DANUIH

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“Sou homem; duro pouco e é enorme a noite. Mas, olho para cima: as estrelas escrevem. Sem entender compreendo: também sou escritura… E neste mesmo instante, alguém me soletra.” Octavio Paz

Quando finalmente o vi, na claridade inaudita do Sol, que invade indubitavelmente meu quarto, às três da tarde, tornei-me oferenda da sua presença. Eu respirava, ansiosa, e todo meu corpo se expandia para dentro dos lençóis, recém trocados pela faxina. Tímidas mãos brancas velavam meu espectro, trêmulo. Ouvia, ao fundo, a voz irritante da meditação guiada.

A ternura dessa sumidade ignorara meus pavores, todos. A cada inspirar, aprofundava-se, inconsolável, em carinhos. E eu, possessiva, absorvia os ares eriçados do outono, para comungar a incompreensão em plenitude. Pensei que estivesse, enfim, morta de quem havia sido, antes.

O sentimento, contudo, não me era novo. Já lá havia estado, algures: nos dizeres bonitos do amigo de infância, que sente saudades de um nós que nunca fomos; em goles de ar que afundaram, alma adentro, formigamentos líricos; na unicidade do ayahuasca, abstêmia de chá há quase um ano.

Outra solenidade também se fez abrigo quando chorei por todas as ressacas das avessas mundanidades. E ofendeu-me, nas lágrimas não desanuviadas, em noites de lua cheia.

E os deuses inauguraram meus vestidos rasgados pelas traças. Escreveram os sons de  flores desmesuradas, naquela página em que se grifou a existência, quando toda dor foi submetida às quimeras.

Estive, também, em contacto com a Deusa Wicca, ao devorar um pão mágico. E, enfim, ver meu desejo ser atendido, em uma semana. Também estanquei a solidão dos olhos de um pai que perdeu seu primogênito, ao invocar os Espíritos.

Eu vi, e juro por D’us, um menino jesus fugir do meu quarto na Vila Mariana. E pus as mãozinhas alinhadas em intimidade, assistindo a lacuna do ser incandescente, ao desdenhar meus olhos de criança.

Por quê?

Sem nenhuma prepotência, nesse instante, fui capaz de dar nome a tantas divindades que, em ausência de compromisso ou vaidade, vieram ter-me como lugar. As ondas, oriundas do Universo, escolheram-me como habitat, inconformadas de serem mudas.

Eu percebi o tempo preparando a sua chegada, enquanto minha caneta era incapaz de dormir. Eu, que sem os meus contrários, escorrego pelas ruas esmagadas pela morte das folhas. A brutalidade não ajuda-me a nivelar o mundo em sincronia.

Aos poucos, fui recolhendo cada um desses deuses póstumos que enfraquecem as minhas pálpebras e me deixam mais míope. “Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes”, diria Clarice, enquanto perdoava o deus dela. Eu, contudo, aprendi a obedecer aos milagres.

Ps: dedico essa viagem astral hermética ao Rodolfo Wrolli.

 

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