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Trovas do mês de abril

25deabril

Foto de Rodrigo Saturnino

Manuel Alegre

Foram dias foram anos a esperar por um só dia.
Alegrias. Desenganos. Foi o tempo que doía
Com seus riscos e seus danos. Foi a noite e foi o dia
Na esperança de um só dia.

Foram batalhas perdidas. Foram derrotas vitórias.
Foi a vida (foram vidas). Foi a História (foram histórias)
Mil encontros despedidas. Foram vidas (foi a vida)
Por um só dia vivida.

Foi o tempo que passava como nunca se passasse.
E uma flauta que cantava como se a noite rasgasse
Toda a vida e uma palavra: liberdade que vivia
Na esperança de um só dia.

Musa minha vem dizer o que nunca então disse
Esse morrer de viver por um dia em que se visse
um só dia e então morrer. Musa minha que tecias
um só dia dos teus dias.

Vem dizer o puro exemplo dos que nunca se cansaram
musa minha onde contemplo os dias que se passaram
sem nunca passar o tempo. Nesse tempo em que daria
a vida por um só dia.

Já muitas águas correram já muitos rios secaram
batalhas que se perderam batalhas que se ganharam.
Só os dias morreram em que era tão curta a vida
Por um só dia vivida.

E as quatros estações rolaram com seus ritmos e seus ritos.
Ventos do Norte levaram festas jogos brincos ditos.
E as chamas não se apagaram. Que na ideia a lenha ardia
Toda a vida por um dia.

Fogos-fátuos cinza fria. Musa minha que cantavas
A canção que se vestia com bandeiras nas palavras:
Armas que o tempo tecia. Minha vida toda a vida
Por um só dia vivida.

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Carta a Pessoa

25-abril-cravo

São Paulo, 25 de abril de 2014

Meu querido,

Escrevo-te para comunicar a morte de minha poesia. Ela me abandonou, sem deixar um bilhete, um cheiro de passado, uma súplica de retorno. Foi-se, simplesmente. E, em minha podridão de corpo, não há mais nada que posso doar ao universo.

Podes pensar que estou a fazer drama – tão típico de minha personalidade – e que a poesia foi apenas beber uns copos, ao pé do beco do Vigário. Ou que está farta das minhas platitudes e buscou uma morada que trouxesse algum conforto para si, nesses dias.

Minha poesia está morta.

Já não sei como suportar o despertador, a mediocridade burocrática do mundo corporativo, o vazio dos meus dizeres. Nem as saudades dela, que me emudecem e me impedem de dormir, são capazes de encomendar palavras para o discurso que necessito preparar ao funeral.

Fui acometida da pior infertilidade que há no universo: um útero incapaz de sonhar.

Tenho chorado em demasia, na tentativa – inútil – de evocar o mar salgado. Queria, como em tempos de glória, traduzir as angústias em naus. Mas não há destinos quando te perdes do teu porto.

E onde estão os azuis do firmamento, se Lisboa habita o antigamente?

Vais dizer-me, querido, que meu comportamento de amortecer as emoções não favorece a chegada de uma nova primavera para aqui estar. Eu sei. Achas que não, és tão ingénuo!

Sempre pensas a mim como alguém linear. Entretanto, para que eu possa fazer algum sentido, deves deitar fora a lógica e embrulhar-me nos avessos do raciocínio. Pois ali sempre estou.

Ajuda-me a reatar com os versos? Mesmo os insones, os trôpegos, os tresloucados. Não me importa que venham nus, embriagados, delirantes. Em sonhos, em meditações, borras de café. Cinzeiros cheios, parto de manhãs, noites de letargia.

Minha poesia está morta, meu querido.

Eu sepultarei todos os adeuses, antes da tua chegada.

Diga a mim que virás, sem telegramas.

Espero-te, todos os dias, com os olhos fartos dessa realidade estúpida.

Liberta-me da tirania, com o teu próprio sangue.

Imprime em mim, novamente, estas flores escarlates que encolhem os oceanos.

Teu perfume anuncia a mansuetude.

E eu sou o último abrigo das renitências.

 

Eternamente tua.

Mariana

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