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O amor de Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky

Um dia, quem sabe,

ela, que também gostava de bichos,

apareça

numa alameda do zôo,

sorridente,

tal como agora está

no retrato sobre a mesa.

Ela é tão bela,

que, por certo, hão de ressuscitá-la.

Vosso Trigésimo Século

ultrapassará o exame

de mil nadas,

que dilaceravam o coração.

Então,

de todo amor não terminado

seremos pagos

em inumeráveis noites de estrelas.

Ressuscita-me,

nem que seja só porque te esperava

como um poeta,

repelindo o absurdo quotidiano!

Ressuscita-me,

nem que seja só por isso!

Ressuscita-me!

Quero viver até o fim o que me cabe!

Para que o amor não seja mais escravo

de casamentos,

concupiscência,

salários.

Para que, maldizendo os leitos,

saltando dos coxins,

o amor se vá pelo universo inteiro.

Para que o dia,

que o sofrimento degrada,

não vos seja chorado, mendigado.

E que, ao primeiro apelo:

– Camaradas!

Atenta se volte a terra inteira.

Para viver

livre dos nichos das casas.

Para que doravante

a família seja

o pai,

pelo menos o Universo,

a mãe,

pelo menos a Terra.

(1923)

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Janeleiro

 

Geraldo Maia e Rodrigues Lima

 

Da janela eu vejo a rua

Vejo a noite enluarada

Vejo o céu de carneirinhos

Os pardais em revoada

Vejo os pássaros nos ninhos

Vejo linda madrugada

Da janela eu vejo a rua

Os casais enamorados

As mariposas voando

Os postes iluminados

Vejo os gatos barulhando

Namorando nos telhados

Bendita seja a janela

Bendito seja o luar

Bendito seja o amor

Que ela tem para me dar

Bendita seja a janela

Lugar que gosto de estar

 

Da janela eu vejo ao longe

Quem vem do lado de lá

É ela que vem cantando

Com vontade de chegar

Ela chega me abraçando

Sedenta para me amar

Da janela eu vejo o sol

Que surge por trás da serra

Vem trazendo a energia

Que alimenta a terra

Da janela eu vejo a paz

Que quer sufocar a guerra

Bendita a janela

Bendito seja o luar

Bendito seja o amor

Que ela tem para me dar

Bendita seja a janela

Lugar que gosto de estar

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Luiz Melodia

image (1)

Domingo fui concretizar mais um sonho musical: ouvir de perto o Luiz Melodia. Depois de ser salva por ele, no ano que passei em Lisboa, não sabia o que iria sentir ao dar meus olhos para o ídolo. Inacreditavelmente, nos primeiros minutos já estávamos conectados. Ele sorria pela íris para mim. E eu o entendia, cósmica.

Talvez a Música seja a arte que transborde assim, antes, pré-instantânea, impregnando suas presas com a paralisia de quem engole os instantes com embriaguez.

Depois, em Fadas, ele me olhou de novo. Suspendeu o microfone aos ares. E caminhou, em sensualidade felina. Sorrindo para mim. E pegou-me em seus dedos, comungando nosso encontro. Sem dizermos uma única palavra.

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Fechado por dentro

Graças ao meu amado Juca Silveira, fui apresentada a essa música indizível, do nosso gênio Paulo César Pinheiro

Você bateu na porta do meu peito
Meu coração deixou Você entrar
Depois de usar meu leito
Me deixou o amor desfeito
E foi-se embora sem dizer se vai voltar
E agora não tem jeito
O coração dentro do peito
Se fechou resignado de esperar.

Enfim eu compreendi que amor perfeito
É só nome de flor, outro não há
Porém amor assim não esta direito
Você pôs tudo a seu jeito
Pra depois sem mais nem menos me deixar
Você levou a chave do meu peito
O amor não pode mais me visitar
Do coração não sei o que foi feito
Não dá mais abraço estreito
Acreditando que Você vai regressar.

 

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Mestre da Língua Portuguesa

Meu Caro Barão 

Chico Buarque

Onde quer que esteja
Meu caro Barão
São Brás o proteja
O santo dos ladrão
Tava na faxina
Do seu caminhão
Vi essa maquina
De escrever no chão
Escovei a nega
Lavei com sabão
Deu uma cocega
Nos calo da mão

Pronto
Ponto
Tracinho, tração
Linha
Margem
Meu caro Ba…

Vire a pagina
Continuação
Ai, essa maquina
Tá que tá que é bão
Como eu lhe dizia
Meu caro Barão
A sua ausencia
É uma sensação
O circo lotado
Cidade e sertão
Domingo, sabado
Inverno e verão
Pronto
Ponto
De exclamação
Linha
Margem
Meu caro Barão

Tem gargalhada
Tem sim senhor
Tem muita estrada
Tem muita dor
Venha, Excelência
Nos visitar
Estamos sempre
Noutro lugar

Dizem que virgula
Aspas, travessão
Coisa ridicula
Dizem que o Barão
Que o Barão, meu caro
Tinha a faca, o pão
O queijo e os passaros
Voando e na mão
Pois eu tenho ouvido
Que o pobretão
Tá magro, palido
Sem ocupação
Pronto
Ponto
De interrogação
Linha
Margem
Meu caro Barão

Venha, Excelência
Nos visitar
A casa é sempre
De quem chegar
Se a senhoria
Vem pra ficar
Basta algum dia
Se preparar

Pra rodar com a gente
Pra fazer serão
Pra ficar contente
Comer macarrão
Pra pregar sarrafo
Pra lavar leão
Pra datilografo
Bilheteiro, não
Pra fazer faxina
Nesse caminhão
Cuidar da maquina
E não ser mais Barão
Linha
Margem
Etcétera e tal
Pronto
Ponto
E ponto final

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Sarau Mundano

Apresento-lhes meu filho, feito apenas de poesia: Sarau Mundano!

“É triste explicar um poema. É inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar. Se pelo menos um amante da poesia foi atingido e levantou de cara limpa depois de ler minhas esbraseadas evidências líricas, escreva, apenas isso: fui atingido. E aí sim vou beber, porque há de ser festa aquilo que na Terra me pareceu exílio: o ofício de Poeta.”

Hilda Hilst em Cascos & Carícias & Outras Crônicas

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Para engrandecer uma noite enluarada de tristezas

Eblouie Par La Nuit

Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
A frôler les bagnoles les yeux comme des têtes d’épingle.
Je t’ai attendu 100 ans dans les rues en noir et blanc
Tu es venu en sifflant.
Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
A shooter les canettes aussi paumé qu’un navire
Si j’en ai perdu la tête je t’ai aimé et même pire
Tu es venu en sifflant.
Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
A-il aimé la vie ou la regarder juste passer?
De nos nuits de fumette il ne reste presque rien
Que tes cendres au matin
A ce métro rempli des vertiges de la vie
A la prochaine station, petit européen.
Mets ta main, dessend-la au dessous de mon coeur.
Eblouie par la nuit à coup de lumière mortelle
Un dernier tour de piste avec la main au bout
Je t’ai attendu 100 ans dans les rues en noir et blanc
Tu es venu en sifflant.

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