De repente

poetasCarlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Mario Quintana e Paulo Mendes Campos.

(Foto roubada do blog da Companhia das Letras, no texto do Leandro Samartz)

Minha homenagem a Paulo Mendes Campos vai até seu aniversário, no dia 28/02, quando ele completaria 92 anos. O texto de hoje eu mesma digitei. Não estava, em minhas pesquisas, disponível na internet.

“E de repente, caminhando nesse dia de novembro, atribulado de deveres, no trigésimo quinto ano de minha história confusa e malbaratada, quando todas as amarguras já bebi, nem de todo sábio, nem de todo bobo, não tendo outro propósito no espírito senão o de abrir bem os olhos, pegar os objetos, ouvir, provar os vinhos turvos, respirar este aroma vegetal de tardes antigas, receber a dádiva dos sentidos e cumpri-la, aquecendo-me ao sol, molhando-me na chuva, banhando-me no mar, de repente, em meu caminho, cruzando por um cego embriagado e crianças de uniforme, imaginando com remorso que a gente esperdiça tempo demais a trabalhar sem amor, de repente, sem qualquer disposição para o jornalismo, sereno às quatro horas da tarde, empenhado em não deixar o dia partir inutilmente, dedicando-me com toda a honestidade a enamorar-me do mundo, pelo menos deste momento irresistível, de repente ocorreu-me de novo o milagre, e doeu-me – coisa espantosa – uma saudade magnífica de Paris na primavera, os plátanos agitando as ramas, os bancos à beira do rio, onde li e reli que sob a ponte Mirabeau corre o Sena, e a alegria sempre vinha após a pena, e era saudade mais de mim a vadiar pelas ruas e os bosques, indo e vindo pelo cais da margem esquerda, remexendo livros empoeirados, admirando a cor e o imponderável, brincando com as pontes o eterno jogo da poesia, afeiçoando-me até morrer pela ilha de São Luís, as torres góticas encastoadas em luz de ouro, e outras cores, outras ramagens, ruas que faziam por si mesmas o meu destino, os vinhos tintos do crepúsculo, as brisas eufóricas, uma saudade, disse eu, sem jeito feérica, Rue Gît-Le-Couer, Rue de Hautefeuille, Rue de la Harpe, uma saudade que me dispersava, fatalizando-me suavemente, inclinando-me às águas quiméricas do tempo, como me perco no olhar de quem amo.”

Paulo Mendes Campos

 

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1 comentário

Arquivado em Outros poetas, Poesia

Uma resposta para “De repente

  1. Danielle

    Seu texto “o menino”, simplesmente fantástico, compartilhei no meu face com os devidos créditos. Cheguei por acaso ao teu blog e que doce surpresa! 🙂

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