Arquivo do dia: julho 4, 2016

Defenestrar-se

Bahea

Tive uma paciente que chegou até mim porque havia jogado sua casa inteira pela janela. O ocorrido veio ancorado pelo esquecimento. Essa semana invejei sua coragem, com a sutil diferença de que desejaria me recordar dessa libertação.

Ah, sentir o cheiro das lâmpadas escalpelando meus dedos, antes do voo! O incômodo do carpete, embaixo das unhas. Daria toda a minha poesia para testemunhar o sangue dos azulejos, violentamente expatriados das paredes.

Contudo, minha covardia me impossibilitou de conduzir a existência a esse limite. Não tenho a intrepidez da minha paciente. Então, pulei o muro de outra história. E defenestrei a mim mesma da vida dessa pessoa.

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Quero a fome

adelia

“A mim que desde a infância venho vindo,

como se o meu destino,

fosse o exato destino de uma estrela,

apelam incríveis coisas:

pintar as unhas, descobrir a nuca,

piscar os olhos, beber.

Tomo o nome de Deus num vão.

Descobri que a seu tempo

vão me chorar e esquecer.

Vinte anos mais vinte é o que tenho,

mulher ocidental que se fosse homem,

amaria chamar-se Fliud Jonathan.

Neste exato momento do dia vinte de julho,

de mil novecentos e setenta e seis,

o céu é bruma, está frio, estou feia,

acabo de receber um beijo pelo correio.

Quarenta anos: não quero faca nem queijo.

Quero a fome.”

Adélia Prado

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