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No quarto do meu coração, menino…

Contigo aprendi a temer as claridades leitosas, títeres travestidos da escuridão. Abandonei os primeiros pensamentos, esboços de mim. Não mais atuo em monólogos para plateias vazias. Fardos só existem para nos lembrar que a alma carrega sempre a possibilidade de tocar a erudição simples… Em nossa relação – criador e criatura – tu estás ali, à minha frente, desdenhando tudo aquilo que me foi rebuscado.

Meu Amigo, Meu Herói

Gilberto Gil

Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói saber que a ti também corrói
A dor da solidão
Oh meu amado, minha luz
Descansa tua mão cansada sobre a minha
Sobre a minha mão
A força do universo não te deixará
O lume das estrelas te alumiará
Na casa do meu coração pequeno
No quarto do meu coração menino
No canto do meu coração espero
Agasalhar-te a ilusão
Oh meu amigo, meu herói
Oh como dói
Oh como dói

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Toda saudade é uma espécie de velhice…

“Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com outros acho que nem se misturam (…) Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data. Toda saudade é uma espécie de velhice. Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não como um filme em que a vida acontece no tempo, uma coisa depois da outra, na ordem certa, sendo essa conexão que lhe dá sentido, meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo em si mesmo, cada um contendo o sentido inteiro. Talvez esse seja o jeito de escrever sobre a alma em cuja memória se encontram as coisas eternas, que permanecem…”

João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

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Escova

Manoel de Barros – Memórias Inventadas*

Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem. Porque ficavam ali sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos. E que eles faziam o serviço de escovar osso por amor. E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras. Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma. Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado, a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entressonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem. Então eu joguei a escova fora.

* Foto: LiliRoze (Juquehy)

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A incapacidade de ser verdadeiro

Carlos Drummond de Andrade

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões da independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.

A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.

Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa, como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias. Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico.

Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

— Não há nada a fazer, Dona Coló. Esse menino é mesmo um caso de poesia.

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As Fabulosas Cores de LiliRoze

IX
“O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.”

Manoel de Barros

O instantâneo captura a plenitude. É assim que podemos descrever o belíssimo trabalho de LiliRoze, fotógrafa franco-suíça que chega a São Paulo na próxima semana para inaugurar sua primeira exposição no Brasil.

Em 2009, ela ganhou o maior prêmio de foto de moda na França, pela APPPF – Agence Pour la Promotion de La Photographie Profissionelle en France. Sob a lente da câmera Sinar 4×5 e filmes de Polaroid, LiliRoze expressa suas visões coloridas ao mundo. Para ela, todo o seu feito é imbuído de intimidade. A ideia do desnudamento, da fragilidade e do abandono são suas maiores fontes de inspiração.

A predileção pela fotografia não aconteceu casualmente. Desde muito pequena, LiliRoze estava aos pés de seu pai, ansiosa para ver a mágica transformação que acontecia na banheira onde as fotos em preto e branco eram reveladas. Perplexa, ela não conseguia compreender como aqueles simples papéis se modificavam tão rapidamente, em tantos universos.

Só a imaginação infante pode trazer uma tradução precisa das obras da fotógrafa. Esse saber primitivo, esse olhar primeiro sobre as nuances da matéria. Só a criança tem a capacidade de tornar os instantes infinitos. Parece que, a cada retrato, LiliRoze reencontra sua casa natal.

Revisitar a própria casa! Reviver os cheiros, as luzes, os dias e as noites. Quando um artista devaneia intimamente sua casa, nós também somos invadidos por uma visita, transportados às nossas casas, aos nossos devaneios. A imagem da casa abandonada, da casa esquecida, da casa coberta pelo pó e por panos brancos já não pode mais existir. As janelas se abrem, permitindo que a luz possua a sala. Os barulhos aparecem novamente, as trepadeiras ressuscitam em caracóis as paredes, e podem ser verdes, profundamente verdes. A casa está completamente povoada. De novo.

Deixar-se entorpecer por toda a profundidade de um instante é um dom que precisa ser lapidado. Se o instante não é vivido em toda sua imensidão, não pode existir a imagem poética. E, para além do instante, o artista-criança também tem o poder de transformar, através da imaginação ativa, os tédios em pinturas, os objetos em moradas.

LiliRoze confessa, pois, que toda a sua obra está mais próxima do imaginar do que da realidade. As cores, assim, podem criar histórias originais. E o impressionismo lhe salva da crueldade mundana. A experiência onírica a suspende dos horrores concretos.

Para definir suas influências, ela cita Paolo Roversi, Sarah Moon, Joel-Peter Witkins, Duane Michals. E afirma que todo fotógrafo é um agente de novos horizontes. É impossível fazer arte sem trazer consigo loucuras e fantasias. Viver é absolutamente fictício.

Dessa forma, justifica também a escolha “primitiva” da Polaroid: ela é capaz de apreender acidentes inestimáveis para as fotografias. O leve flou (desfoque) acontece também pelas árduas opções. Ela trabalha com pouca luz, sensibilidade de filme baixa e longos períodos de exposição. Estará LiliRoze certa em negar a digitalidade atual? Vale a pena haurir seus portraits e tirar as próprias conclusões.

Exposição AS FABULOSAS CORES DE LILIROZECoquetel de Inauguração: 8 de abril das 19h às 24h. Exposição: De 9 de abril a 12 de maio, no Espaço de Arte Trio – Rua Gomes de Carvalho n°1759, Vila Olimpia – São Paulo. Telefone: 11 3757–3333. Horário de funcionamento: 12h às 15h. Grátis.

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Redução Fenomenológica: O Velho e a Lupa*

“Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…”.

Alberto Caeiro, o mestre de Pessoa

Os anos foram ficando cada vez mais silenciosos para o velho funcionário da livraria. As roupas encolhiam o corpo alquebrado. As horas, empoeiravam-se pelas frestas da janela. No entanto, pela lupa, ele levava a letra à imensidão. E descobria-se numa terceira infância. Já inundado de madrugadas e vazios, inebriava-se em chuvas e acariciava as estrelas. Não pelos tolos desejos atendidos, mas pela lembrança dos sonhos estarem ali, junto ao espaço sideral.

Agora sabia: os grandes holofotes só cabem nas nádegas dos vagalumes. Enquanto suas medidas iam diminuindo em velocidade colossal, a imagem mínima trazia consigo a concentração do devaneio. A página, condensada, era um rosto de intimidade. Porque o poeta não rebusca os desvarios para ser belo. Da simplicidade – invisível a olho nu – brotam universos de destinos. Os astros têm seus núcleos como referência. E em cada átomo existe um mundo, esperando para ser sonhado.

O velho, miniatura de si, e o livro. O velho, menino, diante do diminuto. E a lente, larga, incomensurável. Homem e infinito se tocam na menor das palavras,  instante de comunhão que atinge a tranquilidade pueril. Ilimitados por um tempo que já não há.

O Cosmos, pois, presentifica-se na fotografia. Um olhar esgazeado antecipa, pré-vê, pré-sente tudo aquilo que o mundo canta. O velho é a voz majestosa da poesia em plenitude. Ele precisa chegar tão perto das coisas que deseja fundir-se com elas por alguns segundos. O distanciamento impossibilitaria quaisquer versos autênticos. É na pequenez superlativa – como a infância – que a matéria poética é encontrada. E a vida, enfim, toca a redondeza. Cíclica, como são todas as quimeras.

*Essa foto fantástica foi tirada pelo meu amado amigo Raphael Murena, durante sua viagem à Europa. Fevereiro/2010

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Apneia: Poética do Devaneio

Gaston Bachelard, mestre

“Todas essas luzes psíquicas dos nascimentos esboçados iluminam um cosmos nascente que é o cosmos dos limbos. Luzes e limbos, eis a dialética da antecedência do ser de infância. Um sonhador de palavras não pode deixar de mostrar-se sensível à doçura da palavra que põe luzes e limbos sob o império de duas labiadas. Com a luz, há água na claridade e os Limbos são aquáticos. E sempre haveremos de encontrar a mesma certeza onírica: a Infância é uma Água humana, uma água que brota da sombra. Essa infância nas brumas e nas luzes, essa vida na lentidão dos limbos, dá-nos uma certa espessura de nascimentos. Quantos seres temos começado! Quantas fontes perdidas que no entanto têm corrido! Então o devaneio voltado para o nosso passado, o devaneio que busca a infância, parece devolver vida a vidas que não aconteceram, vidas que foram imaginadas. O devaneio é uma mnemotécnica da imaginação. No devaneio retomamos contato com possibilidades que o destino não soube utilizar. Um grande paradoxo está associado aos nossos devaneios voltados para a infância: esse passado morto tem em nós um futuro, o futuro de suas imagens vivas, o futuro do devaneio que se abre diante de toda imagem redescoberta”. p.106-107

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