7 de maio


Há exatos nove anos a minha vida mudaria de ares, radicalmente. Eu desistiria das aventuras mundanas para viver algo que estava, como presságio, dito no meu mapa astral. Um amor, prematuro, acometeria minhas escolhas e me daria razões de permanecer neste planeta obtuso, desencontrado de esperanças.
Quando me revisito, naqueles dias mágicos, sinto-me nostálgica. Uma imensa saudade de ser quem eu era, aos quase vinte e três. Uma saudade de me transformar uma última vez naquela encarnação, naquele corpo, naquelas expectativas.
E, impreterivelmente, Lei, todo o nosso enredo estaria imortalizado em poesia e música. Desde o primeiro instante, amado, são essas as nossas tessituras. Às vezes, confesso, em motes sombrios, carregados de tempestades compartilhadas. Às vezes, em glosas eternizadas, centelhas de futuro. Eu e você, escritos por juras e lágrimas.
Você me foi escolha-renúncia. Sabia que, ao seu lado, abandonaria as outras tantas Marianas, que, vez em quando, assombram-me em sortilégios infames. Contudo, sempre que o identifico nas multidões, este sorriso desprotegido de vampiros, um otimismo caricato dos infantes, minh’alma se enleva em plenitude.
Abro nossas antigas mensagens, ingênuas, bobas, patéticas. Éramos flutuantes, mesmo em toques de recolher do PCC. Impressionantemente ridículos, já diria Pessoa. Aquele que, sem amor vivido, pode descrever cirurgicamente os efeitos de se estar apaixonado. Ah, como bebemos Vinícius! Sem vergonha de entrega, exageradíssimos. Como todos os inícios devem ser….
Ouço John Lennon, em volume exorbitante, watching the wheels, a relembrar o jeito com o qual você mexe a cabeça, inebriado pela semelhança com o seu ídolo maior. Seu olhar aumenta o mundo. Meu verbo, contigo, é sempre no infinitivo.
Você me ensinou a escrever. A amar meu pai como cúmplice. A vociferar os oceanos, cujos monstros me pareciam intransponíveis. A imaginar que a gente não depende um do outro. E, nisso, reside uma fórmula para amar alguém. O dia em que precisarmos um do outro, a vida há de nos separar.
Ao ler suas cartas percebo que seus sonhos estão escancarados. Desejo, para sempre, estar perto deles, em lucidez e loucura, seja em antigos sentimentos, seja em anseios de amanhã.
Lei, você mudou todos os rumos das marés, dentro do meu coração. Transmutou o périplo das minhas naus. Suportei o peso das nuvens que você me obrigou a sonhar. Rompi as raízes que me sustentavam, pelo medo de perder a narrativa de nós dois. Eu conheci Lisboa pela sua ausência. E só tenho a agradecer ao nosso encontro.
Fizemos duelos de cartas tão perfeitos!
Concebemos uma casa, uma mangueira batizada, um filho negro, genial.
Hoje, longe, invoco as velhas trilhas sonoras para amenizar a sua falta. Recebi as suas flores, inesperadas! Meditei os herdeiros que teremos, pureza em comunhão. Você foi o acontecimento imprevisível, além-mar, mais precioso do que pude ser testemunha.
“Porque eu te amo, além do amor”
Mizim.

euelei

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1 comentário

Arquivado em Textos meus

Uma resposta para “7 de maio

  1. stockler (@stockler_)

    Lindíssimo!
    Parabéns a vocês!

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