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Curso de idiomas em Júpiter

Ando à procura de um curso de idiomas em Júpiter. Minha linguagem, cá, parece-me obsoleta. Geralmente aprende-se línguas porque não as conhece. O meu caso é distinto. Sou uma aluna saturada da comunicação terráquea.

Não tenho pretensões ou anseios de parecer uma soberba e amargurada criatura. São apenas confissões de uma exígua ádvena caminhando pelo solo ininteligível das palavras. Sinto-me profundamente inadequada para tudo o que se diz comum entre as pessoas. Uma solidão indescritível de não pertencimento.

Tenho sonhado com essas tempestades vermelhas. Os ventos me recolhem para uma chuva ininterrupta de anéis. Enrodilhada, nada mais me é estranho ou desconexo. A comunhão com o astro sombrio, soberano, não é aleatória: necessito de uma aliança interplanetária.

Ando à procura de um curso de idiomas em Júpiter. A Terra deveria ser trezentas vezes maior e mais doce para abrigar o meu espírito inquieto. Para tornar menos difícil essa sensação excludente que me dilacera e me envenena. Não consigo mais tolerar a violência com que se ri do sofrimento. A ilusória satisfação desértica que institui os fracassos com repúdio. O sardonismo tem me tornado violenta também, dá a mim o gosto por sangue entre os lábios e os dentes. O céu da minha boca só quer sonhar com quimeras silenciosas.

Busco, incansavelmente, por essas luas infinitas. Invento uma noite eterna que supra todos os seres prolixos e ruidosos. A claridade tem sido cúmplice dos dislates imundos que povoam a humanidade.

E, aonde vou ter lições, deve haver uma aquiescência que transforme meu âmago alienígena. Um lugar cheio de tatuagens lunares não é capaz de comportar os desejos mesquinhos de sucesso. Porque as luas são muito misteriosas para se ocuparem com as compreensíveis respostas. Nenhuma solução é passível de se confluir com a nudez.

Quem pensa em covardia ou descaso, engana-se. Há um inescapável cansaço que atravessa meus dizeres e desassossega minha permanência. Tenho distraído esse estrangeiro coração que só me implora que eu retorne. É imprescritível vivenciar o calor das semelhanças. Antes do sol. Antes que a colonização paralise os arroubos de galáxia.  A esperança sempre avista discos voadores.

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Grandes são os desertos…

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

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Looking for flying saucers in the sky…

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Clarice Lispector, minha

São três horas da manhã. Há cerca de meia hora tive um impulso: precisava fazer café. Foi inescrutável. Meu corpo e meu cérebro clamavam por café. Senti-lo entrar nas células e tornar o planeta mais inteligente. Café faz isso comigo. Sinto-me muito mais atenta às nuances cotidianas do viver.

Não demorou para compreender quem realmente pedia café. Era você. Era você que me obrigava a sentar agora e vociferar o que eu ainda não sei exatamente. É seu aniversário e seu direito. Já bebi tanto das suas palavras!

Começo pelo que mais me perturba, antes de elogiar. Pois prefiro as más notícias, primeiro. Será que consigo também é assim?

Irrita-me profundamente o fato de você não saber ser escritora. Juro, muitas vezes pensei que apenas um fingimento muito bem ensaiado era capaz de aveludar tamanha modéstia.  Depois, lendo, relendo, decifrando, enervo-me mais. Você está sendo sincera e tímida ao assumir que escrever é maldição.

Tenho inveja da sua máquina de escrever. Queria tanto esfolar meus dedos entre as teclas, sangrá-los em versos. Rasgar o papel. Passar a limpo. Rabiscar com a grafia menor margens, esquinas de frase. Ver nascer epifanias translúcidas em um fim de tarde nublado. A escrita virtual não é meramente mais sóbria. É mais comedida, mais burocrática. Deslustre.

Contudo, posso ofertar-lhe alguns ensinamentos que absorvi. Você é a minha grande vereda literária. E eu tenho imensos ciúmes da sua popularidade entre as pessoas. Detesto ver seu lirismo aprisionado à saliva de outros leitores. Não suporto conceber que há outros livros por aí, que não seja o meu “A Descoberta do Mundo” – embora tenha absoluta convicção de que não há outro tão surrado, tão vivido e tão amado como o meu. Em frangalhos de tanto uso.

Eu fui salva e submersa por sua loucura. O mundo pode me agasalhar, só porque existiu a sua poesia nas minhas mãos. Certa vez, indignada com a genialidade do “apurar a pureza”, peguei um giz branco – porque a pureza é inexorável giz e inevitavelmente branca – e escrevi na lousa: apurar a pureza clandestina. Isso virou título de texto meu. Mas você, naquele minúsculo parágrafo, na página perdida no meio do livro, você evitou a minha morte. E não conto o porquê, ficará eternamente guardado nas entrelinhas.

Fico feliz que você tenha morrido. As pessoas escrevem muito mal, amada Clarice. Hoje, todos se sentem dignos de autoria. Quando a leio – enganando a mim: somente eu a possuo – penso sempre nisso. Ainda bem que o universo a impediu de presenciar os horrores pseudoliterários que nos cercam.

Muito obrigada por compartilhar seus pecados comigo. E por ter escrito a maior história de suspense de todos os tempos: “A princesa – Noveleta”.

Agradeço-lhe também por desengradar os pudores e as muralhas do pensamento. Pelo exaspero em devorar detalhes. A maestria em repetir as mesmas palavras, dando-lhes infindáveis possibilidades. Pela vida às mesquinhezes austeras. Você transfez meu estrabismo em envernizada visão periférica.

Minha alma também teve problemas com enxertos. E a sua poderosa literatura foi alicerce para encerrar as rejeições. Ao mesmo tempo, quantas peles me foram arrancadas dos lábios, graças a você?

No entanto, houve um grande incômodo no nosso encontro. Quando a vi na televisão fiquei mortalmente compadecida da sua fragilidade. Desliguei a lembrança. A sua voz, Clarice, reside única dentro dos meus olhos e não posso ferir minha imaginação com a realidade.

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Em Terra Estrangeira

 

 

Há em mim uma inquietude, uma estranheza que minha alma deve carregar há séculos. Um sentimento de ter sido colonizada, de fincarem bandeiras em meu solo sem que eu pudesse interferir. No início, encantada pelo ouro, pelos espelhos e por todas as plumas que me trouxeram, permaneci terrivelmente seduzida. No segundo seguinte queria minha terra de volta, exatamente da forma que era. Infeliz ou felizmente, isso me era impossível. Somos impotentes frente às tempestades.

 

Tenho procurado me recolher o máximo possível para não transformar minhas divagações em arrogância. Já tive fases de simplesmente abominar, rejeitar e ignorar meus colonos. Hoje olho para eles como pessoas que estão à procura de uma casa, de um pertencimento primeiro. Querem deixar de ser nômades. Seus corpos estão cansados e desidratados. A fome invade, inescrupulosamente. Eles também estão inquietos e aflitos. Buscam, regidos pelo desespero, o cheiro de seus cantos, os ângulos das quinas, os segredos perdidos em armários.

 

A grande diferença entre mim e a grande maioria das pessoas que conheço está na impossibilidade de me assentar em qualquer lugar. Sou alguém que perambula pelos livros, repouso minhas idéias, encontro divinos palácios e retomo minha caminhada. Deixo-me ser guiada pelos sussurros dos poetas e desenho meu próprio cômodo ao submergir em um oceano de letras harmoniosas.  Estou em casa.

 

Quando soube da teoria dos Maias terem sido abduzidos, fiquei perplexa. Finalmente vislumbrei uma saída absolutamente (i) lógica para o meu desequilíbrio. Eu habitava um planeta cujos seres não eram semelhantes. Os desbravadores terrestres possuíam forma, finalmente.

 

Decidi, pois, que procuraria os meus irmãos pelo mundo. Com alguns olhares mais intensos, algumas conversas pouco convencionais, provocações, ironias… qualquer coisa que me fizesse identificá-los! “Você viu aquele filme do Truffaut no qual as pessoas alcançam a liberdade ao aprisionarem-se como livros?” Nenhuma ressonância. Cavernas sem eco. 

 

Em minha jornada auscultei muitos silêncios. Fui entendendo que não seria tão fácil desvelar as excêntricas criaturas. Não poderia mais ficar nua pelas ruas, bares e reuniões. Necessitava esperar que eles viessem até mim.

 

Até hoje sinto uma enorme dificuldade em estabelecer contato com os humanos normais. Dói-me – como se tivesse os dedos cortados por uma folha de papel – escutar seus anseios, vontades e paixões. Minhas membranas são rasgadas, dia após dia, quando atendo a seus convites. Todavia, vez em quando, no mar dos domadores exóticos, dou de cara com olhares íntimos. Meu contorno e minha carne sucumbem ao sabor da minha morada. Feridas de papel são impiedosamente cicatrizadas. Agradeço pela regeneração e respeito a marca que deixaram –  são fragmentos inexoráveis de mim. Os exploradores se enfurecem. Pobre deles. Não sabem a diferença entre o aconchego e a hospedagem. Confundem o sentido de sua própria linguagem. Conhecer não é o mesmo que (re) encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

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