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Sobre o voar

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Eu sempre organizava a casa para a chegada do Tom. Comprava leite Ninho, lia a programação infantil do fim de semana, punha mais água nas plantas. O ritual de sua vinda me fazia um homem mais sereno. Deixava de lado as noitadas regadas à gin tônica ou uísque sour. Esquecia-me do computador, dos meus funcionários, de tomar o antidepressivo.

Às vezes, confesso, ainda me dá medo de como será nosso encontro. Nem sempre estamos em plena sintonia. Por mais que nos esforcemos, os dois, há a estranheza da ausência, o escândalo da demora, a vertigem de me ver, em outros olhos.

O Tom mora com a mãe, no Recife, desde os dois anos de idade. A cada quinze dias ele vem me visitar em São Paulo. Este fim de semana era especial – feriado prolongado. Tínhamos cinco dias para desbravar dinossauros, visitar planetas pueris, desenhar universos encantados.

Decidi convidar duas amiguinhas do jardim de infância, no sábado. Sinceramente, não sabia se elas ainda lembrariam dele. Quando se tem dois anos e o cérebro ainda em construção, é impossível discernir qual lembrança escolherá a memória como casa.

A Beatriz e sua mãe chegaram pontualmente às três horas. O sorriso da pequena era capaz de me salvar de todos os pesadelos que tive, quando criança. A inesgotável felicidade de quem vive os instantes em doses homeopáticas. Sua alegria em ver meu filho, austero, menino, transbordava os quartos e os contos de fadas. Paixão mesmo.

A outra menina demorou mais de uma hora para se juntar àquela sala de verdades inventadas. Sua mãe, Maíra, uma socialite que não estava acostumada a dirigir o próprio carro, tivera dificuldade em estacionar. Eu moro ao lado do Morumbi e era final do Campeonato Paulista.

Enquanto a Julia, rebenta da burguesa insossa, não chegava, parecia-me óbvio que Beatriz se esbaldava na exclusividade com o Tom. Envergonhadíssima e alerta. Elegia todos os seus brinquedos preferidos. Enredava desvarios de eternidade. Sorria, tímida, à espera da aprovação da mãe que, estarrecida, buscava alguma cumplicidade no meu olhar.

A tarde durou menos que um pôr do sol de outono. Quando me deparei com o relógio de mesa, uma relíquia vintage comprada na semana anterior, já passava das oito. Repletas de brigadeiros e poesia, as meninas se despediram do Tom e de mim. Reparei nos sorrisos escondidos na íris de Beatriz. Sua mãe, acanhada, veio me confessar, baixinho:

– A Bia fala toda hora do Tom. Ele é o primeiro amor da vida dela, mesmo sem vê-lo.

Atordoado, passei a noite pensando naqueles primeiros afetos. Amores que levamos em formas de nuvens. Amores que se dissipam nos azuis e esquecemos para sempre.

No dia seguinte, levei o Tom para Guaecá. Achei que nossas horas seriam melhores, longe do caos da Pauliceia. Lá, distraído pelo cheiro de algas e mergulhado nos escritos de Henry Miller, recebi um vídeo da mãe da Bia. Elas haviam estado no Borboletário de São Paulo, naquele momento. Uma borboleta, silenciosa, atreveu-se a pisar no nariz da menina. A mãe, orgulhosa, registrava a doçura com o celular, quando a filha lhe disse:

– Borboleta, quero que você vá até o Tom, que mora no Recife!

Uma delicadeza enorme e corroída me suspendeu em quimeras. Como é possível uma criança sentir esse absurdo gratuito que é o amor, nessa idade?

Mostrei o vídeo, imediatamente, ao meu filho, exausto de oceanos. Ele, menino, mostrou-se profundamente desinteressado:

– Papai, eu detesto borboletas!

Senti-me um imbecil. Por ser homem; por entendê-lo; por testemunhar tamanha atrocidade, vinda dele. Meu pequeno paraíso repetia as mesmices que eu tanto abominava. Onde havia escondido sua sensibilidade?

Passei o domingo inteiro e boa parte da manhã de segunda a explicar ao Tom sua impassibilidade com a amada. Argumentei que nada era relacionado às borboletas. Só existia o desejo de endereçar saudades, algures.

Não tive a certeza de que ele me entendeu, até o fim do dia. Entramos no mar, ainda morno de sol. Uns quatro peixinhos, gêmeos, invadiram a paisagem. Eram amarelos com detalhes rosados. O Tom, inebriado pela possibilidade de agradecer, tentou encarcerá-los com os dedos, miúdos. Falou, com a liberdade dos deuses:

– Vou guardar esses peixinhos para a Bia, papai. Quem sabe ela também goste de voar para dentro!

Embasbacado, eu não consegui pensar em outra coisa: tornei-me pai para regressar ao Nunca.

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Em lugar algum, o amor

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Eu andava, atordoada, desde o momento em que foi me proposto: pense nos dois lugares que você mais ama em São Paulo. A pergunta ainda me parecia indissolúvel, dias depois de ter sido enfrentada. Não amo lugar algum em São Paulo.

Contudo, havia o desafio de conectar dois pontos da cidade, amados por outrem. Decidi começar pelo Theatro Municipal para finalizar meu trajeto na Praça do Pôr-do-Sol, ao lado de casa.

É curioso que havia estado no Municipal, na sexta anterior, para assistir La Bohème, de Puccini. Em menos de uma semana eu reencontrava o lugar inevitável da infância, onde disse à minha mãe: ‘isso aqui é mais bonito que o Natal’. Sendo obviamente lindo, eu não amo o Municipal. Não amo lugar algum em São Paulo.

O sol e a tarde nublam a beleza do teatro. À noite, os smokings e os xales escravizam o olhar. Perdemos, assim, os craqueiros e os mendigos. Esquecemos o cheiro incompreensível de existir.

Saí, rapidamente, com medo e desesperança. A mim, agora, o palco verdadeiramente se assemelha ao Natal. Peguei o República, rumo à Faria Lima.

O metrô, limpíssimo, incomoda-me a escrita. A imundície já estava entranhada nos dedos. Saí, fone nos ouvidos, ignorando a presença dos salvadores de culpas, que vendem, por trinta reais, o futuro de uma criança africana. Não, nem a África, nem os médicos sem fronteiras, fazem-me amar lugar algum em São Paulo.

Apanho o 875C com Cortázar na mão. A “Autoestrada do Sul” é um conto de fadas perto do caos que pincela a avenida em vermelho, buzina e monóxido de carbono.

Lotado, o ônibus não me permitia captar os personagens, históricos. Segura a bolsa, a bunda, a dignidade. Quando, finalmente, consegui sentar-me, uma voz interrompeu minha linearidade. A velhinha distinta reclamava das passeatas que aconteciam por ali. E eu, quase deprimida, só tinha vontade de lhe dizer: não amo lugar algum em São Paulo.

Por que não amo lugar algum em São Paulo? Penso na Paulista do Gudin: “se a avenida exilou seus casarões, quem reconstruiria nossas ilusões? ” Quase faz frio por aqui. A Praça do Pôr-do-Sol, ainda bem, está repleta de nuvens. Jamais suportaria que minha investigação fosse interditada pelos abraçadores de árvores.

Cerveja na mão e baseado no maço, vejo a discrepância entre os lugares amados por meus colegas de literatura. No alto de Pinheiros um casal se amassa entre os troncos. Ah, nostalgia do amor obrigatoriamente público! Uma menina sozinha bebe Gatorade. É careta, certeza. Vai-se embora. Outra ocupa seu lugar. Pede uma seda. Essa é espertinha, né? Não amo, mesmo, lugar algum em São Paulo.

A Praça do Pôr-do-Sol é ridícula. Há resquícios de fogueira. Um homem faz, em pseudo-silêncio, aulas de Tai-Chi. O violeiro, estereótipo do hippie, toca Coldplay ao invés de Raul. Não há como amar lugar algum em São Paulo.

Fico com medo. Sou mulher, estou de vestido, meia calça, anoiteceu. Só desejo acabar essa crônica em casa. A salvo. Espero, uma vez mais, pelo transporte público. Todavia, quando o destino chega, o cigarro ainda está aceso. Vou dar mais cinco minutos, sentada aqui, exercendo meu jornalismo literário.

E eis que surge um novo 875C. Entro, ainda chateada por não ter cumprido a tarefa de amar São Paulo. Olho para a cadeira vazia. Cadê o cobrador? Serei paciente? Causarei? Desconto nele meu desamor? Onde esse filho da puta se enfiou?

Olho, novamente, para a frente do ônibus. Um cara, alto, gato, brinca com duas menininhas que estão no vão. A mãe, quase anã, tira o elástico do cabelo. Escolhe o sorriso mais bonito como se escolhesse uma roupa, em noite de premiação. Só me restam duas estações. Ele mostra, orgulhoso, o crachá de cobrador. As crianças dão risada. A mãe faz topete com as mechas alisadas.

O amor que eu tanto procurava não estava preso a lugar algum. “O homem e a hora são um só”, já dizia o sábio Pessoa, em pele de Bernardo Soares.

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