Capítulo IV – A Livraria

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Sábados sempre me foram caros à felicidade. Seu avô me acordava antes das oito. Às vezes, já estava pronta. Dentes escovados, tiara com fivela, vestido encarnado. Houve uma vez que vi um espírito, saindo do quarto de seus avós, num destes dias luminosos. Eu, que nunca temi os mortos, corri atrás até o banheiro, onde o espectro se dissipou em centelhas prateadas de luz. Éramos, pois, abençoados por aquelas manhãs.

Morávamos em um apartamento pequenino, só nós três. Dois quartos, sala, cozinha. E a minúscula varanda, que acolhia todas as estrelas. Havia, também, um playground, repleto de crianças da minha idade. Contudo, como você, meu filho, eu amava estar com os adultos. Íamos, a pé, aos sábados, na livraria mais famosa da Vila Mariana, rever os dinossauros do jornalismo.

Essas memórias ainda estilhaçam dentro do meu corpo, efemeridades trovejantes. Aquele tremor antes de chegar às prateleiras. Os rostos, cúmplices, dos vendedores, encantados com a minha paixão. A adoração dos velhos repórteres, pela menina prodigiosa que já amava os livros. Minha soberba em saber-me sedutora!

Acreditei, a partir dali, que os escritores são seres atentos às personagens que passam pelas ruas como qualquer pessoa. Encontram, em vitrines, formas de personificar os manequins. Utilizam suas tormentas, exorcismo literário. Vingam-se dos abandonos em antagonistas. Traem seus cônjuges nas linhas pornográficas que jamais habitaram seus lençóis.

Eu só tinha, na época, direito a comprar um livro por semana. Isso me era uma tortura, Pedro! Ah, como me desesperava com essas escolhas, tão cruéis! Acho que todas as minhas escolhas, depois, foram menos dolorosas.

Só há, como você bem sabe, uma dor maior que a de decidir, entre as esquinas da existência. Aquela mansidão de parto, filho expulso dos escuros. Os pontos finais de uma novela, recém editada. O desapego da página que vai para a gráfica. A livraria é a dialética do cais, na alma do escritor.

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2 Comentários

Arquivado em Textos meus

2 Respostas para “Capítulo IV – A Livraria

  1. Cara, que lindo isso “os escritores são seres atentos às personagens que passam pelas ruas como qualquer pessoa.”!!!!
    De verdade eu penso o mesmo, acho que os escritores imaginam tantas coisas em um espaço de tempo tão pequeno que cometemos traições sem nem percebemos.

    bjãoooo

    Curtir

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