saramago.”

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Sem testemunhas

“A mais vil de todas as necessidades – a da confidência, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior. Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos teus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas, nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”

Fernando Pessoa, in ‘Livro do Desassossego’

É longe do palco que se pode ensaiar os contornos do amanhã. Quando se apaziguam as esperanças de futuro e os sonhos perdem sua obrigação incongruente de solidez. Quando os olhos se fecham e aceito a vulnerabilidade de acordar para dentro. Ausente de observadores encontro-me viva, e só. Sem a mórbida obviedade do sofrer.

Ah, negra hora do dia: agradeço o meu anonimato. Quando a humanidade já foi deitar e o mundo permanece alheio às vicissitudes inúteis dos despertos. Sinto-me cúmplice dos suspiros das árvores, das proibições conjugais: átomos antigos, entorpecentes cósmicos.

Sinto-me, pois, neste instante, ainda em posse de uma história sem veracidade. Distante daqueles que lembram como sou, como fui e, inevitavelmente, como envelhecerei. Caminho pelos labirintos desfocados que me conduzem a essas letras. Guardei minhas palavras por algumas madrugadas. Não aceitaria que elas nascessem prematuras.

Nas profundezas marinhas da noite, as cicatrizes se escondem para dar lugar à bela totalidade arredondada. E os oceanos, mais misteriosos e demiúrgicos do que nunca, enaltecem suas melódicas queixas de escravidão ao luar.

Como gostaria de despir-me, também eu, para o grande silêncio. Sem testemunhas. Pacificada pela sensação de abrigar exclusivamente um pseudônimo confuso, expatriado das mãos rancorosas de seu autor senil. Transportar-me a um mundo de domingos, onde os habitantes emudecem pelo horror ao recomeço; e se aninham, distraídos, na nulidade de suas existências.

Estou tão cansada, hora gatuna, violenta. Medíocre que sou, refugiada nesse asilo temeroso. Como anseio libertar essas histórias acorrentadas nos presságios ilusórios dos grandes desertos. Anônima. Sem ter os olhos pequenos demais para apreciar os destinos. Desanuviada.

Quero pecar sem assinatura.

Viver sem testemunhas seria, hoje, meu desejo mais arcaico. Jorrar minhas memórias por páginas desconhecidas e inacabadas. Iridescente, breve, hermética. Frases sem sentido para que ninguém mais não me morasse.

 Como se torna persecutório o ato de desenhar-se em dizeres, em traduzir-se conteúdo. Medo de ser retaliada por aquilo que foi vivido, embaraço frente aos relatos vergonhosos das melancolias juvenis. O pavor de estar em primeira pessoa. Saudade – essa qualidade da ausência – como faz sentido estar mais próxima da estranheza que suportar a inocente familiaridade. Apenas o estrangeiro de si, de pátria ou de línguas, aguenta, sem anódinos, o peso inesclarecível das funduras.

Destarte, reintegro a secura intrínseca da esterilidade. Se não posso suportar meus segredos, se os enclausuro na travessia entre o esquecimento e a confissão, perco a maestria uterina. A clarividência sempre toca o julgamento preciso de quem lê.

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Amar a solidão

“Mas tudo isso, que talvez um dia seja possível a muitos, o solitário pode prepará-lo desde já e construí-lo com suas mãos, que erram menos. Por isso, caro senhor, ame a sua solidão e a carregue com queixas harmoniosas a dor que ela causa. Diz que os que sente próximos estão longe. Isso mostra que começa a fazer-se espaço ao redor de si. Se o próximo lhe parece longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. Alegre-se com esta imensidade, para a qual não pode carregar ninguém consigo. Seja bom para com os que ficarem atrás, mostre-se-lhes calmo e sereno sem os atormentar com suas dúvidas, nem os assustar com uma confiança ou uma alegria que eles não poderão compreender. Procure realizar com eles uma comunhão qualquer, fiel e simples, que não se deverá necessariamente transformar à medida de que o senhor mesmo se transforme. Ame neles a vida sob uma forma estrangeira e tenha indulgência com os homens que, envelhecidos, temem a solidão a que o senhor se confia. Evite dar alimento ao drama sempre pendente entre pais e filhos o qual gasta muita força destes e consome amor daqueles; amor que, embora incompreensivo, age e aquece. Não lhes peça conselho e não conte com a sua compreensão, mas acredite num amor que lhe é conservado como uma herança e fique certo de que há nesse amor uma força e uma bênção a que não se arrancará mesmo se for para muito longe.

É bom o senhor abraçar antes de tudo uma profissão, que o tornará independente e entregará exclusivamente a si, em todos os sentidos. Aguarde com paciência, a ver se a sua vida íntima se sente limitada pela forma dessa profissão considero-a muito difícil e cheia de exigências , carregada de convenções e quase sem margem para uma interpretação pessoal de seus deveres. Mas a sua solidão há de dar-lhe, mesmo entre condições muito hostis, amparo e lar, e partindo dela encontrará todos os cominhos. Todos os seu desejos estão prontos a acompanhá-lo e minha confiança está consigo.”

Seu
Rainer Maria Rilke

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Planos falham…

“Aprendi, ainda, sobre a tolice de todos os nossos planos. A psicanálise interpretou o mito de Édipo como uma tragédia cujo tema é psicológico: o ódio entre pais e filhos e o incesto. Mas a essência do mito não é psicológica. É metafísica. O mito é um relato dos atos que os homens fazem conscientemente a fim de evitar a tragédia, sem saber que são esses mesmos atos que os levam para ela. A tragédia aconteceu porque os homens tentaram evitá-la.

Tolos! Pensamos que nossos planos são capazes de garantir o futuro. Ignoramos que há forças mais profundas. Não estou dizendo teoria. Eu vivi isso. Só estou onde estou porque tudo o que planejei deu errado. Se meus planos tivessem dado certo eu não estaria escrevendo esta crônica, não teria me tornado um escritor… Amaldiçoei o fracasso dos meus planos. Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse.

Muito tarde aprendi os limites da palavra. Alguns pensam que os seus argumentos, por sua clareza e lógica, são capazes de convencer. Levou tempo para que eu compreendesse que o que convence não é a “letra” do que falamos; é a “música” que se ouve nos interstícios de nossa fala. A razão só entende a letra. Mas a alma só ouve a música. O segredo da comunicação é a poesia. Porque poesia é precisamente isso: o uso das palavras para produzir música. Pianista usa piano, violeiro usa viola, flautista usa flauta – o poeta usa a palavra.”

Rubem Alves in As Cores do Crepúsculo

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Quero ir buscar quem fui onde ficou.

 

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,
Na ausência, ao menos, saberei de mim,

E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

Fernando Pessoa

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Alhures

 

“Olhando para o céu fiquei tonta de mim mesma.” Clarice Lispector in A descoberta do mundo.

“No fundo de cada palavra, assisto ao meu nascimento.” Alain Bosquet in Premier Poème

Sinto-me apavorada, no presente momento, acometida pelo distante segundo que precede o desmaio. Um rodopiar sonolento se apossa inteiramente do corpo, destemido das inúmeras armas cerebrais que possuo para controlar a mim. Aquele sentimento de ter, enfim, sido delatada à alguma esquina silenciosa da alma. A sensação dolorosa dos poros serem invadidos por um não habitar poderoso.

Essas mínimas e inusitadas crises fazem-me escutar a solidão harmônica, invólucro do Cosmos. Imediatamente recupero os sentidos, ainda vertiginosos desse contato perigoso com o grande mistério. Ah, a extraordinária sabedoria de se aninhar junto às estrelas e se descobrir em pequenez!

Passado o horror dos instantes eternos, contemplo, extasiada, a paz. Foi apenas um feroz religamento com o inédito? Atingi, com a ponta dos dedos, a contiguidade proibida de um sítio impronunciável para as línguas humanas?

Sim. Estive lá, lugar em que os astros inauguram devaneios. No germe de todos os amores cáusticos, vísceras da criação. Toquei os núcleos labirínticos nos quais repousam o porvir, porque os olhos não alcançaram as imaginadas verdades pagãs. Alhures, onde residem as recordações antecipadas.

A palavra, robusta tradutora dos realismos, uma vez mais, salva-me das ineficazes reduções farmacológicas.  Por que chamar de pânico aquilo que pode ser a primeira reunião entre um corpo e seu criador? Se posso inventar-me como um gigante receptáculo do Universo, vou diminuir a mim mesma com as medíocres impressões contemporâneas?

Paulatinamente, a candura encharca os sentimentos viúvos, suspendendo o sonhar eremita. O retirar-se de si, apesar da mudez, não delineia afastamento. Apenas os seres que se vestem de outras luas são passíveis de embriagar as  alvoradas.

 

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Antes dos suspiros

“Imprudente ofício é este, de viver em voz alta. (..) Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo, iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.” Rubem Braga in A Palavra

Nem sempre as obviedades me são claras. Todavia, libertadoras de pensamentos rupestres que se instalam em mim. Enunciar não é emergir uma totalidade mas calá-la no reino do possível. Não seria este o papel último do artista?

Deparo-me com o óbvio delicadamente. Como se esperasse um sussuro, um lampejo, um alumbramento. Mas ele já é a nau aprisionada pelas âncoras. Ah, quantos momentos estou atracada no cais das instantâneas realidades!

E, por isso acontecer o tempo todo, é obrigatório ter os ouvidos sensíveis às ondas silenciosas e inescrutáveis que ampliam o olhar para além dos nossos mínimos acontecimentos. Randômicos. Estar atenta às luzes de abajur enquanto o mundo se perpetua em letreiros de neon.

Foi assim, numa inocente boemia de sexta feira, que me inesculpi para a arquetípica vulgaridade humana: o encontro é vértice da cura. O mais inusitado foi vislumbrar a conversa desprovida daquele tagarelar romântico. Nenhum amor foi mencionado durante as horas que se desenrolavam dentro da minha trovoada, exceto a pululante irmandade que nos rodeia.

Ao auscultar o coração entregue, nunca o óbvio havia ganhado tais formas. Talhado em nanquim. Negro e vivo. Lá estava alguém a me dizer tudo o que eu soubera. Séculos e séculos de estudo. E resplandecia como se a luz jamais tivesse evidenciado tal devaneio. Excertos de pele que não nos são lembram a nós que a renúncia é iminente. São os vizinhos que nos aproximam de nossas insanidades.

Dizia, simples, o quanto havia sido epifânico poder assistir ao espetáculo da existência às traduções dadas pelo outro. O quanto não nos somos, aos prismas solitários! E, através de impressas consciências, podemos nos tornar garranchos ou exemplos de caligrafia.

Eu, quieta, remontava meus viveres, loucos, com o acolhimento de não me saber só. Coberta pela certeza de minha percepção, única e crua. Abrigava apenas uma interpretação ridícula daquilo que chamamos vida. Invadida, pois, pela tranquilidade de ser, antes dos suspiros. Ah, todo entorpecimento que carregam os seres cúmplices…

Os registros de espírito não retrocedem a um tempo longínquo, nostálgico. Está tão próxima essa ferida, tão latente ainda. Na estranheza inequívoca, sorri Lisboa. Reboante das madrugadas inefáveis. Da alerta memória que me expatria os horizontes. Além dos inomináveis Tejos da saudade. Eu, que pude me ser tão longe de casa. E me retorno, diariamente. Encimesmada.

Nas observações triviais, em cantarolares brasileiros, mãos dadas, sonhos expostos, medos similares, eu pude me ver pelo outro. Eu fui capaz de me enxergar, filme de Almodóvar, naqueles que nunca me foram. E uma felicidade avassaladora tocava, finalmente, minhas bizarras entranhas. Às vezes nas quais tive o aliviar das unturas transportadas por irmãos não familiares.

A obviedade me fascina. Em amanheceres incertos, à procura de sociedade. Mesmo sabendo que muitas das nossas manhãs se fazem sozinhas. No escuro, versos sentem-se necessários. Eu os convido a passear pelas calçadas, mesmo tendo a certeza de que todo sapato é inerte às distâncias. A alma, certas vezes, precisa se acostumar que a festa não tem convidados. E o deleite de existir é pleno.

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A casa tomada*

*Julio Cortázar

Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d’água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

— Não, nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.

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O amor acaba*

*Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


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Às vésperas de mim

“Estamos tão ligados aos lugares que nos parece mais fácil deixar a nós mesmos do que a eles.” Marguerite Yourcenar

Sentada na janela dos meus anos, percorro as penumbras emudecidas dos meus eus transeuntes. Todos os seres que me habitam pensaram em uma história completamente diferente para trilhar. No entanto, a reflexão final carrega a obviedade que tinge o brilhantismo do cinema francês: nada é da forma que imaginei. Talvez seja essa a melhor sensação da vida: saber que os nossos rios correm apesar de nós. O que nos resta é cuidar para as águas permanecerem límpidas. E imprescindível é absorver a cerelidade nas correntezas. E meditar em todas as calmarias.

Desde pequena, os lugares que escolhi para as comemorações entranhadas das mudanças quase nunca foram planejados. À reminiscência primeira, deixo o devaneio tomar o mínimo pedaço de chão, abençoado por lençóis brancos e sonhos pueris. O carpete castanho do quarto vivia seus momentos de glória. Quantos reis e dragões estavam à minha espera, nas proibidas madrugadas da infância!

Como se sucumbisse à eternidade das marcas sanguíneas no tecido, já não o revejo como vereda inquieta. Absorvo até mesmo os interlúdios como parte da orquestra que vem me construindo ao longo dessa existência.

Na jornada inesperada dos meus aposentos, permito-me acelerar a adolescência, com suas lágrimas descabidas e os tolos desalentos. Não por negligência ou vergonha. Mas porque gosto das ampulhetas preenchidas: ora no lembrar menino, ora na quimérica velhice em completude.

Quantas vezes pensei: serei eu o incômodo fantasma que abraça os baús empoeirados, numa casa cujos donos morreram há trezentos anos? Passaram-me as chaves, enclausuraram-me dentro dos meus próprios dilúvios? Não. Eu os fui, legimitamente, um a um. Sonho a sonho. Com o pavor míope de quem vê o tempo a furtar os detalhes.

Todavia, somente às margens do Tejo, entendi. Descobrir a concha ontológica em cada vã moradia. Os mares obrigam a alma a experimentar o desassossego. Só quem enxerga o infinito é capaz de nomear saudade. Quem nunca parte não se estilhaça na cósmica aventura do desconhecer.

Acenos à beira do cais me visitam com seus lenços e prantos. Tentam seduzir-me com promessas de estabilidade. Marinheira que sou, embalo-me com vozes de sereia, tendo só a infinitude oceânica nos olhos.

E vou. Atônita, sempre. Febril e trovejante por medo desses escuros abissais. Contudo, foram eles que me prepararam para o resignar das novidades impensadas. Eu vou, inebriada pelas naus que me embarcam sem que seja tomada pela racionalidade assassina.

Afinal, toda terra é digna de colheita. Com canções arquetípicas e coragens guardadas, neutralizo as águas tempestivas. Às vésperas de mim, vejo a sincrônica encruzilhada dos amanhãs. Cheia de saudade das minhas casas primeiras, das sensações recônditas, dos sonhos imaculados. Mas a saudade é o fardo de navegar.

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Há um oásis no Incerto

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-se as lâmpadas
Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tato
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical. A alcova
Desce não se por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

Fernando Pessoa

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Enluarada de tristezas sem poesia

‎”um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra”

Paulo Leminski

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Depois do desassossego

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

(…)

Não me indigno porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor à minha ideia de os achar belos.

Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos, o não ser doido para que pudesse afastar da alma de todos os que me cercam, […]

Tomar o sonho por real, viver demasiado os sonhos deu-me este espinho à rosa falsa de minha sonhada vida: que nem os sonhos me agradam, porque lhes acho defeitos.

Nem com pintar esse vidro de sombras coloridas me oculto o rumor da vida alheia ao meu olhá-la, do outro lado.

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal.

Eu não me queixo pelo mundo. Não protesto em nome do universo. Não sou pessimista. Sofro e queixo-me, mas não sei se o que há de mal é o sofrimento nem sei se é humano sofrer. Que me importa saber se isso é certo ou não?

Eu sofro, não sei se merecidamente. (Corça perseguida.)

Eu não sou pessimista, sou triste.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

- 323.

“Fase confessional”, segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.
s.d.


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O museu dos amores perdidos

Enquanto o garçom deitava ao chão uma bandeja trovejante de pratos e cálices e restos, para eles o mundo não acontecia. Entre risadas inconfundíveis e tímidas carícias, o mundo não acontecia. Apesar do barulho, o mundo não acontecia. No cerne da futilidade pequeno-burguesa dos restaurantes dos Jardins, nada em torno fazia alarde àquele momento. E o amor era uma crase.

Os céus lhes sorriam e reverenciavam tudo o que não era dito. Mágicas como móbiles em berços, as estrelas salpicavam – uma a uma –  a noite cúmplice. Existiram batidas policiais, assaltos à mão armada, fugas de adolescentes desesperados, porres, injúrias, traições ou suicídios? Nada. O mundo não acontecia ali.

Contudo, a noite se esvaiu e o dia é muito perigoso para quem ama. As manhãs trazem as irregularidades no rosto, as maquiagens borradas, o hálito adormecido. Quando o planeta se ilumina e volta a pegar o ônibus, toda a magia se dissolve em gélidas neblinas.

Eu tenho testemunhado a morte do amor em cada uma de minhas gavetas. Mesmo para os corajosos que se doam e não temem o sofrimento, o amor tem se evaporado. O que me assusta é que tudo pode findar-se por uma semana que os dois não fazem sexo. Porque os jantares na casa da tia avó são enfadonhos e o tio com Alzheimer repete as mesmas histórias da Grande Guerra.

Os mais lindos roteiros de filme que já vi efetivados estão se diluindo. E os casais se rarefazem porque é tão mais difícil superar as adversidades. Que não cabem em cento e quarenta caracteres. O esquecimento imediato torna as pessoas descartáveis.

Onde, então, habita o lugar para quem está disposto? A sombra de vossa liberdade é tão grande e densa quanto sua dolorida conquista. Possuímos um histórico alarmante dos que viveram conjugados por obrigações. Mas, agora, também as nossas cartas perfumadas têm prazo de validade.

Eu sei que o amor acaba. Todavia, qual é a força da condescendência frente à incompletude do outro? Já que não se pode fazer plástica nos horrores estruturais – naquele dia, naquele restaurante, lembra?

Existo para modificar seus futuros. Ah, quanto medo sinto de ser esquecida! Porque eu não esqueço. Eu guardei tudo. Beijos, olhares, feições e todos os amanheceres sutis. Sou o próprio cemitério de todos vocês que andam fugindo. Tornei-me o museu dos amores perdidos porque sei que a nitidez de quem relembra tem a mesma intensidade do momento vivido. Eu luto contra o universo estrondoroso do efêmero.

Nesses dias de pavor à nulidade, dá-me uma vontade de abrir-me todo em ferimentos meninos. Deixá-los gotejar um bocadinho. Levar os dedos a degustar o sangue. Esperar a resiliência corpórea. Atrasá-la uns dias, rompendo-lhes as côdeas. Sentir o formigamento da cura. E tatuar-me em cicatrizes mínimas que recordem o quão poderosas são as ínfimas explosões da delicadeza. Elejo a vibração da dor à mesmice amortecida. Parem de me alimentar!

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O outono visto pela janela / Código Postal

De arrepiar… Obrigada Portugal por existir como minha pátria da poesia!

E ainda mais lindo…

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Amada noite

 Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

 Vem, Noite antiquíssima e idêntica, 
   Noite Rainha nascida destronada, 
   Noite igual por dentro ao silêncio, Noite 
   Com as estrelas lentejoulas rápidas 
   No teu vestido franjado de Infinito.

   Vem, vagamente,
   Vem, levemente,
   Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
   Ao teu lado, vem
   E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
   Funde num campo teu todos os campos que vejo,
   Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
   Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
   Todas as estradas que a sobem,
   Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
   Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
   E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
   Na distância imprecisa e vagamente perturbadora, 
   Na distância subitamente impossível de percorrer.

   Nossa Senhora
   Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
   Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela, 
   Dos propósitos que nos acariciam
   Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
   Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, 
   E que doem por sabermos que nunca os realizaremos… 
   Vem, e embala-nos,
   Vem e afaga-nos.
   Beija-nos silenciosamente na fronte,
   Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam 
   Senão por uma diferença na alma.
   E um vago soluço partindo melodiosamente
   Do antiquíssimo de nós
   Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
   Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
   Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.

   Vem soleníssima,
   Soleníssima e cheia
   De uma oculta vontade de soluçar,
   Talvez porque a alma é grande e a vida pequena,
   E todos os gestos não saem do nosso corpo
   E só alcançamos onde o nosso braço chega,
   E só vemos até onde chega o nosso olhar.

   Vem, dolorosa,
   Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
   Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
   Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes,
   Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
   Vem, lá do fundo
   Do horizonte lívido,
   Vem e arranca-me
   Do solo de angústia e de inutilidade
   Onde vicejo.
   Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
   Folha a folha lê em mim não sei que sina
   E desfolha-me para teu agrado,
   Para teu agrado silencioso e fresco.
   Uma folha de mim lança para o Norte,
   Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
   Outra folha de mim lança para o Sul,
   Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
   Outra folha minha atira ao Ocidente,
   Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
   Que eu sem conhecer adoro;
   E a outra, as outras, o resto de mim
   Atira ao Oriente,
   Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
   Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
   Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
   Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
   Ao Oriente que tudo o que nós não temos,
   Que tudo o que nós não somos,
   Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
   Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo…

   Vem sobre os mares,
   Sobre os mares maiores,
   Sobre os mares sem horizontes precisos,
   Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
   E acalma-o misteriosamente,
   ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!

   Vem, cuidadosa,
   Vem, maternal,
   Pé ante pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
   À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
   E que viste nascer Jeová e Júpiter,
   E sorriste porque tudo te é falso é inútil.

   Vem, Noite silenciosa e extática,
   Vem envolver na noite manto branco
   O meu coração…
   Serenamente como uma brisa na tarde leve,
   Tranqüilamente com um gesto materno afagando.
   Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
   E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
   Todos os sons soam de outra maneira
   Quando tu vens.
   Quando tu entras baixam todas as vozes,
   Ninguém te vê entrar.
   Ninguém sabe quando entraste,
   Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
   Que tudo perde as arestas e as cores,
   E que no alto céu ainda claramente azul
   Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem.

   A lua começa a ser real.

                                                       II

   Ah o crepúsculo, o cair da noite, o acender das luzes nas grandes cidades 
   E a mão de mistério que abafa o bulício,
   E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
   Para uma sensação exata e precisa e ativa da Vida!
   Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
   E que misterioso o fundo unânime das ruas,
   Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, 
   Ó do “Sentimento de um Ocidental”!

   Que inquietação profunda, que desejo de outras coisas,
   Que nem são países, nem momentos, nem vidas,
   Que desejo talvez de outros modos de estados de alma
   Umedece interiormente o instante lento e longínquo!

   Um horror sonâmbulo entre luzes que se acendem,
   Um pavor terno e líquido, encostado às esquinas
   Como um mendigo de sensações impossíveis
   Que não sabe quem lhas possa dar …

   Quando eu morrer,
   Quando me for, ignobilmente, como toda a gente, 
   Por aquele caminho cuja idéia se não pode encarar de frente, 
   Por aquela porta a que, se pudéssemos assomar, não assomaríamos 
   Para aquele porto que o capitão do Navio não conhece, 
   Seja por esta hora condigna dos tédios que tive, 
   Por esta hora mística e espiritual e antiquíssima,
   Por esta hora em que talvez, há muito mais tempo do que parece, 
   Platão sonhando viu a idéia de Deus
   Esculpir corpo e existência nitidamente plausível.  
   Dentro do seu pensamento exteriorizado como um campo.

   Seja por esta hora que me leveis a enterrar, 
   Por esta hora que eu não sei como viver,
   Em que não sei que sensações ter ou fingir que tenho, 
   Por esta hora cuja misericórdia é torturada e excessiva, 
   Cujas sombras vêm de qualquer outra coisa que não as coisas, 
   Cuja passagem não roça vestes no chão da Vida Sensível 
   Nem deixa perfume nos caminhos do Olhar.

  Cruza as mãos sobre o joelho, ó companheira que eu não tenho nem quero ter.
  Cruza as mãos sobre o joelho e olha-me em silêncio
  A esta hora em que eu não posso ver que tu me olhas,
  Olha-me em silêncio e em segredo e pergunta a ti própria
  — Tu que me conheces — quem eu sou …

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Epifania



Murilo Mendes

Eu te procurei tal qual os três reis magos
Que caminhavam através de mares e desertos,
Até que um dia uma estrela enviada por ti mesmo
Me trouxe até a tua inefável presença.
Não posso te ofertar o ouro, o incenso e a mirra:
Ofereço-te a minha alma que tu mesmo criaste,
Ofereço-te a minha aridez e o meu pecado.
Ilumina agora e sempre todos os que te procuram
E todos aqueles que acreditam no teu fim.
Angústia e escuridão dominam o homem
Porque tu ainda não deste a volta ao mundo.

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O rio da posse

Bernardo Soares – Fernando Pessoa

Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade. Só nos parecemos de longe, na proporção, portanto, em que não somos nós. A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que nunca se definem, e são, um e outro, ninguéns.

Cada um de nós é dois, e quando duas pessoas se encontram, se aproximam, se ligam, é raro que as quatro possam estar de acordo.

O homem que sonha em cada homem que age, se tantas vezes se malquista com o homem que age, como não se malquistará com o homem que age e o homem que sonha no Outro.

Somos forças porque somos vidas. Cada um de nós tende para si próprio com escala pelos outros. Se temos por nós mesmos o respeito de nos acharmos interessantes, (…) Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz; porque só quem não busca encontra, visto que quem não procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz (como não pensar é a parte melhor, de ser rico).

Olho para ti, dentro de mim, noiva suposta, e já nos desavimos antes de existires. O meu hábito de sonhar claro dá-me uma noção justa da realidade. Quem sonha demais precisa de dar realidade ao sonho. Quem dá realidade ao sonho tem que dar ao sonho o equilíbrio da realidade. Quem dá ao sonho o equilíbrio da realidade, sofre da realidade de sonhar tanto como da realidade da vida (e do irreal do sonho com o de sentir a vida irreal).

Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos.

O amor perde identidade na diferença, o que é impossível já na lógica, quanto mais no mundo. O amor quer possuir, quer tornar seu o que tem de ficar fora para ele saber que só torna seu se não é. Amar é entregar-se. Quanto maior a entrega, maior o amor. Mas a entrega total entrega também a consciência do outro. O amor maior é por isso a morte, ou o esquecimento, ou a renúncia — os amores todos que são os absurdiandos do amor.

No terraço antigo do palácio, alçado sobre o mar, meditaremos em silêncio a diferença entre nós. Eu era príncipe e tu princesa, no terraço à beira do mar. O nosso amor nascera do nosso encontro, como a beleza se criou do encontro da Lua com as águas.

O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente.

O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada.

Metafísico. Mas toda a vida é uma metafísica às escuras, com um rumor de deuses e o desconhecimento da rota como única via.

A pior astúcia comigo da minha decadência é o meu amor à saúde e à claridade. Achei sempre que um corpo belo e o ritmo feliz de um andar jovem tinham mais competência no mundo que todos os sonhos que há em mim. E com uma alegria da velhice pelo espírito que sigo às vezes — sem inveja nem desejo — os pares casuais que a tarde junta e caminham braço com braço para a consciência inconsciente da juventude. Gozo-os como gozo uma verdade, sem que pense se me diz ou não respeito. Se os comparo a mim, continuo gozando-os, mas como quem goza uma verdade que o fere, juntando à dor da ferida a consciência de ter compreendido os deuses.

Sou o contrário dos espiritualistas simbolistas, para quem todo o ser, e todo o acontecimento, é a sombra de uma realidade de que é a sombra apenas. Cada coisa, para mim, é, em vez de um ponto de chegada, um ponto de partida. Para o ocultista tudo acaba em tudo; tudo começa em tudo para mim.

Procedo, como eles, por analogia e sugestão, mas o jardim pequeno que lhes sugere a ordem e a beleza da alma, a mim não lembra mais que o jardim maior onde possa ser, longe dos homens, feliz a vida que o não pode ser. Cada coisa sugere-me não a realidade de que é a sombra, mas a realidade para que é o caminho.

O jardim da Estrela, à tarde, é para mim a sugestão de um parque antigo, nos séculos antes do descontentamento da alma.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.  - 273.

Foto: Juquehy à mágica luz de outono. Lei Kassab. Maio/2011

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Uma centelha de futuro

I know not what tomorrow will bring…” - Última frase de Fernando Pessoa

Acordei aturdida de um sonho bom. Agora que as cortinas se fecharam, não há aplausos para a realidade. No entanto, reverbera em mim a familiar sensação de ter pertencido àquela história. Tolos e humanos somos nós, ao despertar desses fragmentos de alma!

No sonhar há um luminoso encontro entre a terrível loucura e a suposta normalidade. Personagens se miscigenam sem pudor. As cisões deixam sua abruptude à margem de meus reinos. Pensamentos enlaçados às ações, em absoluta confluência.  Nada há de tão absurdo que não possa acontecer. Toda trivialidade não plangente se reflete em ontologias. E vivenciar isso é sublime para aqueles que não têm medo de submergir em estranhezas.

Adormeci a minha vida por algumas horas e trouxe a docura infante aos lábios, neste momento. Confesso-o com o intuito de recordá-lo até os limites da memória. Esse sonho bom, só meu. E, como é evidente, não poderei contar o seu enredo. Não suportaria deteriorar a excêntrica ideia de que ele sairá do lápis da minha mente e desenhará minhas futuras cicatrizes.

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Adiamento

Álvaro de Campos

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…


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O amor na estante

A madrugada em solitude se apodera de mim como se não fosse uma estrangeira a invadir os aposentos. Eu a aceito, na feliz condição de quem está no caminho dessa entidade – incompreendida e sobranceira. Já desisti, há muito, de ousar traduzi-la, transpô-la ao cognoscível que sustenta o espírito racional da humanidade.

É no maior dos silêncios que me chegam as palavras. Capturadas de páginas inconclusas ou exigidas de uma memória da qual sou totalmente impotente, elas me cruzam em suas trajetórias irregulares e tardias, translúcidas e calmas.

Que seria de mim se não fossem esses empilhados de papéis nessa hora tão perigosa? Em que umbral me encontraria se não houvesse a existência mágica dos livros na minha jornada? Seres que me permitem inclinar-me aos penhascos, para ao menos retrair o coração, submisso, e admirar o inefável ontológico dos abismos.

Amo-os como jamais fui capaz de mensurar. A casca, capa, o invólucro já me são manifestações do pré-amor. Ah, quantos amores são como os livros! Não! Os meus amores todos são livros.

Há os que dão saudades dos personagens e dos quais não me canso de recordar a felicidade extraordinária que proporcionaram suas epifanias brilhantes (e não efêmeras). Quantas lágrimas fugiram de mim, nas últimas linhas… Como sofri, aprendi e temi aquele fim, porque o fim é sempre inevitável.

Quantos livros não descartei nas primeiras folhas: ora por serem ininteligíveis na época, ora por carregarem uma prepotência insustentável. Um sorriso se encosta nos lábios ao trazer à tona alguns desses homens semi analfabetos!

Houve também as histórias curtas, magras, fáceis de ler. Pouco foram sedimentadas dentro do corpo. Jamais traziam a finalidade de ser abrigo aos bustos construídos em minh’alma.

E mais tantos amores-aventuras que poderia mensurar. Quando se gruda o olho à letra, o pulso ao limite até o ponto final. E a invasão serena, mista de alegria e alívio.

Se eu pudesse encaixar os amores nos livros, haveria também os de autoajuda, com suas fórmulas piegas, a náusea de sua previsibilidade e simplórias senhas de felicidade. Também os clássicos, pedantes, flácidos, ensimesmados, mofados e taciturnos que a gente se obriga a ler na frustrante tentativa de pertencimento, de transbordar aos outros nossa biblioteca incorporada.

Sobrará algum livro imorredouro cá dentro, então? Com os olhos do pensamento apertados em nitidez, eis que surge minha resposta: a poesia é o meu único amor que não tem prazo. Porque ela invadiu as fronteiras dessa noite com todas as janelas escancaradas às possibilidades. Imortal, com a fulgurância comparável aos fogos de artifício, quando tenho o faiscante espírito em festa. Ela, que me tece em seus retalhos e me dá o sentido desvelado de continuar. Que aniquila o laconismo mundano do choro. A ocêanica poesia que me arrebata em segundos, alucina meus poros e me deixa cambiante. Única, retira-me da medonha sonambulia perambular da ignorância. Que joga a desesperança dos trilhos para longe de mim. Esse foi o único de todos os meus amores que se perpetuou. O amor que me extrapola em lirismos e resplandeceres, sem nomeá-los de tal forma. Poesia que conflui a soturnidade, a clareza e o mais débil contentamento em verso. És a derradeira permanência neste mundo.

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A desistência é uma revelação.

Clarice Lispector

“(…) E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.

Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço – viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.”

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Onírico desatino

“Mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro, brota depois…Pois então, o senhor me responda: amor assim pode vir do demo? Poderá?” João Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas

Acordou num sobressalto. Desassossegada das manhãs, temia estar mais uma vez atrasada para o viver. O coração pululava em intimidadas artérias. Um suor, mascarado em umidade, escondia o acontecimento delirante. E não houve uma consciência recobrada anterior ao pertencer dos impropérios sentidos que avassalavam os poros, ainda trôpegos de vinho e insônia.

Então havia existido. Em alguma esquina onde moram todos os desejos, ardia. Inútil, o convite, impensado devaneio. Por que, meu Deus, fui habitada por essa possibilidade? Por que me vem agora essa terrível clarividência daquilo que não sou capaz de compreender?

A ira, cerebral, era mínima. Sempre lhe foi inelutável sustentar as estribeiras do pensamento, frente à imprevista tempestade oracular. Defendida de si e para si, percorreu a cidade, passos longos. Suspensos, os minutos não a auxiliavam no entendimento da fantasia. Não quero o amor a me rondar, agora! Que descaso é esse, descabido inconsciente? Que audácia é essa de tingir meu sonho em retalhos escarlates?!

A sucessão das horas não foi apaziguando o reverberar das cordas. Não trouxe a desligada calmaria do ouvido que desiste de se atentar à insuportável presença do tempo. Absolutamente tudo se concretizou, ali. Instante onde a quimera entrelaça o inadmissível – e o concebe caminho. Num repouso em que todos os corpos estão nus.

O ímpeto de telefonar a ele e dizer a loucura repercutida em sua cabeça fora maior que o entregar-se ao incabível. Nas profundezas de sua racionalidade, ela precisava pôr fim àquelas indizíveis previsões.

E ele? Sem ter menor noção do que se tratava, foi ao encontro da amiga, na tarde ensolarada que cobria as outonais nuances. E ambos vagaram pelas ruas: ela com a culpa ridícula do sonho; ele com a ignorância dos infantes.

A tarde, imune, encolheu-se, vestindo-os com o pôr-do-sol à beira da esplanada. Sincronizou a paisagem à memória dos clichês. Estupefata, ela respirava o alívio de todos os sonhadores desavisados. A esquálida fumaça transparente das esperas ia, pouco a pouco, deixando seus domínios. O intraduzível que os silenciava, no auge crepuscular do óbvio, abandonava o pesado recinto. Ah! – suspirou – como é bom me desafogar desses dilúvios! O conforto de ter as rédeas da razão em punho! Nada existiu. Nada existiu.

Cambaleante, alta noite se inaugurava vagarosa, com a preguiça que nortea todo esplendor. Uma lucidez indigna da miopia estrelava os olhos, antes aflitos, daquela moça. Os anseios – exaustivos para quem já teve uma imaginação em chamas – em mudez. Sonhos pueris, que navegam a vigília e o latente, enfim superados. Nada aconteceu.

O dia a seguir, haveria o encetar da ressaca que se cala? A extenuante inquisição das rotinas? Nada! A jornada já não seria a mesma. No amor ou ideia de amor, na lembrança iludida ou na sua oposta desaventura. É.

Ele também compreendeu: ao buscá-la, após o expediente, não decoraria dizeres. Tudo aquilo que não existia já estava adormecido em sua carne. A intempérie não jazia, hospedava-o. Preambular àquele passeio.

A relação mudou. E o porquê não o interessava. Nos sutis tintilares que eram despertos, os sorrisos escaldantes submergiam seu rosto claro.

Surgido o oportuno momento, apenas invocaria a ancestral originalidade. Afinal: viver se enquadra, milimetricamente, no sonhar?

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Não há profundeza imemorial

Nenhuma intimidade é navegável pelos olhos…

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“Tudo o que não invento é falso.”

Manoel de Barros in Memórias Inventadas

CASO DE AMOR

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.

Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros

a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir

sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. e sinto que ela bota sentido

em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando

agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto

mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela

melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem

acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando

vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é

carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela

esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ir ao rio do outro lado.

Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela:

um coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.

Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo:

deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai

desaparecendo igual quando carlitos vai desaparecendo

no fim de uma estrada…

Deixe, deixe, meu amor.

SOBRE IMPORTÂNCIAS

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: veja que pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. E um dente de macaco da era terciária é mais importante para os arqueólogos do que a Torre Eifel. (Veja que só um dente de macaco!) Que uma boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que o Empire State Building. Que o cu de uma formiga é mais importante para o poeta do que uma Usina Nuclear. Sem precisar medir o ânus da formiga.  Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

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Ser “sincera”?

Clarice Lispector – trecho de “A paixão segundo G.H.”

E é só o que posso dizer a meu respeito? Ser “sincera”? Relativamente sou. Não minto para formar verdades falsas. Mas usei demais as verdades como pretexto. A verdade como pretexto para mentir? Eu poderia relatar a mim mesma o que me lisonjeasse, e também fazer o relato da sordidez. Mas tenho que tomar cuidado de não confundir defeitos com verdades. Tenho medo daquilo a que me levaria uma sinceridade: à minha chamada nobreza, que omito, à minha chamada sordidez, que também omito. Quanto mais sincera eu fosse, mais seria levada a me lisonjear tanto com as ocasionais nobrezas como sobretudo com a ocasional sordidez. A sinceridade só não me levaria a me vangloriar da mesquinhez. Essa eu omito, e não só por falta do autoperdão, eu que me perdoei tudo o que foi grave e maior em mim. A mesquinhez eu também a omito porque a confissão me é muitas vezes uma vaidade, mesmo a confissão penosa.

Não é que eu queira estar pura da vaidade, mas preciso ter o campo ausente de mim para poder andar. Se eu andar. Ou não querer ter vaidade é a pior forma de se envaidecer? Não, acho que estou precisando de olhar sem que a cor de meus olhos importe, preciso ficar isenta de mim para ver.

 

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Eu, aquela que guardava os tesouros em mapas indecifráveis

Eu, aquela que guardava os tesouros em mapas indecifráveis… Como resolução de ano novo, decidi doar meus amores literários. Posso dizer adeus às coisas que amo porque os olhos me são e nenhum indivíduo sequer é capaz de ofertar às minhas musas maior afeto dedicado, tamanha devoção canina. E o meu amor pelos meus se torna um desafio para quem o compartilho.

Perfil a lápis – Paulo Mendes Campos

Morei em Ipanema, passei para o Lebon, virei serrano. Vou e venho.

Amo e desamo. As palavras me pegam. No fim resta o silêncio: sou vidrado na minha dor.

A ecologia era esta: vovô me dava doces. Vovô me deu um menino Jesus de barro. Mamãe comprava palmito para a minha salada de alface. Papai fazia cadernos para que eu estudasse. Tia Zizinha cortava-me as unhas com muito carinho. Tia Nininha costurava meus calções de futebol. Tio Valdemar me levava para ver o Atlético, tio Tatá me dava prata de cinco mil-réis. Tio João esgrimava comigo no fundo do quintal. Tio Antonio fez uma horta Meu primo Hélio me deu meu primeiro cigarro. Dolores, minha mãe regra-três, me defendia dos capetas maiores. E Isabel, também regra-três, olhava para mim com doçura e suspirava: “Coitadinho dele!”

No sentido publicitário do verbo, vou me vendendo depressa a idéias, pessoas, paisagens, climas, livros, objetos – o que existe no mercado. Quando morei em Ipanema fui Ipanemense convicto; passei a ser lebloniano; fiz uma casa na serra, virei serrano.

Nunca tive centro de gravidade mental ou psíquico. Vou com todo mundo, todas as têmperas, todas as cores, todos os pratos do cardápio. Copiei um grifo de Stendhal: “Nunca tive consciência nem sentimento moral.” Fiz meu o verso de Murilo: “Sou firme que nem areia em noite de tempestade.”

Dou a alma pelo azul e traio o azul com o castanho.

Nasci para ser mundano, apesar de toda a minha desconfiança. Se soubesse dançar bem, não sairia do dancing. Amo acima de todas as coisas a sobriedade dos sentidos. Mas dou um boi pra ficar ubriaco.

Não posso contemplar cartaz de propaganda turística sem me derramar pelas ravinas glaciais da Suíça, ou passar o verão no Marrocos, ou flanar pelo chiaroucuro de Praga, ou estender-me como roupa branca de Portugal. Mas sou capaz de trocar tudo por entre um sono entre o jantar e a velhice.

Não é preciso qualquer eloquência para persuadir-me. Nasci convencido. Amarro minhas mãos para não bater palmas aos discursos idiotas. Prendo meus tornozelos a pesadas grilhetas para não frequentar locais absolutamente intoleráveis.

Fecho meus olhos para não sorrir a quem não vai comigo ou me detesta; mas às vezes já é tarde.

Também às vezes me agrido porque também amo a agressão. Às vezes choro porque chorar é um prazer irreprimível e o mundo gosta de lágrimas. Li os clássicos com saudade dos românticos.

Perdôo a mim mesmo porque é doce perdoar. E também me destruo porque é duro destruir. Sou vidrado na minha dor.

Estraçalho uma bacalhoada com um vigor lusitano, mas sei dedilhar uma travessa de caracóis com um racionalismo gaulês. E talvez gostasse de passar a pão e água.

A chuva me pega com facilidade. E quando chega o sol, faço-me uma ode de carne e vou tomar sol.
Se me dedico dois minutos a imaginar o tamanho da terra, quero ir às honestas canseiras da lavoura, sou lavrador, bicho do chão, raiz. Mas já dei comigo consultando livros de mineralogia. E saio sempre voando quando passa o avião.

Pobre ser mercurial, escorro em tudo, rolo, desato-me e depois me recomponho, para escorrer de novo, rolar, desatar-me.

Às vezes dou comigo comprando uma casa no subúrbio, mas a poluição me desanima: compro um rancho nas lonjuras de Góias. Ou abro uma salsicharia na Avenida Ipiranga.

Vou e venho – é um direito, é uma obrigação que me impele, que me abusa, que me pertuba. Amo e desamo. Faço e desfaço.

Vi em Shakespeare um tonto quando li a antipatia de Tolstoi. No dia seguinte achei o russo um cego.

Passo para o lado de quem me ataca. Desculpo o bem e o mal que me fazem.

Redigindo publicidade, acabei me apaixonando pela técnica de fabricação de certos produtos.

As palavras me pegam. As imagens me pegam. As inflexões me pegam. Viro amigo de infãncia de qualquer desconhecido.

O mal e o ruim frequentemente ganham de mim. Chego a morrer com simpatia.

No fim de tudo resta o silêncio, que é a minha liberdade. O meu vazio.
Serei o bobo do universo?
Nem isso: só um bobo. Mas gosto de ser bobo.

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Sincronicidade é maior do que destino…

 

Para Maria da Graça – Paulo Mendes Campos

Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?” Essa indagação perplexa é lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!” O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon” Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gato se fosses eu?”

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! mas quem ganhou?” É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “A minha história é longa e triste!” Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!” Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo” Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuido tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor. Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

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Num outro nível de vínculo

 

 

“Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo…” Caetano

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Pequenas ternuras*

Paulo Mendes Campos

Quem coleciona selos para o sobrinho; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se se detém no caminho para contemplar a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas ou de já não aguentar subir uma escada como antigamente; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso amoroso; quem procura numa cidade os traços da cidade que passou, quando o que é velho era frescor e novidade; quem se deixa tocar pelo símbolo da porte fechada; quem costura roupas para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar, já quebrando a cerimônia com um início de sentimento: “Meu pai só gostava de sentar-se nessa cadeira”; quem manda livros para os presidiários; quem ajuda a fundar um asilo de órfãos; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem compra na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias de um amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe derem de presente, a caneta e o isqueiro que não mais funcionam; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque para brincar com amigo ou amiga distante; quem coleciona pedras, garrafas e folhas ressequidas; quem passa mais de quinze minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em ligeiro e misterioso transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se envergonha da beleza do pôr-do-sol ou da perfeição de uma concha; quem se desata em riso à visão de uma cascata; quem não se fecha à flor que se abriu de manhã; quem se impressiona com as águas nascentes, com os transatlânticos que passam, com os olhos dos animais ferozes; quem se perturba com o crepúsculo; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente a pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga perceber o “pensamento” do boi e do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e, mesmo aparentemente livres como os outros, andarão por toda parte acorrentados, atados aos pequenos amores da grande armadilha terrestre.

* Essa pequena ternura é a Bella, filha dos meus amados primos, o Dani e a Nicole. Quantas vezes eu não fui salva pela sua voz…

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Do disco voador!!!

Hoje é domingo missa e praia céu de anil
Tem sangue no jornal, bandeiras na avenida Zil
Lá por detrás da triste linda Zona Sul
Vai tudo muito bem, formigas que trafegam sem porquê

E das janelas desses quartos de pensão
Eu como vetor, tranquilo tento uma transmutação
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem tanta estrela por aí.

Andei rezando para tótens e Jesus
Jamais olhei pro céu, meu disco voador além
Já fui macaco em domingos glaciais,
Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar

E nas mensagens que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar

Estão muito ocupados pra pensar.
Ô, ô, ô seu moço do disco voador
Me leve com você, pra onde você for

Ô, ô, ô seu moço mas não me deixe aqui
Enquanto eu sei que vem tanta estrela por aí.

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De quem eu vim


Ladainha

Miriam Portela in “O Continente Possuído”

Senhor, tende piedade

dos que têm no lugar do coração

uma pedra branca e fria.

Tende piedade dos sós

dos cegos e apolíticos

porque não crêem.

Tende piedade dos responsáveis

porque dormem fartos e não percebem.

Tende piedade dos loucos lúcidos

que são enjaulados e dos apenas lúcidos

incapazes de medir a extensão

de suas loucuras.

Tende piedade

dos que sentem frio

e cortam a carne

e sentem medo:

eles estão desarmados.

Tende piedade dos fortes e poderosos

porque não sabem sentir

e se cansam logo.

Dos que pensam em voz alta

e provocam pânico

e são condenados a um silêncio

anormal.

Tende piedade, Senhor

dos que têm pressa -

a esperança para eles é fugaz.

Piedade para os que se sentam

e permanecem estáticos -

o seu caminho é mais longo

do que imaginam.

Tende piedade dos violentos

porque neles a fragilidade é maior

e essa é a sua vergonha.

Tende piedade dos que mentem

e acreditam que estejam realizando

construções na mentira cotidiana.

Tende piedade de todos nós

Senhor

porque não somos pródigos

e necessitamos da tua

misericórdia.

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Despedida

RUBEM BRAGA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Foto de Marcela Lalim: Lisboa ao amanhecer

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Passeios

Vesti meus olhos de poeta e vi:
teu vulto esguio atravessando os espaços
tão breve!
Na ânsia de te deter
vesti apressada
minhas invisíveis luvas de poeta
e agarrei o gosto do pólen recém tirado
das flores
e senti o úmido das manhãs orvalhadas
esquecido nos ares.
Que fruto doce-azedo seria aquele
que me queimava a palma das mãos?
Seria feita da memória do cedro ou do carvalho
a sombra por mim adivinhada?
Com a inquietude que habita
minha alma de poeta
parti atrás do rastro dourado
deixado em teu passeio.
E vislumbrei lagos, onde mergulhei.
E desenhei aldeias e vilas que percorri
em busca da tua alma terna e luminosa.
Havia uma promessa de amanhã
no mundo tocado por teu brilho.
Alguma coisa em ti
refletia
reluzia
iluminava.
Com a delicadeza que molda meus dedos de poeta
despi-me da poesia
e ainda pude ver:
Teu vulto esguio
cruzando os espaços
tão leve!

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