Arquivo do dia: setembro 2, 2016

Das saudades platônicas

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“Um poeta tem de partir, repartir, repartir-se. Um poeta deve ser uno. O inferno não o deixa.” Herberto Helder

A infância é um lápis que desapontei pelo caminho. Será que já estava, naquelas décadas atrás, a colecionar, instantes primeiros, toda essa poesia que há no mundo?

Ouvia, nos corredores da livraria, àquelas personagens que se debruçariam em meus dedos, anos depois? A meninice seria apenas uma insídia – brincadeira de mau gosto – quando me tornei poeta?

Ah, felicidade indubitável de abraçar os livros! A sensação extraordinária de investigar os velhos escritores, a mentir os fatos, a assinar literatura, em realismo mágico. Travestidos de conversas.

Quando rebobino a mim mesma, hoje, sinto que existia qualquer coisa de triste. Percebo que não me satisfazia com a realidade, desde sempre. A madrugada já me tinha mais coragem. As palavras faziam cócegas – maldição abençoada.

A poesia estava ali, à minha espera, na esquina de casa, quando voltei da maternidade. Rua Morgado de Mateus. Só que a arte é muito lenta e os olhos demoram para entender a miopia que trazem os versos, no cansaço dos séculos.

Neste momento, dou-me conta de toda a servidão que se alastrava no horizonte, no dia em que vim a esse mundo. “Estás condenada à poesia!”

Contudo, esta semana, ouvi do grande poeta Carlos Felipe Moisés, que a poesia é resistência. Que ninguém nasce e elege poesia como fonte de felicidade. É indispensável a luta, para se lambuzar do universo. É necessário ter persistência, obstinação e teimosia. Loucura.

Talvez eu soubesse, criança, minhas inclinações escandalosas. Só aprendi, alhures, que toda saudade é fruto do imponderável. Basta sonhar para encontrar o Olimpo, e suas sombras. Seria, enfim, toda saudade, platônica?

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Arquivado em Poesia, Textos meus