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No quarto do meu coração, menino…

Contigo aprendi a temer as claridades leitosas, títeres travestidos da escuridão. Abandonei os primeiros pensamentos, esboços de mim. Não mais atuo em monólogos para plateias vazias. Fardos só existem para nos lembrar que a alma carrega sempre a possibilidade de tocar a erudição simples… Em nossa relação – criador e criatura – tu estás ali, à minha frente, desdenhando tudo aquilo que me foi rebuscado.

Meu Amigo, Meu Herói

Gilberto Gil

Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
Oh meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói
Oh como dói

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Deus faz doçuras muito tristes*…

Das Doçuras de Deus

Clarice Lispector

Vocês já se esqueceram de minha empregada Aninha, a mineira calada, a que queria ler um livro meu mesmo que fosse complicado porque não gostava de “água com açúcar”. E provavelmente já esqueceram que, sem saber por que, eu a chamava de Aparecida, e que ela explicou: “É porque eu apareci.” O que eu não disse talvez foi que, para ela existir como pessoa, dependia muito de se gostar dela.

Vocês a esqueceram. Eu nunca a esquecerei. Nem sua voz abafada, nem os dentes que lhe faltavam na frente e que por instância nossa botou, à toa: não se viam porque ela falava para dentro e seu sorriso também era mais para dentro. Esqueci de dizer que Aninha era muito feia.

Um dia de manhã aconteceu que demorou demais na rua para fazer compras. Afinal apareceu e tinha um sorriso tão brando como se só tivesse gengivas. O dinheiro que levara para compras estava amassado na mão direita, e do punho da esquerda dependurava-se o saco de compras.

Havia uma coisa nova nela. O quê, não se adivinhava. Talvez uma doçura maior. E estava um pouco mais “aparecida”, como se tivesse dado um passo para a frente. Essa alguma coisa nova fez com que perguntássemos em desconfiança: e as compras? Respondeu: eu não tinha dinheiro. Surpreendidas, mostramos-lhe o dinheiro na mão. Ela olhou e disse simples: ah. Alguma outra coisa nela fez com que olhássemos para dentro do saco de compras. Estava cheio de tampinhas de garrafa de leite e de outras garrafas, fora pedaços de papel sujo.

Então ela disse: vou me deitar porque estou com muita dor aqui – e apontou como uma criança o alto da cabeça. Não se queixou, só disse. Ali ficou na cama, horas. Não falava. Ela que me dissera não gostar de livro “pueril”, estava com uma expressão pueril e límpida. Se falássemos com ela, respondia que não conseguia se levantar.

Quando dei fé, Jandira, a cozinheira vidente, tinha chamado a ambulância do Rocha Maia “porque ela está doida”. Fui ver. Estava calada, doida. E doçura maior nunca vi.

Expliquei à cozinheira que a ambulância a chamar era a do Pronto Socorro Psiquiátrico do Instituto Pinel. Um pouco tonta, um pouco automaticamente, telefonei para lá. Também eu sentia uma doçura em mim, que não sei explicar. Sei, sim. Era de tanto amor por Aninha.

Enquanto isso vinha a ambulância do Rocha Maia. Foi examiná-la, já sentada na cama. O médico disse que clinicamente não tinha nada. E começou a fazer perguntas: para que tinha juntado as tampinhas e o papel? Respondeu suave: para enfeitar meu quarto. Fez outras perguntas. Aninha com paciência, feia, doida e mansa, dava as respostas certas, como aprendidas. Expliquei ao médico que já havia chamado outra ambulância, a apropriada. Ele disse: é mesmo caso  para um colega psiquiatra.

Esperamos a outra ambulância. Enquanto esperávamos, estávamos pasmas, mudas, pensativas. Veio a ambulância. O médico não custou a dar o diagnóstico. Só que internada ela não podia ficar, apenas pronto-socorro. Mas ela não teria onde ficar. Então telefonei para um médico amigo meu que falou com o colega do Pinel, e ficou estabelecido que ela ficaria internada até meu amigo examiná-la. “A senhora é escritora?” – perguntou-me de súbito aquele que vim a saber ser o acadêmico Artur. Gaguejei: “Eu…”. E ele: “É porque seu rosto me é familiar e seu amigo disse pelo telefone seu primeiro nome”. E naquela situação em que eu mal me lembrava de meu nome, ele acrescentou simpático, efusivo, mais emocionado comigo do que com Aninha: “Pois tenho muito prazer em conhecê-la pessoalmente”. E eu, boba e mecanicamente: “Também tenho”.

E lá se foi Aninha, suave, mansa, mineira, com seus novos dentes branquíssimos, brandamente desperta. Só um ponto nela dormia: aquele que, acordado, dá a dor. Vou encurtar: meu amigo examinou-a e o caso era muito grave, internaram-na.

Nessa noite passei sentada na sala até de madrugada, fumando. A casa estava toda impregnada de uma doçura doida como só a desaparecida podia deixar.

Aninha, meu bem, tenho saudade de você, de seu modo gauche de andar. Vou escrever para sua mãe em Minas para ela vir buscar você. O que lhe acontecerá, não sei. Sei que você continuará doce e doida para o resto da vida, com intervalos de lucidez. Tampinhas de garrafa de leite é capaz mesmo de enfeitar um quarto. E papéis amarrotados , dá-se um jeito, por que não? Ela não gostava de “água com açúcar”, e nem o era. O mundo não é. Fiquei sabendo de novo na noite em que asperamente fumei. Ah! com que aspereza fumei. A cólera às vezes me tomava, ou então o espanto, ou a resignação. Deus faz doçuras muito tristes. Será que deve ser bom ser doce assim? Aninha tinha uma saia vermelha estampada que alguém lhe dera, muito mais comprida do que seu tamanho. Nos dias de folga usava a saia com uma blusa marrom. Era mais uma doçura sua, a falta de gosto.

– Você precisa arranjar um namorado, Aninha.

– Já tive um.

Mas como? Quem a quereria, meu Deus? A resposta é: por Deus.

*Imagem retirada do lindo blog: http://portroche.blogspot.com/


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Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim…

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste!  Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!  …

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

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Semeando Constelações

Já se encontrava farta de tudo aquilo que vivera: as conversas enfadonhas com as amigas, a rotina tediosa do trabalho, os forjados jantares familiares. Sua existência se enrolara em não mais sentir. Porque as dores são pássaros ininterruptos do cantar.

Abrigara a estranheza solitária de traduzir o mundo em versos. E nada lhe era mais assustador que aquela sina. A poesia não vem para salvar a humanidade de anseios suicidas, mas para relembrar as mortes diárias da carne, frente ao espírito.

Perguntava a si mesma se havia outra saída que não envolvesse pulsos exangues ou entrada no sanatório. Entressonhava, louca, as possíveis resoluções para a sua grotesca enfermidade. Quem se olha em poesia não possui lugar no planeta autoajuda. Tampouco é permitido sair ilesa das convencionalidades sociais.

Havia, sobretudo, um otimismo tolo que a seguia nos despertares. E ela ia, por masoquismo, tomando duras punhaladas de mesmice, durante manhãs inconfessáveis. Engolia doses e mais doses entrecortadas de ignorância. Pensava-se mártir, naquela altura, consentindo estigmas em prol de algo que lhe era maior, mais forte. Divindades do existir, pensava. O ônus que se paga pelos jardins do sentimento.

Os meses seguintes foram levando a sua lucidez. Os lábios clamavam só por cálices encarnados de vinho. O convívio com seres de carne e osso fora deteriorado por inteiro. Ela desvanecia, dia após dia, da sua condição irrisória. Ao mesmo tempo, suas palavras também iam perdendo potências. Esvaziavam-se em rascunhos mesquinhos. Todo segundo transfigurava-se em logomaquias.

A mulher, contudo, tinha uma sabedoria infantil de respostas. Aceitava o implacável prenúncio dos parágrafos. As imagens insurgiam como o perfume de damas-da-noite. A concretização, todavia, esperneava. Ensandecida por cheiros de pele. Insubordinada às inúteis tentativas do isolamento.

Apenas em confluência com outro ser humano é permitido sonhar. A inadequação – natural – não pode tocar o absoluto. Nenhuma ilha alimenta-se de oceanos. Somos, ainda, reféns de cumplicidades.

Como lhe irritava saber de sua condição! Obrigada a engajar-se, outra vez, em um universo que a havia deitado fora. E agora – para que seus dizeres atingissem o imperecível – abdicaria de sua excentricidade gloriosa. Tornara-se caçadora de convergências humanas.

A tarefa, dificílima, rendeu-lhe quilos de maquiagem e roupas importadas. Contudo, por mais esforços que empreendesse, mais fracassos colecionava. A busca, indispensável para a sua literatura, transformou-se em fardo intransponível.

Os assombros poéticos, concomitantemente, afligiam-na nos sonhos e nas horas de vigília. Os dedos, exaustos, renuíam aos seus apelos. As inspirações rebelavam-se, pungentes.  E a aversão aos seres mundanos se agravava. O esforço convertia-se em repúdio. Atrofia.

Empertigada, decidiu que a morte desenhava a melhor de todas as ideias. Não a vislumbrava em covardia, mas em intrepidez absoluta de quem havia tentado.  Às vesperas de dar cabo ao sofrimento indizível que tece todas as escuridões, aceitou a companhia de um velho conhecido. Convidou-o para passar a madrugada com ela. Ele a endereçou um esquisito olhar que dialogava – indecente – às suas doçuras moribundas.

O autor, nitidamente, nada compreendia dos seus dizeres esquizofrênicos. Não traduzia suas falas com borboletas, nem relutava diante das suas asperezas. Entretanto, ele bebia, voraz, tudo aquilo que ela havia refletido. Ele apenas a confortava com palavras. Mesmo escritas, era uma voz humana que inundava os sorrisos da moça. Às vezes os livros são mais velozes do que estrelas cadentes.  E a noite pode repousar seu sono no monólogo dela.

Vergonhosa de sentir tais obviedades, ela conseguiu suspirar em calmaria. Grávida de périplos e roteiros que fantasiou para os novos personagens. O que se seguiu, foi a descoberta mais latente de sua vida: ao incutir a repartição, sabe-se plenitude. Esse amor que mantemos pelos seres inexistentes. Com todos os seus truísmos literários, assentia mais uma vitória. Um verdadeiro semeador de constelações.

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Curso de idiomas em Júpiter

Ando à procura de um curso de idiomas em Júpiter. Minha linguagem, cá, parece-me obsoleta. Geralmente aprende-se línguas porque não as conhece. O meu caso é distinto. Sou uma aluna saturada da comunicação terráquea.

Não tenho pretensões ou anseios de parecer uma soberba e amargurada criatura. São apenas confissões de uma exígua ádvena caminhando pelo solo ininteligível das palavras. Sinto-me profundamente inadequada para tudo o que se diz comum entre as pessoas. Uma solidão indescritível de não pertencimento.

Tenho sonhado com essas tempestades vermelhas. Os ventos me recolhem para uma chuva ininterrupta de anéis. Enrodilhada, nada mais me é estranho ou desconexo. A comunhão com o astro sombrio, soberano, não é aleatória: necessito de uma aliança interplanetária.

Ando à procura de um curso de idiomas em Júpiter. A Terra deveria ser trezentas vezes maior e mais doce para abrigar o meu espírito inquieto. Para tornar menos difícil essa sensação excludente que me dilacera e me envenena. Não consigo mais tolerar a violência com que se ri do sofrimento. A ilusória satisfação desértica que institui os fracassos com repúdio. O sardonismo tem me tornado violenta também, dá a mim o gosto por sangue entre os lábios e os dentes. O céu da minha boca só quer sonhar com quimeras silenciosas.

Busco, incansavelmente, por essas luas infinitas. Invento uma noite eterna que supra todos os seres prolixos e ruidosos. A claridade tem sido cúmplice dos dislates imundos que povoam a humanidade.

E, aonde vou ter lições, deve haver uma aquiescência que transforme meu âmago alienígena. Um lugar cheio de tatuagens lunares não é capaz de comportar os desejos mesquinhos de sucesso. Porque as luas são muito misteriosas para se ocuparem com as compreensíveis respostas. Nenhuma solução é passível de se confluir com a nudez.

Quem pensa em covardia ou descaso, engana-se. Há um inescapável cansaço que atravessa meus dizeres e desassossega minha permanência. Tenho distraído esse estrangeiro coração que só me implora que eu retorne. É imprescritível vivenciar o calor das semelhanças. Antes do sol. Antes que a colonização paralise os arroubos de galáxia.  A esperança sempre avista discos voadores.

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Grandes são os desertos…

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

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Looking for flying saucers in the sky…

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