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432 Hz

 

“Hoje preciso comprar a melatonina, com urgência”. Ela, que ainda não havia dormido, levantou-se para praticar a meditação de todas as manhãs. Água a ferver, banho, café no coador. O jornal só depois de sentir a inclemência das gotas quentes a abrir os poros, exaustos de insônia.

 

“Pelo menos hoje é sexta-feira”. Este foi o seu único pensamento feliz, naquele alvorecer inóspito. Não havia desvãos para a sua incompletude, às seis e meia. Quaisquer afagos provenientes de exercícios de autoajuda seriam condenados pela sua condição, trêmula. Ah, a falta que existe em despertar sem ter adormecido. Somos seres tolhidos em quimeras, fatalmente.

 

Hoje seria o dia daquela reunião, ridícula, típica de meio de ano. O chefe apresentaria os goals corporativos. As pessoas fingiriam obedecer, num bizarro espetáculo lacaniano de não ditos. Uns já combinariam, a priori, a cerveja vagabunda e gelada das sete. Outros se refugiariam no pôr-d0-sol ostentado pelas igrejas. Colegas passariam quase três horas e meia no vagão lotado até os fins de mundo particulares. Ela só pensava na farmácia, crepuscular.

 

Quando a noite finalmente chegou, pode parar de fingir que ainda trabalhava. Era muito feio sair do escritório antes das oito, em seu cargo de liderança. Por mais que tivesse concluído a enorme lista de tarefas às quatro, ela compreendia o jogo robotizado: a permanência como estilo, conceito, lição. “Eu já sou quase profissional na paciência”, ironizou, exercendo, uma vez mais, suas patéticas meditações positivas.

 

Saiu, melancólica, a pé. Fazia dez graus àquela altura. “Como amo esse tempo!” Podia ir à casa sem derramar uma gota de suor. O inverno, prematuro, era um milagre para o seu humor.

 

O comércio, no entanto, não reagia com a mesma gratidão à temperatura. Tudo estava fechado. Até a farmácia. Ela precisava dormir, de qualquer forma. “Vou à loja de vinhos, que está aberta até às nove. Devem ser os únicos, como eu, que deleitam-se com o frio inesperado de abril”.

 

Era uma grande cliente deste sítio. Os vendedores a cumprimentavam, saciados. A sede da mulher era sempre de tempestades. Jamais compraria uma única garrafa.

 

O dono da loja a acompanhou nas escolhas. Era grisalho e alto. Talvez tenha sido bonito na juventude. Sua pele era rosada, típica de enólogos. Evidenciava que a dor possa ser convertida em álcool.

 

“Este vinho é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O! Eu mesmo o trouxe da vinícola. Como a senhora é habitué, vou fazer um preço especial. E já separo seu queijo da Serra da Estrela, os cogumelos desidratados, um quilo e meio de azeitonas chilenas. Há algo que nos vai surpreender, hoje, querida?”

 

“Não suporto ser chamada de querida”, interrompeu a longa e forçada contemplação que a acompanhara o dia todo. Além disso, ela se sentiu estúpida de ser tão previsível, para seres humanos que mal a conheciam. “Vou levar também esse chocolate do mar, belga, querido”.

 

A devassidão daquele olé no grisalho, austero, dono da loja a conectou com a sintonia profunda ao Universo. Quase como navegar pelas poderosas ondas 432 Hz, sem precisar de música. O quão bom era ser superior àquela criatura? “Eu me amo e sou correspondida, otário. Namastê”.

 

Precisaria realmente celebrar a evolução de consciência que finalmente se instalara, em sua reprogramação emocional. Todos aqueles meses de Yôga e mentalizações estavam surtindo efeito.  “Já que não tenho a melatonina, tomo duas garrafas desse vinho e durmo doze horas seguidas. Quebro meu ritual de sábado para atender às necessidades do corpo. A alma pode, enfim, esperar”.

 

Ao chegar em casa, a mulher guardou as óbvias compras na geladeira. Lavou o decanter, há meses largado no armário maciço de madeira. O cheiro do abandono impregnava no cristal, adormecido desde a sua separação. “Tempo de ressignificar estes séculos de espera”.

 

Após o jantar – uma sopa detox composta de agrião, linhaça, espinafres, quilos de gengibre, cenoura e inhame – ela pousou o queijo, divino, à table. Escolheu seu melhor cálice para abrir os buquês daquele elixir da Natureza. O vinho era a última bebida que fazia parte de sua rigorosa dieta ortomolecular.

 

Antes de trazer à boca o primeiro gole, girou a taça, em círculos perfeitos, para emancipar todos os aromas. Apreciou, com calma, cada um deles: morango, gerânio, um toque de pimenta. Ah, como era bom saber-se conhecedora de vinhos!

 

Em contato com as papilas gustativas, algo se passou, de repente. Um gosto de infância a acometeu. Árvores, exauridas em jabuticaba, no quintal da casa da avó. Risadas dos primos ao redor do galinheiro. Os olhos gentis do caseiro à espera que ela encontrasse os bilhetes deixados pelas fadas, entre as folhas de bananeira.

 

Pôs Chet Baker na vitrola para afugentar o recôndito gosto que se aflorava, ali, depois de quarenta anos. Tomou dois copos de água com gás. Engoliu as memórias, banquete inesperado do cérebro.

 

O segundo cálice veio andrajo, vacilante. Sabia a mar e a meteoros, em noite de réveillon. Conjectura lívida, desprovida de anseios. Manteiga na pipoca, circo, mágicos conduzindo voos. Uma dor inescrupulosa desferiu-lhe os seios. A saudade se ofertava, menina.

 

Trocou o disco. Repetiu os mantras que apaziguavam as culpas. Meditou sobre o terceiro olho, onde reinava a intuição. Lembrou-se, em chakras e lágrimas gordas, que seu cachorro havia morrido. Um mês antes de estar sozinha, novamente.

 

Aquela garrafa de rótulo sóbrio, cores acinzentadas, proveniente de terras tão distantes, despertava cada uma de suas súplicas, naufragadas. Três casamentos, dois abortos, o avô vegetando na U.T.I. Era, sem dúvida, o melhor vinho que havia bebido em toda a sua existência.

A cada gole, uma tortura. Uma gota por imagem. Milímetro a milímetro, nostalgia iminente. A rolha, de cortiça, não era um aglomerado de outras rolhas. Única. Que rolha! Que rolha perfeita.

 

Antes de deitar a rolha natural no estranho compartimento, destinado ao passado dos porres, reviu a cena: sofá intacto, queijo pela metade, gogi berrys atrapalhando o caos. Pão orgânico, intocado, à mesa. “Talvez seja este o cerne da loucura”, refletiu, inebriada. Desacontecer. “Um vinho sem testemunhas”.

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