Graças a mim

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Nos últimos anos pude perceber, principalmente pela internet, a apropriação superficial de longínquos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro e seu vínculo com a busca pela felicidade. A ascensão meteórica da “autoajuda Namastê” tornou-se um fenômeno que acomete as mentes contemporâneas, com promessas de plenitude e mudanças estruturais imediatas. Há muita gente que já não se permite a utilização da palavra “obrigado”, por exemplo, como forma de agradecimento.

Não é de se estranhar que exista uma alienação quanto à origem da palavra, quando nos deparamos com simplificações de conceitos tão densos quanto os arquétipos.

Contudo, meu incômodo pode se transformar em pesquisa. Fui, assim, encontrar-me com São Tomás de Aquino, em texto brilhante do professor Jean Lauand para resgatar as origens etimológicas, necessárias à compreensão da humanidade como signo primordial das linguagens.

Agradecer é uma palavra sublime: está presente em diversas línguas, mesmo que originadas por radicais totalmente distintos. São Tomás de Aquino já testemunhava o nascimento dos arquétipos, ao proferir que: “línguas diferentes expressem a mesma realidade de modo diverso.”

Sua composição, em inglês, concilia os verbos to think e to thank na mesma família etimológica. Não se poderia agradecer, caso não tivéssemos a reflexão como base ancestral do conhecimento.

Arigatô também possui um cordão umbilical semelhante: “a existência é difícil”, “é difícil viver”, “raridade”, “excelência (excelência da raridade)”. Toda dádiva é uma raridade.

Em latim, a graça possui sentidos ainda mais complexos. Sua formulação original está atrelada a três movimentos: receber a benção de alguém, sem quaisquer merecimentos; compreender o sentido de dom, gratuitamente dado ao indivíduo, sem o buscar; retribuir, como dever, à graça que foi generosamente delegada.

A expressão em português, derivada do latim obligare, “ligar por todos os lados, ligar moralmente” vincula-se, pois, à terceira e mais nobre das dimensões de São Tomás de Aquino, ou seja, eu me sinto muito obrigado em lhe retribuir esta gentileza.

Quantas vezes, ao citarmos essa expressão corriqueira, damo-nos conta da sublimidade de seu poder? Se estou obrigado a retribuir ao Universo, conecto-me verdadeiramente em transferir esse presente, de forma legítima e muda, desprovida de alardes. Uma obrigação em silêncio e em confluência cósmica.

Por fim, nos vagos ensinamentos da autoajuda, nunca há um fortalecimento verdadeiro, no que diz respeito à autoestima e ao amor próprio. Nunca a gratidão é oferecida à própria pessoa: deve-se ao planeta, aos outros, aos temporais, mas e a si mesmo? Não deveríamos nos focalizar em nossas virtudes, excelências dadas a nós em gratuidade?

Hoje, ao trabalhar com processos e ferramentas voltados para o autoconhecimento, percebo que pouco nos colocamos em contato com os nossos dons: queremos sempre saber a inferioridade que nos habita.

A mudança comportamental verdadeira, a que provoca uma alteração significativa na autoimagem, é um processo muitas vezes doloroso. Revivemos, por muito tempo, máscaras deformadas de nós mesmos, que tentam nos colocar em velhos personagens. Mudar, para o cérebro, dói.

Portanto, é essencial dialogar com os dons, com as vocações ontológicas. Descobrir, uma por uma, as preferências estruturais e tirar proveito dos talentos. Estar obrigado a transcender-se. Saber-se abençoado por seus próprios contornos.

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