2015

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Seria uma enorme injustiça comigo mesma se colocasse o ano de 2015 como o pior de toda a minha existência. Agora, ao olhá-lo com distanciamento e sem vaidade, sei que esse ínfimo pedaço de tempo me serviu. Alertou-me em todos os ossos. E mostrou a mim as faces do improvável.

Um ano que começou com promessas à Literatura. Fui selecionada para integrar a equipe de pessoas que mudam o mundo, pelo amor às palavras. Em meados de abril minha alma vibrava pelos holofotes que vinham em formato corporativo.

Já em junho pude viver o sonho mais bonito que se transformou em realidade: voltar à Portugal, travestida de trabalho e fé. Sem inferioridades de ser brasileira. Em Lisboa pensei num belo texto. Escrevi-me em pedaços, ao retornar à Babilônia.

Em 2015 tomei o Ayahuasca pela primeira vez. Visitei mistérios dos quais não me senti benvinda. Fui à Bahia e por lá chorei. Senti-me plena e desamparada. Pousei, desiludida, no Rio de Janeiro, onde pude vivenciar um grande amor por ensinar pessoas com talento para perguntas. Perdi minha capacidade de responder, contundentemente, tantas questões que me foram feitas. Estudei para sanar meu desconhecimento.

Conheci o menino que me parecia fútil, mas que me amou pelo meu amor por Fernando Pessoa. Segurei um surto de uma amiga querida, mesmo sem ter forças para sustentar minha própria loucura. Chorei ao desbravar o Príncipe Real, com a ausência de surpresas. Irónico destino, levou-me à sincronicidade. Tive nojo de ser mulher. Tive nojo de ser brasileira. Tive nojo de sentir essas duas coisas juntas. Rompi com um amigo muito amado.

Tentei fugir da dor que despertava, todas as vezes em que encontrava minha infância no hospital. Busquei ser mais espiritualizada, para ajudar a alma a tolerar os desígnios terrestres. A insônia deteve minha mediunidade.

Busquei reinventar-me, sem sucesso, na triste ingenuidade de que o amor precisa viver para sempre. Elaborei melancolias racionalizadas. Fui motivo de chacota.

Pude mostrar à minha mãe quais eram os meus lugares preferidos. Fui borboleta em Lisboa. O desmascaramento de mim trouxe-me questionamentos indeléveis.

Reconheci outra face em Berlim, onde fui feliz. Dormi inúmeras noites no sofá, à procura daquilo que não existia mais. Sofri madrugadas em silêncio, sem ter uma escrivaninha para me debruçar.

Bebi por multidões que se calaram. Machuquei pessoas que me amavam. Fumei cigarros que não se fariam precisos.

Degustei conversas perfeitas. Estraguei jantares e vernissages. Ensinei alguns a lidar com as diferenças. Ganhei presentes por ser profunda demais e muitos feedbacks negativos por ser assim. Espalhei uma música do Arnaldo Antunes. Fui feliz nesse dia.

Convidaram-me para ser madrinha da menina que já me era sonhada. Perdi meu cachorro e minha casa. Estou à espera da próxima. Percebi que São Paulo não me faz mais sentido. Fui borboleta em Lisboa. E lá sou feliz.

Ainda não busquei meus cacos, espalhados numa mangueira que tem nome de gente grande. Tenho medo de ter perdido anos e anos da minha existência pequena. Mas, acima de tudo, seja em 2015, em 2006, e desde que me conheço por gente, há a convicção de que fui poeta, em cada segundo, em cada atalho, em cada porre. Poesia, amada, és a minha única certeza desse ano que tanto me doeu.

 

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8 Comentários

Arquivado em Textos meus

8 Respostas para “2015

  1. Paulo Roberto Stockler

    Que tudo muito lindo, Mariana!

    Crescimento. 🙂

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  2. No final só temos a poesia, pois ela é interna, ela não pode ser arrancada de nós por nada deste mundo. É a única certeza e a única posse que realmente “possuímos” neste mundo.
    Parabéns e feliz 2016.

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  3. Antonio

    http://www.releituras.com/fespanca_serpoeta.asp

    Te desejo um Ano Novo ainda mais relevante e revelador!

    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

  4. Borboleta

    Crisálida em repouso
    Gênese silenciosa…
    Larva de poesia
    Tema de primavera
    Para o pintor
    Será cúmplice da flor!
    Como o poeta é breve e
    sim e não do amor…

    Como o poeta é alegria
    Como o poeta é lua
    Como o poeta é sol
    Como o poeta é lobo
    Como o poeta é dor!

    Larva de poesia!
    Tema de primavera!
    Será testemunha de alquimia…
    Não será quimera

    😉
    R Lisboa

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