Letra & Música

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Em tempos de outrora, quando os sonhos ainda sorriam, havia, no mais longínquo de todos os oceanos, uma bela sereia. O resplandecer de seus cabelos era de ofuscar as narrativas. Sua pele desafiava as cores do sol. Mas sua voz não existia. Lili era a única sereia muda de toda a sua espécie.

No início, era tratada como um acontecimento. Utilizavam-na para justificar as barbáries humanas. Colocavam seu silêncio como maldição das alianças feitas entre a terra e o mar. Isolada de todo afeto presente nas famílias marítimas, sem nenhuma educação formal, ela aprendeu sozinha: a ouvir as marés; a desenhar os breus; a enfeitar as ondas com as palavras que jamais iria proferir. Virou poeta.

Longe dali, em território sólido e arenoso, vivia João. Tinha ascendência pirata desde que seu bisavô fora deserdado por sua abastada e nobre família. Séculos e séculos de grandeza se transformaram em águas azuis e marginais. Joias, amuletos, superstições. Maldição de sereias. Bom, nada disso tinha a ver com o João. Ele simplesmente gostava de tocar sua viola e inventar músicas em sintonia com os movimentos da lua. A noite lhe fazia companhia, ao guardar o seu segredo: odiava roubar ou machucar outras pessoas.

Seu pai, contudo, poderia perder a fama de velho lobo do mar. “Um filho meu não pode ter a alma do avesso, para fora da pele”! – Vociferava. Era imperativo a presença de seu espelho na próxima embarcação. Havia um carregamento imenso, trazido da África, que lhe renderia as maiores riquezas.

Lili habitava as paisagens como um narrador onisciente. Sua clausura invadia as profundezas, ignorando as tempestades. O vazio aumentava os sabores. Seu espírito, no entanto, doía. Se tivesse uma voz, será que me sentiria mais amada? Haveria um amor em mudez absoluta?

Enquanto isso, João se embriagava de conhaque para suportar o peso daquela viagem. Seria capaz de assassinar velhos e crianças? Aguentaria os apelos das mulheres a reverberar seu pensamento? Ou conseguiria enganá-las até o fim? O périplo parecia perigoso. Pensou em morrer em alto mar. Heroico.

O coração de João, entretanto, passou a bater em descompasso quando ele avistou a ilha, meses após meses só tendo o horizonte como testemunha. Aquele verde, ínfimo, repleto de árvores e pássaros selvagens, possuía o contorno perfeito de uma clave de dó.

A sociedade aquática, ao perceber as estranhas movimentações nas ondas, começou a se preocupar com o gigante de madeira que não afundava. A bandeira negra, com o símbolo de uma caveira no mastro real, só poderia ser o presságio de uma batalha contra os destemidos viajantes. Era hora de se preparar para combatê-los.

Lili parecia alheia a todo o pânico que o navio pirata causava em seu povo. Passava os dias estudando a dança das nuvens. Catalogava os mínimos cantos das aves. Inventava nomes para as ondas. Escrevia versos nas areias brancas.

O pai de Lili, um deus marinho de porte exorbitante e feições assustadoras, preparava sua fúria para recepcionar os hóspedes indesejados. Organizou todos os seres para aniquilar a caravela. Sua ira, todavia, entristecia as árvores, afligia os peixes, desesperava as estrelas. A natureza não ansiava por mais uma guerra.

João desconfiou da calmaria. O reflexo do luar carregava uma reclusão tão infeliz, naquela madrugada. Seus dedos deslizavam com pesar pelas cordas do violão. O azul que cobria o céu tinha gosto de lágrimas. Ele sabia que algo terrível estava prestes a acontecer.

Lili, cúmplice da melancolia relatada pelos ventos, foi até seu pai, para confrontá-lo. “O seu ódio só diminui a alma desse lugar”, escreveu em algas. “A nossa essência é comunhão com tudo aquilo que não nos pertence. Você destruirá a todos nós, caso não se liberte desse sentimento inferior”.

Culpado pela condição da filha, o pai ignorou o sábio conselho. Ele se ressentia de ter sido cordial com outros marinheiros, em memórias esquecidas. Acreditava que a mudez de Lili era o castigo por lhes ter ajudado a atravessar aquelas águas. Chegava o momento de se vingar. Todos os silêncios seriam extirpados, finalmente.

João, em sincronicidade cósmica, interrompeu o jantar dos piratas. “Essa tranquilidade é mau agouro”, disse, com a voz trêmula. A tripulação, já entorpecida pela soberba, riu-se dele. “Como você pode ser sangue do meu sangue”? – Questionou o pai, estarrecido com a sensibilidade do filho. “Se não gastasse seus dias a transbordar o romantismo em canções, já saberia a verdade que reside no útero do mundo!”

Lili, em prantos, nadou em direção à nau, na expectativa de alertar a iminência da catástrofe. João, desconsertado, pôs-se à beira da proa. Ele ensaiava o derradeiro som, à espera da coragem de atirar a si mesmo nos gélidos braços da morte. Ela o ouviu. Ele a enxergou. Aquele instante que precede a epifania.

João mergulhou, enfim. Lili, já imersa, resgatou seu corpo, exausto de desencontros. Carregou-o por léguas e léguas, na velocidade das paixões. A alvorada já ensaiava seus dizeres antes dele despertar do sono de eternidades.

Quando o amor se reconhece, sempre haverá letra e música, dizem as lendas.

 

 

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