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A calhar…

Esse poema é o meu predileto de Pessoa. Conheço há anos e o recito como se estivesse declamando a minha própria alma. Tenho imensos ciúmes dele. Por muito tempo, quis aprisioná-lo a mim. Um segredo entre mim e o mestre. Pouquíssimos seres humanos o descobriram. Mesmo os portugueses mais apaixonados se surpreenderam quando o apresentei. Hoje, eu o deixo ir embora porque o amo. Na íntegra. Milimetricamente recuperado. Com todas as cousas em seus devidos lugares. 


Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das cousas
Onde sofrer seja uma cousa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos?) – Novas poesias inéditas

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Corrigindo a vida

Há temor maior que a abertura de um livro? A surdez que antecede o espamo. Aquele momento fugidio – e para tantos sem nenhuma importância – em que se dilacera a capa? Existe alguma taquicardia superior ao deflorar açucarado desse rompimento?

Pois bem, eu cresci sentindo essa emoção. Cada página mergulhada me foi mais importante do que beijo de namorada. Por muito tempo, senti-me um estrangeiro de mim mesmo, um foragido do planeta, caminhante de muletas.

Olho hoje para tudo o que se considera mundo e me choco. Agora, agora que tenho pessoas em minha posse, agora que há relações verdadeiramente humanas pulsando dentro das minhas emoções, questiono-me sobre o meu teórico aprisionamento.

As pessoas que passam por mim – ao contrário dos meus esféricos personagens de outrora – são cartões postais de si mesmas. Paisagens magistrais, mentiras fotográficas, sóis em brasa sem luz alguma. Todos com um estarrecedor medo de viver.

Empiricamente, vejo que não há depressão, bipolaridade, ansiedade ou esquizofrenia. A maior patologia de todos é a própria vida. Pavor ao câncer, ódio à pobreza, ojeriza à criminalidade. Medo de matar, medo de morrer, medo da loucura, medo de desvelar a verdade. Medo do adoecer. E é tão devastador esse medo de viver que o medo torna-se invólucro do enfermo. E se morre, literalmente, de tanto se pensar na iminência dos perigos.

Dir-nos-ia o mestre Guimarães Rosa que o viver é muito perigoso. Quantas vezes fui acusado de covarde, pela escolha da literatura! Eu? Eu que naveguei por abismos impossíveis, por angústias algemadas. Eu que não recolhi os pulsos, para não esconder os quelóides do suicídio fracassado. Eu que dormi ao relento, acompanhado de seres inumanos. Fui, inerte, o grande protagonista dos anoiteceres da alma! Eu e os meus autores. Testemunha da única verdade. Porque escrever é ter a nudez tatuada.

Em minha casa não entra ninguém que não tenha sido convidado. Na minha cama só há espaço para volúpias. As mulheres dos meus devaneios têm lábios mais maduros e seios desprovidos de consertos mesquinhos. E as páginas me engravidam de vocabulários e sonhos e sentidos redondos. E, às vezes, eu declamo minha cumplicidade para impregnar minha sala em amarelecidas fumaças. Inebrio-me com o gosto mofado dos anos. E durmo tranquilo porque o amanhã me reserva o inefável.

Sim. Eu só posso ser o farol que se arrisca frente às tempestades porque me nutri em coragens escritas. E saio pelos papéis pulverizando insanidades e encorajando mentecaptos. No entanto, há mais veracidade em mim. Eu, Scott Johnsonn, temerário analfabeto da vida.

Afinal, quem é  letrado em viver? Vocês, com suas fobias, suas alergias ao oxigênio? Vocês, mais sujos que os mendigos? Mais vis que as meretrizes? Vocês, atordoados por ressacas morais! Por inúteis amnésias alcoólicas? Com o receio tedioso de soltar o ignóbil que os corrói por dentro?

Vocês, agorafóbicos que são! Ressecados pelo horror à chuva. Invencioneiros sem bússola. Infames pelas próprias castidades. Como se os deuses estivessem preocupados com seus pecados mínimos. Acham mesmo que os deuses explanam a pureza?

Eu cresci com os mitômanos abençoados. Homens e mulheres que corrigiram a vida através de suas inventivas narrações. Delirantes, fracos, derrotados. Imperfeitos. Mas que puderam transmitir esse impalpável fiapo. Que cicatrizaram sua inconsciência ao tecer oraculares linhas em sinceridade. Porque o outro, espelho do avesso, anestesia todas as essências. E é a literatura – de quem lê e de quem aceita ser hospedeiro – é ela a mãe das nossas terras.

Parem! Chega dessa repulsa a mim! Eu, como todos aqueles que des-cobrem os signos dessa humanidade, sou incapaz de dissimular. Transparente como são todas as infâncias. Descrevo minhas mazelas. Rasuro-me. Reviso-me. E sei. Jamais abrigarei o ponto final.   

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O menino

Encontrei outro dia um menino que me fitou com cumplicidade secular. Tem a pele branca. Cabelos ralos, castanhos. A vulgaridade do azul não toca seu olhar. Porque muito pouco interfere a beleza improvável da sua íris.

 

O azul dos olhos do menino é rigorosamente secreto. Está todo envolto em silêncios. O azul dos olhos do menino são portas abertas para uma solidão em clausura. São aquários inabitados que ainda sonham com peixes. Brutalmente dócil.

 

O menino me contou da melancolia que o dilacera por não ter companhia nas manhãs frias da sua terra. A neve o faz desencontrado de quimeras.

 

Abandonado pelos pais – trabalhadores desavisados dos fantasmas da infância – o menino sonha com companhias imaginadas. E, ao se saber criador do seu universo, sofre. Um mero afago o faria doar aos órfãos toda sua capacidade de inventar.

 

Até o ouvinte menos atencioso seria petrificado pela amargura de seus dizeres: a gente tem vontade de entregar toda a alegria ao seu futuro passado.

 

O que o menino não sabe agora é que as feridas são depurações da nossa alma. Atrás das queimaduras há epidermes rosadas. Seu duro aprendizado fará dele um melhor pai. Ele terá a família sempre à mesa.

 

No cerne das suas lágrimas há uma liberdade, uma anárquica chance de construir o seu destino. Para além dos traumas irreversíveis existem horizontes de mar.

 

Eu, como não pude dizer nada disso ao menino, escrevo para elaborar a minha angústia de ter sido feliz. Com muito medo de que essa felicidade desesperadora me impeça de poder escolher meus trilhos também. Porque só a tristeza é senhora do mudar.

 

Senti, finalmente, a inveja pesada: não dos seus olhos azuis, mas da minha comiseração. Porque a cicatriz é a única pele que conta uma história. E são as histórias quem nos impedem de cair no esquecimento.

 

Enquanto isso, o menino espera a noite acabar para certificar-se de que não havia bicho papão. E, sem se dar conta, o menino estará condenado a amar a noite mais do que todas as mulheres de sua vida.

 

Eu queria dar-lhe, menino, saudades de balanço. Roubar lindas palavras como se roubam flores. Só que as flores são deveras sentimentais para acalentar seu espírito. Eu queria furtar sonhos de cantigas de ninar. Mas nós dois conjugamos a língua das fábulas.

 

Compreendo, por fim, o sentido último do nosso estranho reconhecimento. Você é uma narrativa que não pode morrer como as suas esperanças, ao final de cada tarde. E isso eu posso fazer. Escrever-te. 

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O texto que se esqueceu de si mesmo

Ando à espera das minhas solidões. Não é a depressão, espectro da contemporaneidade! Desejos suicidas jamais me procuram quando penso em meu isolamento cósmico. No mundo de hoje, contudo, às vezes é muito perigoso fazer uma afirmação dessas. Estar só é degenerar-se? Por que a solitude ganha sempre fúnebres reflexões?

Minhas ideias ousam desembarcar, mas não encontro portos que as abriguem. Tudo me é borbulhante, avulso, vago. E só há um vilão para todo o meu sobejar. Sofri uma espoliação: retiraram-me os jardins do sonhar, casa da minha solidão.

A morada da qual vos falo nada possui de quietude. Ela já esteve presente no meio de uma conversa trivial, quando – apesar de prestar imensa atenção – minha mente engordava de pensamentos. Também a recuperei em irritantes céus de churrasco. O dia inebriava-se azul e a minha ínfima condição obrigava-me ao trabalho braçal. Na sóbria caminhada para o lavor, pude ocupar meu firmamento de poesia e granjear pequenos versos, bêbados, inacabados.

No entanto, naquela época, era de minha posse recuperar as imagens, resgatar as profundezas dos devaneios sem perder uma vírgula sequer. Salvaguardar as reminiscências em sua plenitude.

Hoje sinto que tenho abortado palavras, sentimentos, parágrafos inteiros… Faz-me tanta falta, cômodo do meu delírio! E se não há um lugar específico, aonde eu guio minhas perturbações literárias? Em qual sussurro, em qual vestido, em qual cidade posso reaver meu instante solitário? Estou farta dos textos que se esqueceram de si mesmos!

Talvez precise voltar a me apoderar dos diálogos insanos, com pena e tinta nas mãos. Esponja que sou, dos olhos alheios. Revisitar músicas dos anônimos, aqueles que pintam sopros em nanquim e nutrem meus seios, desanuviando o cerne do espírito.

Enquanto o habitat me é desfavorável, emendo as camisolas velhas, consciente da inevitabilidade das cicatrizes e da iminente morte do tecido. A tenacidade das inspirações não reside nos seres, nas paisagens, nos planetas. É apenas o olhar conciliatório, a tradução para os planos não cartesianos.

Assim, órfã de sítios onde o fictício torna-se possível, busco os degraus insólitos, improváveis. Desato os nós etimológicos. E festejo a descoberta das letras expatriadas. Inéditas.

Corto as unhas compridas, encarnadas de feminilidade. Porque elas fingem-se imortais, suspendem o coração do perecível. Eu quero a pele despida da queratina, somente imersa nas quimeras.

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Remanso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sempre me senti dona de uma esperteza inegável. Desde pequenina, estava eu, de pijamas ou de tranças, metida nas conversas adultas dos amigos de meus pais. Todavia, hoje eu me olho e me sinto frágil. Precária. Capaz de entrever meus ossos esmigalhados, em um tilintar de segundos. Não sei de onde tirei a estúpida idéia de ser espevitada…

Hoje ouvi ondas e esbocei um imenso sorriso. Era apenas a máquina de lavar, companheira heróica da minha jornada. Pois é, estou viciada em limpar minhas roupas. E sei que isso tem total relação com a regeneração da pele. Lavar dá toda uma nova possibilidade para a roupa existir, sem vestígios de passado incrustados na superfície. E eu sou eternamente o vestido, a meia e a camisa.

Tudo me tem sido difícil e tudo me tem sido sozinho. Absolutamente por escolha irremissível de meu coração. Ou por altivez da minha alma. Temos conversado muito a respeito de minhas atitudes. Em conclusões não falamos, até o presente instante. Eu agradeço ao poder divino do ainda não, desta vez. Porque estar em contato com respostas faria com que me sentisse detestável. Seria capaz de enfartar o fenomenólogo coração que carrego atrás do seio.

A solitude, como me disse um dia um grande amigo de infância, é composta de solidão com plenitude. Miserável sou, ao não conseguir de forma alguma alcançar essa tranqüilidade. Tenho vivido dias e noites “de cão”! Aliás, o entendimento dessa expressão me é impossível de ser tocado. Meus dedos se recolhem, quando pensam nela. Os cães, ao não pensarem em si mesmos, vivem a reluzente euforia da ignorância. Só os humanos têm ciclos infelizes e, ao mesmo tempo, possuem a ousadia de não se esquecerem deles.

Sinto, cá, a perecibilidade das relações. Não, não aceito a insolente resposta de que meu tempo aqui é pouco e que em breve revisitarei a busca tão sonhada da amizade. É outra cousa que transborda de mim. Composta de falta mesmo, de não concernir, de insônia. Por vezes a insônia é bela: o dia anterior ao acantonamento, a conversa que inunda as conexões nervosas, o porvir e seu maravilhoso universo de acontecimentos sonhados.

A minha anipnia é outra: “não porque morresse ou me matasse. Mas porque me seria impossível viver amanhã e mais nada”, diria o mestre Fernando Pessoa, em minha preferida poesia.

Não durmo. À espera de compreender o sentido mais íntimo de minha estadia. Não durmo pois eu sei que o amanhã não me fará uma ínclita cozinheira. Não durmo pois meus amigos estão adormecidos dentro do meu abstrato desígnio. Sempre tive, mesmo nas áureas madrugadas estelares, muito medo do repouso. Porque a vida passa numa velocidade muito maior do que minha ânsia de vivê-la. Então eu bebo vinho e respiro enfim ares cor de rosa. Aguardo Deus, para que ele abençoe meu sono. Permita que eu prossiga este tão áspero e açucarado crepúsculo. Conceda-me a escrita, só mais uma vez.

 

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Ausência

 

Às vezes demora-se anos para entender o mais óbvio que há em nós. Só hoje verdadeiramente apreendi minha paixão pela Fenomenologia Existencial. Só hoje, com cicatrizes na vista, deixo meu estrabismo intelectual de lado, para ouvir o que em mim foi chamado. Só hoje meu peito é todo aberto à amplitude dos sentidos.

Wilson Batista sabiamente escreveu um dia: “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim. Meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim”. Não sei se ele teve alguma troca com a terrível corrente filosófica, ou se as coisas-mesmas estão ai para todos, basta querer desanuviá-las. Só importa que ele tem razão. Eu grito ao mundo! É hoje.

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”, retruca Clarice. Tenho essa absoluta convicção, pois é a minha insana ansiedade que fez ecoar em mim. As doces frases só circulam quentes em meu sangue porque dizem acerca do presente. O instante é o único capaz de congelar a lembrança. Ah, as Horas! Que criaturas equivocadas são as horas! Os minutos, apesar de se saberem menores, de terem obrigação com a humildade, também se conhecem muito pouco. Os dias, reis de feudos folclóricos! Freqüentemente são ridicularizados nos meus diálogos. Merleau-Ponty zomba da banalidade do tempo. Bachelard condena os meses ao calabouço. Só o aqui (agora) é Olimpo para nós.

Corro gravemente o risco de ser olhada como alguém extenuante. Todavia, meu atual instante dá de ombros para os olhares. Minha essência ironiza a tranqüilidade. Meus vícios estão em festa dentro de mim. São obviedades de viver intensamente o já.

E, quiçá, todos os amantes fenomenólogos sejam espíritos de uma incansável impaciência. Ou mesmo pode ser que eu não suporte o futuro e o passado. No entanto, não vivo cores pastéis. Sinto odiosa ojeriza daqueles que aceitam-se títeres do relógio. Careço de re-significar o que se foi e de lançar vibrações poderosas para o que ainda não é.      

Ando amarga mesmo. Esse dia, quase no fim, ardeu tanto, mas tanto… Revoltas palavras brotam sem deixar meus pensamentos floridos serem protagonistas. Há noites nas quais é preciso rebentar a ira e colocá-la no colo. Dar nome ao negro gosto. Saboreá-la, mesmo com incomensurável repúdio.

Sinto-me enferma por não poder contemplar as vicissitudes. Amarrada estou à mortalha da espera. Enfraquecida pelas horas, minutos, segundos e meses.  Desvairada pela nostalgia. Enojada por não poder viver a plenitude. Tenho a alma anorética, impossibilitada de caminhar. O instante, que tanto me nutriu, esfuziou-me com a sua ausência.

As trêmulas mãos, exauridas dos silêncios, clamam pela aparição do templo. Onde foi parar a minha pertinácia? Deixei-a cair? Estilhaçou-se? Como posso reavê-la?

Perguntas retóricas e estúpidas. Sei da data e da hora em que meu amado instante partiu. Conheço seu paradeiro. Ouço sua voz, distante e leve. Vagarosa, como seus passos e sorrisos. Já estive em alguns dos lugares pelos quais viajou. Meu instante, para desespero meu, está nos delírios dos pensadores. Acomoda-se na cabeceira, próximo à minha fronte. Posso buscá-lo, nas letras rebuscadas. Eu o identifico, na narrativa dos profetas. O raciocínio facilmente entrelaça-se com ele. Porém, o verdadeiro instante – aquele vivido – não está ao meu alcance. Preciso de outro ser humano em complexa sincronicidade comigo. Porque instante não é só presente, é presença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Teresa em mim

 

 

Nunca tive a ignorante pretensão de pautar minha subjetividade em alegrias vãs. Amo a felicidade. Enxergo-a como uma doce e jovem estrela cadente. Causa saborosos e delicados enlevos nas idéias da gente. Paralisa os instantes, dá a cor e as tonalidades mais preciosas para os olhares. É um amanhecer que inunda a nossa alma.

Contudo, eu já sabia, desde pequena, que carregava certo gosto pelas tristezas cotidianas. É um segredo meu que desvelo aos poucos, à medida que as pessoas me conhecem. Com certeza meus grandes amigos, ao lerem esse texto, esboçarão sorrisos logo no início: eles sabem disso melhor do que eu.

Compreendo a tristeza como inerente ao ser humano e particularmente a mim. O sofrimento sempre me foi muito esclarecedor e essencial. Entendo-o como um banquete para o aprofundamento do eu.

Suponho que o padecimento primeiro da minha vida foi amor… Os personagens e fatos envoltos são absolutamente irrelevantes. As mudanças inauguradas dentro de mim, não.

Uma senhora de cabelos ralos e brancos. Usa um manto que a cobre por completo. Tem aqueles olhos envelhecidos muito antes do resto do corpo. Chama-se Teresa: é assim que a minha tristeza pode ser descrita.

Uma mulher de casca frágil. Quando posso mergulhar dentro dela, sei que carrega a vitalidade das paixões adolescentes. Forte como uma montanha de neve.

Teresa joga búzios e interpreta tarô com a minha carne. É professora de história. Materializa verdades irrefutáveis e vislumbra, emudecida, os caminhos mais míopes. Põe-me os óculos e retira-me de cena. Teresa é a minha grande salvadora.

É claro que tudo isso deve parecer uma alucinação lisérgica para quem lê. Não se assuste ainda. Deixe-me enunciar porque respeito e ouço a voz dela dentro dos meus ossos.

Outro dia retirei da sala um livro de Lya Luft. Chama-se “O Lado Fatal”. Era domingo, dia que Teresa mais trabalha. O vazio cortava-me os pensamentos. Comecei a ler.

Em poucos minutos eu tinha o pulmão comprimido pela asfixia das lágrimas. Lá estava minha vidente, mais uma vez, a me fazer companhia. Mastiguei cada palavra, saboreando o incalculável esmorecimento que havia. Em apenas uma hora já voltava à biblioteca, para guardar a dor de Lya. Sentia-me inexplicavelmente mais velha.

O livro é um desabafo. Ela escreveu depois que Hélio Pellegrino, seu amado, morreu. São poemas assustadoramente amargurados. Aquelas páginas são deserto. Deus não estava lá. Só havia Lya e sua indizível prostração. Eu e Teresa.

Foi então que aconteceu em mim esse texto. Eu precisava advogar em favor da melancolia. Fora da obviedade que se instalou no mundo auto-ajuda de hoje, era-me caso de vida ou morte apresentar minha defesa. Senti-me uma leoa, pronta para doar minha vida aos filhotes. As pessoas necessitavam conhecer essa senhora tão sábia.

Não entendo porque se pode fugir ou ignorar a Tristeza. É totalmente incabível para mim não admirá-la e agradecê-la. É a responsável por metade das grandes lições da vida. Nosso outro grande mestre é o Amor. 

Selecionei algumas aulas que tive com a idosa criatura para reiterar meu sentimento por ela. A primeira delas é uma lição aquática. Quando não sabemos a profundidade da piscina – e estamos submergindo – nosso ímpeto natural é tentar voltar à superfície. Todavia, se não formos até o fim, fica muito mais difícil retornar com agilidade. O fundo dá ao mergulhador o coração da água. A dor é feita de natação.

Outro curso que assisto, ministrado por Teresa, ainda não acabou. Mesmo assim posso compartilhar algumas raras colocações que internalizei. É o desapego primordial. A matéria se tornou suntuosa quando ela acompanhou um querido professor meu. Era uma aula sobre o Adeus. Dificílima. Lembro-me como se o tempo fosse incapaz de amarelar minha memória: “Você pode ir embora agora, porque eu te amo”.   

Relutei em aceitar aquelas palavras por muito tempo. Imensurável é a dor da partida. Como a separação poderia ser característica do amor? Que espécie de monstros eram aqueles dois? Como chegaram ao ponto de exprimir esse absurdo?

Depois de alguns minutos suspensa, voltei a mim. Comecei a chorar muito. (Eu gosto de chorar porque meus olhos atingem o verde. Ficam cegos de claridade. É bonito.)

Lembrei das vezes que estou para acabar um livro e passo a fingir que ele não mais existe. Nunca estou preparada para dar adeus aos personagens. Eles, que passaram dias e noites a dormir em meu leito. Já os sinto como parte da minha residência. Como é que posso deixá-los ir?

A curiosidade, como se sobrepõe ao carinho, faz-me então devorar, sem a menor piedade, as últimas e doloridas páginas. Teresa põe-me em seu colo, afaga meus cabelos e me dá goles de velhice. E mesmo sem a presença manifesta, o espectro de Miguilim é lareira dentro de mim.

O último ensinamento que vou tornar palavra também foi aula em conjunto. Dessa vez com Gianetti. Minha afável e querida anciã pôs-se a discutir com ele a verdadeira fórmula da felicidade. Aprendi que não podemos ter fé nas sedutoras pílulas. Temos que tranqüilizar o espírito, ávido de novidades, e aceitar a construção, tijolo por tijolo. Felicidade é uma morada eternamente inacabada, incessantemente em reformas e aperfeiçoamentos. Não é adição. É cara.

E agora vem o questionamento: quando posso então saber se um módulo chegou ao fim? É muito simples! Vejo um novo cabelo branco, um rabo de cometa, ensaio novos devaneios. A sensação de missão cumprida usurpa a minha realidade…

E caminho com Teresa pelos bosques, pelas refeições exageradas, pelas músicas celestes. Ela está comigo nos crepúsculos e nasceres de sol. Vamos abraçadas pelas tardes chuvosas e frias, pela saudade das épocas áureas, por poetas e pintores fenecidos. Porque não fujo dela nem a escondo, aceito-a. A inexperiente menina vai mostrando, pé ante pé, os caminhos tortuosos. A encanecida erudita propaga instransponíveis passagens secretas. Ébria de poesia, abre-me as janelas. Avisto as formas de outra velha conhecida minha. Na casa de Teresa, às vezes, encontro-me com a inspiração.

 

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