Reabitar a alma

Há de haver um lugar onde eu possa deixar a vida sub-humana de lado, para contemplar os cenários encharcados de obviedades: os verdes, os azuis, as árvores, as montanhas e as estrelas.

Lá, as madrugadas e os alvoreceres têm igual importância, pois todos trabalham para servir a expansão sutil do amor. As pessoas desse lugar são todas coloridas por histórias belas e tristes, harmônicas em dualidades. As sombras imploram para serem escancaradas.

Há de haver um lugar onde a música que evoca os bons espíritos seja capaz de trazer respostas celestiais em piscadas de luz. Todos os habitantes compreendem, em silêncio, como é misterioso aceitar as manifestações do inefável. Contudo, há a clareza de que estamos cercados pelos fios inexoráveis do Cosmos.

Nesse lugar, imaginado, há também um telescópio que me aproxima das crateras relutantes da lua cheia, das chuvas de meteoros e do olhar profundo de Saturno. E, ao passar alguns segundos, o Universo se desgruda tão rapidamente da lupa, que se torna nítida a sensação de não estar paralisada em mesquinhezes mundanas.

O portal, escondido dos sinais de celulares e alheio aos pesadelos terrestres, traz reflexões em cada uma das conversas entre seus seres. Os bichos dialogam em lambidas, colos e uivos; as crianças embriagam-se em liberdades; os adultos auditam seus preconceitos para dar espaço às meditações.

O peso da leveza. Por que, meu Deus, é tão doloroso sustentar a leveza para longe desse lar? Por qual razão escolho me esconder das feridas que sangram, se somos todos poeira da mesma incompletude? Por que nos agredimos tanto, esquecendo de que nossos inimigos são os verdadeiros mestres, nessa errante jornada? Por que temos tanto medo de nos assumirmos mentirosos, falácias de nossas trajetórias? Por que me dá tanto medo ser feliz? Por quais razões estúpidas associo a arte à melancolia? Por que o processo criativo não pode estar acompanhado de longas gargalhadas, noites perfeitas, cafés-da-manhã na cama?

As perguntas são sempre mais dolorosas do que as frases já repetidas. Programar a existência custa menos do que se assustar com os instantes não preparados.

Todavia, é justo me afastar daquilo que me transforma, porque não soube lidar com os mecanismos automáticos de proteger os meus fantasmas? Esse pavor à nudez da alma nada me traz, além de arrependimentos e tempestades vazias.

Pois deve haver um lugar onde eu possa entrar em contato com todas essas interrogações em pertencimento. Uma mata abençoada pela comunhão entre as raízes e as folhas. Um lugar que sonha em ser divino, mas se conhece como caminho. Há de haver um sítio em que, acima de tudo, existam promessas de dias mais limpos e breus alagados em melodias.

E, para minha sorte, conheço esse lugar. Agradeço por poder, finalmente, depois de amanheceres tenebrosos e escuridões insones, reabitar a minha alma. Afinal, viver é fictício.

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