Sempre, vens?

“ESPEREMOS: Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se como o pão ou as cadeiras ou o produto das farmácias ou das oficinas – há fábricas de dias que virão – existem artesãos da alma que levantam e pesam e preparam certos dias amargos ou preciosos que de repente chegam à porta para premiar-nos com uma laranja ou assassinar-nos de imediato”.

Pablo Neruda

 

Num dia 15 de abril distante, bem antes da tua mamã saber que seria o dia mais importante da vida dela, Reinaldo estava a apanhar o comboio, no Rio de Janeiro. Ele havia pedido demissão da Globo. Estava radiante pois iria começar um novo emprego. A página branca sabe à eternidade.

No outro lado do vagão estava Ana. Ele em pé. Ela sentada. A beleza da menina o deixou embriagado. Quando estava prestes a descer, avistou, inseguro, na comissura de seus lábios, a estreia de um sorriso. Decidiu permanecer na jornada, até o destino dela.

Amaram-se durante vinte e um anos. Entre Lisboa, Moçambique e Rio, inauguraram a caridade. Transformaram-se em infinito, na concepção de seus filhos.

A vida, contudo, também desfigura o amor. O mesmíssimo dia 15 de abril, duas décadas depois, levou Ana para o Paraíso e Reinaldo aos infernos.

Eu vivia me escondendo das sincronicidades, Diè. Fechava os olhos quando via uma cantina. Nunca gostei de pizza. Ignorava os brancos, verdes e vermelhos, todos. Desligava a televisão quando passava um jogo do Inter.

Ai eu descobri Mnemosyne, a Deusa da Memória. Ela, rainha das Musas, irmã de Oceano e de Cronos. Avessa ao contrário da verdade, que é o esquecimento, para os gregos.

A verdade invadiu as minhas manhãs, sem garantir-me a minha sanidade. Por que é que Cronos não para com esses sinais? A cada noite a Lua ia ficando maior, menos pálida, violeta.

Júlia, minha amiga cósmica de cinco anos, escreveu códigos galácticos no meu caderninho. E eu só queria achar o teu nome naqueles escritos. Uma esperança de desmascarar a Universa.

Aproveitei, numa outra tarde, a presença da Júlia para que eu tivesse mais pistas tuas. Ela escreveu um arquivo no meu computador. Ele deveria chamar  “Cidade do Oito”, disse-me.

Domingo foi ano novo judaico. E eu, acometida por Mnemosyne, tive a certeza de que minha bisavó, por amor, mentiu para o mundo sobre a nossa ascendência. Somos judias clandestinas. Clandestina, como aquela frase que escrevi na tua lousa. Clandestino, o amor que vivemos apenas uma estação. Como a felicidade da Clarice.

Naquela noite a memória me veio. Outubro é o mês oito, no calendário romano. Tu vens de Latina, perto de Roma. Sou pessoa de excessos, sabes bem. A vida tem me inebriado da tua presença, o tempo todo.

Não quero mais escrever meus sonhos. Estou exausta de cantar a minha musa.

A máscara foi tudo o que não pintei. Escrever nunca foi sobre a memória, mas sobre o medo do ilimitado. As estrelas, outrora, insultaram o meu silêncio. Fui crime, serei Poesia.

Pensa, amor, que inventamos a saudade. Ela é nostalgia do que já foi. Esperança no que virá.

Milênios são segundos para a eternidade. O instante, contudo, é urgente. Cabe a mim, pois, ensinar o agora a ser para sempre.

Sempre vens?

 

 

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