Novembro 10, 2009

Amor de instante, instante de amor

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Há dias possuo um tema muito pertinente para os versos. Até a foto que ilustrará suas linhas já está devidamente reservada, manto para o seu rebentar. Contudo, está sendo impossível fazê-lo desfranzir entre a inópia das  minhas ideias.

Decidi, pois, doar o meu hoje ao pensamento vazio dos truísmos. Espantar quaisquer formas de elaboração cerebrina. Sequestrei-me de mim, posto que as palavras negaram sua magnitude. Ter mote sem espinha é matar o glosador.

As luzes do quarto e do olhar já haviam sido apagadas. Eu estava prestes a desligar o computador. Foi quando deparei-me com um minúsculo inseto de asas incontestáveis e de aspecto repugnante. Ao acender as luzes, atabalhoada pelo horror enorme àquele ser infinitesimal, descobri-me a mais ínfima criatura do universo. Era tão somente uma linda joaninha que viera visitar a minha demérita madrugada.

Instantaneamente senti um profundo amor por aquela joaninha diminuta. Ela passeava lentamente pelas letras escuras do meu delírio. Voava tão baixo que me era possível sentir seu respirar.

E era gélida. Platônica. Inconsciente do transbordar. Alheia à invasão que provocava em minhas terminações nervosas. Sem a mínima pretensão de ser meu elo poético.

Escrever nada mais é do que essa fatalidade feliz do encontro, essa sincronicidade ilusória, essa máscara de destino. A escrita só escolhe habitar os psicógrafos das atenções flutuantes.

No entanto, não se pode confundir. A espera reveladora não é sinônimo de paciência. Pode-se passar toda uma vida devaneando aparições de joaninha. Mas basta um segundo para que sua convergente presença seja evaporada em janela.

Estúpida, passei semanas à procura das imagens! Eu almejei tanto um discorrer acerca dos imprevistos amores. Eu, iconólatra, engoli páginas e páginas, auscultei pilhas de escrituras.

De repente, compreendo a subitaneidade apossando-se de mim. Mais uma vez estou imersa em paixão instantânea. E a vida curta de joaninha – precisamente cento e oitenta dias – transfigura-se em pequenas eternidades.    

Novembro 5, 2009

Sobre os dentes de leite

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“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda”. Clarice Lispector

 

Eram quase três horas da manhã. Tragávamos o cigarro que religiosamente precede nosso adeus. A conversa, galáctica, já irrompia nebulosas. A fumaça alcançava – braços longos que tem – satélites e órbitas inabitadas. Íamos juntas, enlevadas. Pejadas estávamos, gordas de madruguez:

- Sabe, amiga, eu nunca gostei da multiplicação. Quando estamos multiplicando, na realidade há uma repartição. Tornamos as coisas pequenas. A essência esquece de si, fragmentada em minúsculas parcelas.  

Quanta sabedoria despontava em sua confissão! Fiquei cerca de dois segundos estacionada naquela frase. E respondi, cúmplice que sou:

- É por isso que os únicos providos de alma são os números primos. A eternidade é divisível.  

Imediatamente, ficamos nítidas. As miopias cediam, uma por uma, lugar para os epífanos sentidos. A aterrisagem do olhar primeiro nos permitia navegar águas mais foscas… Dissertamos matematicamente acerca das relações e das suas raízes quadradas. Inserimos cada ser humano na indubitável condição. Só somos repartidos em nossa própria unidade.

Por qual razão, números primos que somos, tão facilmente nos multiplicamos nas relações com os outros? Não há deveras verticalidade nos humanos? Os trilhos não são supostamente  preenchidos em horizontalidade? A harmonia cósmica não reside nos espíritos pensantes?

Seria preciso acender mais um cigarro. O diálogo era, naquele instante, ectoplasma. O simulacro dos relacionamentos mais uma vez tecia os pensamentos. Felino, ronronava entre as ideias, aconchegando-se nas memórias mais longínquas. Cigano, roubava-nos a racionalidade. Por que, meu Deus, por que vivemos constantemente em estressantes movimentos de gangorra?

Quanto mais recordávamos nossos relacionamentos – fossem eles de amor, de amigo ou de escárnio – mais óbvias íamos nos percebendo. Ao revisitar a nós mesmas, nenhuma comunhão oblíqua havia sobrevivido com ternura. Todas estavam trancafiadas em pesadelos, empoeirados conveses da lembrança.

Todavia, nem tudo era carregado de maledicência. Havia também aprazíveis resgates. Às margens dos envolvimentos medíocres, nasciam delicadas reminiscências. Eram devaneios das relações aprendizes. Encharcadas de lepidez, indissolutas, primas. Indivisíveis.

Desvelado o grande mistério, era fácil compreender. Um manancial de descobertas sobrepujava-nos. A clarividência enfim tomava as fumaças e concretizava-se, sincrônica. Como era lindo estar em posse de tão precioso pecúlio!

A felicidade residiu em nós apenas quando estivemos na condição de alunas. Ah, a doçura do desconhecimento! Os náufragos personagens que mereciam morar nos sonhos eram aqueles que acordavam as nossas verdadeiras paixões. O resto, o resto cobria-se inteiramente em sofismas.

Infelizmente, poucos são os homens que revelam-se cândidos. Equivocadamente precisamos nos afirmar em maestria. A ignorância aparece como desvio, estupidez, fraqueza. O que há de errado em reconhecer-se na incompletude? Por que a nossa falta de luz denota tamanha humilhação?

Naquela madrugada, algo fora despertado dentro de mim. Selei, calada, um pacto para toda a minha jornada. Tenaz e silencioso. Quero tudo o que seja decidual. Nada além do que uma vida entre dentes de leite.           

Outubro 23, 2009

À Bientôt, prólogo

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O eu sabe prever antes de mais nada e o eu é impotente para prevenir”.  Edna O´Brien – Dezembros Selvagens

O parto já dura algumas semanas. As primeiras contrações foram tímidas, mínimos asteróides que se estilhaçam em mares dialogados.  Uma palavra bonita, um acontecimento revisitado em uma conversa, sonho cravado despretensiosamente em um livro.

O grande obstáculo do devaneio em questão é a sua própria essência: dissertar acerca dos prólogos humanos. Porque é mais difícil mergulhar nos próprios começos. Compreender que eles estão sempre dilacerados pelos fins.

Este texto está custando tanto a nascer que eu mesma já sinto o cansaço da respiração ensaiada, o intraduzível condoimento de adormecer sem ter desmantelado ideias. Enquanto ele estiver envolto em meditações, a placenta goteja e não se rompe, impedindo o coração de pulsar apenas por si só.

Eu nunca fui casa para ninguém. Não dividi proteínas. Os meus seios não produziram anticorpos. Todavia, também não posso esvaziar-me sozinha. Hoje, sou mãe única e exclusivamente das minhas palavras.

Por que razão preciso de bisturis, meu menino? Você não quer ou ainda não pode ser-no-mundo? Será que ainda é prematuro conhecer a si? Ou serei eu a pior das criaturas, estúpida criadora? Quero ser embalada em suas imagens e lembrar dos meus inícios. E como todo nascimento espelha-se em Narciso, preciso enxergar a mim, quando extasiar-me nas ataraxias da sua tez.     

O nascer não espanta as temeridades, assim como o batismo não imprime a alma. Mas há um medo, um desespero, uma dor tão grande em aceitar! Deixar  meus prólogos povoarem essas frases, partindo de mim. Ao deitá-los nas linhas, eu os doou para o mundo. O dizer adeus, desértico. A obrigatoriedade dos interlúdios nus.

O prólogo está em todas as minimidades cotidianas! Reside na limpeza dos cinzeiros, banhados pelas águas do esquecimento. Está nos fins de romances, quando há resistência em terminá-los. Os personagens irão embora. Como é possível suportar a saudade?

Todo prólogo é unha quebrada, aquela que recorda a sensibilidade subjacente do dedo. Ele é a bruma dos banhos embevecidos em sais, quando se crê na purificação do espírito pela carne.

Alguns prefácios se alimentam das luzes artificiais para apaziguar o breu. Brilham em neon, imitadores galácticos. Reluzem divinos, na escuridão do quarto. As horas do sonhar são, pois, enlances das trevas.

Mas há tanta ignorância frente aos começos. O equívoco de contrapô-los à finitude. Avesso, oposto ou repulsa. O encerramento nada mais é do que seu gêmeo univitelino. Ser que circunscreve os traços do exórdio. Só existe semente na morte do fruto, reentrância da terra. É, ocasos apavoram! E os crepúsculos – por quê? – nunca são ensinados.

Inícios de mim, vocês podem ir agora. Nasçam, desgrudem-se da minha loucura. Soltem-se, cintilantes prolepses. Antecipem suas chegadas, sobranceiros. Eu, confusa e exaurida, gozo a imersão das dores que expulsam o feto. A madrugada está dando lugar ao azulejar do dia. Apago os lampiões para retardar o sol. Com a memória, morte que traz a celebração. Vão embora de mim. Não há instante que se atrase. 

Outubro 21, 2009

Porque eu o aceito, Vinícius

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O amor por entre o verde (Vinícius de Moraes)

 

Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns 13 anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, 16, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.

 

Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.

 

Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos?

 

E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?

 

É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram.

 

E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.

Outubro 20, 2009

Um pouco de Mia Couto…

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Por que não me escreveste nunca? Não é de te ler que tenho mais saudade. É o som da faca rasgando o envelope que trazia a tua carta. E sentir, de novo, uma carícia na alma, como se algures estivessem golpeando um cordão umbilical. Engano meu: não há faca, não há carta. Não há parto de nada, nem de ninguém. 

 

 

 

Vês como fico pequena quando escrevo para ti? É por isso que eu nunca poderia ser poeta. O poeta se engrandece perante a ausência, como se a ausência fosse o seu altar, e ele ficasse maior que a palavra. No meu caso não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim. 

Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca. 

Outubro 8, 2009

As Pazes

O ser, quando faz as pazes com a matéria, invade galáxias, conflita com as divindades estupefatas. Não há nenhum entorpecimento mais carnal do que fazer as pazes. E longe da ideia do perdoar. São outras lágrimas de luz que o alagam. O perdão – infelizmente – hoje carrega as cruzes católicas. Tem sangue batido em suas pétalas.

Congraçar-se, por sua vez, nada possui dos confessionários. A penitência é anterior. E já encontra-se paga. Também ultrapassa verbos como desculpar-se. Que humanidade estabeleceu a anulação da culpa? Passado é sempre tatuagem. Apenas o olhar tem direito a óculos.

Ligar-se novamente a algo tem o cordão umbilical em cumplicidade. É a comunhão de dois seres errantes. Sejam eles corpo e alma, pai e filho, namorados, irmãos ou traumas. O enredo da história é o menos importante. É vergonha em parceria, sem dividir a dor pela metade.

Se me perguntassem qual é uma característica puramente humana, eu diria: fazer as pazes. Os bichos e o mundo são mais evoluídos neste aspecto. Uma pedra é passiva frente às ressacas marítimas. Não se angustia, submersa em fúria oceânica. Uma estrela cadente sabe que sua morte é consagração.

Nós, intermitentes dos deuses, perdemos a sabedoria milenar dos astros. Sentimos rancor. Arrancamos cascas de feridas quase cicatrizadas para o cruel derrame sanguíneo. Regurgitamos defeitos alheios. Muito provavelmente aqueles que mais nos assombram.  E temos tanto receio dos heróis! É com intencionalidade que inventamos mentiras, corrosivos que somos. Destruimos uns aos outros, frágeis imitadores das tormentas.

Contudo, é para dar as mãos que a vida vale a pena, novamente. Multiplicar em mil as ofensas e as dividir apenas em duas partes homogêneas. Saber que apenas um cúmplice invade as equipolências. Alcançar a paz é eternamente plural, mesmo que o outro esteja somente nas divinas criações do papel.

Outubro 7, 2009

Avessos

Há exatas três semanas ganhei um presente musical. Convidada por uma querida amiga do mestrado, fui prestigiar o talento e a leveza de Ceumar. Infelizmente não foi ontem. Não encontro-me imediatamente posterior àquela noite deliciosa. O olhar tilintou há mais tempo, aveludada ternura. Mas a nitidez da lembrança é hoje. Guardo debaixo de frágeis cadeados de brinquedo. E reservo o deleite com lentes do agora. Porque o momento é vívido hoje.

Sentamo-nos tímidas, minha amiga e eu, na multidão de fantasmas silenciosos. Confesso, apesar da inelutável melancolia do vazio, embriaguei-me com goles de orgulho, por fazer parte daquela pequenina plateia.

Foram algumas horas, apenas. Um enxerto na alma, diria. Mais os olhos meio verde-amarelo, a aura azul. Um transbordamento de estrelas formigantes. O corpo todo cheio de gratidão.

A voz dela enlevada pelo timbre dos risos. Íntima, seu enredo cobria-nos de pijamas perfumados em tangerina. “Conta suas histórias!” – dizia o público, abobadado em doçura. “Canta a nós sobre os rabos de cometa”.  Éramos sábios hedonistas a saboreá-la.

E veio a canção inesperada: “Por isso deixo aqui meu endereço, se você me procurar eu apareço. Se você me encontrar, te reconheço”. A letra, da poeta Alice Ruiz, é fruto de um mapa astral. Ela reconheceu a cantora em seu avesso cósmico. Ceumar explica, pois, em pureza de vagalume: muitos já se apropriaram da música, acreditando tratar-se de amor. E depois, sem intervalo, acha graça.

Desvanesci naqueles segundos. Porque minha obviedade já tinha tomado aquelas notas também. Era a banda sonora mais perfeita para definir a cumplicidade que carrego aqui dentro. Envergonhei-me, enfim, pelo sutil desdém que foi soprado. No entanto, como a perseverança é senhora em mim, não pude deixar para trás os devaneios.

O amor não dá certo em seu complementar. Em quase todos os casos, torna-se patológico. É uma grande heresia acreditar que os opostos vivem felizes para sempre. As extremidades são grandes estátuas, quando a Sincronicidade brinca com seus caminhos. O avesso, pelo contrário, é feito da mesma estampa.

Amar alguém é avesso de mim. Um dos dois precisa carregar uma felicidade insuportável dentro de si, que transborda e nos afoga com ela. Eu, todavia, sou das lágrimas. Tenho apreço por águas mais salgadas. Sou náufraga de um périplo menos colorido. Prefiro quando não dá pé.

O meu amor não poderia estar nos rios ou cachoeiras. Preciso dele perto, a tecer enormes castelos de areia. Sempre na praia, agasalhado por sonhos primaveris. Um amor que invente personagens com plumas e que odeie a morbidez fria. Eu sou toda voragem. Acredito piamente na lucidez das sombras.

Prefiro as madrugadas. Meu avesso necessita ser súdito do Dia. Só que, entre o céu e o mar, somos cúmplices. Desertamos as grandes fortunas. Abdicamos os feudos. Imensos desfiladeiros abrem-se para mim, a cada noite em que ele me deixa seu endereço.

Queremos muito espaço para divagar sobre cavalos alados. Por isso convidamos alguns peixes. Eles embarcam nossas sintonias pelos mares. Uma elite de entidades foi convocada para levar nossos recados. É engraçado isso – só o avesso tem telepatia.

Poderia passar horas infindas justificando meu ponto de vista. Mas aprendi com meu amor a guardar. Não sublimar ou neglicenciar. É simplesmente arcano.

Silencio nossos segredos. Contudo, maravilhada com a ideia de avesso. Esse amor, outro lado, trouxe a urgência dos versos de volta para mim. Como é linda a simplicidade do tecido! Porque eu era sonâmbula antes dele. Reverberava sonos que não recolhiam.

A voz de Ceumar estava, por fim, errada. As minhas fantasias estavam com as costuras expostas. (em algum momento de 2008)

Agosto 21, 2009

Paciente fui eu

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Socorro tem cinquenta e poucos anos. É preta. Pobre. Chega quase a ostentar o sofrimento através de suas rugas. Nascida em um manicômio judiciário, pouco sabe de sua mãe. Pouco mais que nada. Foi adotada aos seis meses de vida por um casal que trabalhava no depósito de loucos.

 

Lembra-se muito pouco de sua infância. Seu pai morreu quando ela era bem menina. Sua mãe na pré-adolescência. De sua família sobraram os irmãos. Eles a acolheram por não terem outra alternativa. Um de seus cunhados a tratava carinhosamente por ‘negão’. Criaram-na como se criam os velhos – assim sem paciência, contando os minutos para que a vida se encarregue da última possibilidade de todos os mortais.

 

Aos vinte e seis, Socorro tentou contra sua existência. Errou na dose. Fracassou. Por volta dos quarenta viu a si mesma como portadora de hepatite C. Qual não seria a ironia se ela nunca pudesse saber onde a teria pegado? Será que a doença veio como alimento, através de seu cordão umbilical? De que importa a memória? Ela já estava acostumada com o esquecimento.

 

Aos cinquenta sua alma pediu as contas. Socorro destruiu impiedosamente sua morada. Arrancou o carpete e as cortinas. Rasgou suas roupas e as defenestrou. Destruiu seus colares de miçanga com ódio. Cortou os fios de telefone. Qual contato poderia ela ter com esse mundo exterior?

 

Ah, tanta bipolaridade pôde ser vista em sua possessão!!!

 

Socorro contou sua história para muitos. Era impossível não se comover com tamanha tragédia. No entanto, a tragédia jamais a ajudou ou lhe deu abrigo. Talvez não fosse esse o caminho a ser percorrido.

 

Socorro tem cinquenta e poucos anos. Está sempre maquiada. Cortou os cabelos sarará. Outro dia estava investigando qual problema Deus teria com tatuagens. Não o encontrou e decidiu gravar em sua pele a marca do seu segundo nascimento.

 

Afugentou, a duras penas, os fantasmas que rodeavam sua casa. Socorro, aliás, mudou-se. Não de endereço propriamente dito, mas de olhar. Agora ela se encontra numa bela mansão, grávida de sonhos. Cinquenta e poucos.

 

Há um mês sentiu saudade pela primeira vez. Foi lindo, segundo ela. Uma escova de cabelo, uma laje na Lapa, bela vista da cidade. Os olhos encontraram a salgada lembrança. Não pela primeira, mas um dos poucos instantes marejados. Sorriu.

 

Hoje Socorro descobriu que foi o orgulho que lhe possibilitou a sobrevivência. Que milagre essa vida, diz ela. Percebeu que as lágrimas guardadas, a nunca-saudade, os cacos apenas pelo lado de dentro a tornaram capaz de continuar. Ficou maravilhada! O passado deixou de ser imutável. As dívidas consigo mesma vão, pouco a pouco, sendo quitadas. Quantas lembranças ainda não preparam seus lábios?

 

Lei tem cerca de mil anos. Branco, olhos verdes. Família gigante. Feliz. Sua vida nada teve, tem ou terá a ver com a de Socorro. Provavelmente ele nunca encontrará no sorriso dela, familiaridade. Uma pena.

 

Estranhamente, a luminosidade de sua boca foi reconhecida hoje. A mesma luz de mil anos foi acesa novamente. Outro corpo. Outra história. Essa vontade de ser feliz, essa simplicidade apenas destinada aos sábios. É inebriante.

 

Hoje, ao ouvir Socorro contar meninices dos cinquenta, lembrei. A sala foi invadida por milhares de átomos com gosto de mexerica. Fiquei inerte.

 

E a poesia, como acontece sempre, obrigou meus dedos a agradecê-los. Era uma questão de vida e morte manifestar minha gratidão. Obrigada por fazerem parte da minha vida. Eu, com meus vinte anos. Provavelmente na primeira existência – as linhas são fracas na minha palma da mão.

 

E eu, hoje, envelheci. Toquei meus dedos na doçura dos mil e dos cinquenta. Estou suspensa na divindade dos sorrisos. Perplexa, decidi. Quero muito ser feliz.

 

PS: Socorro é um nome fictício. Lei não.

Maio 31, 2009

Enquanto palavras frescas não vem…

A gente se aproveita dos amigos indizíveis!

mari

Abril 23, 2009

Por onde ando…