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Carta a Pessoa

25-abril-cravo

São Paulo, 25 de abril de 2014

Meu querido,

Escrevo-te para comunicar a morte de minha poesia. Ela me abandonou, sem deixar um bilhete, um cheiro de passado, uma súplica de retorno. Foi-se, simplesmente. E, em minha podridão de corpo, não há mais nada que posso doar ao universo.

Podes pensar que estou a fazer drama – tão típico de minha personalidade – e que a poesia foi apenas beber uns copos, ao pé do beco do Vigário. Ou que está farta das minhas platitudes e buscou uma morada que trouxesse algum conforto para si, nesses dias.

Minha poesia está morta.

Já não sei como suportar o despertador, a mediocridade burocrática do mundo corporativo, o vazio dos meus dizeres. Nem as saudades dela, que me emudecem e me impedem de dormir, são capazes de encomendar palavras para o discurso que necessito preparar ao funeral.

Fui acometida da pior infertilidade que há no universo: um útero incapaz de sonhar.

Tenho chorado em demasia, na tentativa – inútil – de evocar o mar salgado. Queria, como em tempos de glória, traduzir as angústias em naus. Mas não há destinos quando te perdes do teu porto.

E onde estão os azuis do firmamento, se Lisboa habita o antigamente?

Vais dizer-me, querido, que meu comportamento de amortecer as emoções não favorece a chegada de uma nova primavera para aqui estar. Eu sei. Achas que não, és tão ingénuo!

Sempre pensas a mim como alguém linear. Entretanto, para que eu possa fazer algum sentido, deves deitar fora a lógica e embrulhar-me nos avessos do raciocínio. Pois ali sempre estou.

Ajuda-me a reatar com os versos? Mesmo os insones, os trôpegos, os tresloucados. Não me importa que venham nus, embriagados, delirantes. Em sonhos, em meditações, borras de café. Cinzeiros cheios, parto de manhãs, noites de letargia.

Minha poesia está morta, meu querido.

Eu sepultarei todos os adeuses, antes da tua chegada.

Diga a mim que virás, sem telegramas.

Espero-te, todos os dias, com os olhos fartos dessa realidade estúpida.

Liberta-me da tirania, com o teu próprio sangue.

Imprime em mim, novamente, estas flores escarlates que encolhem os oceanos.

Teu perfume anuncia a mansuetude.

E eu sou o último abrigo das renitências.

 

Eternamente tua.

Mariana

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Fragmentos sem passado*

Navio que partes para longe,
 Por que é que, ao contrário dos outros,
 Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti?
 Porque quando te não vejo, deixaste de existir.
 E se se tem saudades do que não existe,
 Sinto-a em relação a cousa nenhuma;
 Não é do navio, é de nós, que sentimos saudade.” Fernando Pessoa

Sou artista. Mais pelo fardo do que por glamour. Tenho dezessete prioridades ao mesmo tempo. Não tenho mergulhado muito, mas conheço o fundo do mar com as minhas inextricáveis entranhas. Já deixei um amor ir embora.

Suporto o trabalho, embora seja enfadonho aguentar o medíocre. Aprendi que o dinheiro adora a felicidade. Sou geminiana, meus cabelos estão brancos há anos. Sinto saudade dos sítios que não me tornam protagonista.

“Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender, um coração exageradamente espontâneo” – isso é o Pessoa, que me cabe, por hoje. Se eu fosse uma canção do Chico – Anos Dourados. Dos Beatles, A Day in the Life. O senso comum me dilacera, assim como a Garota de Ipanema.

Tenho profundo amor ao óbvio, invisível. Namoro há seis anos e tenho tanto medo de amarelar minhas relações.

Sou filha da literatura e isso foi doce. E isso doeu.

Fico apavorada com a ideia de morrer sem ter escrito nada que salve um espírito da loucura, pois fui salva e, assim, torno-me dividendo.

Eu amei mais do que pude e isso é o meu Chico, lado B, que preservo e de quem tenho ciúmes.

Perdi parte de mim em Lisboa. Odiei e amei a cidade de meu mestre. Recitei poesias por lá e fui profundamente feliz de ter o meu sotaque e não entender nada acerca das linearidades.

Passei seis meses sem escrever, quando fui eu, na mais verdadeira das hipóteses. E sou infeliz sem escrever, mesquinha de ideias, assustada pelos supostos plágios de mim mesma.

Menti. Menti, mas acima de tudo, inventei. E fui ainda mais plena, quando não estava lá.

Acho o corpo um ser estranho, estrangeiro e plácido, equidistante.

Amarei a companhia da noite, como se os úteros estivessem abertos às minhas visitas.

Tenho mínima tolerância à burrice.

Sinto falta de uma amiga que nunca mais estará ao meu alcance, embora a morte não a tenha prestigiado com a juventude.

Meu pai é a maior confissão de mim mesma.

Minha mãe é minha fúria. E eu a amo, sensível e frágil, e forte. Tenho medo que o mundo, infame, a dilarece em volúpias. E tenho medo que ela parta sem me contar onde reside esse sótão de epifanias.

Sinto saudades antes de Paris, quando o amor era nítido e puro, e o planeta não atrapalhava a telepatia.

Gosto de sentir medo dos animais e da sua incondicionalidade.

Pareço dispersa, arbórea, louca. Mas cada um de meus amigos sabe exatamente o meu apreço.

Viver sem paixão é tortura.

Meu irmão é um dos grandes motivos de existir, apesar de estar só, ensimesmado, negligenciado dos meus dizeres fraternos. No cerne de mim, ele está. Em tudo.

Meu cérebro transborda, cintilante, como uma casa com todas as luzes acesas, Clarice. Hoje você esteve comigo e a vida basta nestes momentos incinerados, luminosos.

Guardo só uma pessoa em um segredo, da qual me sinto lisonjeada. E, se pudesse escolher uma só pessoa, serei ele.

Tenho vontade de morrer nos dias excessivamente claros, ou quentes. Os dias não me são íntimos.

Aprendo música, nada entendo. E a idolatro, por todos os labirintos.

Fiz versos bonitos, aos quinze, quando nada me absorvia.

Não escrevo mais versos. Letra, nunca fui capaz.

A Fenomenologia me deu sentido.

Minha irmã alimenta as esquinas.

O português é a pátria que venero.

Acredito que os olhos, fartos de realidade, esticam os sonhos como pastilhas elásticas, ainda açucaradas.

Mato a mim, todos os dias.

Não sofro com isso.

É um prazer reinventar-me, ensinar-me novas canções, e amanhecer em melodias.

*A foto é do Alexandre Veiga

 

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