Livraria do Desassossego

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Aproximando-me do crepúsculo, em plena convalescença com os horizontes de Lisboa, senti-me incómodo. Tantas cores a declarar minha gratidão. A morte do azul de mais um dia. Os ventos gélidos do tímido verão. A iminência da infinda madrugada que testemunharia, por fim, a morte da hipótese.

O Cemitério dos Prazeres, onde moram as últimas paragens, permanecia inaudito. Quão imensa era a trilha, automática, até o número dezasseis, da Coelho da Rocha. Parei em todo café aberto na esperança de que os tragos de bagaceira me pudessem elevar ao estágio mais cósmico dos devaneios.

Por que haveria de deitar-me em sua cama? O meu sonho, há muito, já transbordava as exactas margens do impensável. A Livraria do Desassossego era um fenómeno mundialmente conhecido. O melhor livro de todos os tempos ressonava em corações noruegueses.

Inebriado por estrelas e cachaça, eu perscrutava o quarto mínimo, abrigo das galáxias pessoanas. Aquilo que, a princípio, encontrava-se esgotado por visitantes e estudiosos. Contudo, a poeira de seu baú resplandecia, inédita, às significações etílicas do meu olhar.

Abri a página amarelada e nua do meu caderno de bolso, presente oferecido pela simpática empregada da papelaria Emílio Braga. A virgindade assombrosa de sua capa em tecidos artesanais. O pavor à inexaurível condição de ali estar. Confessar meu sono à tinta negra, em palavras.

Por horas fiquei em pé, na tentativa ridícula de invocar Alberto Caeiro. As pernas tremiam, em exaustão de poesia que não se pode psicografar. Ensaiei, tolo, respirações transcendentais, à espera de um berçário de ideias. Arrefeci em frustrações e impaciências, desenganado de uma vinda triunfal.

Acendi, pois, um cigarro atrás do outro, ainda que fosse impróprio, proibido e egoísta. Pus mais um copo à mão, convencido de que o desmaio tornar-se-ia inevitável.

Como acontece o encontro de duas existências?

Certamente não ocorreria em forma de versos.

Paulatinamente, a poética do quarto minúsculo vai calando meus anseios. Legitima, soberana, a leitura mais óbvia de mim, antes velada pela cobiça à genialidade. Fui percebendo-me pequenino, só, triste. Coitado. E, de repente, farto de sensações que não havia nomeado antes. A cada instante, a cada gole. Em fumaças dispersas por janelas inventadas do amanhã, tu me libertas do meu analfabetismo emocional.

Eu, plágio universal do desassossego.

A poesia surge como música em língua estrangeira, involuntária, batendo meus pés, sem compreensão de sua letra. Amaldiçoa a missão de recolher aquelas vozes, transcrevendo as falas amorosas. A caneta navega sozinha, a apreender os demónios do mestre, assentindo com lealdade às almas heterónimas.

“A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.”

O teu encontro, Pessoa, me atrasa. Séculos antes do desencantamento do mundo. Qualquer coisa se refaz pertencimento, agora. Mas já não estou cá, no teu quarto de miúdo. Já não te revejo, Lisboa, Tejo e tudo. A tua chegada é mansa e estreita, como as ruas de Alfama. Engraçada. Violas minhas mãos com teus gritos absurdos, com teus uivos travestidos de ar. E eu te aceito sem existires. Porque há tanta cousa que, sem existir, existe demoradamente. E demoradamente és meu.

Uma tranquilidade humilde toma-me em abraços. Eu, tão imaturo, só ofertei a inquietude da tua alma para repousar contigo nos abismos.

E tu?

Tu amanheceste minha euforia, escurecendo-me inspiradas vicissitudes.

Ps: a história real é essa: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-96/esquina/pessoa-uma-paixao

Ps2: a foto é do meu querido amigo Luis Jardim, directamente da Casa do Pessoa.

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