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O menino

Encontrei outro dia um menino que me fitou com cumplicidade secular. Tem a pele branca. Cabelos ralos, castanhos. A vulgaridade do azul não toca seu olhar. Porque muito pouco interfere a beleza improvável da sua íris.

 

O azul dos olhos do menino é rigorosamente secreto. Está todo envolto em silêncios. O azul dos olhos do menino são portas abertas para uma solidão em clausura. São aquários inabitados que ainda sonham com peixes. Brutalmente dócil.

 

O menino me contou da melancolia que o dilacera por não ter companhia nas manhãs frias da sua terra. A neve o faz desencontrado de quimeras.

 

Abandonado pelos pais – trabalhadores desavisados dos fantasmas da infância – o menino sonha com companhias imaginadas. E, ao se saber criador do seu universo, sofre. Um mero afago o faria doar aos órfãos toda sua capacidade de inventar.

 

Até o ouvinte menos atencioso seria petrificado pela amargura de seus dizeres: a gente tem vontade de entregar toda a alegria ao seu futuro passado.

 

O que o menino não sabe agora é que as feridas são depurações da nossa alma. Atrás das queimaduras há epidermes rosadas. Seu duro aprendizado fará dele um melhor pai. Ele terá a família sempre à mesa.

 

No cerne das suas lágrimas há uma liberdade, uma anárquica chance de construir o seu destino. Para além dos traumas irreversíveis existem horizontes de mar.

 

Eu, como não pude dizer nada disso ao menino, escrevo para elaborar a minha angústia de ter sido feliz. Com muito medo de que essa felicidade desesperadora me impeça de poder escolher meus trilhos também. Porque só a tristeza é senhora do mudar.

 

Senti, finalmente, a inveja pesada: não dos seus olhos azuis, mas da minha comiseração. Porque a cicatriz é a única pele que conta uma história. E são as histórias quem nos impedem de cair no esquecimento.

 

Enquanto isso, o menino espera a noite acabar para certificar-se de que não havia bicho papão. E, sem se dar conta, o menino estará condenado a amar a noite mais do que todas as mulheres de sua vida.

 

Eu queria dar-lhe, menino, saudades de balanço. Roubar lindas palavras como se roubam flores. Só que as flores são deveras sentimentais para acalentar seu espírito. Eu queria furtar sonhos de cantigas de ninar. Mas nós dois conjugamos a língua das fábulas.

 

Compreendo, por fim, o sentido último do nosso estranho reconhecimento. Você é uma narrativa que não pode morrer como as suas esperanças, ao final de cada tarde. E isso eu posso fazer. Escrever-te. 

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Sobre cata-ventos


Estou farta da escrita rebuscada. Alheia às difíceis palavras adultas, às jornadas maduras, à literatura anciã. Eu só quero, esta noite, estar no colo de uma poesia criança que ensope os devaneios em simplicidade.

Luto árdua e diariamente contra tudo o que carregue etiquetas. Muitas vezes a batalha é desleal, posto que creio no efeito das dificuldades. Só que agora me dei conta – porque sou uma pessoa perlongada – de que nada vale poeticamente senão em nudez absoluta. A sabedoria é crudívora.

A poesia verdadeira mora em minha casa de bonecas. Seus versos miudinhos têm dedos curtos demais para acertar uma trança em simetria. No entanto, ela alcança com precisão os nós dos cadarços coloridos.

Suas estrofes são floreadas por estalos, brotos de maria-sem-vergonha. Têm olhos descerrados, rebentos. Como se a inocência tivesse sido violada por outonais crepúsculos. E, ao mesmo tempo, está acorrentada à dor infante da eternidade. 

Ela anda a embebedar-me em longínquas viagens pelo chão do quarto. Para meu espanto de gente grande, não há silêncio ou solidão que a incomode. São, ao contrário, parte dos cenários, eixo dos castelos, essência dos bichos inventados. Porque não é trânsfuga da sua condição. Esses medos não habitam os hemisférios pueris. Brincar desacompanhado é cata-vento. Só é preciso um sopro para existir vida.    

Procuro perscrutar o que a poesia menina balbucia. E ela não responde mas açucara as minhas imagens. Depois, exausta de perder-se em bosques intransponíveis, adormece. Prefere dormir com o estrepitar da chuva. Não pela obviedade do ninar – essa melodia lugar comum – mas porque sabe que na chuva há companhia para atravessar os escuros.

Vejo-a resfolegar o mundo onírico. Descubro sua pele. Ela está repleta de machucados azuis. Aqueles que se aperta com prazer para recordar que algumas dores são doces. E que, passado um segundo, não doem mais.

Tento tocá-la. Imediatamente esquivo-me. Sinto-me desguarnecida. A meninice poética assusta mais do que o espectro do envelhecer. Assim, ela escorrega de mim em cambalhotas e carrosséis. Eu aceito sem questionar. Pois sei. O dia em que meu escrever atravessar o oráculo da infância, estarei pronta para deixá-lo. 

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Sobre os dentes de leite

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“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda”. Clarice Lispector

 

Eram quase três horas da manhã. Tragávamos o cigarro que religiosamente precede nosso adeus. A conversa, galáctica, já irrompia nebulosas. A fumaça alcançava – braços longos que tem – satélites e órbitas inabitadas. Íamos juntas, enlevadas. Pejadas estávamos, gordas de madruguez:

– Sabe, amiga, eu nunca gostei da multiplicação. Quando estamos multiplicando, na realidade há uma repartição. Tornamos as coisas pequenas. A essência esquece de si, fragmentada em minúsculas parcelas.  

Quanta sabedoria despontava em sua confissão! Fiquei cerca de dois segundos estacionada naquela frase. E respondi, cúmplice que sou:

– É por isso que os únicos providos de alma são os números primos. A eternidade é divisível.  

Imediatamente, ficamos nítidas. As miopias cediam, uma por uma, lugar para os epífanos sentidos. A aterrisagem do olhar primeiro nos permitia navegar águas mais foscas… Dissertamos matematicamente acerca das relações e das suas raízes quadradas. Inserimos cada ser humano na indubitável condição. Só somos repartidos em nossa própria unidade.

Por qual razão, números primos que somos, tão facilmente nos multiplicamos nas relações com os outros? Não há deveras verticalidade nos humanos? Os trilhos não são supostamente  preenchidos em horizontalidade? A harmonia cósmica não reside nos espíritos pensantes?

Seria preciso acender mais um cigarro. O diálogo era, naquele instante, ectoplasma. O simulacro dos relacionamentos mais uma vez tecia os pensamentos. Felino, ronronava entre as ideias, aconchegando-se nas memórias mais longínquas. Cigano, roubava-nos a racionalidade. Por que, meu Deus, por que vivemos constantemente em estressantes movimentos de gangorra?

Quanto mais recordávamos nossos relacionamentos – fossem eles de amor, de amigo ou de escárnio – mais óbvias íamos nos percebendo. Ao revisitar a nós mesmas, nenhuma comunhão oblíqua havia sobrevivido com ternura. Todas estavam trancafiadas em pesadelos, empoeirados conveses da lembrança.

Todavia, nem tudo era carregado de maledicência. Havia também aprazíveis resgates. Às margens dos envolvimentos medíocres, nasciam delicadas reminiscências. Eram devaneios das relações aprendizes. Encharcadas de lepidez, indissolutas, primas. Indivisíveis.

Desvelado o grande mistério, era fácil compreender. Um manancial de descobertas sobrepujava-nos. A clarividência enfim tomava as fumaças e concretizava-se, sincrônica. Como era lindo estar em posse de tão precioso pecúlio!

A felicidade residiu em nós apenas quando estivemos na condição de alunas. Ah, a doçura do desconhecimento! Os náufragos personagens que mereciam morar nos sonhos eram aqueles que acordavam as nossas verdadeiras paixões. O resto, o resto cobria-se inteiramente em sofismas.

Infelizmente, poucos são os homens que revelam-se cândidos. Equivocadamente precisamos nos afirmar em maestria. A ignorância aparece como desvio, estupidez, fraqueza. O que há de errado em reconhecer-se na incompletude? Por que a nossa falta de luz denota tamanha humilhação?

Naquela madrugada, algo fora despertado dentro de mim. Selei, calada, um pacto para toda a minha jornada. Tenaz e silencioso. Quero tudo o que seja decidual. Nada além do que uma vida entre dentes de leite.           

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Rodinhas de bicicleta

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Negros e longos cílios molhados. Protegiam com a força e inquietude das águias os olhos marejados da pequena menina. Os cabelos presos, o biquíni, a manhã que ardia no Recife. Mas não havia nela o alvoroço do mar, a ânsia da água. Espreitava, triste, uma última vez. As gorduchas mãos cerradas, num mudo afago sobre o tecido borrachudo. Era a maneira infantil de perpetuar a existência em sua pele. Sentia o amputar das pernas.

Na esquina, os adultos. Esperavam o adeus. Até dava para sentir o deboche deles – aquele esquecer típico das pessoas mais velhas. Riam-se internamente. E toda criança percebe que a julgam menos habilitada, inexperiente.  O tio da pequenina, eleito por ela, aguardava impaciente. Nada entendia daquela partida:

 – Pronto! Agora você pode tomá-la de mim.

A saudade nunca chegou a habitar a miúda, depois daquele instante. Foi uma fração de segundos. Recordou-se do mar. O céu azulava seus pensamentos pueris, cobria-os com castelos de areia. A lembrança da chupeta caramelizava em seu espiríto. Mas não doía. Todo um doce tilintar encharcava o Universo. Sua primeira independência era enfim consumada.

Tempos depois, uma febre – as crianças são mais abertas – apoderou-se dela. Submergiu em pensamentos de morte, aquela menina. Entre delírios e impotência. Implorava que delebassem a enfermidade de suas juntas.

Como era lindo ter a mãe a preparar o leite bem quente, a canela em superfície, uma colher mergulhada em mel – esse ser feito da robustez açucarada. O segredo da receita só existia no epílogo. Uma, e só uma, colher de conhaque. Sua dependência era agora sinônimo de cura.

Um dia, porém, a temperatura  se elevou. O corpo todo a tremer. Encontrava-se sozinha. Não havia quem seria capaz de matar o silencioso exaspero. Podia, entretanto, resguardar sua alma. Nada havia de ser, aquele ardor nas pálpebras. Nada havia de ser, aquela calidez no hálito. Nada havia de ser…

Só lhe era preciso estar em posse daquela unção. Sabia tão bem aquela receita. Pôs, estufada em coragem, a panela no fogo. Ai meu Deus, como foi bom deleitar-se em si mesma! E pensou como um dia poderia ser ela a protagonista, a curandeira milagrosa. Sonhou com os filhos que dela tomariam a mágica poção. Sentiu livre, uma segunda vez. Insubordinada.

Só que a trajetória é óbvia. Vieram as mamas, doloridas e pequenas. A encardida obrigação do crescer. Ossos maiores que músculos, os amores envoltos em Platão. Fulguravam em seus lábios negações, desprezos e culpas.

A menina não mais podia ser voltívola de suas travessuras. Sua vida, como são as vidas humanas, transformou-se num esfuziante roteiro de cinema. Empanturrada sentia-se diante de personagens velozes, felizes, vergonhosos, inacabados.  Assustada pelas sombras, desejava eximir-se.

Estava farta das dores e dos remédios. Da pequenez que se apodera da íris, quando chora por horas seguidas. A memória, no entanto, fez surgir em seus poros, a terceira e grande emancipação. Ora mulher, ora criança, tudo absolutamente em confluência. Ah, suas tardes no parque! Sonhos dos seis ou sete anos. A imagem, obscenamente poética. Ela, à deriva. A longínqua dança das rodas. Os pedais em comunhão com o corpo. O medo. Haviam decidido que era hora de tirar as rodinhas da bicicleta. Acreditou na firmeza dos dedos beneméritos. Contudo, às costas, viu-se a pedalar com suas próprias pernas. E no chão esborrachou-se.

Desabou, mas, alheia ao fracasso, subiu novamente. E novamente acreditou que teria o suporte paterno. Em poucos segundos, ao olhar para trás, viu que era ela mesma a equilibrista.

Compreendeu, por fim, o valor da escora e da independência. As rodinhas propriamente ditas nunca mais estariam lá. Todavia, a nitidez vívida de sua promulgação. Porque passamos a vida a tirar essas rodinhas, a cair e experienciar uma autonomia triunfal.  

 

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