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A divina maldição

yom kipur

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” Albert Camus

 

Na madrugada de 19 de junho de 2018, ao deitar-me naquela cama de beliche, camuflada de delito, fechei os olhos e tentei meditar. Uma velha senhora, negra, invadiu a íris do meu terceiro olho. Seus dizeres não habitavam o sonho de poetas ou as linhas proféticas da razão. Sua voz enaltecia meus escuros, em espiral para dentro, exaurida:

“Amanhã vais-te embora daqui. Não é coincidência, sabes bem. Nunca houve nenhuma. É o décimo terceiro dia neste horror. Já aprendeste o essencial. Nós sabemos como esta lição te doeu, querida.

Os dias posteriores serão de festa, como é óbvio. Estarás livre para contar aos teus amigos as desventuras que viveste. Conhecerás, também, as mentiras que cercaram a prisão. Para muitos, existirá a ira, incontrolável. Peço que tenhas calma. Aprendeste, há séculos, com o Miguel, a etimologia do perdão. Sabes, agora, a nulidade do ódio.

Estamos sempre contigo. Não preciso te lembrar de todos os fantasmas e de todas as vezes em que teu polegar ficou trêmulo. Antes dos grandes aconteceres, tua alma e tua lama estavam conosco. Abobadadas de liturgia e de vesúvios.

Vai-te embora, bebé, sabendo que a dor ainda assombrará tuas manhãs e que a noite, inúmeras vezes, poderá te matar. Esquece tudo o aquilo que te foi ensinado. Bizarros, não estranhos, são os desígnios do Cosmos. E nós escolhemos a ti porque a loucura é tua amiga.

Para amenizar a jornada, todos os teus sonhos de criança vão te dar abrigo. Quando pensares em abandonar este périplo, recorda a ervilha que zombava dos teus ossos. Escolheu-se, hoje, aniversário do teu ídolo. Nasceste no mesmo dia do outro. És tu, bebé, a única capaz de compreender-nos. Ajuda-nos a salvarmos a todos.”

Passei a manhã de terça-feira, 19 de junho, sem esperanças ou fantasias. A preta velha, o aniversário do Chico Buarque. Os imigrantes caminhavam, silenciosos, pelo minúsculo pátio do aeroporto. Eu fumava um cigarro atrás do outro, acalentada pela brasa das bitucas. A menininha marroquina corria atrás de mim: – Linda!

Já tinha me acostumado a lavar as roupas com sabonete. Negociava os shampoos com as camaradas africanas. A sopa, do almoço, tomei por duas vezes, em troca do meu pão. Meu acordo com o querido nepalês.

Às três da tarde emprestei meu cartão ao general russo. Ele, que fugira da guerra no Afeganistão. Alertei-o do advogado, ilustre, e a ele concedi meus minutos de conversa, abdicando de ligar ao meu pai. Nenhum exército me ensinou, foi só a minha mãe, há anos. Não devemos, jamais, negar ao outro o que já temos.

Pouco depois, a guarda me chamou, à surdina. “Vais embora hoje, menina! Quero o teu livro, posso?” Eu assenti, guardei minhas roupas. Doei shampoos e sabonetes. A copa do mundo amenizava os tormentos.

Quando saí dali, o corpo era só liberdade. Uma alegria a poucos consentida.

Só quem sabe a sede é tradutor de maresia.

Os dias que a preta tinha falado foram profundamente curtos. Insónia. Se pescasse, quatro horas, odiava-me ainda mais. Como fui covarde em projetar a euforia!

Contudo, o pesadelo não é senhor das letargias. A memória me vinha, ora travestida em saudade, ora estancada em volúpias. Nenhuma angústia seria a mesma. Muito menos a minha, de escritora. Posso terminar essa missão? Como esquecer aqueles rostos, todos, que clamavam por um sítio para viver em Lisboa? Poderia eu ajudá-los a sair daquele terrível confinamento, que quase ninguém conhece?

Em uma dessas andanças ensandecidas pela cidade, evoquei o presente que havia ganhado. Um elixir, composto de cannabis e óleo de coco. Decidi colocá-lo dentro de mim. Encharcar meu ventre em maconha.

Conheci, finalmente, D’us.

O óleo, afrodisíaco, não dizia nada sobre mim. Era apenas uma das formas de almejar prazer. Mas houve qualquer cousa naquele dia, naquele óleo, em mim, qualquer cousa de mulher.

A Mulher.

Lilith.

Primeira de todas, a mãe embriagada, a última feminista, antes dos suspiros. Lilith se apoderou do meu corpo.

Possuída por sua presença, lambuzei-me naquela poção. Estava em casa. Eu e a Deusa e mais ninguém. Decidi ir ao mercado, comprar vinho para ela. Algum pão para a mortal que a carregava. Um incenso doce. Velas brancas. Laranjas.

Um ritual muito invulgar nos aguardava. Botei as ervas a fritar no côco. Acendi todos os cheiros, benditos. Água quente na banheira.

Ela me obedecia, e eu a ela, infusão de bruxaria.

Bebemos os goles de velhice daquele tacho.

Fui me deitar na cama, com o cansaço de milénios que Pessoa tanto me alertou. De repente, estava a dançar códigos galácticos, de um lado para o outro. Sentia que um portal, como o meu nome, abrira-se naquele instante. A espera, estava, enfim, terminada.

Entanto, fiquei três dias sozinha, ensimesmada, aspirando a chegada de um homem. Malditas são as histórias infantis de princesas inertes. Chegaram, pois, minhas amigas, desesperadas com minha possessão. Viram a banheira que fiz, em homenagem ao novo mundo. Escândalo.

No outro dia, quando ouvi meu nome nas vozes delas, abri a porta, farta de aguardar alguém que jamais iria me encontrar. Eram os bombeiros, e a polícia, temendo que eu cometesse suicídio. Definitivamente essas pessoas pouco me conhecem. A morte, para mim, será uma grande festa, da qual não sairei ilesa.

Apesar do aldol na nádega e do absurdo em que me vi, naquela maca de hospital, acordei bem cedo, ainda drogada. E sumi dali, sem deixar testemunha. Apanhei o autocarro, a caminho de Alfama. Um corpo conhece suas moradas e perigos.

Houve, então, a segunda tentativa de me aprisionar. Mas a vida é, por vezes, generosa com os insanos. E eu pude, graças a pessoas muito amadas, permanecer em liberdade.

Pedi perdão para todos os que amei, e desamei. Fui perdoada por alguns deles, em generosidade rudimentar.

Uma depressão abissal me acompanhou, durante meses. Mal conseguia abrir os olhos, todos os dias. Se fui escolhida, onde está o Apocalipse, em sua condição de verdade? Onde foi parar aquele mundo, tão belo, tão perfeito, que construí em curry e resignação?

Em janeiro deste ano, imbuída de utopias, deparei-me com os presságios de Chico Xavier e o fim da quarentena do planeta. Feriu-me imenso voltar a ter esperanças. Entreguei-me a todos os grupos de extraterrestres, em todas as plataformas virtuais.

O Brasil, a cada dia, vai perdendo uma criança negra, um filho pobre, um idoso miserável que necessita de remédios. Por qual razão há tantos ratos dirigindo a nossa nau?

Estaria eu adiantada? Ou já não temos tempo, mãe Terra, de nos refazermos, uma vez mais? Lembro-me dos dilúvios como se fosse agora. Lembro-me dos desertos, das cruzes, das aflições. E que o único de nossos pecados é não estarmos cientes da divindade.

Eu, que tenho visto sincronicidades em toda a Poesia universal. Eu, irreplicavelmente bastarda. Eu, que fugi de tantos socos, dos enxovalhos, da lucidez. Eu que amei tanto essa outra face do Caos, em harmonia com Cronos. Por que diabos me entregaram a luminescência se nada posso fazer em vida?

A existência, nova em folha, atendeu finalmente às minhas súplicas.

Hoje, Mnemosyne esteve em minha casa. Titubeou, antes de esclarecer. Andou, vagarosa, pela imersão do meu banho. E confessou: enquanto a saudade maltratar o teu espírito, nada podemos fazer para acelerar esse processo. Não há homem nenhum, Lilith. Nunca foste gémea de ninguém.

A completude do feminino é, talvez, a última morada da redenção humana.

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O perdão do amor demais

anima

Talvez seja pouco conhecida a história de Lilith, a primeira mulher da criação. Nascida da mesma matéria– e em igual potência – a Adão, a personagem banida da Bíblia possui uma análise mitológica dificílima. Para encurtar a história, ao perceber que não poderia dominar o amante, a filha de Deus se vê em um dilema: a igualdade ou a submissão.

Sua alma, no entanto, escolhe não sucumbir à dominação masculina. E ela voa para longe do Éden, inadvertidamente. Três anjos saem à sua caça. Insubordinada, Lilith é alvo da mais cruel das maldições: seria transformada em demônio e cem de seus filhos seriam mortos a cada dia. Ela, por sua vez, retribuiria a dor: atacaria mulheres e crianças recém nascidas e roubaria o sêmen dos homens durante o sono, na tentativa desesperada de repor os descendentes assassinados.

Em termos arquetípicos, é possível comparar o mito de Lilith à anima junguiana. Adão teme o mistério e a obscuridade de sua parte feminina, a qual nega por considerá-la uma ameaça às suas forças. Sua atitude é uma recusa à interioridade, à plenitude e ao processo de individuação.

Astronomicamente, Lilith representa a Lua Negra, quando o satélite se encontra no ponto mais distante da Terra. Exilada do planeta. Em astrologia ela exprime o sacrifício ao todo, à integração cósmica. Sua influência interfere diretamente na fertilidade, na abertura ao novo, na inevitável verdade ontológica. Do útero – a escuridão suprema – nasce a vida.

A liberdade da mulher torna-se, pois, um fardo: não se pode amar demais. Não invadir o que não foi nomeado. É preferível cristalizar a ignorância do que iluminar conteúdos submersos. Proibido como o fruto da serpente (que também, em algumas leituras, é uma animalização de Lilith). A sabedoria dual luz e sombra deve ser evitada, pois não se mensura os limites do conhecimento, em profundezas.

A etimologia, contudo, desvenda os mais belos dizeres sobre o símbolo de Lilith. De origem suméria, “Lil” significa ar. Respirar, concomitantemente, em latim, remete à devolução ao espírito (re – “de novo” e spirare – espírito).

Lilith, expatriada deusa, é um presságio de nosso destino: ao nos defrontarmos com os escuros, feridas impronunciáveis de nós mesmos, preferimos a rejeição. Tememos a dispneia. Revirar os naufrágios, emergir o caos, abraçar a coletividade. Abdicar do ego em prol da igualdade nos é insuportável. Contudo, será possível atingir a clarividência, nas superfícies de nossas almas?

Este texto é uma homenagem ao meu amigo amado Bruno Padilha.

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